Maringá

Maringá é uma cidade arborizada, cuja beleza encanta a todos. É uma cidade caracteristicamente de classe média com poder de consumo. É um pólo estudantil importante. Maringá é também conservadora e provinciana – que a depender do gosto e da ideologia pode representar qualidades. É uma cidade com alto padrão de vida, o que a diferencia de boa parte das cidades brasileiras e, em especial, dos inúmeros municípios da região metrolopolitana que fornecem a mão-de-obra necessária à classe média e às atividades comerciais e produtivas.

Apear da pompa que apresenta, os salários pagos aos trabalhadores e trabalhadoras que se deslocam cotidianamente para “ganhar a vida” em Maringá não fogem à regra do que se paga no país. Baixos salários e especulação imobiliária expulsam os que não têm condições de arcar com os custos de moradia. O valor dos imóveis, para alugar ou comprar, está entre os mais altos do Paraná. A especulação é tanta que preocupa até mesmo o Sindicato da Habitação e Condomínios de Maringá (SECOVI).[1]

Maringá têm coisas interessantes. Por exemplo, motoristas arrogantes que, com seus possantes automóveis de última linha e sistemas de sons em altos decibéis, mostram bem a (in)consciência que têm do significado do espaço público. Mas há também as carroças com cavalos famélicos e a brutalidade dos condutores. Há os ainda mais pobres que não possuem carroças e cavalos e que andam pelas ruas da cidade a puxar os “veículos” adaptados ao trabalho e a remexer os lixos dos edifícios da classe média. Vivem honestamente e honrosamente do lixo.[2]

Maringá tem outras coisas muito interessantes, mas o limite do espaço não permite expor ao leitor. Acrescentarei apenas mais um fato com este caráter: o movimento dos blogueiros da cidade contra a ocupação das calçadas, em especial pelo setor comercial. Os militantes desta causa têm razão! É difícil transitar pelas ruas centrais: o pedestre comum é literalmente expulso para o asfalto – com o risco de um daqueles insolentes motoristas buzinar algo como “Sai da frente” (e há buzinas modernas que “falam” coisas estranhas como estas).

O movimento, denominado “blogagem coletiva”, se expandiu pela cidade… ou melhor, pelo espaço virtual da cidade. Não sei se os comerciantes têm tempo para visitar blogs, mas a imprensa local repercutiu. Confesso que também não sabia. Fiquei traumatizado por minha ignorância diante de tão importante e interessante movimento que agitou a blogesfera da cidade. Devo agradecer à jornalista da CBN Maringá, Luciana Penha, pela informação.

Não quero me desculpar por não ter aderido ao “blogagem coletiva” – ninguém é culpado pelo que não sabe. Mas talvez o fato de residir num bairro geograficamente distante do centro da cidade, de não ter o costume de freqüentar os bares e restaurantes e de não ter tempo para acompanhar todos os blogs justifique a minha postura. Talvez!

De qualquer forma, fico a pensar se os participantes deste movimento também se perguntaram porque os consumidores legitimam e até apóiam a “invasão das calçadas”. No bairro que moro, por exemplo, alguns comércios também ocupam as calçadas, mas ainda não ouvi reclamações. Pelo contrário, as pessoas se acumulam e se divertem. É muito mais um espaço de sociabilidade. Muito provavelmente nem saibam do movimento blogueiro e dos exageros que se cometem nas áreas centrais da cidade. Talvez até considerem normal.

De qualquer forma, a classe média mostrou força blogueira e, como tem influência na cidade, virou notícia. A internet tem mil e uma utilidades, inclusive a de expressar os interesses e as opiniões dos indivíduos e setores que têm influência real na sociedade. O resto é mito.

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* Fonte da imagem: http://www.tosco-rama.blogspot.com/
[1] Clique e ouça a reportagem de Everton Barbosa veiculada em 13 de agosto de 2007 pela CBN Maringá: http://www.cbnmaringa.com.br/audio/imoveis130807.wma
[2] Ver “Há vaga para lixeiro”, publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.br, de 08.03.2007.

2 comentários sobre “Maringá

  1. Estimado Ozaí:Muy placentero vuestro texto sobre Maringá y las sorpresas que ofrece las NTIC. Tus apuntes me permiten reflexionar sobre la ciudad en la que me toca vivir ahora. Chorrillos, un balnehario ubicado a 17 kms. al sur de Lima transformado de villa de pescadores a villa de residencia de los nuevos ricos de la ciudad de Lima a mediados del siglo XIX. Una curiosa cohabitación de antiguas familias yungas con múltiples familias criollas limeñas y europeas que se trasladaron a orillas del Oceáno Pacífico para disfrutar de la riqueza del guano en las temporadas de verano. Esta villa fue destruída por el ejército chileno en 1881 y la oligarquía guanera prácticamente desapareció hasta 1940 y en la que un terremoto terminó por tumbar las últimas casitas de playa. La novedad de estos años es que los nuevos ricos del Perú se han estacionado nuevamente en sus alrededores, urbanizando zonas de pantanos y de huacas antiguas para ubicarse cerca al mar y disponer de rutas de comunicación con otras partes del mundo. Hay una emergente clase media pero encerrada en sus urbanizaciones con rejas de fierro y vigilancia, ajenas a lo que ocurre en otras partes de esta ciudad. A todo esto se suma le emergencia de megaplazas comerciales y cientos de antenas de celulares en Marcavilca, un antiguo adoratorio solar de los yungas. Gracias por vuestro texto que anima a reflexionar los temas humanos pero también ayuda a precisar como marcha la ciudad en medio de las incontenible fuerza de la globalización capitalista.Claudio César

  2. Prezados,não sei se os consumidores têm apoiado a invasão das calçadas. Soa estranha essa afirmação! Que pesquisa comprova isso? Se existe, foi feita com quem? Quem é esse consumidor? Consumidor do quê? A categoria de análise sociológica “consumidor” tem sido muito maltratada em diferentes textos. As calçadas em Maringá são largas, em geral. Mas vejo muito abuso, sobretudo por parte da construção civil que as invade e, aí sim, expulsam os transeuntes para a rua. No chamado primeiro mundo, onde a “classe média” não é culpada por tudo, os bares, restaurantes, bistrôs, lanchonetes e sorveterias, ocupam parte das calçadas, por exemplo, disponibilizando cadeiras e mesas, sem que isso altere a rotina ou interfira no cotidiano dos pedestres. O que está acontecendo em Maringá não é uma ação organizada de estabelecimentos que apenas oferecem refeições e bebidas. As farmácias, óticas, relojoarias, lojas de tecidos, roupas, colchões, móveis, eletrodomésticos e revendedoras de automóveis, entre outras, têm avançado o espaço das calçadas. Então, talvez seja o caso de além de olhar para o “consumidor” ou para a “classe média”, olhar para a Câmara de Vereadores e para a Associação Comercial e Industrial da cidade.Saudações,Vieira

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