Há vaga para lixeiro!

Dois Lixeiros (Estudo), 1954 – obra de Marina Caram. Fonte: http://www.museusegall.org.br/lsFetchItem.asp?sMenu=L003&sTipo=5&sItem=167

Toda semana eles recolhem os restos do que consumimos, as sujeiras que testemunham a nossa animalidade e outros objetos que denunciam nosso padrão de consumo. Faça sol ou chuva, eles virão. O trabalho segue o ritmo do caminhão, eles não podem demorar. Sobem no veículo e vão adiante respirando a fetidez que exala daquele receptáculo. Talvez pelo hábito nem sintam a podridão do lixo que nos iguala. Quem sabe, por necessidade, tenham desenvolvido defesas naturais. Eles nos dão a certeza de que a sociedade funciona. Muitos até esquecem da existência deles.

No último ano, a greve do funcionalismo em Maringá pôs a nu o lado miserável de uma cidade orgulhosa da sua estética arborizada. A classe média viu as ruas se encherem de lixo e reclamou. Houve até quem protestasse jogando o lixo próximo à prefeitura. Porém, teve que admitir a importância dos lixeiros. A greve terminou, a rotina foi retomada e eles voltaram à sua condição social. Colocar o lixo para fora e não vê-lo mais se torna apenas parte da rotina.

Quem fará trabalhos como este na sociedade utópica que alenta o pensamento humano? No pensar positivista, a resposta é simples. Cumprimos funções diferentes na sociedade, as quais se relacionam às nossas capacidades. Assim, todos cooperamos para a manutenção da saúde do corpo social. O problema é como cada indivíduo, que cumpre uma função especifica, toma consciência disso e se reconhece no que desempenha. Dessa forma, resta-nos acreditar que os lixeiros são felizes por, afinal, poderem contribuir com a sociedade!

Mas a realidade é diferente das aparências. Habilidades não são inatas e os trabalhos que desenvolvemos raramente correspondem à livre escolha. O reino da necessidade impõe que aceitemos tarefas nem sempre desejáveis. Precisamos nos alimentar, vestir, etc. e aos nossos filhos. E as funções com status reconhecido na sociedade pressupõem investimentos.

Quem se torna lixeiro não teve recursos para investir. Sua função é uma das menos remuneradas na sociedade, mas uma das mais importantes. Há quem considere que a sociedade até presta um benefício ao incluí-lo. E há até mesmo o discurso da cidadania, mas desde que sejam eles que continuem a fazer tal trabalho e se contentem com o que recebem. Que não inventem essas coisas doentias como fazer greves…

Aldous Huxley, em Admirável mundo novo, imaginou uma solução para o dilema individual e social vinculado ao desempenho de tarefas que a sociedade relega aos de sempre. Os indivíduos devem ser condicionados desde a fase fetal. Se as latas de lixo, por exemplo, tiverem aspecto e odor agradáveis e as crianças forem estimuladas elas poderão se tornar operárias do lixo sem trauma. Na sociedade imaginada por Huxley, os indivíduos são divididos em categorias estanques, cabendo a cada tipo o desempenho de determinada função social. E todos são felizes! Para garantir há um ordenamento social e a possibilidade de ingerir uma droga denominada Soma.

De certa forma, Aldous Huxley tem razão. Não fossem as drogas modernas que anestesiam a consciência crítica e trazem a ilusão da felicidade, a sociedade estaria em risco. A adaptação às circunstâncias e o viver sob as aparências são pontos comuns aos lixeiros e não-lixeiros. É a alienação diante da realidade social.

Quem fará o trabalho dos lixeiros? Outro dia assisti a uma reportagem mostrando que sobram vagas para empregos que exigem maior dispêndio de força física. Quem sabe a sociedade reconheça o devido valor destes operários da limpeza pública e de tantos outros que se veem obrigados a desempenhar os trabalhos mais desgastantes e, ainda por cima, são desrespeitados e inferiorizados.

18 comentários sobre “Há vaga para lixeiro!

  1. Muito oportuno o texto. Quando o caminhão do lixo passou em frente à minha casa ontem, meu filho falou: coitados dos lixeiros mãe, mas pelo menos eles têm emprego, né?A partir de seu texto e dos comentários pude fazer uma boa reflexão com ele, que com 13 anos já considera que está se tornando “politicamente alfabetizado” (palavras suas) a partir das aulas de história com uma excelente professora, que discute estes temas em sala de aula.

  2. Ora, a única solução para a tal questão é haver revezamento no trabalho. POde-se começar essa prática na UEM, com os professores, alunos e demais funcionários cumprindo sua parte no serviço sujo.Do contrário, pode-se ao menos tratar bem e, claro, dar uma caixinha pra desencargo de consciência.

  3. [Paulo Inada] [pinada@pop.com.br] [www.sapienscolegio.com.br] [Maringá-Paraná-BRASIL] Ozaí, não conheço o senhor pessoalmente, mas sou amigo de um grande colega seu: Raimundo Lima. Fico feliz em saber que temos valores como você em nossa instituição. Uma sugestão encaminhe seus artigos para jornais da região juntamente com seu privilegiado currículo. A população precisa de crítica com consistência, e a sua é muito bem vinda. Um grande abraço. Prof. Msc. Paulo Inada – DBI-UEM08/05/2007 15:41

  4. [NeivaMartinelli] [neivamartinelli@terra.com.br] [São Leopoldo-RS] Toda a semana eles manuseiam o conteúdo significativo da resposta que tanto buscamos. E que imaginando tão distante de nós, não nos damos conta de que “ensacamos” o seu valor dia à dia. O que representa no mundo de hj o lixo embalado num saco plástico? Por vezes nem embalado é. Algum jogado às tantas, entupindo boeiros, circulando nos rios, e de alguma maneira…,por algum desvio voltando pra nós. O lixo é nossa representação. A representação do humano, da valoração, do humor, da vitória, da derrota, do descaso, da fome, da sede, ou seja, a representação da nossa vida. Querem saber o que somos? Percorra-se os terrenos baldios onde o “lixo” é depositado. Lixeiros, sim, podemos dizer que há duas espécies de lixeiros. Os que produzem o lixo, e os que o recolhem. E mais, uma terceira espécie: os que dele vivem. Na análise final, o lixo é só um pretexto que “aparentemente” diferencia produtor, recolhedor e consumidor. Mas, e se formos perguntar: -de onde vem o lixo mesmo?…27/03/2007 15:36

  5. [Urariano Mota] [urarianoms@uol.com.br] [http://urarianoms.blog.uol.com.br/] [Olinda] Ozaí, sensibilidade boa vem do seu blog. Texto e ponto de vista que não se encontram na chamada grande imprensa. Grande é o blog. Abração. 13/03/2007 10:42

  6. RESPOSTA:Re:Caro Vito, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Muito interessante o seu relato. Me fez lembrar o testemunho do Maurício Tragtenberg que também aprendeu muito com as pessoas simples e não esqueceu delas. Por que não escreve sobre esta experiência? Vale a pena compartilhar. Ah! Parabéns pelo lançamento de mais um livro. Divulgaremos na REA. Abraços e bom final de semana, Ozaí

  7. [Vito Giannotti] [vitogiannotti@uol.com.br] [Rio de Janeiro Brasil] Toninho, lembrei de um fato da minha vida. Disse que nesta sociedade não há solução para os lixeiros e para qualquer outro trabalhador. Em 1964 estava morando e trabalhando num Kibbutz, em Israel. Sem entrar no merito do que viraram os kibbutz hoje e men do que significa o Estado de Israel, hoje, puro instrumento do imperialismno norte-americano, estado terrorista etc. Bom naqueles tempos, foi o lixeiro do Kibbutz de Ginossar, perto de Tiberias, que me passou as obras completas do Lenin, em francês e quase me forço a ler. Ele fazia um mês por ano de cursos na faculdade de higiene de Tel Aviv. E continuava lixeiro. Mas isso era numa sociedade que, de uma maneira totalmente irreal, inconsistente e estranha tinha alguma idéia de querer ser diferente da sociedade capitalistra clássica. Na sociedade capitalista clássica na qual vivemos, não há saida para o lixeiros e para todas as variantes de hoje da classe trabalhadora. Vito11/03/2007 23:58

  8. [vito Giannotti] [vitogiannotti@uol.com.br] [Rio de Janeiro Brasil] Toninho, belo tema. Mas não há nenhuma esperãnça que a sociedade valorize estes trabalhadores. Nesta sociedade não há espaço para valorização de trabalhador aslgum. Há interesses. por isso temos que construir outra sociedade. destruir essa e construir outra. Vai levar muito, muitos anos. mas é a única solução Vito11/03/2007 23:46

  9. RESPOSTA:Re: blogCara Eliane, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Seu comentário é instigante. Talvez estes valores estejam tão internalizados que a maioria o aceite e, mesmo os que debatem sobre ele o façam apenas enquanto abstração, teoria, discurso. É como aquela história dos pais que se afirmam “não-racistas”, até o dia em que o filho e/ou a filha aparecem em casa com um(a) namorado(a) negro(a). Ou os pais que se consideram liberais e avançados até o momento em que descobrem que seu filho(a) é homossexual. Você tem razão: uma coisa é o discurso, as palavras; outra é a ação. Muito obrigado. Abraços e bom final de semana, Ozaí Abraços e bom final de semana, Ozaí

  10. [Eliane Numair] [elianenumair@terra.com.br] [Novo Hamburgo – RS] A mensagem do texto é real, mas a discussão que o cerca, não. A discriminação em torno dessa profissão está inculcada em nossa cultura, em nossa criação, desde um tempo em que não tínhamos como impedir sua absorção. Lembro-me quando menina, a brincadeira de que, se confiássemos no amor para escolha de nossos maridos, poderíamos até mesmo casar com um lixeiro. Pergunto-me, quantos de nós, todos que estamos debatendo este assunto e daqueles que conhecemos, cumprimentamos, ou agradecemos pessoalmente um lixeiro no momento em que passa por nossas casas e executa um trabalho tão árduo?10/03/2007 18:56

  11. [eduardo] [dudu.oliva@uol.com.br] Belo texto. devemos respeitar os outros. E fazer a nossa parte, não ficar suando a cidade. 10/03/2007 01:18

  12. RESPOSTA:Re: blogCara Elisa, muito obrigado por visitar e comentar o blog. Concordo que educação pode contribuir. Talvez os professores devessem estimular os alunos a refletirem sobre estas questões. Mas como fazer isso se prevalece o elitismo entre nós (docentes de todos os níveis de ensino)? Abraços e ótimo final de semana, Ozaí

  13. [Elisa Zwick] [elisazw@hotmail.com] [Ijuí/RS] Na sociedade atual realmente os papéis que são valorizados são aqueles nos quais as pessoas estão mais evidentes, mesmo estas não tendo realizado absolutamente nada e, alcançado um papel de destaque apenas por jogos de interesse. Infelizmente, expressiva parte das lideranças da sociedade domina por este tipo de atitude. Aos papéis simples, desempenhados por homens comuns resta o anonimato. O fato é que essa desconsideração a respeito destas pessoas e valorização de quem está no “topo” da precisa ser melhor trabalhada em toda a sociedade,e aí tem de ser reformulado o papel que a educação tem em nossas escolas. Só com educação adequada que se muda a sociedade, a lentos passos e com seriedade, mas tenho esperança que se muda.

  14. [paulo giardullo] [pauloblues@brsuper.com.br] [www.pauloblues.spaceblog.com.br] [Minas Gerais] Na verdade, acho que ao contrário do que ser desvalorizado, o profissional como o lixeiro (emblemático) mas outros braçais também como o lavrador, o operário, o ajudante de pedreiro, deveriam ter as condições essenciais de vida, incluindo moradia, boa alimentação, saúde, cultura, educação. E deveriam não serem “punidos” com baixos salários e condições indignas porque não venceram, mas pelo contrário, até serem recompensados por assumirem funções aparentemente indesejáveis e aí elas não seriam tão indesejáveis assim, pois, se razoavelmente bem remuneradas, muitas pessoas poderiam abrir mão dos seriços intelectuais estressantes para fazer estes serviços braçais e ainda com prazer. Então o critério não deveria ser o da baixa capacidade para ocupar estas funções baixas, mas o da necessidade social dessas funções, com incentivo a quem as exerce, porque são vitais para a sociedade, portanto realmente dignas, independente do tempo e investimentos para exercê-la, estamos tratando de seres huma09/03/2007 09:44

  15. [paulo giardullo] [pauloblues@brsuper.com.br] [www.pauloblues.spaceblog.com.br] [Minas Gerais] Dando seqüência ao comentário, quando eu tomei conhecimento da teoria do corpo,que na verdade é a renovação de Aristóteles ou Platão?, Santo Agostinho, etc., eu fiquei estarrecido. Daí, o professor falou que tudo o que vem do radical ou raiz, sei lá, org tem a ver com isto, organização, organizar, que as empresas adoram. Na época, na graduação, estava lendo Huxley com sofreguidão. Mas como disse não encontrei nenhuma teoria ou prática revolucionária ou crítica que me satisfizesse o meu anseio por igualdade real. A religião é uma das fontes mesmo, deste tipo de organização social, hierarquizada por si. As teorias ocidentais de república, democracia, liberalismo, também, prevêem “liberdade”, mas nesses moldes do corpo. O marxismo/socialismo etc. também acaba chegando naquela hierarquia burocrata e como ele trata mesmo essa questão das funções sociais?Vide Revolução dos Bichos de Orwell. Huxley chegou perto, mas não sei exatamente o que ele prega. Vi algo nos frankfurtianos e Gramsci mas09/03/2007 09:33

  16. [paulo giardullo] [pauloblues@brsuper.com.br] [www.pauloblues@spaceblog.com.br] [Minas Gerais] Excelente o artigo e o tema. É na verdade o tema cerne de toda a minha ânsia por conhecimento. Quando descobri como realmente funciona a sociedade e as justificativas teóricas para a desigualdade social e mais do que isso, para a estratificação social, ainda baseadas na teoria positivista elencada no texto, do tipo cada macaco no seu galho, a coisa do corpo, fiquei estarrecido. Discordo absolutamente. Porque como diz a autora nas partes finais do seu texto, as pessoas não ocupam os cargos baixos por aptidão, por afinidade, mas por pressões de sobrevivência e muitas vezes não tem oportunidades melhores. Um ser humano não pode ser avaliado somente pela profissão que ocupa, ele é único e complexo. Adorei a citação de Huxley, um de meus preferidos. Mas na verdade, fico sem ter como lutar, pois até hoje, não encontrei nenhuma teoria acadêmica ou revolucionária que realmente fosse um antídoto a esta classificação positivista/capitalista e que realmente pregasse a igualdade que eu imagino. 09/03/2007 08:47

  17. [Heitor Losekann] [h_losekann1950@hotmail.com] [Ilhéus/BA] Mais grave que serem “desrespeitados e inferiorizados” é serem ignorados, como se não existissem, não fossem humanos.08/03/2007 21:49

  18. [Rose de Paula] [rose@killing.com.br] [Novo Hamburgo (RS)] Muitas pessoas utilizam o chavão: “todo trabalho é importante”, mas criticam quando as pessoas das classes menos favorecidas unem-se reivindicando condições melhores. É preciso investir na educação para preservação do meio ambiente, senão essa cultura tende a piorar. 08/03/2007 16:24

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