Jornalistas e Cientistas Sociais

“Ser, dizia Berkeley, é ser percebido”. Intelectuais em geral lutam pelo direito de serem percebidos. Sabem que só existem enquanto tais se forem reconhecidos por seus pares e notados pela mídia. Não basta ser percebido, é preciso ser “bem-visto pelos jornalistas (o que implica muitos compromissos e comprometimentos)”. Para os intelectuais, a mídia é “uma espécie de espelho de Narciso, um lugar de exibição narcísica” (BOURDIEU, 1997: 16-17). Jornalistas manuseiam o “espelho de Narciso”. Como Parcas modernas, manipulam os cordões da vida e morte social e tem o poder de conceder visibilidade. Sem eles, os cientistas sociais inexistem.

Milan Kundera, em A Imortalidade, afirmou que a glória jornalística tinha como símbolo Ernest Hemingway: “Toda a sua obra, assim como seu estilo sóbrio e conciso, tem origem nas reportagens que o Hemingway muito jovem mandava aos jornais de Kansas City. Ser jornalista significava, então, aproximar-se mais do que qualquer outro da vida real, escavar seus recantos mais escondidos, mergulhar as mãos ali e sujá-las. Hemingway orgulhava-se de ter escritos livros que são ao mesmo tempo tão terra-a-terra e colocados tão alto no firmamento da arte” (KUNDERA, 1990: 111).

Jornalistas como Hemingway e George Orwell são raros. Predominam profissionais do estilo Oriana Fallaci, italiana que nos anos 1969-1972 ficou famosa com a série de entrevistas com políticos publicadas na revista Europeo. Entrevistas que eram duelos. “Antes de compreender que lutavam com armas desiguais – porque era ela que podia fazer as perguntas, não eles – os políticos todo-poderosos rolavam K.O. no estrado do ringue”, escreve Kundera (Id.).

Eis o que caracteriza o poder jornalístico. Como salienta o escritor tcheco: “Os jornalistas compreenderam que questionar não era apenas o método de trabalho do repórter desempenhando humildemente uma entrevista com seu caderno de notas na mão, mas sim uma maneira de exercer o poder. O jornalista não é aquele que faz as perguntas, mas aquele que detém o direito sagrado de fazê-las, e de fazê-las a qualquer pessoa, sobre qualquer assunto” (Id.).

Pode-se argumentar que o direito de perguntar cabe a qualquer indivíduo. Porém, esclarece Kundera, “o poder do jornalista não se fundamenta sobre o direito de fazer uma pergunta, mas sobre o direito de exigir uma resposta” (Id., 112).

Talvez o romancista tenha sido rigoroso. Nem todo profissional abusa deste “direito”. Muitos são compreensivos. Mas há os impertinentes. Uma vez, por exemplo, tive que discutir com um profissional que não aceitou minha recusa à entrevista e exigiu justificativa. Imagino a perplexidade do jornalista diante da recusa do intelectual a se ver no “espelho”, a conceder entrevista.

De outra feita, tive que ouvir uma espécie de lição de moral: o entrevistador esclarecia que, na minha posição, era uma obrigação atender à solicitação. A impertinência beira o desrespeito. Certa vez observei que o entrevistador mal prestava atenção às minhas respostas. Apenas seguia o script. Todavia, talvez nada seja pior do que a manipulação da entrevista.[1]

Não obstante, há jornalistas e jornalistas. Como nota Pierre Bourdieu (1997:30), “o jornalista é uma entidade abstrata que não existe; o que existe são jornalistas diferentes segundo o sexo, a idade, o nível de instrução, o jornal, o meio de informação”. Todos com o poder de perguntar e exigir respostas!

Ser é aparecer

Numa sociedade onde ser é aparecer, os cientistas sociais precisam intensamente da mídia para se fazer presentes. Se não aparecem, não existem. Mas eles têm que oferecer algo. Sua moeda de troca é o saber douto que pretensamente dominam. Sua fala é autorizada pelo diploma, titulação e o lugar que ocupam na sociedade. Em tese eles têm o que falar, mas devem se adaptar ao tempo da mídia.

A mídia trabalha num tempo diferenciado, o tempo da urgência. É possível pensar em profundidade diante da exigência da brevidade? O argumento elitista, desde Platão, pressupõe que o pensamento é próprio de indivíduos privilegiados, aqueles que dispõem das condições materiais para pensar, enquanto a maioria sucumbe às necessidades imediatas que a vida cotidiana impõe. É elitismo porque, invariavelmente, não se interroga sobre o privilégio.
De qualquer forma, há um elo importante entre tempo e pensamento. A reflexão exige maturação, algo que o tempo da mídia não permite. O cientista social é pressionado a fornecer respostas imediatas, sob o risco da superficialidade e de reproduzir o senso comum. Sempre há quem aceite cumprir o papel que a mídia espera. Há a necessidade de se ver refletido no “espelho de Narciso”. São intelectuais e especialistas de todos os tipos dispostos a falar sobre qualquer assunto.
O trabalho jornalístico é legitimado pela fala do intelectual. Ele dá ares de veracidade científica. Os especialistas têm a autoridade da titulação e da instituição à qual estão vinculados. Ainda que suas palavras se restrinjam à doxa, isto é, reprodução da crença e da opinião do senso comum, elas são proferidas por alguém que ocupa um espaço específico e representa uma determinada condição social que, em si, atesta autoridade. Além disso, o discurso é adornado por recursos da linguagem acadêmica e/ou pseudo-científica, que fortalece ainda mais a imagem de que o seu emissor é a autoridade.
Nem sempre a impressão corresponde à realidade. O cientista político, por exemplo, pode simplesmente repetir o que a opinião comum, qualquer cidadão bem-informado, sabe. O que garante que a opinião do cientista seja a mais importante? Ele, o politicólogo, como o sociólogo e outros “logos”, tem o status e a autoridade a priori e sua fala parece mesmo ser mais importante e fundamentada do que a do político, do militante social ou das pessoas comuns em geral. Será que ele, o cientista social, tem consciência disso?
A mídia define a pauta e os especialistas legitimam o discurso que parece mais apropriado diante das chamadas questões sociais. Discursos pela ética na política, pela cidadania etc., constituem exemplos da superficialidade intelectualóide e da rendição do intelectual à urgência da mídia e à moral socialmente dominante. Isto ocorre porque a mídia tem o poder da consagração. O intelectual que sempre está presente na mídia é admirado, reconhecido e tratado quase como oráculo. Sua fala influencia e pode determinar atitudes. Suas referências teóricas, culturais e literárias contribuem para os modismos.
Entre o jornalista e o cientista estabelecem-se relações de conveniência. O jornalista tem sempre à mão a lista de contatos dos que potencialmente podem opinar sobre os mais variados temas. Há mesmo os polivalentes, os que falam praticamente sobre tudo! E como existir é aparecer na mídia, não constar do index do departamento de jornalismo da rádio, TV e/ou jornal impresso “x” e “y”, significa praticamente a morte social. Se a recusa parte do intelectual, por exemplo quando se nega a conceder uma entrevista, então é suicídio.

Referências
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. RJ: Jorge Zahar Editor, 1997.
KUNDERA, Milan. A Imortalidade. RJ: Nova Fronteira, 1990
.

_________
* Publicado em 01.04.2007 e 23.04.2007, em http://antoniozai.blog.uol.com.br
[1] Tive uma experiência deste tipo relatada em “A Revista Veja, o PT e as Tendências” [http://www.espacoacademico.com.br/018/18pol.htm]

3 comentários sobre “Jornalistas e Cientistas Sociais

  1. Caro Pedro,obrigado por acessar e deixar o seu comentário. O texto foi publicado originalmente no blog que mantenho no UOL. Na medida do meu tempo e condições, providencio a transferência daquele para o blog atual. O anterior será excluído da rede tao logo o processo esteja concluído. Eis a explicação…Obrigado.Abraços e tudo de bom,Ozaí

  2. Aprendemos isso na Universidade,na prática. Para que nossas teses tenham valor, ou seja, sejam válidas, temos que sempre citar alguma “autoridade no assunto”. Nos estimulam a escrever nossas prórpias idéias, mas sem argumentação já exposta e publicada por algum “intelectual de peso”, de nada valem, ou seja, não existirão, pois eis que não aparecerão de jeito nenhum, serão refutadas.Muito bom o seu texto, demonstra o controle que é exercido em toda parte.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s