Direita e Esquerda

Em 1991, encerou-se um ciclo histórico: a crise do socialismo real e das chamadas democracia populares. A desintegração da URSS e a implosão da Iugoslávia propiciaram o surgimento de vários Estados-Nacões. Intensificaram-se as lutas separatistas, acirraram-se ódios e vieram à tona antigos preconceitos e disputas territoriais. Os comunistas foram substituídos por governos, em sua maioria conservadores, empenhados em restaurar os valores capitalistas. Foi o fim do ciclo iniciado com a Revolução Russa de 1917 e o esgotamento da bipolaridade que marcou a guerra fria. A hegemonia militar dos Estados Unidos se impôs, especialmente a partir da Guerra do Golfo.

Esta conjuntura fortaleceu o ideário neoliberal, o novo credo fora do qual não haveria salvação. Os governos sociais-democratas não saíram incólumes deste processo. Os ventos neoliberais somaram-se à crise do modelo taylorista-fordista de acumulação de capital. Instaurou-se um movimento de desmonte do Welfare State, o Estado de bem estar social, investindo-se contra direitos conquistados pelos trabalhadores.

A política neoliberal gerou desemprego, precarização do trabalho, acirramento do clima de insegurança e incertezas e da concorrência entre os trabalhadores. Nestas condições, os que mais sofrem são os jovens, que ficam sem perspectivas, os idosos e os pobres em geral, que se vêem abandonados pelo desmonte da rede de proteção social e inculpados pela própria miséria. As tensões sociais e políticas se intensificam.

Neste contexto histórico-social, os velhos e novos ódios e intolerâncias racistas e xenófobas foram estimulados. A direita e a extrema-direita responsabiliza os imigrantes pela crise econômica, pela escassez dos empregos e a crescente violência urbana. Os nacionalismos e a insegurança geral impuseram a busca de bodes expiatórios.

A esquerda tributária do socialismo autoritário vinculado às experiências históricas da ex-URSS e do leste europeu sofreu as conseqüências da queda do muro de Berlim. Ninguém escapou ileso aos tijolos arremessados. Na ânsia de se desvincular da tradição, muitos renegaram o próprio passado, oscilaram para o lado oposto do pêndulo e passaram a fazer coro à ideologia neoliberal, cujas benesses parece justificar. A crise da esquerda gerou a crise da utopia e criou um vácuo ideológico. Governos eleitos em torno de um programa de esquerda praticam a política da direita.

O realismo e pragmatismo da esquerda eleitoralista abrem espaços para os extremos. Constituí-se um caldo cultural, econômico e social propício ao crescimento da política xenófoba e racista. Ela aposta que o medo e a insegurança despertem o desejo de submissão à autoridade. A personalidade autoritária não sobrevive sem que os indivíduos se submetam. Ambos, dominadores e dominados, regridem a estágios de infantilidade: os primeiros necessitam demonstrar força; os segundos imaginam suprir a fragilidade pela proteção do outro.

A política direitista potencializa preconceitos que estão latentes em muitos de nós: idéias que temos sobre o negro, o homossexual, o judeu, o nordestino, enfim, o diferente, o de fora. Ela se arroga o papel de paladina da tradição e dos costumes. Seus fundamentos filosóficos repousam sobre a naturalização dos processos sociais, econômicos e políticos e numa concepção elitista e hierárquica da sociedade.

A direita e a extrema-direita e se fortalecem. A esquerda cai nas armadilhas do realismo político e se mostra incapaz de adotar até mesmo um programa político reformista. Os tempos sombrios são propícios para fecundar o ovo da serpente. Mirem-se no exemplo da Polônia, França e…

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* Publicado originalmente em
http://antoniozai.blog.uol.com.br/, 07 de maio de 2007.

Um comentário sobre “Direita e Esquerda

  1. Meu caro Ozaí, aproveitando a sistemática deixa do teu blog sobre “sugestões, críticas e contribuições”, nada a criticar somente sugerir. Não sei a tua formação, ao que tudo indica você navega em ciências humanas. Sou engenheiro, claro que mais sistemático e cartesiano…Os últimos acontecimentos políticos, sociais e aéreos no país têm revelado um país pobre de inteligência, fraco em suas ações, no mínimo risível no combate à corrupção. O que mais me atordoa é a falta de competência e um excesso muito grande de incompetência, que é mais grave do que a falta.Pelo que eu consigo avaliar teu blog tem uma profundidade grande no mundo acadêmico ou estou equivocado. De qualquer forma venho te propor uma discussão mais ampla da situação nacional.Espero que não seja uma contribuição contra teus princípios ou os princípios que norteiam o teu blog.À disposição para dialogar, forte abraço e bom fim de semana,Cyro Laurenza

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