Pequenos ditadores

György Lukács (1885-1971)

Num texto pouco lembrado, “Carta sobre o Stalinismo”, Lukács identificou o autoritarismo na URSS sob domínio de Stalin a uma espécie de pirâmide, em cujo vértice estava o ditador, e que, “alargando-se sempre, na direção da base, compunha-se de “pequenos stalins”, os quais vistos de cima, eram objetos, e vistos de baixo, eram os produtores e mantenedores” [da pirâmide].*

As ditaduras políticas são a expressão da imposição violenta, quando a política assume abertamente a sua face mais trágica e aterrorizante, o poder legitimado pela força bruta. As palavras do pensador húngaro mostram que mesmo os sistemas políticos mais opressivos são criações humanas e também se legitimam pela adesão consciente ou passiva. Os ditadores não resistiriam muito tempo sem o uso permanente do terror – toda sociedade ditatorial é governada pelo medo. Mas também não sobreviveriam sem o apoio da pirâmide, isto é, dos pequenos ditadores que reproduzem e mantém a cultura e poder autoritários.

Costumamos pensar o autoritarismo sob a perspectiva do Estado, enquanto opressão do poder político. Muitas vezes esquecemos que a sociedade também apresenta traços e cultura autoritários. No Brasil, por exemplo, persistem manifestações autoritárias que herdamos do passado colonial e escravista. A cultura autoritária, por sua vez, se manifesta no nível micro, nas relações cotidianas na família, no trabalho e na universidade pública. Talvez seja um paradoxo que a instituição que deveria favorecer a crítica, o diálogo e a liberdade, seja também o locus onde as relações de poder, a despeito da fachada democrática e da racionalidade burocrática e científica, apresentem caráter opressivo. Nas universidades por este Brasil afora há quem, eleito ou não, ocupe postos chaves na estrutura burocrática e age como pequeno ditador.

Mais paradoxal ainda é estes indivíduos se apresentarem como revolucionários. Eles se imaginam profetas do novo mundo e parecem crer que os cargos são trincheiras da luta pelo bem da humanidade, ainda que esta desconheça. Amam a humanidade, mas são incapazes de respeitar os que compartilham o mesmo o ambiente. Atuam como feudais, erguem muralhas e fossos de proteção. São protetores do dogma e não toleram os infiéis, os que teimam em não segui-los. Agem autoritariamente e transformam o cargo em meio de proteção da “panelinha”, dos que professam a mesma ideologia. Usam o poder que a função confere para dificultar ou interditar o acesso dos “outros” aos direitos e recursos públicos. Não é surpresa que, em muitas das universidades, o ambiente de trabalho seja estressante e muitos estejam esgotados diante das relações (des)humanas.

Não surpreende que um conservador seja autoritário. Também não é mistério que um liberal seja conservador. Afinal, há muito que o liberalismo se limita a defender o status quo. Mas é surpreendente que alguém que se considere revolucionário tenha em relação aos colegas de trabalho uma postura, conservadora, autoritária e desrespeitosa. Ou é ingenuidade surpreender-se?!

De qualquer forma, é inadmissível manifestações permeadas pelo sarcasmo quanto ao trabalho e tema de pesquisa do outro. É inadmissível, por exemplo, o uso do poder de chefia para prejudicar os que não são da “turma”. Há quem fale em mudar o mundo, mas não consegue transformar nem mesmo as relações de poder do pequeno mundo do seu departamento.

Os indivíduos que agem como pequenos ditadores, os “pequenos stalins”, são os sustentáculos da ordem política e social autoritária. Suas ações no nível micro expressam bem o que são capazes de fazer se conquistarem o poder do Estado e da sociedade. Marx nos livre de tais indivíduos!

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* George Lukács. Carta sobre o Stalinismo. In: Temas de Ciências Humanas, nº 1. São Paulo, Editorial Grijalbo, 1978.

15 comentários sobre “Pequenos ditadores

  1. Olá, Ozaí. É realmente um tema bastante interessante. Não conheço o citado texto de Lukács, mas gostaria de lembrar que La Boecie, no “Discurso da Servidão voluntária” tem uma reflexão sobre a pirâmide de “tiranetes”.Dálcio

  2. Caro Antonio,A respeito da Tropa de Choque na UNESP e dos canaviais de Araraquara.Há grandes e pequenos (as) ditadores (as). Eu concordo com o artigo “Pequenos Ditadores”. Quero lembrar a destruição dos povos realizada pela Igreja Católica, em nome de Jesus Cristo.É claro que houve padres diferentes, bondosos. Mas a catequese é uma violência terrível, realizada por pequenos (as) e grandes ditadores(as). Qual foi o movimento mais destrutivo da histórica: a implementação do capitalismo no mundo, o catolicismo ou nazi-fascismo? A atuação da Igreja Católica ou do estalinismo internacional? Fica difícil responder, não?O único partido que militei, durante a minha vida, foi o Partido dos Trabalhadores. Pedi desligamento há um tempo, antes do Lulismo dominar por completo.Temos os pequenos ditadores (as) e os (as) grandes, o Papa é onipotente, muito perigoso. O Papa penetra, facilmente, na alma dos povos, nos corações e nas mentes. Ele tem poder, tem a imprensa do seu lado e usa Jesus Cristo como símbolo e marca. Escolhe quem são os santos e santas. Tem todo um marketing avançado ao seu lado, a mídia etc.Hoje temos a ideologia do empreendedorismo capitalista penetrando em todos os cantos, democraticamente. O empreendedorismo religioso, o eco-turismo etc.O marketing do etanol salvador é uma maravilha! Nos canaviais de Araraquara morrem proletários e proletárias de exaustão é o karoshi (morte por overdose de trabalho) rural. São mais de 8 toneladas de cana por dia, cerca de 9.700 golpes de podão. A mais-valia relativa e absoluta matam, silenciosamente. Para o grande Lula os usineiros são os heróis do século. Eu não vejo Tropa de Choque entrar nas usinas e prender os proprietários, os engenheiros e os gestores, ou seja, os gestores e gestoras que são educados(as) em universidades públicas e se comprometem com a exploração do seres humanos e a destruição da natureza, da mata ciliar etc. São grandes e pequenos ditadores e ditadoras do dia a dia… Sabemos também que as pobres teleoperadoras realizam um trabalho intensivo, o tempo médio de atendimento é de 29 segundos. Elas, a maioria são mulheres, têm 05 segundos para suas necessidades fisiológicas e 15 para alimentação, são obrigadas a reter a urina, engolir os alimentos. Ficam deprimidas, doentes. O medo é o sentimento estruturador do trabalho, a flexploração está presente. As proletárias são gerenciadas por pessoas educadas, com nível superior. É a democracia totalitária que avança, a universidade dá a sua contribuição, docentes têm a coragem de oferecer Cursos de Extensão pagos, excludentes… Haja violência, haja paciência! Haja Tropa de Choque!Este texto pode ser publicado (totalmente ou parcialmente) em todos os espaços e com minha assinatura. Felipe Luiz Gomes e Silva, professor da UNESP, Araraquara. felipeluizgomes@terra.com.br

  3. Companheiro OZAÍ. Um texto provocativo e inteligente. Pensar nosssa prática e fazer constantes autocríticas faz-se necessário urgentemente. Os valores autoritários nos espaços que se materializam nossa vida é cheio de embustes autoritários. São Chefes, professores, colegas, amigos e inimigos autoritários e o combate a tais práticas tornam nossa atuação cada vez mais urgente. Os pequenos stalins estão no sindicato, partidos, escolas, universidades a espreita de um líder autoritário para se realizarem. Na universidade é constante apresentarem mais elaboradamente e com ares de sapiência inquestionáveis. Mas no poder estão sempre botando as unhas de fora. Foi assim, recentemente na atitude de Serra ao controlar a produção de conhecimento e financiamento das universidade. Foi também no mesmo caminho o Requião (ele voltou atrás) quando editou o decreto 848. Controlar as universidades é sempre intento de autoritários no poder. O pensamento livre é obice no pensamento de pequenos stalins. Quando jutam-se, a humanidade sofre, mas com mais intensidade, sofrem a classe trabalhadora.A combate ao autoritarismo não pode neste momento deixar de defender as minorias, o gênero e a sexualidade livre à orientação de cada um. Abraços fraternoPARABÉNS PELO DEBATE PROPOSTO!!!

  4. Prezado professor Ozaí:Seu texto apresenta uma reflexão que, longe de aplicar-se apenas ao cenário político pode ser vivenciado também nas universidades públicas.Não é nosso propósito adentrar em uma análise de cunho político mais aprofundada.Basta refletir um pouco sobre formação humana nas universidades.Ou seja:recursos e tempo para a mesma são praticamente inexistentes.O que se prioriza é a formação tecnológica pura,o tecnicismo alienante que serve para alimentar tanto a produção de bens, quanto o consumos desefreado dos mesmos.Professores são avaliados, mas a a valiação é dissociada da formação e,portanto,vazia em significados.O cenário reproduz a opressão de quem se dispõe ao pensamento crítico.Ou, então,o professor crítico fica relegado a um pseudo-lugar,àquele espaço que não é olhado,até mesmo para não ser visto.O anonimato é o equivalente da exclusão.Neli Klix Freitas

  5. Ozaí, Brilhante texto. Suas reflexões, baseadas em Lukács, nos remete a analisar a sociedade como fruto de um processo histórico, com vários determinantes sociais responsaveis pela formação da realidade concreta; nos faz entender que não existe nada na natureza ou em qualquer sociedade que não seja provido de mediações. As mediações existem independente da vontade ou da consciência humana. (Lukács, G. Ontologia do ser social. São Paulo: Ciências Humanas, 1979). Não obstante, os “pequenos Stalins” das universidades ou de qualquer outra burocracia estatal ou privada, embora muitos não admitam, são influenciados por elementos fitichizadores e alienante, como por exemplo o status quo que proporciona um cargo de chefia, muitos se submetem a qualquer coisa para consegui-lo, mesmo que as ações desse cargo sejam humanamente “incorretas”.Um grande abraço, Silvio.

  6. Caro Ozaí,É bom, de vez em quando, reler páginas como as de Lucacs e você foi muito feliz relembrando esta carta. Concordo com algumas de suas colocações sobre os “pequenos ditadores”, mas creio que eles não estão somente nas IES e instituições públicas. Podemos encontra-los nas empresas privadas de educação e de negócio.

  7. Caro Ozaí.Que texto atualíssimo. Como vai longe a relação entre o conceito e o gesto, ou entre o discurso e o gesto. Caro, como tem “pequenos stalins”, reproduzindo incessantemente as práticas autoritárias. Belo artigo. É sempre oportuno lembrar este tema de prática tão recorrente na relação com o poder.

  8. Olá, Ozaí!Grande texto!Realmente descreve muito bem, com rara acurácia, a conduta de certos colegas que temos no meio universitário.O Stalinismo, em particular, salta aos olhos!!

  9. OZAÍ, muito obrigado por me enviar este texto. Sou professor numa Instituição Federal de Ensino e temos vivido experiências como a que é relatada por George Lukács. Infelizmente isto tem acontecido, não só em Escolas, mas também em empresas. Talves seja necessário estudarmos mais os métodos de gestão que, hoje em dia, estão esquecidos por quem assumem cargos diretivos.

  10. Pois é amigo Ozaí! Quanto mais observo o mundo e as relações humanas mais me convenço de que Marx tinha razão quando dizia que não são as idéias que constroel a realidade e sim contrário. Mas é claro, compreendo que tal afirmação não pode ser recortada de forma que se torne um determinismo. Ou seja, é claro que é preciso entender que aí também há processo dialético. Mas algo me incomoda nesse comentário que você fez: uma boa parte das pessoas conseguem estabelecer constradições e incoerências impressionantes entre suas idéias e suas ações e comportamentos. De fato, a Universidade (como qualquer outra instituição burocrática), infelizmente, está cheia de indivíduos incoerentes do ponto de vista de suas idéias. Existem ainda aqueles que claramente permitem que a realidade mude completamente seu pensamento (aí conceito Marxista aparece de forma mais pura – a meu ver. É o caso, por exemplo, do Excelentíssimo senhor Presidente, que já “amadureceu” o suficiente para achar que esquerdismo é infantilidade, “coisa da juventude”.Mas voltando ao assunto das universidades, caro amigo, devo lhe fazer uma crítica. É impressionante, como a maioria das pessoas que têm a noção dos desvios de coerência entre teoria prártica, obervam isso, conseguem fazer a leitura e interpretação da realidade, mas, por outro lado se esquivam de tomar decisões ou de participar da direção vida acadêmica. Me parece (e só me parece)que em boa medida esse é o seu caso. Me parece também que enquanto for assim, esses indivíduos que se deixam seduzir pelas migalhas do poder continuarão produzindo os seus desmandos diários.Com todo o respeito e admiração que tenho por você enquanto amigo e profissional,Fraternalmente,Givaldo. P.s. Assim como vc. estou aberto às críticas, dado que até não estou muito seguro acerca da validade de minhas observações. rs.

  11. Ola, Ozaí. Muito bem lembrado o excelente texto do Lukács. Em síntese, ele diz que o stalinismo existe independentemente de stálin. Creio que isto se aplica a qualquer estrutura de poder. Na universidade, porém, as conseqüências são mais graves do que na padaria da esquina.abraço e bom fim de semana.Paulo

  12. meu querido amigoAinda bem que a internet existe e pessoas como voce não me deixam abandonada ao sentimento de solidão diante dos pequenos ditadores!A capacidade de mentes brilhantes em refletir sobre a contemporaneidade é o que as tornam especiais. Agradeço por lançar luzes em minhas reflexões!

  13. meu querido amigo, ainda bem que a internet existe e há essa possibilidade de encontrar diálogos com pessoas como voce que não te deixam se sentir só diante dos pequenos ditadores! Essa característica de contemporaneidade que podemos encontrar em mentes brilhantes nos ajudam a entender melhor nossa realidade! te agradeço por lançar luzes às minhas reflexões!

  14. Ainda que me falte o contexto, essa história nao é nova … Espaços criados para elites, trazem os vícios inerentes …

  15. Caro Ozaí, achei o texto interessante e, ao mesmo tempo, provocativo, pois, belisca alguns comportamentos políticos típicos de organizações e lideranças que se apresentam no cenário político como “socialistas”. Entretanto, chama-me a atenção outro fator: se, por um lado, estas organizações ou lideranças têm hoje pouquíssimas influências sobre o cenário da luta popular, por outro, em nosso frágil regime democrático, que tem se resumido ao aspecto eleitoral, os dirigentes políticos e administrativos, dos escalões mais altos aos mais baixos, têm recorrido aos métodos autoritários para fazerem valer seus “programas” – normalmente escamoteados quando das eleições. Refiro-me, evidentemente, aos cargos providos por meio eleitoral o que, para mim, é um paradoxo. Assim, quando se referiu às universidades públicas, imaginei que ia nos apresentar exemplos destas práticas autoritárias por reitores eleitos por suas respectivas comunidades acadêmicas. Sem querer, evidentemente, fazer qualquer observação política de forma superficial, mas constato que neoliberalismo e democracia, nas terríveis condições sociais brasileiras, têm fortes traços de incompatibilidade e, por isto mesmo, recorre-se, cada vez mais, a práticas autoritárias para a implantação de políticas de caráter antipopular.

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