Homens e máquinas

Estes dias assisti ao filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin. Já o tinha visto na década de 1980, mas foi como vê-lo pela primeira vez. Ao ouvir o discurso do “judeu barbeiro” recordei que o tinha em forma de pôster, o qual foi deteriorado pela umidade da casa em que morava. Compreendi melhor várias falas e cenas. Inclusive porque hoje temos a vantagem das novas tecnologias. O DVD permite acesso a extras, a informações que não tinha naquela época. Por outro lado, a idade também indica acúmulo de conhecimento e experiência, o que também modifica o olhar sobre o objeto. Oxalá, tivesse tempo e condições para reler e rever os livros e filmes do passado!

Um dos trechos que mais admiro do discurso de Charles Chaplin é este: “Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Foi uma dádiva poder ouvi-lo novamente. Isto me fez reviver antigas reflexões sobre o absurdo da coisificação do ser humano. Mas não podemos ficar presos às reminiscências. A arte se justifica na medida em que nos faz refletir sobre a condição humana presente. Como escreve Carlos Drummond de Andrade: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.

E, seguindo o poeta, passei a refletir sobre as relações que estabelecemos através de emails e blogs. A tecnologia favorece a comunicação e amplia sua abrangência. Recebemos e enviamos mensagens para dezenas e centenas de pessoas, as quais, na maioria, não teríamos qualquer tipo de relacionamento se não houvesse a internet. Há, inclusive, gratas surpresas como a consolidação de amizades virtuais. Porém, em geral não conhecemos quem está do outro lado à frente do monitor do computador.

A máquina intermedeia a comunicação. Mas em que medida as pessoas reconhecem esta como uma relação humana? Será que reduzimos o “outro” a um email e o/ou um blog? Será que nos damos conta de que o indivíduo que recebe a mensagem e lê o comentário postado num blog é alguém em carne e osso, um ser humano? Será que temos o cuidado de respeitar o “outro” em sua subjetividade ou o restringimos à mera posição de receptor? Será que nos perguntamos sobre quem é o “outro” e como se dá a relação virtual? Ou terminamos por estabelecer relações mecânicas?

Considero necessário refletir sobre a interação que adotamos através da máquina. Devemos nos perguntar sobre o caráter e os riscos presentes neste tipo de relacionamento virtual. Afinal, somos homens e mulheres, seres humanos e não máquinas. Não são emails que se comunicam, mas indivíduos concretos. As máquinas são apenas coisas, objetos. É certo que elas dão sentido e, inclusive, transformam o nosso cotidiano. Por isso mesmo, é preciso refletir sobre quem é o “outro” com o qual nos comunicamos, quem recebe nossos emails, quem são os leitores do blog e os que comentam. Muitos se deixam conhecer apenas pelo primeiro nome; outros preferem o anonimato. Como estabelecer um diálogo profícuo nestas condições?

Às vezes, por exemplo, a crítica padece do desconhecimento do “outro” e da facilidade que o meio permite. Tende-se a abstrair e desconsiderar que a relação, ainda que virtual, é entre seres humanos reais. As palavras não existem por si. As máquinas até facilitam sua difusão, mas não substituem os seus portadores, os seres humanos. Não esqueçamos que são estes que se comunicam!

11 comentários sobre “Homens e máquinas

  1. Oi, Ozaí.

    Pois é, se por e-mail já nos vemos sendo pouco cuidadosos com o ser humano que há do outro lado, só porque não estamos cara a cara, que dirá naquelas comunicações que fazemos à distância sem sequer conhecer o ser humano que está do outro lado… Agradeço o alerta que seu texto deixa: é fácil esquecer ou não se dar conta (acabo de passar por uma “discussão” por e-mail e percebo que precisaria ter levado isso mais em consideração).

    “A própria natureza dessas invenções [que nos aproximam, como o avião e o rádio, diz ele, e poderíamos acrescentar hoje: da internet] grita em desespero pela bondade do ser humano.”

    Fica o link do discurso legendado em português, no YouTube.

    Abraço
    Ani

  2. Primeiramente parabéns por começar com o genial Charlie Chaplin que pela sua história de vida é um exemplo para todos nós.Segundo aceitamos passivamente a maquinização da vida, emails, torpedos, chats, amizade virtual e internet são meios para complementar nossos relacionamentos, mas o bicho homem inverteu toda a situação e transformou o meio em um fim.”Não sois máquinas, homens é que sois” como diria neste mesmo discurso “o barbeiro” Charlie Chaplin.Um abraço,Roberto Saraiva Romera

  3. Estimado Ozaí:Esta vez recibo una excelente reflección sobre el mundo intersubjetivo que nos toca vivir y compartir. El tiempo marcha velozmente y es incontenible a todo intento de controlarlo, las actuales NTIC nos permiten apenas conocer la nueva memoria y actualidad de los cambios que ocurren en este curioso siglo XXI. Al leer vuestro texto recordaba las páginas de Gunter Grass en su novela “Las hojas de la cebolla” y me preguntaba acerca de las oportunidades que da la vida para construir comunidades y utopías sin fin.Un abrazoCésar Espinoza ClaudioCC.SS.UNMSM, Lima, Perú

  4. A máquina substitui o homem quando ele permite, na realidade nem necessitamos de objetos para substituí-lo,a história é clara como demonstrou o grande gênio Chaplin. No momento atual necessitamos fazer escolhas nas quais propagaremos através de blogs ou e-mails, celulares e etc, o nosso maior bem que ao meu ver é entender o ser humano.”Que os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lembrai-vos de que as grandes proezas da história foram conquistas do que parecia impossível”.(Charlie Chaplin) Abçs.

  5. Atualmente, homens e máquinas são partes de um todo muito maior: a constituição de identidades. Não podemos viver sem elas, mas podemos utilizá-las a nosso favor. A questão de quem é esse “outro” que conversamos, enviamos e-mails, textos, é uma relação nova. Concordo com a afirmação de que não podemos esquecer da subjetividade desse outro, da relação que construímos com a atitude responsiva do outro. Por mais que um ser humano prime pela solidão, ele apenas se vê e se reconhece a partir da relação com o outro, não importa por qual meio. O homem é incompleto, ele só se constrói com e para o “outro”. O texto é muito atual e apresenta questões relevantes para a comunicação humana.

  6. Acompanho há algum tempo a revista espaço acadêmico e desde algum tempo, sempre que possível, leio também suas idéias aqui no blog. Simplesmente sensacionais…Sou estudante de história e me enriquece estar em contato com seus comentários e os artigos da revista.Parabéns pelo grande sucesso e, acima de tudo, por expor suas idéias de forma tão inteligente.Tenho um blog também e gostaria de acrescentar o seu blog e a revista espaço acadêmico como os meus links preferidos na minha página. Me permite?Abçs

  7. Maria Newnum disse:Prezado Ozaí,Oportuna sua reflexão. Essas novas formas de livre comunicação nem sempre consideram o outro com o respeito devido. Especialmente as manifestações anônimas chegam por vezes as vias da intolerância.Por outro lado a defesa de um ponto de vista individual, às vezes, fere a individualidade alheia, quanto aos limites ou “ignorância” (no sentido estrito do termo) que cada um de nós temos, ou seja, não dominamos todos os conhecimentos.A bondade modesta é sempre um caminho salutar e enriquecedor; um meio que levar o conhecimento ao outro.Fora disso a reflexão sobre qualquer assunto nem faz sentido.Não sei se me faço entender…Abraços,Maria

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