Palavras não sentem, não sofrem, não sangram!

“Testemunhei em primeira mão a força das idéias. Vi gente matar em nome delas. E morrer defendendo-as. Mas você não pode beijar uma idéia, não pode tocá-la ou abraçá-la. Idéias não sangram. Idéias não sentem dor. Elas não amam.”
[do filme “V de Vingança”]

As palavras não sentem, não sofrem. Não produzem ferimentos, não fazem jorrar sangue e não matam. Os que ferem, que derramam sangue inocente e que exterminam vidas são homens e mulheres em carne e osso. Mesmo a dor e o sofrimento psicológico não são provocados pelas palavras, mas por quem as dizem.

Não obstante, as palavras não são indiferentes ao mundo real, às pessoas reais. É através delas que concretizamos nossas ações. Com elas amamos, sofremos e morremos. Com elas, nos alegramos, nos entristecemos e sonhamos. Mas elas também podem nos levar a matar os sonhos, as esperanças e os indivíduos. Sintetizadas em slogans e apoiadas em crenças religiosas ou laicas, elas têm o poder de convencer e justificar os atos mais medonhos, perpetrados em nome da humanidade e ideologias.

As palavras têm o poder de mover multidões. Marco Antônio, com o cadáver de César em seus braços e sem acusar diretamente os seus inimigos, enfrenta a multidão indócil e a convence a se voltar contra Brutus e os conspiradores. Os seus argumentos vão do elogio ao desvelamento da culpa. Esta aparece à massa como se surgisse do seu próprio meio. O orador apenas a pôs em movimento. “Agora é deixar acontecer. Intriga, vós estais em marcha; tomai o curso que for de vossa vontade!”, afirma.[1]

As palavras são conceitos e idéias. Quantos matam e morrem em nome da religião e ideologias? Em nome de Deus cometem-se as mais horríveis atrocidades. Palavras que se transubstanciam em fanatismo e fundamentalismos.

Nacionalismo. Quanto ódio foi destilado em seu nome? “A gente se atira sobre um homem que não fez nada, morde, corta seu nariz, arranca-lhe as orelhas, abre sua barriga e tudo isso pedindo a ajuda de Deus. Quer dizer, pede-se a Ele que também corte narizes e orelhas e abra barrigas”, diz Zorba a respeito da guerra entre cretenses e turcos.[2] O nacionalismo não é, portanto, apenas uma palavra.

As ideologias fazem jorrar sangue e causam feridas que não cicatrizam. As idéias se materializam em homens e mulheres vivos e reais que, a exemplo da religião, se dispõem a morrer e matar por elas. Elas tendem a gerar dogmas e crenças, uma espécie de religião laica que também produz fanáticos fundamentalistas. São palavras que se concretizam em sistemas políticos. Idéias que precisam ser defendidas por todos os meios. O verbo se faz carne e age através dos homens e mulheres. Religiões e ideologias dão sentido às palavras e à vida dos indivíduos. Elas brotam do solo histórico e da experiência humana.

É preciso ter cuidado com as palavras. Elas não estão soltas no ar. Elas podem fazer sofrer, ferir e matar. Basta apenas que encontrem, naqueles que falam, lêem e escutam, os instrumentos propícios para a ação. Elas podem alimentar a intolerância, a inquisição e as ditaduras modernas. Mas também podem nutrir os que defendem a liberdade. A escolha é de cada um de nós!

__________
** Publicado em http://antoniozai.blog.uol.br, 27.03.2007. Ver também: “Ainda sobre as palavras”, disponível em http://antonio-ozai.blogspot.com, de 29.05.2007.
[1] SHAKESPEARE, W. Júlio César. Porto Alegre: L&PM, 2003, pp. 82-91.
[2] KAZANTZAKIS, N. Zorba, o Grego. RJ: Nova Fronteira, 1978, pp. 19-20.

15 comentários sobre “Palavras não sentem, não sofrem, não sangram!

  1. costumo dizer que toda crise política é também uma crise da linguagem. Da linguagem representacional e da representação política. precisamos pensar mais a política e a linguagem em termos performativos[como na pragmática da linguagem de Wittgenstein, por exemplo)Pragma quer dizer ação em grego. A linguagem como a política são ações no mundo. O que os políticos fazem? Agem em nome do quê? Todo discurso é portador de signos ideológicos(Bakhtin – Marxismo e filosofia da linguagem). Vou ficando por aqui afirmando o caráter ideológico da linguagem e dizendo,como no início deste comentário, que toda crise política é também uma crise da linguagem. Axé!!!!

  2. Texto fecundo em intertextualidades. Consigo relacioná-lo à Análise do Discurso, na idéia das condições de produção de um discurso. As palavras sem vida não dizem nada. Quando são ditas por alguém, de um certo lugar, com uma certa autoridade, com objetivos ou não, e para alguém, temos as condições da criação daquelas palavras. Sozinhas são como algo oco, vazias, entretanto, quando ditas por alguém e todas as características da comunicação são poderosas, podem matar ou salvar. Como disse o autor, temos que ver o que está por trás das palavras, o que carregam de sentidos. E o texto proporciona essa reflexão, essa percepção do homem por trás das palavras. Excelente produção.

  3. [Joana D’Arc Moreira Nolli] [joana@dnconect.com.br] [Londrina, PR – Brasil] Ozaí, gosto muito do seu blog e sempre tenho utilizado seus textos nas salas de aula, como, por exemplo este, que após passar o filme, pedi p/ os alunos lerem e juntos fizemos uma reflexão sobre a relevância das idéias e das palavras quando extravasam para a ação. Você tem cooperado muito com seu blog. Parabéns!09/06/2007 11:31

  4. [SOL] [professorasolange@hotmail.com] [SALVADOR – BA – BRASIL] OZAÍ: Que texto maravilhoso!!!! Viva a grande escrita!!! Viva a grande literatura!!!! PARABÉNS!!!!29/05/2007 12:35

  5. [Hugo Torres J.] [jhtjimenez@hotmail.com] [Managua, Nicaragua] Querido Ozai : me encantó este texto.Todos sabemos y aceptamos el significado gramatical de las palabras, sea este el oficialmente reconocido por la academia de la lengua, sea por el uso y la costumbre. Sin embargo, en boca de un líder religioso o político, y en un contexto determinado,nacional o internacional las mismas palabras que usamos en la vida cotidiana de manera un tanto inocua,pueden llegar a adquirir significados inimaginables para la vida de los ciudadanos. Cuando las palabras sirven para dscribir sentimientos como el dolor, el honor, el patriotismo, el nacionalismo,la hermandad, la opresión, la libertad,etc. es cuando más manipulables se pueden volver; esto es así, porque quienes las usan juegan con la sicología de las gentes, buscando explotar los flancos débiles de las pasiones humanas a favor de sus propios intereses personales o del grupo social o de poder al cual pertenecen.30/03/2007 19:47

  6. [oziel] [oziel@teracom.com.br] [maringá paraná brasil] Ozai De um coração bom como o seu só podia sair um texto bom e belo assim. Abraço do amigo oziel 30/03/2007 17:46

  7. [Neli Klix Freitas] [neliklix@terra.com.br] [Florianópolis/SC/Brasil] Prezado Prof. Ozaí:Parabéns pelo texto e pela capacidade de escrever sobre a “palavra”.Temos sede de “ética”, e nisso se insere o valor da palavra.A palavra, muitas vezes exclui e, nesse sentido caminha na direção inversa da proposta de aceitação incondicional das diferenças entre as pessoas.A dor por uma palavra que fere é proporcional ao afeto , ao apego e à admiração que se tem por quem a profere.É uma lástima que nem todos estejam conscientes disso, especialmente quando pensamos em “ideologias”.O texto traz uma reflexão importante nesse diário.Cordialmente,Neli Klix Freitas28/03/2007 23:17

  8. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba-pr] ozaí, associei seu texto com a imagem da luta do atual presidente americano contra os valores culturais do islã. um discurso de liberdade, mas da liberdade que só se expressa na possibilidade do consumo. será essa a liberdade na qual os islâmicos estão interessados? … aquele abraço!…………27/03/2007 22:30

  9. [eduardo] [dudu.oliva@uol.com.br] [http://dudu.oliva.blog.uol.com.br ] Uma bela reflexão sobre a palavra. 27/03/2007 21:37

  10. [NeivaMartinelli] [neivamartinelli@terra.com.br] [São Leopoldo-RS] Palavras em si mesmas não significam nada? Homens e mulheres são veículos. Veículos que transportam a carga das palavras, nascidas de idéias que tem o PODER qdo. proferidas, de tocar, abraçar, esbofetear, espetar a ferida e fazer sangrar, e tb despertar amor. Idéias despertam sentidos. Sentidos que imprimem sensações, que se convertem em realidades. Sim a escolha é de cada um de nós. Temos o PODER de produzir idéias, e se aceitas, realidades. Chega a ser contraditório… Vc não pode beijar uma idéia, não pode tocá-la ou abraçá-la. Idéias não sangram, não sentem dor, não amam. Mas, o homem vive nelas e a partir delas. O homem inventa… A própria idéia de homem que se tornou conceito é uma invenção. A invenção mais incompleta que busca a completude na realização. Realização que movida por uma força ilimitada (idéias) constitui para nós o que chamamos vida ou realidade. Daí tantos sentimentos traduzidos em palavras. Poderoso instrumento… Adorei o seu texto. Abraço.27/03/2007 15:19

  11. [Rita Souto Maior] [ritasoutomaior@hotmail.com] [Maceió, AL] Senti toda a angústia de cada uma de SUAS palavras. É como um grito travestido. Escutei seu grito e me feriu os ouvidos e me fez gritar…como o galo que tece as manhãs…e me fez escrever mais um pouco com palavras. Travesti-as também. 27/03/2007 12:38

  12. [José Rogério] [jrlopes@unisinos.br] [São Leopoldo, RS] Gostei do texto. Ele recupera uma dimensão prudente da palavra que, como as imagens, representam uma presença e uma ausência. Uma música cantada pelo Quinteto Violado diz assim: “Palavra quando acesa, não queima em vão, deixa uma beleza posta em seu carvão. E se não te atinge como uma espada, peço não me condenes, oh minha amada, pois as palavras foram prá ti, amada”. É na relação, ou interação, que as palavras significam intenções daqueles que as proferem… e as preferem!. Valeu.27/03/2007 12:20

  13. [Eronildes Manoel] [eron.ms@terra.com.br] Belo texto. Penso que vai ao encontro do que sempre defendi: o problema não são as idéias, mas sim as pessoas que as interpretam. Durante minha graduação em História, sempre disse isso àqueles que defendiam o socialismo e viam no capitalismo o mal do mundo. O inferno não são os outros: somos nós. Todos nós.27/03/2007 07:15

  14. [Abel Sidney] [abelsidney@gmail.com] [Porto Velho-RO] Como poeta bissexto e menor consigo enxergar tão somente a veia poética, saltada e fecunda, deste nosso menino Ozaí, que tem se saído muito bem ao “lidar com as palavras”, ao “manejá-las com acerto”, ao fazer delas “base e elemento” para umas tantas e boas reflexões. Com leveza e profundidade, o que é ainda melhor. A idéia da palavra como deflagadora da ação – no último parágrafo – foi ricamente elaborada, num bom desfecho. Por fim, que os “tesouros do nosso coração e os nossos tantos talentos” – que se convertam, por meio da palavra, em ação e estejam a serviço da vida e do homem.27/03/2007 05:22

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