Sobre a morte

Na vida há alegrias e tristezas. Tempos que recordamos com intensa saudade, mas também feridas que teimam em não cicatrizar. Instantes que marcam até o último suspiro quando a vida se esvai. A morte: eis o momento supremo que deixa marcas indeléveis em nosso ser. Quem perdeu um ente amado sabe o significado dessas palavras. O corpo dilacerado pela dor, a perplexidade diante da tragédia, a não aceitação da triste realidade. A revolta, o silêncio que fala por si, os gritos de desespero, o choro convulsivo. Reações radicalmente humanas que revelam o quanto somos frágeis. A morte é o momento em que, intensamente, reconhecemos a tragédia humana expressa na finitude do ser. Eis a verdade absoluta.

Mas há várias formas de viver, e de morrer. A dor e o sofrimento caminham de mãos dadas com morte. Contudo, é mais fácil se reconciliar com a morte quando esta nos parece mero resultado da obra que a natureza opera. Há mortes que até desejamos, ainda que seja difícil admitir. Não me refiro, é claro, ao instinto assassino de alguns, mas àquelas situações em que o sofrimento é tanto que a morte surge como a solução desejada. Não é por acaso que a sabedoria popular se refere ao morto como alguém que, enfim, descansa em paz. Mas como se resignar diante da morte inesperada tragicamente anunciada? Não é fácil.

Se a morte é a única certeza absoluta que temos, nem por isso a aceitamos e ela parece sempre distante de nós. Na verdade, não aprendemos – e talvez nem o queiramos – a nos relacionar com esta certeza, com a idéia de que ela nos espera e não enviará aviso prévio. Vivemos como se fossemos eternos e, em muitos casos, até agimos como deuses. A vaidade nos cega, mas também nos protege. Se não somos capazes de aceitar a fragilidade inerente ao humano, talvez seja melhor viver como se fossemos indestrutíveis. Afinal, para que sofrer antecipadamente?

O problema é que as máscaras e subterfúgios não evitam a hora da verdade; não nos livram do sofrimento que a realidade impõe. Talvez vivêssemos melhor se aceitássemos a morte. Na medida em que aceitamos a nossa natureza finita, nos humanizamos e nos tornamos menos arrogantes. Talvez isso nos ajude a sermos mais indulgentes com a arrogância dos outros. Quem sabe adquiramos consciência do quanto é ilusória a pretensa superioridade humana sobre a natureza e outras formas de vida.

Mesmo assim, não se extinguirá o sofrimento. A dor dilacerante ainda se fará presente. Nos resta tentar compreender. E compreender com o sentimento. Se a razão nos leva a refletir sobre a morte, a nos reconciliar com sua fatalidade, é o sentir que nos faz vivenciar tal experiência com a intensidade que apenas o humano é capaz. Certa vez abracei um pai que velava o filho, morto prematuramente. Ele não compreendia, pois os filhos devem sepultar os pais e não o contrário. Não existem palavras capazes de fazer aceitar o inaceitável. Ao abraçá-lo, compreendi. Nunca esqueci a sensação compartilhada neste simples ato de solidariedade.

Em tempos de tragédias coletivas, as palavras são insuficientes. Só nos resta tentar compreender os gestos, choros e gritos que expressam a dor que parece infinita, a dor que também nos toca. Ainda que não conheçamos os homens e mulheres que exprimem essa dor dilacerante, ainda que não sejam do nosso convívio, sofremos ao vê-los sofrer. Não há como ficar impassível diante das imagens que os olhos registram. É também na dor que nos reconhecemos no outro, que constatamos o quanto frágil é o humano. Este reconhecer-se no sofrimento do outro diante da morte é também uma tentativa de entender a si mesmo enquanto seres humanos que somos.

17 comentários sobre “Sobre a morte

  1. Excelente texto!…Parabéns, Ozaí.
    Quem sabe se esses sentimentos de dor e compreensão da finitude, não levem o ser humano, portanto social, à compreensão de que está colocado e de certa forma, aceita, ser tratado como coisa e não, ser humano.

  2. Professor, este texto ficou maravilhoso, lindo e capaz de despertar mtos sentimentos! Quem passa por esta experiência de perda não consegue deixar de se emocionar com estas linhas incríveis com que vc nos presenteou. Parabéns e obrigada!

  3. Estimado amigo Ozaí:Usted tocó ahora un tema muy fino para la sensibilidad humana que en muchos casos hombres y muejeres prefieren ocultar. Al leer vuestros apuntes recordé inmediatamente un libro que leí el año pasado, se trata de Fernando Savater y “Las preguntas de la Vida”, en la que despliega una cantidad impresionante de preguntas en este tiempo veloz de la cibernética y a la cual solo puede contestar algunos como es el tema de la muerte desde la filosofía. Recomiendo, humildemente, a vuestros lectores el cap.1. La muerte para empezar. Siempre está rondando por mi cabeza esa idea y el dolor que registra la vida humana cuando el padre siente la muerte de su hijo y la experiencia que le toca vivir. Al leer vuestra nota me animé a escribirle estas cortas y humildes reflexiones.CordialmenteCesar Espinoza ClaudioUNMSM, Lima, Perú.

  4. Ozaí, as pessoas não morrem. Elas permanecem para sempre em seus atos e no encadeado de coisas que os seus atos determinaram. Elas permanecem como memória e como falas introduzidas na linguagem; permanecem como imagem e movimento. Apenas o corpo morre, o corpo apenas. Mas esse ainda vai adubar as plantas, dá emprego ao coveiro, existência às empresas funerárias, registros e mais registros em todo tipo de instituição. Se ela tiver um orkut, será eternizada.

  5. O texto está muito bom Ozaí. E só lamento vc ter colocado a foto referente ao acidente aéreo. Há tantas mortes nesse país e no mundo: penso agora em Timor Leste, Haiti e no holocausto atual contra os negros africanos…Todos os anos morrem centenas de pessoas devido aos deslizamentos de terra em período de chuvas e não há nenhum luto, nenhuma comoção coletiva. Num país em que o sistema estatal de saúde mata as pessoas cotidianamente e em que o sistema estatal de ensino assassina socialmente outros milhões, a morte é nao só objeto de reflexão, mas ameaça cotidiana. Não é o caso desses bem colocados que fazem parte da ínfima parcela que tem o luxo de viajar de avião. Mas a morte dos pobres nao é interessante para a Folha de São Paulo, para a rede Globo, e grande mídia em geral. Se esse acidente (?) nao me causa regozijo – posso lhe afirmar- tampouco me causa pesar.

  6. Olá Ozaí,Costumo ser uma leitora silenciosa, leio todos seus textos, reflito e apago… Mas, este me tocou profundamente pela simplicidade e sensibilidade. Obrigada!

  7. Não tenho muito o que dizer apenas manifesto minha perplexidade diante de duas tragédias aéreas ocorridas num espaço de tempo curtíssimo. Refletir sobre a morte é algo inevitável, até porque é única coisa certa para todos os seres vivos. Desastres como esses nos deixam extremamente sensibilizados para pensarmos um tema tão díficil que é a morte.Parabéns pelo texto Ozaí.João Paulo JanuárioMarília – SP

  8. Seu melhor texto, o mais sensível e,talvez, consciente.A Consciência nessas horas some…Também é a melhor coisa que li sobre toda essa tragédia. Acho que foi a primeira coisa sem sensacionalismos que li.Parabéns!

  9. Para refletirmos: onde andam os poetas surgidos a partir das mortes da ditadura militar brasileira entre os anos 1964/85?

  10. Complicado é o governo tomar “atitudes” somente depois de tragédias. Enquanto isso famílias são destruídas, lares sem pais, pais sem filhos… Parabéns pelo seu Texto Ozaí..

  11. A morte é como se fosse a alma gêmea da vida, esperamos sempre algum dia encontrá-la. Sem saber quando, sem saber o porquê, para ela caminhamos, como se fosse um caminho certo e necessário.Pensar a morte dói, esperar sua chegada, ou seja, viver, também dói.Ficamos perplexos diante do que não compreendemos, e sofremos, por nós e pelo outro, porque tanto num quanto no outro, isso faz parte da nossa unidade. E isso não podemos negar, pois, sentimos.Seu texto é de uma profundidade reflexiva inspiradora. Brilhante!

  12. Prezado OzaíSeu texto me trouxe profunda emoção. Já vivi a dor de perder o marido em acidente aéreo, em 1991. A perplexidade diante do irrecuperável é paralizante. Só com uma visão espiritualizada se pode aceitar e sobreviver a uma tragédia de tal magnitude: nada acontece por acaso; está escrito nos evangelhos que nem uma folha cai da árvore, sem que Deus permita, quanto mais a vida do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.Parabéns por sua sensibilidade.Maria José Machado de Almeida

  13. Prazado Ozaí,pensei em lhe dizer várias coisas após ler o post de hoje, mas vou lhe dizer apenas uma, e não pense que se trata de algo pueril: esse foi, sem sombra de dúvidas, o melhor texto que li em seu Blog!Giovanni

  14. Caro Ozaí,Sabemos que a morte é certa e em muitos momentos inevitáveis, mas no Brasil recente as mortes estão sendo cada vez mais estúpidas e absurdas como o acidente com o avião da Gol, e o mais recente da TAM. Além é claro, das mortes no transito, violência, balas “perdidas”, fome e miséria.Não podemos achar que mortes assim são comuns sendo na realidade uma barbárie.Roberto Saraiva RomeraSBC – SP

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