Os nossos mortos

No dia 27 de abril de 1937, às 4:10h, em Roma, morria Antônio Gramsci. O funeral foi na tarde do dia seguinte, sob forte chuva. Nascido em 22 de janeiro de 1891, na Sardenha, Gramsci tinha 46 anos.

28 de agosto de 2007. No auditório da Unesp, campus de Marília (SP), ocorre a abertura do 5º Seminário Internacional Gramsci. O evento marca os 70 anos da morte do militante comunista. As luzes são apagadas e ouço uma voz, acompanhada por notas musicais, declamar a poesia As cinzas de Gramsci, de Pier Paolo Pasolini. Na parede projetam-se imagens que nos conduzem ao túmulo de Gramsci.

A voz, a música, as imagens projetadas e o silêncio do auditório, sob a penumbra e repleto de pessoas que comungam a mesma emoção, produz um efeito sublime. Compreendo o significado da vida e morte do homenageado. Percebo que me identifico com o morto e os que compartilham aquele momento. E parece-me que ele está presente entre nós. Então, me pergunto sobre o que vivencio. Um pensamento perpassa a minha mente e tenho a sensação de viver uma experiência transcendente.

Reverenciar os nossos mortos é também uma forma de reafirmarmos a vida. Precisamos deles e os ressuscitamos em nossa memória. Eles são a fonte do elixir que nos fortalece; expressam as idéias que seguimos e rememorá-los é reafirmar nossa crença. Eles são exemplos de vida. Trazê-los de volta ao convívio dos vivos é uma maneira de transcender a morte. É como se afirmássemos a nós mesmos que não morremos. Sim, virá a morte física. Mas permaneceremos entre os vivos que compartilham o ideário que abraçamos, idéias que tomamos como nossas. Se no presente os mortos vivem através de nós, no futuro, quando nossos corpos não mais existirem, viveremos através das gerações que nos sucedem.

Venerar os nossos mortos é uma necessidade. No ritual, profano ou sagrado, resgatamos o que eles nos legaram, tornando-os presentes. Eles revivem em nós. Somos portadores das idéias do passado, e isto nos revigora porque nos sentimos como parte de algo poderoso que transcende o tempo e supera a morte física. O passado, o presente e o futuro fundem-se em nós como uma torrente que rompe os diques da história. Irmanados em torno dos nossos mortos, a utopia é reafirmada e se mostra realizável. O inexeqüível deixa de sê-lo. Sentimos o futuro diante de nós. Apesar das margens que a oprimem, a corrente flui, mantém o seu curso e conduz a utopia ao presente e para o futuro.

Cultuamos os nossos mortos por nós mesmos. Eles nos dão a certeza de que a vida tem um sentido e que vale a pena viver. Sem eles e as idéias que nos legaram, sem a possibilidade de retornar ao passado, ao mesmo tempo em que miramos o futuro, a vida seria medíocre. Apenas passaríamos por ela.

Porém, admitamos que há algo de religioso no culto que prestamos aos nossos mortos. Cultuá-los também acarreta o risco da identificação acrítica com as idéias que eles expressam, a conseqüente transmutação em dogma e a sacralização.
Por outro lado, reconheçamos a necessidade de nos identificarmos com eles. Suas idéias materializam-se em nosso ser e em outros que virão depois de nós. Como eles, viveremos. Como portadores destas idéias necessitamos reafirmá-las e reportá-las à tradição que nos precede. Assim, mostramos ao mundo o quanto são fortes, pois, apesar de tudo, elas sobrevivem. Ainda que nos persigam, nos prendam e nos assassinem, não matarão nossas idéias. Elas estão livres, mesmo quando o corpo é prisioneiro dos ditadores; elas vivem, ainda que a morte nos alcance. Antonio Gramsci comprova-o. Precisamos dos nossos mortos! Com a fênix, ressurgem das cinzas, as cinzas de Gramsci, as nossas e de tantos outros.

3 comentários sobre “Os nossos mortos

  1. Olá Ozaí! Seu texto me trouxe à memória a importância do pensamento gramsciano para mim e pra outros que acreditam no papel do intelectual engajado, na cultura contra-hegemônica. Isso me motiva a incentivar a ação e o pensamento críticos, sobretudo, no meio universitário em que vivo! Abraço

  2. Belo texto, Ozaí. É danado, a gente deixa de vir aqui e quando volta encontra o blog renovado, em mais de um sentido. Preciso da sua leitura também lá no meu blog, que não tem a dinâmica do seu, mas de vez em quando comete uma “cacetadinhas”. Está no http://urarianoms.blog.uol.com.br/Abraço pernambucano.

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