A sacralização da política

A política diz respeito ao mundo profano. No mundo medieval a instituição religiosa e a organização política e social se confundiam. Poder espiritual e poder temporal se mesclavam e determinavam os destinos dos indivíduos. A modernidade afirmou categoricamente a sua autonomia diante da religião e expressou a separação entre Igreja e Estado. A secularização pareceu consolidar este processo, mas não anulou a religião. Esta permanece forte e influente, seus preceitos morais, bem como o poder dos seus sacerdotes e da sua organização, não podem ser descartados pelo Estado. Este estimula ritos profanos carregados de simbologia religiosa. De certa forma, o poder espiritual também se reveste de poder temporal, na medida em que influencia a esfera política.

Se o mundo profano se vincula à política e a religião é a manifestação do sagrado, não há um muro intransponível entre eles. Em certos contextos históricos, a política profana se reveste de sacralidade. A política produz os “profetas” prenhes de carisma que, à maneira religiosa, constitui um grupo de seguidores (“discípulos”). As ideologias seculares se manifestam religiosamente nos “ritos profanos” e o culto à personalidade.

Para muitos, a religião reflete os desejos humanos de uma sociedade justa, realizável apenas no âmbito do paraíso celeste. Toma-se como inevitável a miserabilidade da vida terrena e a condição humana imperfeita. A ideologia política sacralizada inverte os pólos e afirma a possibilidade da utopia social no plano terreno, a construção do paraíso na terra. O crente religioso volta-se para o céu, e conforma-se com a impossibilidade de atingir a sociedade igualitária e justa no plano da vida material; os utopistas buscam o possível onde afirmam o inexistente.

Para que tenha efeito prático, as utopias precisam se manifestar enquanto ideologias capazes de influenciar e de serem “encarnadas” pelas massas. É imperativo que sejam eficazes na produção de novos crentes. Elas não podem prescindir da crença no não-existente, no devir longínquo e na certeza de que o vir-a-ser é mais do que uma promessa. A ideologia também se reveste de sacralidade e tem os seus profetas, seguidores e as instituições onde realizam os seus rituais.
Na medida em que as idéias se apoderam das mentes e se traduzem em manifestações reais e práticas, as ideologias precisam se revestir de aspectos religiosos. As ideologias conservadoras se alimentam de valores morais vinculados à tradição, aos costumes e à religião. As ideologias críticas, por sua vez, não podem desconsiderar estes fatores. Para serem eficazes, precisam convencer e arrebanhar seguidores. Porém, seu caráter não será definido pela religiosidade, mas pelo apego cientificista. A ideologia fundamenta a sua utopia em argumentos pretensamente científicos. Mas não abre mão de slogans e mensagens nada científicas, pois, como toda religião, exigem a crença. A razão produziu um novo crente que tem fé na ciência e uma nova crença amparada na esperança utópica da construção do paraíso na terra.

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* Publicado em
http://antoniozai.blog.uol.com.br/, 17.11.2006.

8 comentários sobre “A sacralização da política

  1. Caro Ozaí,Interessante sua idéia de “religiosar” as teorias criticas ao status quo, devemos apenas tomar cuidado com o seu resultado, que pode se transformar em violência, guerra e crimes tudo em nome da dita “religião”.Um abraço,Roberto Saraiva RomeraSBC – SP

  2. [Cleonice Ferreira da Silva] [cleonicefsilva@hotmail.com] [antoniozai] [Araputanga MT] Prezado Ozaí, parabéns pelo seu blog. Estou gostando muito, pois, estou fazendo meu TCC de Sociologia, cuja temática é Religião e Política,inclusive já utilizei vários artigos seus e mais uma vez este breve texto veio contribuir com o meu texto. É muito bom podermos acessar e encontrar um texto desse nível.29/11/2006 20:39

  3. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba] no plano arquetípico fica difícil desvincular a política da esfera do sagrado, já que tanto na religião quanto na política a humanidade privilegia figuras mitólógicas, messiânicas, redentoras. em resumo: os “salvadores da pátria” parecem ser necessários à construção do imaginário, pois torna-se confortante atribuir nosso o destino à divindade ou ao governante eleito. quando ouvia dizer que a humanidade precisa de heróis para viver, eu achava que isso era só mais um clichê. enfim,ozaí, texto maravilhoso. valeu! 21/11/2006 10:01

  4. [Máuri de Carvalho] [chicomauri@hotmail.com] [Vila Velha / ES] Meu caro Antonio Ozai Sou professor da UFES ministrando a disciplina Políticas Públicas de Educação Física , Esportes e Lazer, solicito a vc permissão para usar seu texto “Sacralização da Política” numa das minhas aulas. Penso que ele será de grande valia para que “meus” alunos compreendam o papel da política numa sociedade de tão grandes contrastes com a brasileira. Atenciosamente Máuri 19/11/2006 14:54

  5. [Carlos Batista Prado] [carlosfloyd@terra.com.br] [Campo Grande – MS] Grande Ozaí, muito pertinente o tema que você discutiu nesse breve texto. Recentemente estive entrando em contato com está temática, por meio, do meu irmão, que trabalhou em sua monografia (de artes visuais) a sacralização do político. E está relação entre o sagrado e o político é mais uma forma de analisarmos e bucarmos entender o mundo político, que também tem seu lado diabólico…19/11/2006 12:35

  6. [Giordano Bruno] [gbrsantos@yahoo.com.br] [http://giorge.blogspot.com] [Rio de Janeiro/RJ] Pelo que parece os aqui comentaram viram por um viés que não é o meu e não me parece o do autor. Entraram aqui para criticar profundamentamente a esquerda – e olha que é a esquerda, no máximo, social-democrata – como se as ideologias políticas de esquerda tivessem essas características de lideranças. O próprio texto fala delas como um todo, de forma indistinta, o que é o correto. Em segundo lugar, a abordagem teórico-filosófico de que as construções culturais religiosas são irracionais, assim como outras tipo de mitologias, somente as descaracteriza e as diminui, corroborando para o cientificismo. Todos esses conjuntos ideológicos possuem lógicas internas, isso não significa serem perfeitos e isentos de contradição, aliás essa última característica própria de nós seres humanos que uma abordagem de viés restrito a coloca no terreno do não-racional, do emocional. É dicotomizar algo que está inevitavelmente unido, interligado cotidianamente.18/11/2006 21:34

  7. [isaac newton pessoa] [inpessoa@vivax.com.br] [Manaus-AM-Brasil] Ozaí, parabéns pela abordagem precisa e inteligente. As ideologias políticas, inclusive as agnósticas, têm muito de religião e erigem seus sacerdotes à categoria de deuses. Foi assim que Mafoma emplogou os Poderes espiritual e temporal. O Lula, graças à ideologia petista, se tornou Presidente da República mesmo sem conhecer em nivel adequado a própria língua. Se fizesse uma prova formal para agente administrativa “levaria pau” (que merece por sacrificar o país ao populismo do qual é Pontifice Maximo), como se dizia no meu tempo. Aliás, nos dias de hoje, com as paradas e “Gay Pride”, “levar pau” é a glória. O Estado teocrático é incompatível com a Democracia. Vejam-se os paises mulçumanos. Transformá-los em democracia é um exercício de futilidade. O Bush tentou passar essa idéia e só conseguiu fortalecer seu pior e mais perigoso inimigo, o Iran, aliado do Kim Jong Il da PRNK, um “failed state” que nem pode alimentar sua população. AS religiões são também encarnação de PODER e buscam18/11/2006 16:44

  8. [Joana D’Arc Moreira Nolli] [joana@dnconect.com.br] [Londrina, PR – Brasil] Ozaí, estou gostando muito do seu blog. É sempre bom acessarmos o computador e termos algo interessante para ler. Sobre o texto “A sacralização da política”, Weber tinha razão. O homem político por mais que pretenda a racionalidade continua sendo extremamente dominado pelo irracional.18/11/2006 10:21

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