Aprender com Florestan Fernandes e a Revolução Cubana

“Proponho-me uma tarefa que é, inextricavelmente, intelectual e política; e pretendo enfrentá-la como tal, com a objetividade do sociólogo e o ardor do militante socialista”
Florestan Fernandes (2007: 25)

Florestan Fernandes escreve com paixão e razão. Se posiciona, mas não abre mão da análise sociológica. “Talvez o traço principal da obra madura de Florestan Fernandes seja o profundo sentido revolucionário, nutrido pela fusão entre o conhecimento rigoroso e a força da convicção. O esforço quase obsessivo de harmonizar o saber sociológico com a paixão política do socialista faz dos seus escritos uma vigorosa militância”, ressalta Antonio Candido (p. 9).

Florestan não esconde sua posição ideológica, nem sucumbe às análises simplistas que transformam a experiência cubana numa espécie de “paraíso terrestre”. Ele “não escamoteia os aspectos negativos, como a tendência ao centralismo estatal, o perigo de hipertrofia e a esclerose burocrática, as falhas devidas a erros etc.”, observa Candido (p.15).

A iniciativa do autor tem o mérito de apontar criticamente para a nossa formação acadêmica colonialista. O fato de eventos históricos como a Revolução Cubana não serem incorporados ao currículo universitário com a mesma facilidade com que se incorporam temas eurocêntricos tem muito a ver com isso. Como nota Florestan, também “decorre, claramente, do teor provinciano de nosso “espírito universitário” (p. 21).

Sua interpretação sobre a Revolução Cubana foge aos estereótipos teóricos que se pretendem universais. Ele apreende o significado dos acontecimentos que sacudiram a ilha e influenciaram o continente a partir das suas especificidades. É coerente com o estudo do marxismo na América Latina a partir das particularidades culturais e históricas da região.

Eis uma obra que destoa da realidade que vivenciamos no campus acadêmico. Ela rompe com a ideologia da neutralidade, travestida de objetividade científica. Também destoa do estilo panfletário dos que imaginam transformar a sociedade através do recurso às frases de efeito e o abuso dos argumentos de autoridade.

O leitor crítico dos rumos tomados pela revolução cubana – e não me refiro à crítica liberal e/ou de direita – poderá divergir do relato, em especial sobre temas emblemáticos como a organização do poder popular e sua relação com o Estado. Por outro lado, demonstra a complexidade da análise quando se mantém o compromisso entre a paixão revolucionária e a objetividade do cientista social.

Mas a obra permanece atual. Militantes, sociólogos e congêneres têm muito a aprender com a sua leitura. A atitude do sociólogo militante Florestan Fernandes é exemplar. Sua obra contribui para a reflexão crítica sobre o papel da intelectualidade e do campus na sociedade. Com efeito, temas como a Revolução Cubana estão presentes no campus. Mas de que forma? Enquanto temas curriculares pretensamente isentos de ideologia, isto é, tratados como conteúdos a serem apreendidos e avaliados e/ou, o que não é menos grave, como doutrinas para a conversão dos pequenos profetas que confundem seu papel e abusam da autoridade intrínseca ao desempenho da docência. Esta obra é uma importante contribuição aos que não sucumbem aos dogmatismos. Mesmo para divergir é preciso estudar a fundo.

Por fim, saliente-se que os fatos históricos são construções de homens e mulheres que, com acertos e erros, buscam alternativas. Ousam o diferente, merecem respeito. “Assim lutam os povos”! E se não participamos diretamente das suas lutas, devemos, no mínimo, sermos condescendentes. Afinal, nos oferecem a oportunidade de aprender.

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Versão reduzida da resenha ao livro Da guerrilha ao socialismo: a Revolução Cubana. (São Paulo: Expressão Popular, 2007, 352p., de Florestan Fernandes). Para ler o texto na íntegra clique http://www.espacoacademico.com.br/071/71res_ozai.htm

5 comentários sobre “Aprender com Florestan Fernandes e a Revolução Cubana

  1. Grande Florestan… tem um livro da Expressão Popular sobre a sua vida que é belo… e tbém um documentário feito pela TV Câmara e disponível no YouTube…

  2. Prezados,Florestan é um dos socialistas que eu mais admiro, pois sabe aplaudir o que deve ser aplaudido no socialismo, mas por outro lado, Florestan não teme ao criticar pontos discutíveis do mesmo.Se alguns diziam que FHC era (no passado) o “príncipe dos sociólogos”, fato que discordo, para mim Florestan é o rei.Um abraço,Roberto Saraiva Romera

  3. [James Simões de Brito] [james.brito@uol.com.br] [Maringá, Paraná] A posição ideológica transparente de Florestan Fernandes diante do compromisso entre a “paixão revolucionária” e a “objetividade científica do cientista social”, o qualifica como um “crítico coerente”, ou seja, o professor rompe com o vulgarismo pseudomarxista que amortece a dialética. Assim, como Antônio Gramsci, em sua “concepção dialética de história”, um crítico só pode ser coerente a partir do momento que conhece a história concreta sem omissões, mesmo que ela “corte a própria carne”. Florestan não escamoteia o contexto que o cerca. “É coerente com o estudo do marxismo na América Latina”. Considera em suas críticas os acertos e erros dos homens e mulheres, dominados e dominadores, pois os mesmos fazem parte da totalidade histórica. Parabéns professor Ozai, pois onde se vê neutralidade no “campus acadêmico”, deveria ser visto pelo menos três posicionamentos, a saber: acomodação; conservação do status quo das elites burras; ou ainda, que pior… Alienação.15/04/2007 09:37

  4. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba-pr] suas palavras lembraram-me os versos do vandré: “a certeza na frente, a história na mão”. a revolução cubana remete-nos à reflexão sobre as motivações que levam uma determinada sociedade a tomar as rédeas da sua própria história. quer coisa mais necessária que essa? abraços e uma boa semana10/04/2007 22:37

  5. [Eronildes] [eron.ms@terra.com.br] Infelizmente, para a maioria a primeira coisa que vem à mente em relaão à Revolução cubana são os “aspectos negativos, como a tendência ao centralismo estatal, o perigo de hipertrofia e a esclerose burocrática, as falhas devidas a erros, etc.”. 10/04/2007 11:31

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