O exemplo dos acadêmicos

O papel afixado nas paredes do bloco do curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá informa:

“HOJE O CAHRF, MAIS UMA VEZ, COMPRA LIVROS PARA A NOSSA BCE, CONTUDO, NÃO NOS ESQUEÇAMOS QUE TAL FEITO DEVERIA SER OBRIGAÇÃO DO GOVERNO! LEMBREMOS TAMBÉM QUE O MESTRADO DO NOSSO CURSO POSSUI UMA EXCELENTE BIBLIOTECA JURÍDICA A QUAL NÃO PERMITE A ENTRADA DOS ACADÊMICOS DA GRADUAÇÃO! UM VERDADEIRO ATENTADO À DEMOCRACIA DO SABER!”

Está escrito assim mesmo, em letras garrafais e com grifos. O texto é assumido pelo Centro Acadêmico Horácio Raccanello Filho – Gestão Atitude 2007.

Não sei quem são os acadêmicos que fazem parte do CAHRF, nem qual a identidade política e ideológica deles. As palavras estavam afixadas em lugar público e me chamaram a atenção. Primeiro, pelo exemplo da doação à Biblioteca Central da UEM; segundo, pela informação em relação ao Mestrado em Direito. O CAHFR bem que poderia seguir o “exemplo” e criar uma “biblioteca particular”, isto é, restrita aos graduandos do curso de Direito. Porém, ao doar os livros à BCE publicizam o uso a todos os interessados, de qualquer curso e mesmo da comunidade externa. A atitude dos acadêmicos – e isso não é um trocadilho com o nome da Gestão – é elogiável.

A depender do ponto de vista também pode ser criticável. A cultura disseminada entre nós é que o público é apenas responsabilidade do Estado. O raciocínio é lógico e simples: pagamos impostos, temos direitos e devemos reivindicar ao governo. Nosso papel se reduz a isso! Esse pensamento é reforçado na medida em que o Estado não cumpre suas obrigações e a sociedade é chamada a suprir essa ausência através de projetos como Amigos da Escola e outras coisitas mais. O discurso neoliberal oferece os argumentos.

Os acadêmicos se resguardam da crítica ao enfatizarem que não devemos esquecer a “obrigação do governo”. São precavidos! Na política os anátemas são fatais e é prudente evitá-los. No entanto, ao contribuírem com o acervo da biblioteca superam o mero discurso reivindicativo, ainda este seja necessário. Eles também se responsabilizam pelo bem público e sinalizam que devemos fazer nossa parte. Há, é claro, o risco de cair nas armadilhas do ideário neoliberal, mas isto não nos isenta das nossas responsabilidades e nem deveria servir para justificar o nada fazer ou apenas reclamar.

A atitude dos acadêmicos é louvável. Mas o que dizer da interdição do uso público aos recursos de um setor específico situado no campus, portanto em espaço público e sob a jurisdição do Estado? O discurso neoliberal também pode justificar procedimentos deste tipo na medida em que se imagina que quem faz a receita tem o privilégio do usufruto. É mais ou menos como afirmar que cada um deve cuidar do seu “feudo”. Seria o caso de cobrar pelo uso aos que não são do “feudo”? Como evitar que o apego às estruturas específicas não resulte em apropriação privada e/ou de grupos específicos do espaço e dos recursos públicos?

De qualquer forma, não consigo entender a interdição do acesso à biblioteca, ainda que setorial, instalada nas dependências de uma universidade pública e gratuita. E isto pode até não ser expresso em termos diretos – um aviso na porta “PROIBIDO AOS GRADUANDO” – mas através de exigências que dificultam e impossibilitam o uso.

Quando li as palavras afixadas na parede lembrei-me da época em que fui à Fundação Getúlio Vargas (SP) e queria consultar a biblioteca. As exigências eram tantas que desisti. Mas compreendi! Afinal, tratava-se da FGV, uma instituição privada da elite paulistana e brasileira. Também temos a nossa elite, mas não devemos esquecer o caráter público da instituição. Ou isso é um engodo e a UEM não é pública?!

9 comentários sobre “O exemplo dos acadêmicos

  1. CONCORDO EM GENERO E NUMERO MAS QUERO SALIENTAR O SEGUINTE, É MTO COMUM A GTE FALAR NA OBRIGAÇAO DO GOVERNO E ELA EXISTE MAS A GTE COOPERA PARA A DESPOLITIZAÇAO QDO NAO EXIGE A ESPECIFICAÇAO DE A QUAL GOVERNO SE REFERE….É O MUNICIPAL? , O ESTADUAL OU O FEDERAL?………
    SE NAO TEM GTE CULPANDO O GOVERNO FEDERAL DO AUMENTO DA PASSAGEM EM MARINGÁ POR EXEMPLO! E POR AHI VAI!

  2. > Caro Ozaí, o direito ao conhecimento não pode ser exclusivo e privatizado,> sob a hipótese de se tornar um meio de exclusão social. Infelizmente,ainda> temos um caminho muito difícil a percorrer respeitante a conscientizaçãode> que parcerias, trabalho de equipes e compartilhamento de informação e> conhecimento é o grande mote do momento, ou melhor com-partilhar e somar.> abraços. charlene

  3. Na UFRGS, os acervos dos PPGs são de acesso público. Eles não permitem que a gente entre lá, imagino que pra evitar que as obras “sumam” (o que infelizmente acontece, pelo que o pessoal da biblioteca comenta), mas sempre há alguém para nos atender e buscar o material solicitado. Poderia ser pensado um sistema semelhante aí em Maringá, não?

  4. Bom antes de mais nada gostaria de parabenizar o professor Ozaí pelo excelente blog que mantem, raciocínios super coerentes, crítica aguçada e temperada com a inconformidade de um típico brasileiro consciente e de fibra moral, em outras palavras classificaria as ideias do professor como uma verdadeira aula de vida a esbanjar responsabilidade cívil, bom senso, sabedoria e coragem, qualidades tão necessárias à nossa população, parabéns. Contudo o que me levou a tecer este comentário foi o texto do colega Beré da UFSC o qual dissertou acerca dos resultados negativos que eventuais atitudes assistencialistas podem proporcionar, ou seja, o fortalecimento de um conformismo governamental ante ações positivas da sociedade na manutenção de um status quo ante caracterizado pelo abandono e despreocupação da coisa pública. Um raciocínio muito respeitável, compartilhado até por um grupo acadêmico na UEM de linha Trotskista. Contudo, acredito que tal lógica é defasada e carece de atualizações. Tal postura coloca o Estado num status de inatingibilidade e propotência a parecer um cão raivoso que odeia sua massa e que para ser domado, somente com muita força, muito grito e muito cuidado. Tal linha minimiza a correlação de forças que existe entre povo e Estado, onde há a indiscutível superioridade daquele que até pôde ter criado este. Acredito que solidariedade e assistencialismo são palavras que têm entrado no consciente do brasileiro (ou não teríamos a aceleradíssima proliferação de organizações não governamentais pelo país, bem como igrejas, campanhas sociais, e casas de ajuda na última década), e vou adiante, deverá ser, tais princípios, palavras de ordem para toda humanidade nos próximos séculos ou não sobreviveremos nos destroços do neoliberalismo. Pois bem, em outras palavras, reivindicar sim, sempre, ajudar também, ainda mais nas situações em que se luta contra o tempo como acredito que é o que ocorre nas doações de livros pelos centros acadêmicos, afinal de contas, todo e qualquer acadêmico possui uma efêmera estadia na universidade que varia de 4 a 6 anos geralmente, um tempo curtíssimo quando se trata em melhorias públicas obtidas por meio de reivindicações. Afinal, se nossa tão sonhada, reivindicada, idealizada e sangrada democracia depois de 19 anos ainda não chegou, o que dizer de um pedido de livros?! Finalizando, acredito ainda que devemos abandonar todas teorias tecnocratas, políticas, especulatórias e ideológicas para ouvir a única que poderá nos permitir chegar num equilibrio social, a teoria do amor e do coração (ou o que sobrou dele após 2 mandantos de FHC e um e meio de Peixaria) ou seja, devemos sim reivinicar, afinal somos nós que pagamos as contas, mas se nenhum mal estamos fazendo em ajudar de maneira altruísta ou assistencialista a sociedade, continuemos! O Governo não é lá, é aqui, somos nós! Sou membro do Centro Acadêmico e doaria livros eternamente para contribuir com a coisa pública se pudesse, afinal de contas, como já dizia minha vó “exemplo vem de casa”. Mas é isso aí, a pluralidade sempre nos fortalece, um abraço. E parabéns mais uma vez Professor, gostaria de conhecê-lo e aproveitar suas sugestões.

  5. Sou estudante da Universidade Federal de Santa Catarina e o assunto aborda uma questão que nos é muito familiar. Já fizemos sim doação de livros à biblioteca da UFSC e nosso mestrado também não nos pemite o acesso ao acervo. A denúncia deste CA da UEM, portanto, não é um caso isolado e ocorre hoje em todo país. Porém o texto critica uma atitude que temos tomado: a de questionar sim até onde ações como a doação de livros por parte do ca é uma atitude importante e transforamadora.Abortamos as doações de livros à BU por achar que a responsabilidade é do Estado e isto não é uma desculpa. É, acima disso, uma atitude coerente. Pois ao doar livros estamos executando uma tarefa que acreditamos ter de ser responsabilidade do Estado para que garanta o caráter público da biblioteca e da universidade. Se aprofundarmos a reflexão perceberemos uma íntima relação entre a defasagem da biblioteca e a restrição da biblioteca do mestrado. O Estado de um país sibdesenvolvido e dependente como o Brasil vem sofrendo ataques pela atual forma do imperialismo (o neoliberalismo) e não explicitá-la é contribuir com o discurso de que o Estado mínimo é mais eficiente.Claro que é uma atitude importante a do centro acadêmico principalmente porquê é seguida de uma denúncia, mas mais importante ainda era criar um movimento, uma manifestação contra a precarização da biblioteca e contra o acesso restrito da biblioteca do mestrado. É isso que temos buscado construir na ufsc. Claro que não ocorre do dia pra noite e que atitudes como esta discutida no texto podem contribuir para tal construção, porém minha crítica se direciona ao texto. Este sim, foi superficial e tratou o tema de forma simplista, algo anormal no autor que acompanho desde o início do blog.

  6. Com relação às instituições de ensino privado, seria interessante lembrar que, embora algumas universidades sejam privadas, elas também são de natureza pública. Todas elas, por este motivo, têm isenções de impostos. O Estado concede estas isenções, justamente pela presumível natureza pública e pela necessidade destas organizações contribuírem com seus insumos à coletividade. Já com relação às universidades públicas, é inconcebível que alguns espaços públicos tornaram-se redomas privadas. Isto não está moral, ética e legalmente correto. Temos que ir a fundo. James Simões de Brito.

  7. E onde está o Princípio da igualdade/isonomia preconizado pela Carta Magna???E mesmo a FGV sendo particular, acredito eu seja ela obrigada a compartilhar seus acervos com a comunidade, haja vista que a mesma exerce (lucra) uma atividade de caráter público!

  8. A FGV é privada e não pública. Não tem obrigação de abrir a biblioteca para as pessoas. Já a UEM é pública. O Pedro Alberto está certo. Há muita humilhação na universidade e mais ainda no direito, onde os professores são arrogantes e se acham donos do mundo. O professor deveria aliar a militância virtual a práxis, militância prática de verdade e protocolar um documento contra esse absurdo.

  9. O exemplo do centro acadêmico é realmente glorioso. Eles denunciam a extrema hierarquização que há dentro da universidade. É muito comum as pós-graduações terem salas de informática, bibliotecas e outros que são de uso proibido para os simples graduandos. O que nao é comum é vermos reações a esse absurdo. Felizmente, nem todos aceitam serem tratados como inferiores como manda a universidade. A Hierarquização interna é muito forte. Quando chegam a assumir publicamente normas de exclusão deste tipo é pq, no ambito das relações cotidianas, as coisas estão muito mais enraizadas. A universidade tem sido um lugar onde as humilhações mais aberrantes, os preconceitos mais funestos, as discriminações mais gritantes tem tido existência e há tempos. Mas com a aceitação geral do que ai ocorre, a unviversidade nao tem sido objeto de crítica e os poucos que lutam e se indignam são silenciados e/ou votados ao ostracismo, quando não punidos e perseguidos. Que tal o professor protocolar um documento contra tal absurdo e angariar apoio à luta contra essas violências?

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