Amor à Pátria? Patriotismo?!

07 de setembro, feriado patriótico. Quem decretou? Por que? Quais os objetivos reais para comemorar? Qual o significado ideológico? O que realmente representa para o “povo brasileiro”? O que é o “povo brasileiro”? Eis algumas das perguntas que geralmente não fazemos em relação a datas comemorativas como esta.

Mas por dever do ofício e respeito, devo responder sobre a necessidade de nutrirmos o “espírito patriótico” e o sentimento de “amor à pátria”. Tento, mas na verdade questiono. Longe de reforçar o “amor à pátria”, afirmo que o patriotismo não é algo tão essencial à vida dos brasileiros. Não é uma necessidade absoluta. Não é algo que seja incisivo no cotidiano. Neste, as preocupações dizem respeito a necessidades materiais imediatas. O patriotismo vem à tona em momentos específicos como nas disputas futebolísticas internacionais, especialmente a Copa do Mundo. Outro exemplo foi o pan-americano, no qual a mídia, e alguns locutores em especial, procuravam insuflar o sentimento patriótico como se todo o “povo brasileiro” estivesse seriamente envolvido com as disputas das medalhas. Parecia até que tínhamos obrigação de torcer pelos “nossos” atletas e que suas vitórias e derrotas era também nossas; que suas medalhas também nos pertenciam.

O sentimento patriótico latente ganha vigor em momentos de tensão social e política. A história está repleta de exemplos nos quais o “amor à pátria” foi uma arma poderosa para estados e governos em conflitos que, no limite, envolveram os povos na insanidade das guerras. É também um argumento ideológico utilizado na “guerra interna”, quando “o inimigo” é o próprio “povo”. Não por acaso que as ditaduras militares usam slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Os ditadores recorrem com maior ênfase ao imperativo do “amor à pátria”.

Mas os governos ditos democráticos também sabem usar muito bem este recurso. Não é em nome dos interesses da pátria e do povo que a nação mais poderosa do mundo se lança em guerras externas e internas contra os que supostamente a ameaçam? A neurose patriótica foi intensificada após a derrubada das torres gêmeas, mas a história dos Estados Unidos registra outros momentos como o macarthismo. Nem Charles Chaplin escapou da sanha patriótica que assolou a nação estadunidense nesta fase. Os que não aderiam ao “espírito patriótico” eram vistos como o “inimigo interno” em potencial.

O “amor à pátria” pode até mesmo parecer algo positivo, mas revela-se essencialmente perigoso em determinadas circunstâncias históricas. O patriotismo é uma ideologia que pressupõe a adesão cega e incondicional. Em circunstâncias de tensões sociais, ele alimenta a intolerância e, no limite, prega a exclusão física do “outro”.

É fato que há vários nacionalismos, inclusive aquele que se pretende de esquerda e anti-imperialista. Contudo, considero mais prudente refletir criticamente sobre o “espírito patriótico” do que alardeá-lo. Ficou a sensação de que frustrei o entrevistador e, quiçá, o público ouvinte.

A necessidade de responder ao questionamento jornalístico me fez retomar minhas anotações de leituras e, enfim, me preparar. A entrevista durou pouco, o tempo da mídia se rege por outros interesses e, é claro, não é possível aprofundar. De novo a sensação de frustração.

De qualquer forma, registro o agradecimento pela possibilidade refletir sobre o significado do “espírito patriótico” e do “amor à pátria”. Não fosse questionado e o meu dia teria sido simplesmente mais um, esquecendo até o motivo do feriado. Deve ter ficado a impressão de que o entrevistado não é nada patriótico.

7 comentários sobre “Amor à Pátria? Patriotismo?!

  1. Ozaí, as decepções à esquerda e à direita não podem embaçar nossos horizontes nem os sentimentos nobres que devemos cultivar. Os erros ou equívocos do passado, repetidos no presente, não devem nos esmorecer. Uma boa dose de auto-engano é necessária principalmente ao professor que, além de artista tem que ser sonhador. O artigo do Prof. Raymundo sobre o erro no ensino da pesquisa científica publicado na revista espaço acadêmico desse mês, aponta nessa direção. Ele não enaltece o erro, também não o condena. Ele percebe o erro como um aprendizado. De todo àquele que tentou acertar, ou melhor, tentou descobrir.Embora você tenha abordado patriotismo de uma forma que a maioria assim o percebe, há um outro lado que os mais antigos, a exemplo do Afonso Celso, nos incutiram. IvanNo quarto centenário do descobrimento do Brasil, Afonso Celso aos seus filhos escreveu o que consta da apresentação – suprimidos dois parágrafos – do seu livro: Porque me ufano do meu País. Fonte: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ufano.htmlConsiste a minha primordial ambição em vos dar exemplos e conselhos que vos façam úteis à vossa família, à vossa nação e à vossa espécie, tornando-vos fortes, bons, felizes. Se de meus ensinamentos colherdes algum fruto, descançarei satisfeito de haver cumprido a minha missão.Entre esses ensinamentos, avulta o do patriotismo. Quero que consagreis sempre ilimitado amor à região onde nascestes, servindo-a com dedicação absoluta, destinando-lhe o melhor da vossa inteligência, os primores do vosso sentimento, o mais fecundo da vossa atividade — dispostos a quaisquer sacrifícios por ela, inclusive o da vida.Embora padeçais por causa da Pátria, cumpre que lhe voteis alto, firme, desinteressado afeto, o qual, longe de esmorecer, — aumente, quando desconhecido, injustamente aquilatado, ou ingratamente retribuído, e, jamais, em circunstância nenhuma, vacile, descreia, ou se entibie.Mas cumpre igualmente que não seja um amor irrefletido e cego, e sim raciocinado, robustecido pela observação, assente em sólidas e convincentes razões.Não deveis prezar a vossa terra só porque é vossa terra, o que, aliás, bastaria. Sobejam motivos para que tenhais também orgulho da vossa nacionalidade. A natureza não constitui o seu exclusivo e principal título de vanglória.Ousa afirmar muita gente que ser brasileiro importa condição de inferioridade. Ignorância, ou má fé! Ser brasileiro significa distinção e vantagem. Assiste-vos o direito de proclamar, cheios de desvanecimento, a vossa origem, sem receio de confrontar o Brasil com os primeiros países do mundo. Vários existem mais prósperos, mais poderosos, mais brilhantes que o nosso. Nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável.E me sinto amigo do meu país, cada dia em grau superior ao do antecedente. Em nenhum outro, fixaria de bom grado o domicílio. Peço que me deitem aqui, somente aqui, para o sono supremo.Avigorai, meus filhos, estes argumentos; juntai novos fatos a tais fatos; propagai-os; cultivai, engrandecei o amor pelo Brasil.Que a vossa geração exceda a minha e as precedentes, senão em semelhante amor, ao menos nas ocasiões de o comprovar. Quando disserdes: “Somos brasileiros!” levantai a cabeça, transbordantes de nobre ufania. Convencei-vos de que deveis agradecer quotidianamente a Deus o haver Ele vos outorgado por berço o Brasil.Ivan Luiz Colossi de Arruda

  2. O desfile militar de 7 de setembro, no Brasil, foi instituido nos primeiros anos do Estado Novo, quando o governo e cúpula militar viam o Nazismo com grande simpatia.Outra: O Brasil é o unico país do mundo a realizar desfile militar em data comemorativa. Até o início dos anos 90 outro país que realizava era antiga União Soviética, no dia 1º de maio. Erasmo

  3. Paz e bem!Ozaí a melhor frase sobre patriotismo que já encontrei é a do brasileiro Joaquim Nabuco(1849-1910):”O verdadeiro patriotismoé o que conciliaa pátria com a humanidade.”

  4. Caro Ozaí, volto a participar de seu blog. Acho que essa discussão é realmente complexa. Na verdade, acredito em nacionalismo não-xenófobo. Patriotismo tem todos os inconvenientes que você cita, mas valorizar a cultura, os costumes e a produção nacional – incluindo os empregos – me parece fundamental para um país tão colonizado como o Brasil continua sendo. E isso não contraria a admiração pelas realizações de outros países, nem o intercâmbio com eles – cultural, econõmico, humano, tudo.A burguesia brasileira é o mais anti-nacional possível. Expressões em inglês para as quais há substitutos perfeitos em português são “chiques”. O povo brasileiro é desprezível para eles, mas os povos do Hemisfério Norte, com todas as suas características – boas e más, como as nossas – são glamourizados. Costumes copiados de lá ficam ridículos aqui, mas são “chiques”. Veja, por exemplo, todos esses empresários suando e fedendo, metidos em ternos com camisas manga comprida ao meio dia do verão tropical! Não é estúpida essa imitação do Norte? E o Papai Noel? Pobres dos coitados que ganham uns trocados para imitá-lo, suando em bicas no auge do verão para imitar um cara da Lapõnia gelada! Já percebeu a moda de uns 15 anos para cá, de fazer a festa do Halloween? É uma linda tradição celta, transportada por ingleses e irlandeses para os EUA, mas nada a ver com as tradições luso-índio-africanas do Brasil… E a imitação vira moda! Quantos investimentos não estão por trás disso? Acho válida a tentativa de certos meios intelectuais de criarem o Dia do Saci em substituição ao Halloween, mas lamento, acho que não vai dar certo, adoramos imitar o Norte e desprezamos nossas próprias raízes culturais.Há um certo nacionalismo latente na população, mas a mídia e os formadores de opinião geralmente se lascam para isso. Todos os exemplos que nos querem impingir vêm do Norte: na política, na economia, na cultura de massa… E aqui, as imitações empobrecem o original, quando não são verdadeiras farsas. Não falarei sobre a farsa econômica de que “nos EUA, tudo é privado, aqui também tem que ser”, porque levaria um artigo. Indico minha modesta contribuição ao Programa Cultura e Pensamento, em http://www.revistaraiz.uol.com.br/estado – ver Textos Adicionais no Menu lateral. Aliás, desse evento acho ainda mais importantes as contribuições feitas nos debates sobre Estado e Nação pelo jornalista Antonio Alves, do Acre (ver Debates – São Bernardo 22/11 e Rio Branco 28/11) e pela economista e professora Leda Paulani, na resposta ao presidente do CIESP, também economista (veja em Debates -São Bernardo – 21/11, seção Respostas, as falas dos dois).Um abraço – Roberto Vital Anau

  5. é perigoso perguntar para as pessoas na rua o que representa o dia 7 de setembro e eles responderem…_Não foi o dia que caiu a torres la do Estados Unidos…ahhhh não foi o dia 11… o que representa dia 7 então???Ou até_ Acredito que tenha sido o dia que os carinha lá estavam armando para derrubar as torres…Mas não vamos entrar nesse merito e vamos ao que interessa ne!”A corrupção e os questionamentos de fatos históricos contribuíram para a diminuição do sentimento de patriotismo e do civismo brasileiro”Acredito que a história do pais é que proporciona o patriotismo e a sua intensidade, que virá correr pela veia e bater no coração de seu povo…A história do Brasil nos mostrou que começamos “errado” a conquista da independencia partindo do ponto de que foi produto de um cunho elitista e não de um movimento com a participação do povo… Particularmente acredito que essa independencia tenha sido uma mera transação do pacto da santa aliança que teve que pagar uma INDENIZAÇÃO…O que pode ter sido responsavel por tirar credibilidade desse dia comemorativo…Como cobrar patriotismo?Espero que nossa geração seja diferente e consiga o que essa geração não conseguiu… Que a nossa saiba se valorizar e não se venda como essa vendeu… Porque quando essa pais começar a mudar poderemos falar sobe patriotismo, ão so em epoca de futebol ou de copa…(atualmente nem isso ne!)

  6. Caro(a),o blog não aceita comentários anônimos. Ainda que escolha esta opção, por favor, se identifique no final do comentário. Também pode ser escolhido a opção “outro”.Muito obrigado,Ozaí

  7. Prezado Ozaí acho que sua frustração é partilhada por muitos brasileiros.Não há muito que comemorar a independência ainda não nos atinguiu de fato. Ainda a milhões de brasileiros dependentes do bolsa família e tantos programas assistencialistas.Me lembro da seguinte manifestação:”Estou muito grata a todas estas organizações nos Estados Unidos, especialmente as organizações privadas e religiosas. Aprecio a comida e vestidos que eles enviam. Eu lhes agradeço sinceramente a sua vontade em ajudar, e sei que eles fazem isto com grande amor. Mas também gostaria de dizer que este relacionamento – onde somos dependentes da benevolência de estranhos – não é o tipo de relação que gostaríamos de ter. … Não vamos resolver nosso problema com folhetos. Porque nosso problema é social. E até que mudarmos este sistema, toda a caridade no mundo não nos levará a sair de pobreza”. (Elvia Alvarado, Não Tenha Medo Gringo: Uma Mulher Hondurenha Fala do Coração)Fonte: beliefnet.com/blogs/godspolitics/Que a independência nos chegue.Abraços,Maria Newnum

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