Em qual século estamos mesmo?!

Apesar do passar do tempo, do desenvolvimento científico e dos abalos provocados pela modernidade, o pensamento humano parece preso ao passado. Vejo a mídia, escuto palavras santas e começo a duvidar da capacidade humana de se libertar dos fantasmas que oprimem os nossos cérebros. O mundo gira, o tempo se esvai, a vida avança para o seu desenlace, mas o passado persiste. A voz que escuto parece reproduzir o sussurro medieval do grito da religião contra a modernidade laica e desafiadora das tradições e da moral que sustenta o poder espiritual.

Avanço no tempo e, então, recordo as palavras de D. Félix Sardá i Salvagny, autor de obra contra o liberalismo. O livro teve o beneplácito da Sagrada Congregação Romana do Índice, responsável pela censura eclesiástica, e foi publicado em 1884, na Espanha e em oito línguas.* O liberalismo é pecado, afirma D. Félix, pois:

“Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de
enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos”.

Volto ao presente e tenho a impressão de ouvir D. Félix. Faço exame de consciência e concluo que não estou louco. Portanto, sou um herege e pecador. Se as idéias do liberalismo eram pecaminosas, que dirá as minhas? Estou condenado! Resta a esperança de que o inferno não seja tão dantesco!

* No site http://revista.permanencia.org.br/politica/liberalismo.htm o leitor tem acesso a parte da obra.

Um comentário sobre “Em qual século estamos mesmo?!

  1. Ozai,O liberalismo condenado pelo religioso espanhol não pode exatamente ser equiparado ao liberalismo econômico na acepção moderna da palavra. O contexto é o da luta de idéias entre o confessionalismo, ou seja, a religião de Estado e o principio religioso como norma de vida, e a afirmação das idéias liberais no sentido no laicismo, do livre-arbítrio, do Estado desvinculado de qualquer religião. Essas idéias “reacionárias” foram particularmente virulentas na Espanha, na Itália, na Bélgica e na Áustria, onde o catolicismo era mais vigoroso, do que nos demais países catolicos, onde o protestantismo tambem era forte (Holanda, França, Alemanha, nos paises escandinavoso em geral). Acredito que não se pode fazer uma leitura literal do anti-liberalimo desse religioso espanhol.

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