Os novos cruzados e a militância virtual

[publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.com.br/ , em 20.05.07]


Não há sistema anti-spam que resista. Todos os dias recebemos dezenas de mensagens não solicitadas.[1] Boa parte delas são geradas por mecanismos de captura de emails e enviadas automaticamente para milhares de máquinas. São propagandas, vírus, pegadinhas, golpes etc. Esse é o efeito colateral da internet.

Os cruzados da nova era, com tempo e condições para navegar pelos gigabytes do mundo virtual, apelam aos slides em formato Power Point para divulgar imagens e palavras que purificam e santificam os crédulos e os necessitados; fortalecem os corações angustiados e ensinam o caminho da salvação. É a moral religiosa literalmente dissolvida no ar para se concretizar em símbolos midiáticos no monitor à nossa frente. Isso sem falar nas correntes dos que sempre estão ocupados em salvar a alma dos outros, que prometem o paraíso, mas avisam que é preciso enviar a tal mensagem para outras tantas almas sofridas e também necessitadas da salvação. O esforço é tão estupendo que correm o risco de esquecerem de si mesmos e se perderem no lodaçal das boas intenções.

A rede é democrática, há espaço para todos. Até mesmo para os que agem religiosamente sob a máscara de ideologias seculares e racionais. Também estes querem convencer com palavras e imagens que procuram chocar corações e mentes. Muitas vezes é duvidoso não apenas a fonte, mas até mesmo o que aparece diante dos nossos olhos. A exemplo dos que prometem o paraíso celeste, os “apóstolos da razão”[2] passam e repassam sem se perguntarem sobre a veracidade, a origem e mesmo se não é montagem, manipulada por recursos que a tecnologia oferece. É um tipo de marketing que se dirige aos convertidos, consumido e difundido por estes.

Os novos cruzados, religiosos ou laicos, utilizam o teclado e os recursos dos seus computadores como trincheira e artilharia. São os novos militantes em ação.[3] Enviam as últimas notícias dos principais jornais do Brasil e do mundo, para informar e formar a consciência, libertando-nos do pecado da alienação. Repassam manifestos, abaixo-assinados e campanhas, que exigem imperativamente a nossa adesão. E, é claro, também boicotes e movimentos internáuticos. Ora a moda é boicotar um determinado filme; ora é desligar os computadores em determinado dia e hora, durante certo período, pela salvação do planeta. Essa, então, chega a ser hilariante.

Não sou contra o uso da internet para fins políticos e de divulgação de ideologias sagradas ou profanas. Contudo, penso que é necessário usar conscientemente e de maneira respeitosa. Até porque se não utilizamos a tecnologia adequadamente os resultados podem ser o oposto do que pretendemos. A difusão pela rede sem a devida organização política e social que a sustente tende a ser ineficaz. As idéias precisam se materializar para terem força e influírem sobre a realidade. E os neo-cruzados, que insistem em transformar a moral que defendem em ideal imperativo e universal, deveriam se perguntar se é coerente e ético insistir no proselitismo invasivo.

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[1] Sobre os usos e abusos do email sugiro texto disponível em http://www.espacoacademico.com.br/008/08politica.htm, Revista Espaço Acadêmico, nº 8, janeiro de 2002.
[2] Sugiro a leitura de: “Os Apóstolos da Razão: a Sacralização da Política”, REA, nº 17, outubro de 2002. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/017/17pol_relig.htm
[3] Ver: “Internet e militância virtual: a revolução está no ar”, REA, nº 24, maio de 2003. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/024/24pol.htm

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