Ideologia produtivista e conformismo

Por que determinadas práticas tornam-se predominantes na universidade, especialmente na pós-graduação? Por que os docentes introjetam a ideologia produtivista de forma acrítica e “natural”? Por que o ethos acadêmico é essencialmente pragmático e de índole mercantil? O que explica a servidão voluntária de indivíduos considerados cultos aos ditames da ideologia produtivista e às exigências dos órgãos e agências como o CNPq, Capes, etc.?! O que ganham e o que perdem ao se submeterem incondicionalmente? Por que mesmo aqueles que são nitidamente prejudicados aceitam resignadamente e não organizam a resistência? São questões que envolvem a prática acadêmica e teimam em martelar a minha mente. Se a reflexão crítica é o ofício do intelectual, o bom senso impõe um certo cuidado para não desgastar-se e, especialmente, não cansar os leitores e colegas. Por outro lado, o tema permanece atual e há sempre novos detalhes a observar. É como ver um filme novamente: sempre nos surpreendemos ao percebermos minúcias não observadas antes. Talvez nas minhas reflexões anteriores incidam algo de ingênuo. Afinal, se tais práticas predominam no campus é porque atendem a determinados interesses, ou seja, há os que ganham ao se conformarem à ideologia produtivista. O ethos pragmático e mercantil corresponde a uma estratégia legítima. Há os que pautam suas práticas universitárias pela mais valia dos bens simbólicos (status, distinção, poder, etc.), pelos ganhos reais (recursos públicos e privados) e se sujeitam às exigências para atingir tais objetivos. São os plenamente adaptados, dispostos a pagar o preço requerido pela competição fomentada por agências e órgãos que ditam as regras do jogo. Nestas circunstâncias, será correto vê-los como vítimas? Eles são os beneficiários. Parece-me, portanto, que se trata de uma adesão consciente. É uma opção e, como em todas, há bônus e ônus. Como recusar-lhes o direito de optar? Se o indivíduo, excitado pela competição, está disposto a qualquer coisa para vencer o jogo – até mesmo a vender a alma e renegar a saúde física e espiritual – não é seu direito? Pode alguém acusá-lo pelo desejo de possuir mais capital simbólico e o vil metal? Tal crítica não é coisa de espíritos ressentidos? Que temos a ver com isso? O individualismo e os valores predominantes na sociedade competitiva legitimam-no. É melhor deixá-lo em paz! Que siga o seu caminho, viva e morra feliz! Há também os que reclamam, os que vivem a se lastimar pelo excesso de exigências, das tarefas a cumprir, etc., mas também se moldam e se resignam às estruturas burocráticas e à ideologia produtivista que influenciam o cotidiano das nossas vidas no campus e no ambiente familiar – e ainda se sentem à vontade para cobrar dos que se recusam a “jogar o jogo”. A despeito dos reclamos e choramingos, se submetem porque não são capazes de abrir mão dos bens simbólicos e materiais a que têm direito enquanto partícipes do “jogo”. Reconheçamos, é uma atitude tão legítima quanto qualquer outra. É uma estratégia motivada por interesses igualmente legítimos. Que, também, vivam e morram felizes! Há, ainda, os que não aceitam as regras do jogo e se recusam a jogá-lo. Claro, também pagam o seu preço – por exemplo, viver apenas do salário, não ter FGs, bolsa produtividade, o status de professor da pós-graduação, etc. Não é tão legítimo quanto as demais estratégias? Eles também têm motivações legítimas. No fundo, o mais importante para eles é simplesmente viver a vida, da melhor forma possível e com a consciência tranqüila. Deixemos-lhes em paz. Até porque, na medida em que se recusa a competir e a “jogar o jogo”, é um concorrente a menos.

12 comentários

  1. Acredito que muitas pessoas compartilham estas preocupações que estão nos textos do Ozaí. Agora precisamos combinar o discurso da crítica com o das possibilidades e pensar em uma prática acadêmica livre da competição produtivista e do individualismo, baseada no trabalho coletivo de construção do conhecimento para se contrapor às imposições das agências governamentais e do mercado. Ou então podemos nos isolar na rejeição individualista ao mundo terreno. Abraços
    walter

  2. Olá Ozaí.

    Parabéns pelo texto.
    É interessante suas observações e questionamentos, pois me faz pensar nas atrocidades acadêmicas que acontece em vários cursos de pós-graduação. Recentemente esse processo aconteceu no mestrado em C. Sociais da UEL, tive que trocar de orientador por causa da “produtividade”. O mais interessante é a argumentação patética – “para aumentar a nota do curso na CAPES”, ou seja, a qualidade é o que menos importa, pois “os fins justificam os meios”, todos os meios são “válidos”, até mesmo “afastar” professores que não cumpre metas, uma vez que o fim é a tão sonhada nota. Isso me faz lembrar a ditadura militar, em que decretavam aposentadorias compulsórias aos docentes que eram críticos. Hoje na querida “democracia”, tenho que ver grupo de docentes, alguns que são “marxistas” e que enche a boca para falar em luta de classes, fazendo o papel rídiculo de decretar “aposentadorias compulsórias” para os raros docentes críticos que resistiam na pós-graduação. Esses “marxistas” para dizerem que são críticos da lógica produtivista, tentam minizar e legitimar o processo de atrocidade acadêmica, organizando revista com belos artigos críticos a respeito da ideologia produtivista na academia. ´
    Para resumir todo esse processo de atrocidade acadêmica, tomo a liberdade de resgatar uma frase do Drummond, que apesar do contexto ser diferente, ela exprime muito bem o que estou sentido – “O TEMPO É AINDA DE FEZES” (FLOR E NAÚSEA)
    Abraços,
    André

  3. Olha, Ozaí, tem mais um tipo que você não especificou aí. Tem aquele que não pesquisa – não é o professor que tem pesquisa mas não quer se submeter às exigências absurdas (verdadeiramente absurdas) das agências, e sim aquele que não pesquisa mesmo. Não trabalha. Ele deixa de publicar, mas não porque não quer fazer parte do jogo, e sim porque viver só do salário, no caso de um professor universitário, é viver muito bem, obrigado, e, por isso, ele não vê motivo para contribuir para o conjunto da produção intelectual. Quando perguntado, ele sempre dá a mesma resposta: recusa-se a entrar no “jogo”. Para esse cara, o jogo também é bom. É a muleta de que ele precisa para não trabalhar. Se o jogo acaba, acabam-se as desculpas.

  4. Prezado Ozaí,o tema postado tem sido fruto, também, de minhas reflexões. A questão é bem complexa, mas, creio que o ponto central trata-se da privatização do espaço público. Cada vez mais podemos perceber uma submissão passiva da academia aos ditames do mercado. O pior: isso acontece também junto àqueles que criticam a prática mercadológica da sociedade. O modelo imposto para progressão funcional, para gratificações e, por vezes, para bônus diferenciais das remunerações é medido pela produtividade. Isso empurra diversos professores para a pós-graduação e, por conseguinte,para o esvaziamento e o desinteresse com a graduação. O irônico é que não percebemos que não há espaço para todos nesse mundo competitivo. Poucos serão bolsistas de produtividade do CNPq, nem todos atuaram na pós-graduação e nem todos serão “beneficiados” por essa corrida individualista por recursos, posto que, não podemos esquecer, a racionalidade, a impessoalidade não são, de fato, critérios observados. Estes são, ao meu entender, “tipos ideais”, enquanto tal não conseguem dar conta das relações, das redes que funcionam como método de seleção daqueles que serão contemplados.
    A lógica produtivista/mercadológica não é o fim da história, mas é um indicativo de como o capital é capaz de avançar, de se renovar e de submeter até os seus mais ferrenhos críticos a essa lógica.

  5. Antonio
    Saudações.
    A LDB preve a valorização do notorio saber. O cidadão autodidata, não tem valor diante da logica em vigor, que exige o esgotamento de várias estapas. Os que dirigem a República, portanto, no minimo estão agindo de forma irregular, pois não atendem os ditames da lei. Infelizmente o principal motivo da existência desses organismos, finalidade que foram criados, é esquecida que é o fomento a pesquisa, a qual essa sim deveria de forma absoluta e impostergável beneficiar toda a sociedade. Somente cumpre também destacar que esse modelo não atinge somente as instituições de ensino superior, mas a vida privada do cidadão comum. Exemplo classico é a prova da OAB, a qual priva os bacharéis em direito, o exercicio livre da profissão. Das duas uma, ou todos fazem uma prova, ao final de suas graduações, ou ninguem faz. Estamos, portanto, tratando iguais (graduados) de forma diferente.
    Outra situação contraditória de nossos dias é o fim da exigência do Diploma, caso objetivo do jornalismo. Fica a questão para que serve então a graduação em jornalismo. Se isso procedente, não precisamos mais de graduação para nada, afinal o exercicio da profissão é livre ou não é?
    Um abraço
    Pedro

  6. Caro Ozaí…

    Tendo a ser neste blog como aquele motorista maluco do ônibus escolar dos Simpsons; o único que compreendia a única figura sensata da família…

    Eu me identifico com o último tipo :) Estou aqui em Belo Horizonte, voltando dos confins de Minas, onde passei alguns dias com um grande amigo e realizei o projeto de subir uma montanha da região (aproveitando o feriado e usando meus abonos!). Não foi, portanto, uma viagem paga com “recursos da PPG”, nem estava em questão “costurar rentáveis projetos com amigos bem colocados em outras instituições”. Apenas andar no meio do nada e encontrar um grande amigo. Coisas desse tipo, são chamadas, dentro da atual perspectiva de racionalidade mercantil de “perda de tempo”, para imaginar a mais carinhosa das expressões.
    A respeito das motivações que explicam o produtivismo mercantil a que você se refere, acho mais divertidas outras justificativas, quando fazem referência aos ganhos que tais práticas trazem à instituição, aos alunos, ou mesmo aos filhos (para aqueles que numa atitude irracional decidiram tê-los…), que terão, assim, “um futuro mais tranquilo assegurado”…
    A frase mais que clássica, líder absoluta do que você chama de “conformismo acadêmico” vem a ser “mas é assim que a coisa funciona”. Se quisermos mudar o mundo, fazer a revolução, eliminarmos as diferenças, promovermos a inclusão, etc, etc, etc; devemos estar conscientes de que, para tanto, “é assim que a coisa funciona”. É claro que é :)

    Abraço,

    Fábio.

  7. Olá! Precisamos dizer que é de grande relevância a importâncias das agências de fomento a pesquisas, ficar atentos por outro lado que as agências que fomentam a pesquisa e extensão nas universidades é de fundamental inportância para todos nós , mas é preciso lembrar que somos humanos e acredito que nunca fomos e nunca seremos homogeneos. Vamos claro ter os prós e os contras ,mas se faz necessário lembrar e vermos o que é que estamos fazendo mesmo para nossa vida ? e nosso crescimento pessoal/ e o que estamos devolvendo para a comunidade local ou de origem de cada estudante A NOSSA parcela estamos também fazendo com o nosso próximo ou estamos fazendo que nem POLÍTICOS só lembramos da comunidade quando estamos estagiando?? fica a reflexão. E é necessário também conhecer para falar do que conhece e não do que não se conhece ainda ,. vamos julgar menos e trabalhar mais?? vamos. Até a próxima oportunidade caro professor.

  8. Olá Professor,
    devo lhe dizer que é sempre bom ler seus textos, tão instigantes!
    Também penso muito em questões como estas, problemas sociais etc. E creio que, inclusive, questões assim tenham sido um fator formador da pressão pela qual tive a infelicidade de passar recentemente. Mas, diga-me professor, o que fazer?

  9. PARABÉNS caro professor Ozaí é com prazer que teço comentário sobre essas agÊncias de fomento para o nível superior.
    Sempre me perguntei desde que entrei na academia sobre essas exigências.É exigencia di disso e daquilo para os docentes e discentes , se não o curso não é reconhecido pelo MEC. e etc , mas até quando vamos baixar a cabeça para tudo (regras impostas de lá de cima), só porque é nível superior, acredito que devemos igualar o nível de qualidade nas escolas seja elas no ensino superior ou não, mas de maneira igual, pois o próprio vestibular é uma forma de exclusão explicita, mas isso é outro assunto que gera polêmica, vamos refletir e refletir e se precisar refletir novamente sobre o nosso individualismo nessa sociedade capitalista que muitas vezes as pessoas só querem estatus para se amostrar o tempo todo e provar o tempo todo que é melhor que os outros só por ter nível superior ou mestrado ou até mesmo doutorado, isso é nojento, como é difícil se colocar no lugar do outro, em meio a tantas burocracias e gente querendo sempre mais e mais e querendo de qualquer jeito se dá bem na vida,mesmo por cima dos outros , não tem preço, como se no mundo só exitisse EU(S) e não NÓS no PLURAL. Foi só um desabafo.

  10. Existe um outro lado que precisa ser analizado, questionado e destruído para dar lugar a uma nova POLÍTICA de fomento a produção científica em nosso país. Esse modelo CNPq/FINEP são perversos, excludentes, concentradores dos recursos e por isso mesmo abre espaço para o Diletantismo Acadêmico. Os Editais ao exigirem o título de Doutor para receber o apoio já eliminam parcela significativa de pessoas que poderiam com seus trabalhos contribuir significativamente na melhoria da qualidade de vida do povo. Mas analogamente como na Academia de Platão dever-se-ia colocar na entrada do CNPq “Que aqui não entre quem não for Doutor”. A competição capitalista tomou lugar do fomento. A relevância social do projeto, que deveria ser a pedra de toque para a concessão do apoio é substituída pelo curriculo dos Candidatos proponentes. Os jovens doutores do Piauí não têm curriculo para competir com seus experientes orientadores das universidades do sul e sudeste. Ou como dizem os consultores ad hoc “Não encontra competitividade entre seus pares”. Trata de modo igual aqueles que são desiguais. O jovem pesquisador é colocado no ambiente da competição capitalista. Isto é apenas um aperitivo para se começar a discutir um novo modelo de políticas públicas de apoio à pesquisa e inovação tecnológica em nosso país. Estou tomando o Piauí que é o exemplo mais significativo desse tipo de esclusão. Lamentavelmente as Fundações de Amparo a Pesquisa que estão surgindo nos Estados estão seguindo este modelo CNPq/FINEP.
    É a mesmice se reproduzindo com pouquíssima inovação em uma área que pode contribuir grandemente para as transformações que as estruturas arcaicas de nosso país necessitam urgentemente passar. Novamente a SBPC, a ANDES e ANDIFES poderiam reverter essa situação.

  11. Professor Ozaí,

    tenho acompanhado suas postagens e os comentários dos leitores também. A qualidade do debate proporcionado neste blog é muito importante para todos os que apostam no valor do conhecimento, seja ele filosófico, científico, religioso, etc. Portanto, quando você se propõe a problematizar as relações sociais em torno das nossas instituições, responsáveis pela fomentação da produção do conhecimento, você está assumindo uma tarefa nobre. Ninguém é obrigado a concordar com suas reflexões, mas, lamento muito a interpretação errônea das pessoas que não vêem nestas reflexões um “baita” compromisso político com a Universidade.

    Um abraço,
    Jonas

  12. Ozaí,

    É sempre um prazer visitar o seu blog e ler os seus textos, os quais, via de regra, são instigantes e promovem a reflexão. Todavia, permita-me discordar do tom amargo desse post mais recente. O olhar que você lança para as questões está voltado para dentro. Você sabe, melhor do que eu, que essas questões são fruto de um movimento maior. Refletem um conceito de academia que não foi inventado por aqui. O neoliberalismo extrapola fronteiras e define padrões de ação, as quais não estão circunscritas à esfera individual do pesquisador ou professor. A ideologia produtivista é das agências de fomento e, por conseguinte, do Estado, cujo governo atual defendia, a princípio, uma bandeira de esquerda. Não há conformismo entre acadêmicos que se sujeitam ou entre os que não se sujeitam – cada um a sua maneira! Os anos de rebeldia acabaram. Não quero defender a tese de Francis Fukuyama ou a de Marshall Berman, mas a academia não será diferente. Os tempos são outros. Em todo caso, em relação àqueles que querem ou pensam em transpor o conceito de produtivismo das chamadas ciências duras e exatas às ciências sociais e humanas, resta-nos apontar-lhes o quão são ingênuos ou ignorantes.

    Um abraço,

    Francisco Giovanni Vieira

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