Autor: Antonio Ozaí da Silva

Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico e Revista Urutágua; autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).

O LIBERALISMO – Harold J. LASKI

liberalismoPara a evolução do liberalismo foram de primordial importância as contribuições de homens que ignoravam os seus propósitos e frequentemente lhe era hostis: de Maquiavel a Calvino, de Lutero e Copérnico, de Henrique VIII e Tomás Moro, num século; de Richelieu e Luís XIV, de Hobbes e Jurieu, de Pascal e Bacon, num outro. O impacto inconsciente dos eventos foi, pelo menos tão responsável quanto o esforço deliberado dos pensadores na configuração do clima mental que o tornou possível. Os descobrimentos geográficos, a nova cosmologia, as invenções tecnológicas, uma metafísica renovada e secular e, sobretudo, as novas formas da vida econômica, tudo isso contribuiu para a formação das ideias propulsoras do liberalismo. Não teria se convertido naquilo que foi sem a revolução teológica a que chamamos a Reforma; e esta, por seu turno, recebeu muito do seu caráter de tudo o que está implícito no renascimento do saber. Uma boa parte do seu caráter foi moldado pelo fato do desmoronamento da republica christiana medieval ter dividido a Europa numa congérie de distintos Estados soberanos, cada um deles com seus próprios problemas especiais a resolver e sua experiência singular a oferecer. O nascimento do liberalismo tampouco foi fácil. Revolução e guerra presidiram ao seu parto; e não será despropositado afirmar que dificilmente houve um período, até 1848, em que o seu crescimento não tenha sido sustado pelo desafio da revolução violenta. Os homens bateram-se apaixonadamente para reter aqueles hábitos tradicionais em que seus privilégios estavam envolvidos; e, o liberalismo representava, sobretudo, um desafio a interesses estabelecidos e sacramentados pelas tradições de meio milhar de anos.

A mudança que efetuou foi, portanto, incomensurável – por qualquer padrão que usemos para aferi-la. Uma sociedade em que a posição social era habitualmente definida, o mercado predominantemente local, a instrução e a ciência – mas na sociedade do que em sua estrutura essencial – mudavam de modo usualmente inconsciente e tornavam-se, por via de regra, causa de ressentimentos; em que os hábitos eram dominados por preceitos religiosos, de que poucos duvidavam, e nunca com êxito, em que havia pouca acumulação de capital e a produção era dominada pelas necessidades de um mercado para uso local, desintegrou-se lentamente. Com o triunfo da nova ordem, no século XIX, a Igreja já tinha dado origem ao Estado como árbitro institucional do destino humano. Às reivindicações de nascimento sucederam-se as reivindicações de propriedade. O espírito inventivo fizera da mudança, em vez da estabilidade, a característica suprema da cena social. Um mercado mundial surgia, e o capital acumulava-se numa tão imensa escala que a busca de lucros passou a afetar a vida e a fortuna de sociedades, para as quais a civilização europeia não tivera, previamente, significado algum. Se a instrução e a ciência ainda eram companheiras inseparáveis e prestimosas da propriedade, o seu significado, porém, era agora apreciado por todas as classes da sociedade. Se os preceitos religiosos ainda eram levados em conta, o seu poder de domínio sobre os hábitos, entretanto, desaparecera até entre os seus devotos.

Isto não quer dizer que o liberalismo, mesmo em seu triunfo, fosse um corpo bem definido de doutrina ou prática. Procurou estabelecer um mercado mundial; mas a lógica desse esforço foi frustrada pelas implicações políticas do nacionalismo que cercou seu nascimento e floresceu com o seu crescimento. Procurou reivindicar o direito do indivíduo a modelar o seu próprio destino, independentemente de qualquer autoridade que pudesse desejar limitar-lhe as possibilidades; entretanto, descobriu que, inerente a essa reivindicação, havia uma contestação inevitável, por parte da comunidade, à soberania do indivíduo. Procurou aliviar todos os entraves que a lei pudesse impor ao direito de acumular propriedade; e descobriu que a reivindicação desse direito envolvia o surgimento de um proletariado disposto a atacar as suas implicações. Numa palavra, mal atingira as suas finalidades, o liberalismo já se via compelido a enfrentar um desafio aos seus postulados, desafio esse que parecia destinado a mudar, infalivelmente, a ordem por ele gerada.

 

[Fonte: LASKI, Harold J. O liberalismo europeu. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1973, p.10-11]

Literatura Política – “Gente Pobre”, de Dostoiévski

gente pobreGente Pobre é o primeiro romance de Fiódor Dostoiévski. É um livro no estilo epistolar – troca de cartas entre Makar Diévuchkin, funcionário de uma repartição pública de Petersburgo, e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã injustiçada – que mostra a adesão à causa dos humildes e realça a importância dos pequenos gestos no cotidiano das relações humanas. Nele, Dostoiévski enfatiza os valores e sentimentos dos pobres (dignidade, honra, reputação, etc.). Ele humaniza o demasiado humano. Seu tema central é a dignidade humana dos pobres. Segundo Fátima Bianchi, que traduziu a obra diretamente da língua russa:

“A intenção do escritor, na representação do cotidiano de seu personagem em sociedade, é demonstrar, através da imagem que ele tem de si mesmo, que sua miséria exterior não espelha o que lhe vai nas profundezas do coração. Tanto que as necessidades materiais que Diévuchkin é forçado a experimentar o tempo todo, e que se tornam objeto de séria atenção e discussão em suas cartas, não fazem dele um homem ridículo” (Posfácio, p. 178-179).*

A obra pode ser analisada numa perspectiva política-sociológica? Há obras que “respiram” política desde o primeiro parágrafo (exemplo: “1984”, de George Orwell); noutras, a política não “aparece” ao leitor de forma direta. O aspecto “político-sociológico” precisa ser apreendido. Isto exige um esforço de análise, mas as dificuldades não são intransponíveis. Basta uma leitura mais atenta, informar-se, relacionar texto e contexto, etc.

O estilo literário, o foco da narrativa, etc., influenciam a análise. Nele, a política parece ausente. Mas o olhar atento sobre o contexto social, econômico e político da época, explícito ou implícito nas entrelinhas, nas cartas que expressam a vida social em que estão inseridos os personagens, observará os aspectos políticos-sociológicos presentes na obra.

Nesta perspectiva, a chave para analisar o texto depende da assimilação do conteúdo e o caminho da análise está em aberto – isto significa que depende da reflexão de cada um. Por exemplo: um livro como este poderia ser analisado na perspectiva da relação entre política e cotidiano. O homem e a mulher pobres, gente simples, pensam, sentem e encontram-se envoltos em redes políticas que nem sempre compreendem. Tendem a naturalizar as relações sociais, a desigualdade social, os efeitos da política e a dar um sentido moral e teológico à vida – ou seja, buscar na religião a explicação para a pobreza, a miséria e o sofrimento, como se fosse o destino dos pobres:

“É preciso nos habituarmos; é preciso que haja medo” (p. 94).

“… decerto que esse era o meu destino – e do destino não se foge, como se sabe” (p. 102).

“É claro que em tudo está a vontade divina; é verdade que isso deve ser necessariamente assim, isto é, a vontade divina deve necessariamente estar nisso; assim como é claro que a Providência do Criador Celeste é bendita e insondável e os destinos também, eles também são a mesma coisa” (p. 161).

Estas palavras ilustram o pensamento dos pobres sobre a vida. Por que pensam dessa forma? A política tem algo a dizer sobre isto, ou trata-se apenas de uma questão de sorte ou azar dos indivíduos? A injustiça social expressa na vida dos personagens tem caráter político? À sua maneira, fazem política. O dia-a-dia e os “pequenos gestos”, a necessidade de manter as aparência expressam significados políticos? O que é ser cidadão naquele contexto?

O Estado, isto é, a política institucional, aparece nos interstícios da narrativa. Por mais que o autor concentre-se nos personagens, eles não estão “soltos no ar”. Quem é este senhor, esta moça que se correspondem? O que eles expressam na Petersburgo do século XIX? Quais as características desta cidade e da Rússia em que vivem, ou seja, o chão social e político que permitem sua existência – e tornam possível uma obra como esta? Quais os valores morais, religiosos, etc. presentes? É possível apreendê-los e relacioná-los com a política?

Em suma, o que dá sentido à vida dos pobres? No fundo, a obra se resume a isto! Portanto, ainda que o leitor não tenha o intento da reflexão política-sociológica, terá uma experiência ímpar sobre o humano, demasiado humano. A sua sensibilidade, se desabrochada, será fortalecida e muito provavelmente tornar-se-á mais humano, confirmando as palavras do personagem dostoievskiano, Makar Diévuchkin:

“A literatura é uma coisa muito boa, Várienka, muito boa; disso me inteirei anteontem através deles. É algo profundo! É algo que edifica e fortalece o coração das pessoas (…). A literatura é um quadro, ou seja, em certo sentido um quadro e um espelho; é a expressão da paixão, uma crítica tão fina, um ensinamento edificante e um documento” (p. 74).

 

* Posfácio, p. 178-179. In: DOSTOIÉVSKI, F. Gente Pobre. São Paulo: Editora 34, 2009. Todas as citações são da obra!

Rebelde sem causa?!

rebelde sem causa

Não é raro que a alegada “sensatez” mascare posturas e pensamentos conservadores. Geralmente, a rebeldia é identificada com o impulso destrutivo. Cobra-se do crítico que apresente soluções. A crítica sempre deve ser propositiva? Talvez a forma mais sutil de desqualificar a crítica esteja em afirmar a sua infertilidade, em desmerecê-la enquanto crítica com a exigência de comprometimento. A rebeldia é, então, canalizada para os espaços reconhecidos pela ordem; impõe-se que ela seja construtiva. Dessa forma, fragiliza-se o potencial “destrutivo” – no sentido de “desestabilizador” – inerente à crítica. Desconsidera-se, assim, sua positividade e o que ela contém enquanto afirmação do oposto, o vir-a-ser, ainda que latente.

Em termos práticos, exige-se não apenas que a crítica seja acompanhada de “propostas”, mas que o seu emissor atue a partir das estruturas criticadas. Assim, domestica-se a crítica e, simultaneamente, compromete-se o crítico com a instituição e as condições que estimularam sua atitude. Na política este processo efetiva-se na exigência de participar das instituições sob a crítica. Renova-se, assim, o dilema.* Historicamente, esta atitude resultou na incorporação, cooptação e domesticação da consciência crítica.

critica

O indivíduo que não se enquadra nas estruturas e instituições que sustentam a ordem social e política também é pressionado. A “consciência revolucionária” parece pressupor a exigência da crítica orgânica, isto é, conformada em um corpo social que se materializa na organização política. O argumento é forte! Para ser eficaz, o crítico precisa superar o individualismo e o isolamento e agir com outros. Ele é intimado a aderir ao partido, geralmente autodenominado revolucionário e, portanto, portador do gérmen da futura sociedade. Só se é cristão sendo membro da Igreja; da mesma forma, afirma-se que a única possibilidade de “ser revolucionário” é estar no partido, a vanguarda iluminada da classe.

O indivíduo é impotente para transformar a realidade apenas por suas próprias forças. Sua crítica tende a permanecer no âmbito a negação. O primeiro passo, portanto, é reconhecer esta fragilidade. O indivíduo que atua por si, isto é, que não articula, não se organiza em coletivos políticos, deve saber das limitações resultantes da sua opção e que dificilmente sua ação crítica terá eficácia. Com efeito, a transformação social é uma obra coletiva. Contudo, não prescinde do indivíduo. A seu modo, e com os limites inerentes à sua ação, o indivíduo também pode contribuir com o projeto do vir-a-ser. Será que a história não nos ensinou suficientemente a desconfiar tanto dos indivíduos que aspiram condensar em si a utopia quanto de grupos organizados, que se consideram “iluminados” e falam e agem em nome da classe social teoricamente portadora da nova sociedade?

ovelha e lobo

Ora, é legítimo que os indivíduos se organizem e, assim, ampliem a sua capacidade de intervenção. Mas será legítimo negar o direito de o indivíduo não aderir e optar por seguir outras veredas, ainda que caminhe só? Por acaso, sua contribuição deixa de ser relevante? Claro, é muito mais cômodo seguir em rebanho e talvez seja ainda mais vantajoso fazer parte da alcateia. Aliás, não se diz por aí que o mundo é dos espertos e dos mais capazes? Capazes de que?

O homo economicus, bem como o homo academicus, parece mais disposto a aliar-se aos os lobos e os animais ferozes e, na competição por cargos, dinheiro, status e mais-valia real e simbólica. Quem se recusa a ser caçador, corre o risco de ser transformado em caça, em ovelhas e cordeiros a serem devorados. Ou, na melhor das hipóteses, a ser visto como exótico ou cândido! Será o espírito de rebanho a melhor opção ao Homo homini lupus?! Talvez a causa da rebeldia esteja em repudiar a alcateia, mas também rejeitar a submissão ao pastor.

 

* Sugiro a leitura de As contradições do “ser-no-mundo”: entre a rebeldia e a acomodação.

As contradições do “ser-no-mundo”: entre a rebeldia e a acomodação

download“Queremos mudar o mundo, forjar instituições mais compatíveis com nossas exigências, reorganizar a via em bases novas, mas percebemos que o quadro em que nos encontramos é tão profundamente deformado e nos envolve com tanta força que pode corromper até nossas iniciativas mais generosas”.   Leandro KONDER (2009, p.43).*

A consciência desse dilema não detém a rebeldia e os projetos revolucionários. Porém, aqueles que intentam transformar o mundo não estão imunes à realidade que almejam superar. Com efeito, são parte e fruto das contradições que esta envolve. São, consequentemente, pressionados a se adaptarem e, por mais que resistam, é-lhes impossível situarem-se fora da materialidade que os circunda. Esta incorpora, ainda, valores, simbologias, imaginários, etc. Assim, ainda que a mente esteja no futuro, no vir-a-ser, não há escapatória do presente e… do passado. Somos seres em construção e, portanto, ainda que prenhes do novo, carregamos em nós as tradições, valores, pensamentos da sociedade que nos forjou. As possíveis rupturas nunca são plenas, mas carregadas de continuidades. Não é possível viver em sociedade sem o mínimo de transigência em relação a esta. Daí o risco permanente de nos adaptarmos e nos corrompermos.

O movimento da história é profundamente influenciado pelas contradições entre o ser-no-mundo e o vir-a-ser, pela imperiosa necessidade – determinada pelo estar-no-mundo – e a consciência da realidade contraditória:

“Quanto mais contraditório se apresente o processo histórico, quanto mais complexas sejam as tarefas de transformação consciente da sociedade, tanto mais necessária se torna essa chama da rebeldia, para que o movimento não se mecanize, para que suas contradições não coagulem. O presente não engendra automaticamente o futuro através de uma dinâmica fatal ou espontânea: o futuro precisa lutar para nascer, para assumir uma feição determinada; precisa enfrentar criticamente o presente” (id., p. 44).

A rebeldia aponta para o futuro, para o vir-a-ser, a utopia. Mas ela atua em determinadas condições que agem no sentido de acomodá-la. O discurso da “sensatez”, do “realismo”, etc., é poderoso, pois tem a seu favor a aparente harmonia com realidade e as necessidades impostas por esta. Afinal, consideram-se vencedores aqueles que melhor se adaptam. Os rebeldes são desestabilizadores, mas também são condenados à instabilidade. Convenhamos, não é nada fácil permanecer contra a corrente.

Isolado no âmbito individual, o potencial da rebeldia tende a ser mais facilmente suprimido ou amoldado à realidade, sujeito às pressões desta. A crítica tende a ser domesticada! Solitário e fragilizado, o rebelde inconformista tende a se articular com outros insubmissos “para uma ação conjunta, contínua, duradoura, de caráter político, necessariamente racionalizada” (id., p.46). Com efeito, é entre estes que as organizações e partidos políticos, autodenominados revolucionários, encontrarão seus melhores quadros. É a rebeldia, racionalizada e organizada, que alimenta as engrenagens das máquinas políticas que pretendem mover a história na direção da sua transformação radical. Então, acredita-se, a rebeldia atinge a consciência revolucionária. Esse movimento, porém, também acarreta o risco da institucionalização da rebeldia. O indivíduo rebelde, portanto, está duplamente sujeito à pressão pela adaptação à sociedade na qual vive e/ou à adesão às organizações e instituições coletivas que se afirmam portadoras do projeto revolucionário, do vir-a-ser, da utopia a ser realizada.

A racionalização da rebeldia individual na forma do coletivo organizado, a vanguarda do proletariado, não indica a superação das contradições apontadas, nem do dilema vivido pelo indivíduo insubmisso. A organização, partido, coletivo, etc., reproduz em seu âmbito, e numa escala maior, a oposição entre o ser e o vir-a-ser; também ela se verá pressionada a se adaptar, a domesticar-se, a render-se ao “realismo político” e, no limite, ao pragmatismo – ainda que mantenha a retórica crítica à realidade social que pretendeu transformar. Conforma-se, assim, a morte da rebeldia.

Este movimento, da contestação da ordem à cooptação e defesa desta, é comprovado pela história política da social-democracia. Por outro lado, os processos revolucionários que romperam com a ordem social vigente geraram uma nova realidade síntese da anterior, ou seja, a descontinuidade na continuidade. Não poderia ser diferente, já que o “novo homem” e a “nova mulher” não podem prescindir do homem e da mulher reais, de carne e osso, ainda presos ao passado que se almejam superar. A argamassa com a qual se edificará a nova ordem social é a cultura, valores, etc., dos homens e mulheres do tempo presente, ainda influenciados pelos fantasmas do passado que assombram as mentes humanas. Mesmo os indivíduos mais potencialmente imersos na consciência do vir-a-ser não estão isentos das influências que lutam para superar. A descontinuidade, e, portanto, processos de rupturas, pressupõe liames de continuidades. Dessa forma, a contra-hegemonia e a construção das utopias concretas revelam-se com maior complexidade, muito além das simplificações dualistas e maniqueístas.

* As citações são de: KONDER, Leandro. A Derrota da Dialética: a recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos 30. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

Sobre livros e autores dos EUA

Anos atrás li uma obra, O sonho americano e o homem moderno (Rio de Janeiro: Lidador), que oferece um perfil histórico sobre a literatura nos EUA. O autor é Walter Allen. Encontrei, por acaso, nas prateleiras da Biblioteca Central da UEM. Sua leitura foi esclarecedora e contribuiu para a compreensão histórica política e cultural da nação estadunidense. Trata-se de uma reflexão sobre o sonho americano à luz da literatura, isto é, o simbolismo e a maneira como esta o expressa. A obra fornece um painel importante da literatura americana no século XIX e das primeiras três décadas do século XX.

gatsbyThe Great Gatsby (1925), escrito por F. Soctt FITZGERALD, por exemplo, expressa o self made man, o homem que se faz só – um dos fundamentos da ideologia dos EUA. O personagem principal, dividido entre o poder e o sonho, representa a própria América. O autor sugere que a nação EUA surgiu de uma concepção platônica de si mesma. “Em The Great Gatsby Scott Fitzgerald mostra-nos o sonho americano em seu aspecto trágico, em outras palavras, como um sonho incapaz de se realizar exatamente por ser um sonho. Mas torna-se evidente nos últimos parágrafos do romance que Fitzgerald equaciona Gatsby ao homem americano, e o considera como figura simbólica da experiência norte-americana”, afirma Allen (p. 8). [1] Para ele, The Great Gatsby “é uma celebração poética do sonho norte-americano e um comentário, talvez pessimista, sobre ele” (p. 9)

The Fathers (Os Patriarcas), de Alan TATE, representa a “mais comovente glorificação da civilização sulista” (p. 85). Enquanto esta obra nos remete ao contexto da guerra civil, a guerra de secessão do sul contra o norte dos EUA, os livros de Fenimore COOPER lançam luz sobre o período colonial e a chamada “conquista do Oeste”. Os Pioneiros (1823), O Último dos Moicanos (1826), A Planície (1827), O Guia (1840) e O Caçador (1841), expressam o sonho de viver em liberdade, sem as amarras da civilização. A Lost Lady, seu último romance, apresenta o Oeste como uma espécie de paraíso, destruído pelos que chegaram depois para explorá-lo.

Clipboard

A expansão para o Oeste, e suas consequências, também está presente na literatura de Harold FREDERIC e Michael STRAIGHT. The Damnation of Theron Ware (A Perdição de Theron Ware), escrito por Frederic, expressa a possibilidade de ascensão social do deslocamento para o Oeste. O Centro-oeste e o Oeste cumpriram o mesmo papel que a Nova Inglaterra teve para os imigrantes europeus. Esta era “um lugar em que os fracassados e desajustados podiam convenientemente desaparecer” (p. 66). O fenômeno da fronteira, isto é, o movimento para o Oeste, “permanece como a grande imagem do senso norte-americano de possibilidade”, “um dos mais importantes componentes do sonho norte-americano” (p. 57). Walter Allen alerta para a literatura de Fenimore Cooper, e outros, que expressa uma visão paradisíaca da conquista do Oeste. Ela “omite os aspectos negativos do desbravamento do Oeste e da construção das ferrovias. A completa destruição dos rebanhos de búfalos e a guerra contra os índios” (p. 200). Carrington, de Michael STRAIGHT, representa “uma descrição mais precisa da conquista do Oeste após a Guerra Civil” (id.).

A escravidão nos EUA também está presente na literatura. Fanny KEMBLE, autora inglesa, casada com um rico cidadão da Filadélfia, escreveu Journal of a Residence on a Gerogian Plantation in 1838-39 (Diário de Residência numa “plantation” da Geórgia de 1838-39), sobre o período no qual viveu na Geórgia e relata o cotidiano de uma fazenda escravocrata. Sobre o tema, há o clássico A Cabana do Pai Tomás, escrito por Harriet Beecher STOWE. Este romance “mostra frontalmente ao Norte seu envolvimento financeiro com a instituição da escravatura” (p. 81). Segundo Allen, este é o melhor livro sobre “todos os aspectos das condições possíveis em que viviam os escravos”; “é também provavelmente a melhor antologia das justificativas sulistas” da escravidão (p. 83). The Virginians (Os Virginianos), de Thackeray, retrata o estilo de vida na Virginia, especialmente no período anterior à Guerra Civil. A Virginia e os virginianos também são objeto da obra None Shall Look Back (Ninguém olhará para trás), escrita por Caroline GORDON. Com Absalom! Absalom, William FAULKNER nos brinda com um dos melhores relatos para a compreensão dos efeitos da escravatura sobre o Sul. Trata-se da “história essencial do Sul a partir da introdução do Negro. O cenário é o Mississipi, que só entrou para a União em 1817 e é, portanto, um dos mais novos estados sulistas” (p. 88). Já Henry ADAMS, em Democracia, nos apresenta uma visão crítica sobre o governo da União no pós-guerra civil. O mesmo ocorre com a obra de Theodore DREISER: The Financier (O Financista), The Titan (O Titã) e A American Tragedy, retratam “a maneira selvagem e amoral de aquisição na Idade Dourada” (p. 91). A “idade dourada” corresponde à fase pós-guerra civil: expansão da indústria, individualismo sem escrúpulos, caça aos espólios e cargos…

Clipboard

A literatura estadunidense trata ainda de outros temas: como o processo de imigração, a relação complexa e as diferenças com a Europa, a ideologia puritana e ingênua. The Last Puritan (O Último Puritano), de George SANTAYANA, é ilustrativo do ideal estadunidense do “destino manifesto”, ou seja, do “povo escolhido” e superior aos demais. Nesta trilha, James HOGG escreveu Confessions of a Justified Sinner, um relato clássico da atitude arrogante fundada na crença puritana. O livro trata da Escócia, fins do século XVII, que, junto aos Estados Unidos, foi o único país onde o puritanismo triunfou absoluto. O rigor puritano também é tema de Nathaniel HAWTHORNE, autor de The Scarlet Letter (A Letra Escarlate). “O drama moral e psicológico que ele recria e investiga não poderia ser produto de nenhum outro lugar no mundo a não ser a costa marítima da Nova Inglaterra do século XVII, porque em nenhum outro lugar o Puritanismo existiu com tamanha pureza e em tamanho isolamento. A pureza era resultado do isolamento”, escreve Allen (p. 125).

Nos romances de Henry JAMES, os americanos tendem a representar a inocência corrompida pelos costumes europeus. The Portrait of a Lady e The Wings of the Dove exemplificam “a inocência esperançosa e idealista” contrastada com o “cinismo corrupto e luxurioso” identificados com a Europa (p. 101). Isto também se aplica à obra Os Europeus.

download (5)download (6)A crítica à ideologia e estilo de vida estadunidense está presente em vários autores: Graham GREENE, Henry THOREAU, J. D. SALINGER, John dos PASSOS, John STEINBERG, Ralph Waldo EMERSON e Sinclair LEWIS, entre outros. Em O Americano tranquilo, Greene critica a visão ingênua e simplória que o americano tem de si mesmo, a qual se fundamenta numa pretensa superioridade moral e conformista, característica herdada do puritanismo. Thoreau influenciou Tolstoi e Gandhi. Em suas obras, defende o reencontro do homem com a natureza, a vida real. “Parecia a Thoreau que a esmagadora maioria dos homens vivia o que não era vida; viviam “de maneira aviltante, como formigas’. “A nossa vida”, diz ele “dissipa-se em detalhes”, em simulações e desilusões; em trabalho e “quanto ao trabalho não temos nenhum de real importância…” (p. 142). Thoreau escreveu Desobediência Civil e Walden, or Life in The Woods. Emerson, amigo de Thoreau e autor de The American Scholar (O Intelectual Americano), promoveu a crítica “ao pedantismo e ao tradicionalismo na literatura e na escolástica, o ensaio reforça a necessidade de uma literatura democrática moderna…” (p. 140). Lewis, primeiro estadunidense a ganhar o Premio Nobel de Literatura, em 1930, em Main Street (Rua Principal), satiriza o estilo de vida de uma pequena cidade imaginária, a qual expressa a realidade de muitas cidades do interior dos EUA. Lewis “tenta destruir, pelo ridículo, a mesquinhez e o provincianismo da vida nas pequenas cidades do interior” (p. 196). Na obra Babbitt, seu tema é o pequeno homem de negócios, a classe média. O título do livro surge da fusão de rabit (coelho) e baby (bebê), isto é, “um ser facilmente assustável e ainda não totalmente formado”. O romance descreve “as tímidas revoltas de Babbitt contra a pressa da rotina e do conformismo” (p. 197).

The 42and Parallel (1930), 1919 (1932) e The Big Money (1936), trilogia escrita por John dos PASSOS, busca revelar a totalidade dos EUA. O autor utiliza recursos como manchetes de jornais, trechos de reportagens e de canções populares (“Newsreel”); inseri capítulos biográficos de importantes figuras da sociedade norte-americana. É uma obra crítica, de inspiração socialista. Allen observa que a “crítica da vida norte-americana atinge o clímax quando encontramos o jovem “carona”, desempregado, anônimo, que resume em si milhares de desempregados anônimos, de pé à margem de uma estrada qualquer do Centro-Oeste tentando conseguir uma carona, enquanto sobre ele voam os aviões, com sua carga de homens de negócios, entre Nova York e Los Angeles” (p. 207).

Nesta linha crítica, John STEINBERG, em In Dubious Battle descreve a tentativa dos comunistas em organizar os colhedores de frutas, na Califórnia. No clássico Vinhas da Ira, ele simboliza o sonho da fronteira, mas numa perspectiva crítica diferenciada de TWAIN e COOPER. Este romance expõe a indignação do autor diante da miséria social causada pela grande depressão. Trata de uma família que, arrasada pela erosão do solo e pelas dívidas com banqueiros, procura a “terra prometida” – a Califórnia. Mas esta já tinha donos e estava ocupada… A exemplo de John dos PASSOS e James T. FARRELL, STEINBERG assume a “causa dos socialmente desfavorecidos contra o poder do capitalismo financeiro” (p. 211).

Clipboard

Na trilha de Vinhas da Ira, o livro “O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. SALINGER descreve uma fuga muito mais sem esperança, a fuga daquilo que aparece ao menino herói, as evasões e hipocrisias tacanhas, ausência de generosidade da vida adulta norte-americana”. (p. 58). “Esses dois romances, embora de maneira diferente, são igualmente críticas ao sonho norte-americano, porque demonstram sua inadequação em face das realidades brutais da vida norte-americana”, enfatiza Allen (p. 59).

Consideremos, finalmente, os romances cuja temática é a imigração. Henry ROTH, em Call it Sleep (1934), tem como cenário “as favelas de Nova Iorque, os personagens são judeus russos que vieram, em grande número, nos anos imediatamente anteriores à Primeira Grande Guerra” (p. 99). Nesta obra, como nos livros de James T. FARRELL e Willa CATHER, os imigrantes “estão impedidos pela raça, pela religião, pela língua ou pela tradição nacional, de participar da vida norte-americana exceto em seus níveis mais baixos. Eram “europeus desprovidos” no sentido mais completo do termo” (p. 103). Para Allen, Studs Loningan, escrito por FARRELL, cujo título se refere a um menino irlandês, “deve ser um dos romances mais deprimentes jamais escritos. É uma crítica, friamente selvagem, da qualidade da vida norte-americana de cidade grande” (p. 100). The Face of Time, do mesmo autor, “descreve a vida da família O’Flaherty na zona operária de Chicago durante os primeiros anos do século [XX]” (p. 101). Willa CATHER, em My Antonia (1918) e Death Comes to the Archbishop (1927), relata a história de uma família imigrante checa e expõe o sentido de perda do imigrante, de caráter muito mais cultural que político ou econômico. “Essa perda cultural, que podia resultar na diminuição consciente do imigrante ou na sua mutilação como homem, também está brilhantemente dramatizada no romance Call it Sleep de Henry Roth, publicado em 1934”, enfatiza Allen (99). Ele observa que Willa Cather “estava presa a uma idealização do passado da América e uma reação contra o seu presente” (p. 200).

Edgar Allan POE, Ernest HEMINGWAY, MELVILLE e tantos outros autores clássicos, ou menos conhecidos, da literatura estadunidense poderiam alongar esta lista. Não obstante, estas anotações literárias são suficientes para mostrar a riqueza da ficção e a sua contribuição para o conhecimento e compreensão da história política, econômica, social e cultural de um povo. Talvez seja melhor – e mais prazeroso – aprender história política e cultural com a literatura. Seja como for, eis aqui um roteiro de leitura cuja dedicação vale a pena! O mesmo é válido para a literatura brasileira!


[1] Todas as citações são de: ALLEN, Walter. O sonho americano e o homem moderno. Rio de Janeiro: Lidador, 1972.

A experiência de aprender fotografia!

1962800_750584264966228_1973440003_n

Não recordo quando despertou em mim o gosto por fotografar, mas lembro-me de que, na adolescência, tinha uma máquina fotográfica das mais simples e de menor custo. Na época do “colegial” – como chamávamos o ensino médio, então – tirei fotos na excursão da turma a Poços de Caldas (MG) e também do congresso estudantil realizado em Curitiba (PR). Ambos os eventos não deixaram lembranças agradáveis. No primeiro, minhas expectativas juvenis fracassaram e o amor que desabrochava murchou. No segundo, quase morri de frio – era inverno e não estava devidamente preparado para o clima da capital paranaense e as condições nada saudáveis da estadia. Além disso, por um descuido imperdoável, abri a máquina com o filme exposto. O resultado foi a perda das fotos – o que me deixou muito chateado pois havia registrado imagens da minha primeira experiência num evento de grande porte do movimento estudantil (com direito a presenciar brigas, tentativas de agressão física, insultos mútuos e até desmaio).

Consegui comprar uma máquina melhor, uma Yashica. Tentei fazer um curso de fotografia. Era sócio do Clube do Livro e comprei um Manual de Fotografia. Não foi possível levar adiante o autodidatismo. Tudo era muito caro. Desisti! Havia outras urgências. O “reino da necessidade”, como diria o Mouro não me permitia tal luxo. Não obstante, mantive o gosto pela fotografia! Veio, então, o tempo das máquinas digitais e a minha Yashica analógica foi aposentada. Fiquei encantado com as possibilidades da câmara digital, ainda que um modelo compacto comum. O prazer pela fotografia foi fortalecido. Recentemente, adquiri uma câmara semiprofissional e comecei a realizar um dos sonhos da minha juventude. No meu aniversário, a Luana presenteou-me com um Curso de Fotografia.

1549399_750582301633091_378348949_n

Aprendemos quando há interesse. Isto tem sido comprovado em minha experiência pessoal discente e docente. Mas, além de aprender os aspectos técnicos da arte de fotografar, há o aprendizado tão ou mais importante do que aquele que constitue o conteúdo e objetivos programáticos do curso. A convivência com a turma, a redescoberta de si, a percepção prática da evolução do aprendizado, a interação com os demais e a observação didática-pedagógica. Foi uma experiência que ensinou Fotografia – Arte e Técnica, mas também apresentou resultados positivos na sociabilidade e nos elementos incorporados à minha práxis docente.

Enfim, tenho a certeza de que evolui enquanto fotógrafo, mas também como ser humano e professor. A experiência não se limitou aos aspectos técnicos, ao conteúdo do curso, mas abrange a minha formação humana e intelectual. Tive um professor excelente, com domínio do conteúdo, ótima didática e sempre disponível. A turma, interessada e comprometida com o processo de aprendizado, interagiu de maneira positiva e solidária. As diferenças de idade e o pouco conhecimento entre nós não foram empecilhos para a realização de atividades conjuntas, além das trocas de saberes – com os mais experientes, ou que tinham maior facilidade de aprendizagem, contribuindo com os que precisavam. O objetivo de aprender uniu a turma e, apesar de sermos tão diferentes, com histórias de vida e mesmo expectativas diferenciadas, nos integramos e nos ajudamos mutuamente.

1781865_750580968299891_1567552743_n

No final, realizamos a exposição dos nossos trabalhos.* Foi uma alegria contagiante, expressa nas faces, gestos e olhares dos alunos e dos nossos convidados. Isto diz muito sobre as nossas conquistas, para além, muito além, das fotos expostas. Aprendizado também significa auto-realização! Foi uma experiência transformadora! Obrigado a todos da turma e, especialmente, ao professor Ronaldo Pereira da Silva e a Luana Ozaí da Silva. Foi um dos melhores presentes de aniversário!


* Ver fotos em https://www.facebook.com/media/set/?set=a.750577278300260.1073741896.100000439853163&type=1&l=71bb58f7f1; vídeo em https://www.youtube.com/watch?v=llIyUZh_FNk. Também pode apreciar a exposição pessoalmente no SENAC Maringá, Av. Colombo, 6213 (a mostra estará disponível por mais alguns dias).

Da experiência de aprender e ensinar!

aprender para ensinar_thumb[4]O saber é finito! A capacidade individual de apreender o conhecimento é intrinsecamente limitada pela natureza humana. Por mais que se estenda a vida e que as rugas e os cabelos grisalhos denunciem o passar do tempo, ainda assim há algo a aprender. O indivíduo é incapaz de saber tudo, de assimilar todo o conhecimento produzido e acumulado pelas várias gerações durante séculos! Ele não é capaz nem mesmo de incorporar o conhecimento do seu tempo na totalidade. Sempre há algo a aprender, a ensinar.

Do mais simples ao mais complexo, os seres humanos aprendem e ensinam mutuamente. O saber do professor é sempre um saber inacabado e a ignorância do aluno é relativa. O professor experiente e titulado ensina ao aluno recém-ingresso na universidade, mas também tem o que aprender. Ainda que o conhecimento específico seja concebido como propriedade individual, saber inacessível aos mortais comuns, envolto em brumas e ensinado em doses terapêuticas.

Cada vez mais, o saber do especialista perde o caráter fechado e exclusivo. Na sociedade moderna o conhecimento é reflexivo. A autoridade do detentor dos saberes especializados não é imune às condições de acesso ao conhecimento propiciadas pelas novas tecnologias. Se no passado, o conhecimento produzido pela humanidade estava armazenado nos mosteiros, bibliotecas privadas e lugares similares, acessíveis apenas à casta dos eruditos e dos que detinham o poder econômico, ideológico e político, hoje a possibilidade de acesso aos livros, textos, etc., é ampliada pelas bibliotecas públicas, além de disponibilizados em versão eletrônica – imagens, vídeos, áudio, etc., também potencializam a acessibilidade ao conhecimento. Isto é ainda mais exato em relação ao conhecimento nas ciências humanas. As novas tecnologias estimulam e favorecem o autodidatismo.

Não obstante, esta realidade não anula a necessidade do professor, do especialista numa determinada área do conhecimento. A interação humana é algo mais do que o mero acesso à informação, ao conteúdo curricular. Na modernidade reflexiva, porém, a autoridade professoral fragiliza-se e perde a aura mítica. Resta-lhe descer do Olimpo imaginário e, enquanto ser humano imperfeito e incompleto, participar da comunidade humana na qualidade de quem ensina e, simultaneamente, aprende – ainda que, arrogantemente, não admita que tenha algo a aprender. O especialista, seja qual for a sua área, sabe – ou imagina saber – meramente o que está vinculado à sua especialidade. Mas este saber é ínfimo, considerando-se a vastidão do conhecimento. Em tudo o mais ele é ignorante – mesmo em seu campo de saber específico, muito provavelmente há o que aprender e aperfeiçoar-se.

Estar aberto a aprender é ter a humildade de reconhecer as próprias limitações e mostrar-se propenso a vivenciar novas experiências e adquirir novos saberes. É reconhecer o paradoxo da incompletude humana diante do conhecimento infinito; a consciência angustiante de descobrir que não sabe, apesar da dedicação e esforços cotidianos para aprender. Quanto maior o conhecimento adquirido, quanto mais experiência de saber, maior a certeza de que não sabemos.

Crescemos, mas não completamos nossa formação humana e intelectual. Permanecemos necessitados de nutrientes culturais, de saberes. Não nos basta o alimento para as necessidades do corpo, também nos alimentamos de conhecimento. Neste sentido, permanecemos alunos – adultos sedentos de saber! A experiência de ser alumnus é essencial, não apenas a quem reconhece a necessidade permanente de nutrir-se de conhecimento, mas também aos que estão na posição privilegiada de detentores de saberes específicos.

Mais de 400 mil visitantes! Muito obrigado!

Clipboard04Em 22 de dezembro de 2013, publiquei o último post do ano. Retomei a publicação no domingo, 16 de fevereiro de 2014. Então, verifiquei as estáticas do blog e, numa grata surpresa, observei que o número de visitantes havia ultrapassado os 408 mil! Em 21 de julho do ano passado, o blog atingiu a marca de 300 mil. No momento são 409.521 acessos! Meu sincero muito obrigado, em especial aos leitores que comentam e a todos que incentivam a escrita e publicação neste espaço! Permaneço aberto às críticas, sugestões e contribuições. Abraços e tudo de bom!

Reflexão sobre a velhice!

Cicero (Musei Capitolini, Rome)

Cicero (Musei Capitolini, Rome)

Marco Túlio Cícero (106 a.C.-43 a.C.), filósofo estoico, ensinou que devemos aceitar os desígnios da natureza. Se a velhice não é inevitável, pois a morte não respeita idade, as consequências do envelhecer são inexoráveis. Ele viveu o suficiente para refletir sobre o tema e nos legar ensinamentos. Na obra “Saber envelhecer”, ele afirma que “as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes” (p. 12).[1] Para ele, não devemos ter uma atitude pessimista diante do envelhecimento. Precisamos aprender a não nos importarmos com o incontrolável. Sem dúvida, a natureza é impiedosa: o passar dos anos nos deixa fisicamente mais frágeis, o corpo não reage mais como gostaríamos, impossibilita os prazeres da carne, as doenças tornam-se mais frequentes e a morte parece mais próxima. “O essencial é usar suas forças com parcimônia e adaptar seus esforços a seus próprios meios. Então não sentimos mais frustração nem fraqueza” (p. 29), aconselha Cícero.

Contudo, o filósofo é otimista. O segredo está em reconhecer o fato natural e saber reagir ao processo de envelhecimento. Ou seja, temos opções! A velhice com qualidade de vida depende das atitudes e escolhas que fazemos. Não obstante, tem as suas compensações: “Sem dúvida alguma, a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade”, afirma Cícero (p. 20). A sabedoria é, então, uma dádiva que alcançamos com o avançar da idade.

O elogio à idade madura talvez seja um autoelogio. Será que o passar dos anos nos torna necessariamente mais sábios? Quem pode garantir que sabedoria é sinônimo de ancião? Não será o jovem capaz de alcançar a sabedoria e não terá ele algo a ensinar ao mais velho? A tolice não respeita idade; a sensatez não é privilégio dos mais velhos; e a experiência adquirida com a idade pode se revelar inútil. O argumento de autoridade fundamentado nas rugas do tempo nem sempre é sábio e desconhece a dialética do aprender e ensinar mútuos. Mesmo o mais idoso tem algo a aprender com o mais jovem. Sabedoria livresca acumulada com os anos nem sempre é capaz de corresponder às exigências prática da vida. O saber prático de um jovem pode se revelar mais importante do que a sabedoria do douto.

Empenhar-se nos estudos e cultivar a inteligência é, segundo o filósofo, uma dádiva que a idade madura permite e, simultaneamente, uma forma de “não sentimos a aproximação sub-reptícia da velhice” (p. 33). Além disso, “nos poupa do que a adolescência tem de pior” (Id). Para ele, o “pior” é o instinto sexual. Em suas palavras: “Se a inteligência constitui a mais bela dádiva feita ao homem pela natureza – ou pelos deuses –, o instinto sexual é o seu pior inimigo” (p. 34). Sublimação?! Mais parece uma autodefesa do filósofo ancião! “Papo de velho”, ironiza o jovem.

Cícero louva a velhice, privilegia o espírito em detrimento do prazer proporcionado pelo “instinto sexual”. A “culpabilização” do prazer é mais antiga do que parece. “Se o bom senso e a sabedoria não são suficientes para nos manter afastados da devassidão, cumpre agradecer à velhice por nos livrar dessa deplorável paixão” (p. 35), afirma. Para ele, não há prazer maior do que o proporcionado pelo espírito. Aconselha: “aproveita cada dia de sua velhice para adquirir novos conhecimentos. Sim, nenhum prazer é superior ao do espírito” (p. 42) “Papo de intelectual depressivo”, diria o jovem irônico! Estudar, alimentar o espírito! Eis o que resta à velhice. Pra quê?! Por acaso, a sabedoria do erudito o livrará do final inexorável?

Filosofar sobre a velhice não nos liberta dos sofrimentos. Cícero nos ensina a aceitar o que não podemos controlar nem modificar e aprendermos a viver bem na idade avançada, nos limites que esta nos impõe. “A maneira mais bela de morrer é, com a inteligência intacta e os sentidos despertos, deixar a natureza desfazer lentamente o que ela fez”, sentencia o filósofo. Sorte dos que podem realizar estas palavras!


[1] CÍCERO, Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Porto Alegre: L&PM, 2007. Todas as citações são desta edição. Sugiro a leitura de Sobre a velhice, publicado em 24.11.2012.

FELIZ ANO VELHO… E NOVO! (2)

Vésperas natalinas, expectativa de um novo ano! E tudo se repete! Não cansarei o leitor com a minha quase rabugice típica TPN (Tensão Pré-Natal) e no limiar da depressão! Tenho os meus motivos! Temos, pois não sou o único! Até porque, já escrevi sobre este estado de TPN. Ao leitor que deseje compartilhar das minhas sensações e, quiçá, solidarizar-se, sugiro a leitura das Reflexões natalinas[1] que escrevi em 2011. Sem abusar da sua generosidade, sugiro também que leia O Espírito do Natal[2], escrito em 2007. A meu ver, permanecem atuais.

Ainda assim, respeito os que curtem o Natal – não curtirei nem mesmo no Facebook – e, sinceramente, desejo BOAS FESTAS! Sobreviveremos e nossas atenções se concentrarão nas expectativas de um novo ano, sempre desejosos de que seja feliz e repleto de realizações. É o princípio da esperança em ação! Felizmente, o ser humano, em algum momento de sua caminhada inventou o calendário e aprendeu a nutrir a ilusão de que o tempo recomeça. Foi uma bela invenção, afinal precisamos nos alimentar também de esperanças! FELIZ ANO VELHO… E NOVO![3]

Agradeço a você, caro(a) leitor(a), especialmente aos que comentam, compartilham e contribuem com o nosso aprendizado e reflexão. Meu sincero muito obrigado aos 5.688 assinantes do blog (seguidores que recebem as atualizações por email) e aos 396.030 que visualizaram o site até o momento. Que em 2014, você continue a brindar-me com sua leitura, críticas e contribuições. Tê-lo como interlocutor(a) é um privilégio e um presente. Meu sincero muito obrigado e FELIZ 2014!

Finalizo 2013 com o poema de Carlos Drummond de Andrade, dedicado a você!

drummondReceita de ano novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Fonte: http://pensador.uol.com.br/frase/MTM0MDQ5/)

Ps. Estarei em férias, retornarei em 2014. Até lá! Abraços e tudo de bom!