A culpa é dos pobres!

Os “cansados” me fizeram lembrar de uma reflexão que escrevi por ocasião das eleições de 2006. Não votei em Lula, nem no PT. Mas não podia silenciar diante de certos comentários que ouvi à época, pronunciados por bocas bem alimentadas e saudáveis. O moralismo de setores da classe média anda de braços dados com os ranços autoritários que marcam nossa herança cultural e política. O preconceito de classe é a sua face visível, sem falar no racismo e nos preconceitos de cunho regionalista. Reproduzo o texto abaixo, publicado originalmente em http://antoniozai.blog.uol.com.br, no dia 31 de outubro de 2006. A charge é de Angeli (FSP, 07.02.2006).

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A culpa é dos pobres!

As últimas eleições trouxeram à tona velhos preconceitos, geralmente dissimulados e restritos a espaços sociais específicos. Nem me refiro ao preconceito dos “instruídos” contra o ex-operário que logrou conquistar a mais importante posição na política brasileira. Não! A “novidade” que emerge nesta conjuntura é o preconceito generalizado contra os pobres, a culpabilização destes pela reeleição do presidente.

Setores esclarecidos da sociedade brasileira, que se consideram bem-educados, bem-informados e formadores de opinião, não compreendem como a maioria popular, o chamado “povo”, reelegeu Lula e parece redimi-lo dos pecados morais denunciados insistentemente pela mídia e alardeados pela oposição. Estão estarrecidos!

Na cruzada pela moral e pelos bons costumes parecem esquecer as pequenas e grandes hipocrisias do cotidiano, tão bem caracterizadas pelo “jeitinho brasileiro”. Imaginam-se puros, num mundo de impuros. Exigem uma ética que nem sempre praticam, ou que não deram importância em outros momentos da nossa história política recente. Moralistas sem causa, não se dão conta da hipocrisia dos que agora se apresentam como paladinos da ética, muitas vezes, numa clara afronta à própria biografia.

Embevecidos e maniqueístas, não se envolvem com a política, não querem “sujar as mãos”; mas aderem acriticamente ao discurso dos políticos que lhes falam o que querem ouvir e reduzem a sua participação política, quanto muito, a comparecer à urna eletrônica e registrar a sua “ira santa”.

Iluminados, pregam pelo resgate da moral. Mas os pobres parecem não compreendê-los. Perplexos, os pregadores buscam explicações e… finalmente, como que inspirados por alguma força sobrenatural, encontram a resposta. Os pobres são ignorantes e mal-educados e, em seu desatino, não ouvem as vozes dos esclarecidos. Portanto, são culpados!

Os moralistas de plantão desconsideram uma lição tão antiga quanto a existência da política: se a moral é importante (e qualquer político tem que parecer honesto), a política diz respeito prioritariamente a interesses e tem como medida os resultados apresentados. Os pobres, como a classe média, votam em defesa dos seus interesses. Mas, enquanto os primeiros, por necessidade de sobrevivência, assumem isto e são pragmáticos, os segundos agem como se não tivessem interesses materiais a defender e adotam o véu moralista.

Os pobres, da mesma forma que votaram no “companheiro presidente”, também elegeram o “sociólogo presidente” e o “caçador de marajás”. Em todos os casos, pareceu-lhes sempre a melhor opção em defesa dos seus interesses. Mas, é claro, para a classe média moralista, os pobres só agem certo se votarem no candidato que ela escolheu. Como os pobres não lhes deram ouvidos, tornam-se alvos da crítica. São, então, lembrados da sua ignorância e da falta de educação.

Os pobres são culpados! Por existirem, por terem o direito a votar, por serem pobres e necessitarem do assistencialismo estatal. A culpa é deles! Eis o discurso do preconceito!

13 comentários sobre “A culpa é dos pobres!

  1. Regina,obrigado por acessar e comentar o blog.Para mandar por email, acesse o post e clique em “arquivo” e “enviar página por email”. O texto será encaminhado no corpo da mensagem.Obrigado.Abraços e tudo de bom,

  2. Quando um partido socialista chega ao poder (seja via revolução, seja via eleição) isso não quer dizer que automaticamente a sociedade também já virou socialista. Isso quer dizer apenas que uma facção socialista da sociedade obteve o poder político, ou o aparelho do Estado, ou a máquina governamental, enfim. É o que acontece no Brasil de 2003 em diante. Portanto é natural que as demandas democráticas continuem existindo sob um governo do partido socialista. É natural que os questionamentos de oposição à uma situação não-socialista continuem existindo, os mesmos questionamentos, aliás, que o partido socialista (agora situação) fazia quando era de oposição. Mesmo quando o partido socialista for o agente motivador do modo de produção social, e a sociedade tornar-se enfim socialista, até aí haverá demandas democráticas, porque a história é dinâmica, a sociedade muda, e haverá novas demandas a serem atendidas. E isso é positivo: são as mobilizações populares que oxigenam o partido socialista. Acontece que o que temos historicamente observádo é que o partido socialista governante, diante das demandas e questionamentos que sofre por ser governo, inverte a ótica, entendendo que os questonamentos e exigências se dirigem a ele, não à situação anterior à qual ele mesmo combatia. Portanto, não deveria sentir-se incomodado com mobilizações populares. E daí parte para uma defensiva tentando desqualificar tais demandas democráticas, as mesmas que antes defendia. Por que? Será remorso, porque não consegue ou não quer cumprir os projetos programáticos que justificaram sua eleição? E por que ele não consegue realizá-los? Será inépcia, inoperância, ou, simplesmente, porque foi cooptado pela elite social e “passou para o outro lado”? Se as demandas democráticas incomodam um partido socialista no poder é porque ele deixou de ser socialista, ou democrático, ou não o está sendo satisfatoriamente. O que acontece com o PT é isso: ele não vê, ou não quer ver, que as greves são dinâmicas democráticas que representam uma demanda popular e concretizam uma mobilização social. Agora que o PT é governo, manifesta o entendimento de que as greves o questionam, ou o sabotam; são “badernas” ou “complôs” da direita, etc, etc, etc. Porém, as greves sempre serão institutos democráticos, quer numa sociedade capitalista, quer, mesmo, numa sociedade socialista, com greves de colcoses, de sovietes, de comunas, ou o que for. Uma manifestação popular ou que encampe os interesses da maioria da população sempre será democrática, por definição: se o governo for realmente socialista deve levá-las em consideração, porque a mobilização popular está no cerne de qualquer partido realmente socialista ou de esquerda. Ela é que o justifica como partido e o legitima se for governo.

  3. [Daniel Antonio] [sociologo05@hotmail.com] [antonioozai] [Uberlandia Mg] É impressionante a onda de comentarios elitistas que tem sido publicado na impressa nos ultimos meses, principalmente na folha de s.paulo, a respeito da geande maioria dos eleitores de lula que segundo pesquisas votaram no presidente. O fato interessante é que quando o povao votava nos candiadatos oriundos da elite nao eram chamados de ignorantes(pelo menos em publico)agora que nao votam no candidato preferido deles(picole de chuchu)estes mesmos eleitores sao consideraos idiotas!06/11/2006 06:43

  4. [Daniela Silva] [daniela.silva_1@hotmail.com] [Salvador – Bahia] Eu fico refletindo na imagem…penso no que a minha professora de História da Educação II, diz: “A bolsa família vai salvar o Brasil.” (satiranzando)…É pra refletir05/11/2006 11:13

  5. [Vitor Hugo Tonin] [vitorht@gmail.com] [Florianópolis] “A era da pedra no lago acabou” esta foi a manchete da entrevista de Franklin Martins concedida a “Caros Amigos” de Set/2006. O que ele quis dizer com essa metáfora foi o mesmo que esse texto. Aquele tempo em que a classe média formava a opinião da classe baixa acabou, ainda bem.05/11/2006 12:43

  6. [Karim Roberta de Almeida] [karimralmeida@yahoo.com.br] [São Paulo] Adorei o texto, ele retrata aquilo que estamos vivenciando no nosso cotidiano. Os oprimidos entraram em cena e fizeram das urnas a sua vontade. 05/11/2006 02:51

  7. [Marx Golgher] [mxgolgher@oi.com.br] [BH, Minas, Brasil] Não penso ser moralismo exigir do governo Lula, e de outros poderes que protejam os cofres públicos de quadrilhas de assaltantes. Fato público e notório constatado neste governo, confessado pelo próprio presidente Lula. No caso dos mensalões, demitiu o chefe da casa civil, o presidente do PT, em meio a discurso que fora traido; no caso do dossiê, demitiu o presidente do PT, tachou os responsáveis petista de aloprados. O Procurador de República, nomeado por Lula, fez denuncias gravissimas de haver no governo uma quadrilha de assaltantes do Erário público, etc. etc. Agora, depois destes tristes episódios, assistidos ao vivo e em cores por milhões de brasileiros, vir dizer que eles não existiram, e que tudo foi invenção da imprensa, é velho chavão stalinista para acabar com a liberdade da mídia do país. Não pega. “Pode-se enganar todo o mundo durante algum tempo, e certas pessoas durante o tempo todo, mas não se pode enganar todo o mundo o tempo todo” Lincoln(1809-1865)04/11/2006 16:50

  8. [Lourival Araujo Filho] [loristoria@interia.pl] [krakow – Poland] Antonio, ha muito nao lia algo conciso e com tamanho poder de elucidacao. Sinto-me, de verdade, orgulhoso de poder participar, mesmo que atraves de simples comentarios, desse blog. A midia, principalmente a que se esconde atras da popularidade junto aos grandes meios, proximos da classe media (Gaz do Povo, Folha de SP, Estadao, Veja…)parece ter perdido a queda de bracos com o Presidente. E muito bem!!! Talvez se essa midia fosse mais realista, pudesse ter sido o verdadeiro termometro dos anseios da populacao. Mas nao, ela foi sim o termometro dos desejos de parcela da classe media que digna-se a se sentir santa e impecavel. Para esses a etica so nao existe no governo do governo do PT. Para esses brasileiros sao somente os da classe media e alta. Para esses, pobre so serve pra trabalhar, votar nao. Mas e se tivessem votado em Alckmin?? Antonio, parabens pelo Blog. Grande abracos do polaco de krakow04/11/2006 12:52

  9. [Guido] [guido30@gmail.com] [Brasília] Parabéns pelo blog. Aproveito para deixar meu comentário à essa questão de que os pobres, principalmente o Bolsa Família, deu a vitória ao Lula. Ora, vejam quantos estão inscritos em tal programa, ou são beneficiários e comparem com o número de votos que o candidato teve. Na verdade o que deu a vitória ao Lula foi ser menos ruim do que o outro candidato. Viajo muito e percebi que era significativo o número de carros com adesivos do candidato vitorioso. De Ziraldo a Chico Buarque, tantos nomes de expressão, gente que fez questão de afirmar porque estava votando no Lula. E agora, vêm com essa balela de que os pobres deram desiquilibraram. Ricos ou pobres, somos todos eleitores, somos iguais perante às urnas.04/11/2006 08:31

  10. [Tita Ferreira] [http://titaferreira.multiply.com] [Rio de Janeiro, RJ] Com clareza e objetivdade, disse tudo o que eu gostaria de dizer. Obrigada pelo convite. Estou gostando muito do seu blog.03/11/2006 23:16

  11. [Vinícius] [http://marxismoedireito.blogspot.com/] Prezado amigo, curioso que hoje mesmo tive um contratempo com uma amiga que me parou na rua para reclamar dos resultados eleitorais. Perdi alguns pares de minutos explicando o que o seu texto, suscinto e exato, traz de forma mais elucidativa. até mais. VMP03/11/2006 18:41

  12. [Gilson Carvalho] [carvalhogilson@uol.com.br] [São José dos Campos – SP] Não se trata de bode-espiatório, mas sim de “pobre-expiatório”.02/11/2006 17:02

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