Deputados e eleitores

Outro dia, retornando a Maringá, fui agraciado com a presença de um casal de deputados viajando no mesmo voo. Reconheci-os assim que entraram. Se não tive a sorte de me tornar deputado, tenho a vantagem do anonimato. Assim, pude observar como eram cumprimentados respeitosamente, como todo ser humano merece. O deputado sentou ao meu lado – uma poltrona nos separava. Devia estar cansado de tanto trabalhar e não me cumprimentou. Não estranhei, ele não me conhecia. Talvez esperasse que eu tomasse a iniciativa. Contudo, em seu lugar, considerando que é deputado e que o eleitor é sempre um voto em potencial, teria cumprimentado. E, sobretudo, seria uma questão de boa educação.

Logo o esqueci e passei a admirar as nuvens. Bem mais interessante e o dia estava lindo! Fiquei pensando sobre a inteligência humana em produzir uma máquina capaz de voar. E de repente, me veio um pensamento metafórico sobre a relação entre os representantes do povo e os seus eleitores. Os políticos estão ‘nas nuvens’, a realidade deles parece não existir para a maioria dos seus eleitores. O mundo deles parece ser outro mundo, muito diferente do cotidiano das pessoas comuns. E quando se aproximam do povo é apenas como um meio. Não se misturam, chegam e voam…

Quando o avião pousou observei os funcionários do aeroporto que se aproximavam. Suas fisionomias, seus corpos, suas vestimentas, falavam por si. São os que limpam os aviões e que cuidam de todos os detalhes para que possamos voar. Dificilmente viajarão de avião, entram e saem. Quantos meses de trabalho precisam para ganhar o equivalente ao salário mensal do casal de parlamentares? Sorte dos deputados que seus potenciais eleitores têm a urgência de ‘ganhar a vida´ e não sobra tempo para reflexões sobre a função dos políticos e o abismo real que os separam dos simples mortais. Eles estão ‘no chão’ e os políticos nas ‘nuvens’, mesmo após pisarem em terra firme…

Voltei a pensar neste dia insólito devido à polêmica sobre o aumento dos salários dos deputados e a prática nada laudatória de legislar em benefício próprio e aumentar absurdamente os rendimentos. Eles parecem não perceber que ampliam o abismo em relação aos representados. Prestam um desserviço à política, atiram no próprio pé. Destituem a política de qualquer significado para os milhões de indivíduos que labutam quotidianamente. O indivíduo comum afasta-se cada vez mais da política; cético, aliena-se – como dizíamos nos anos 1980. Tais parlamentares fazem a política com ‘p’ minúsculo, agem como simulacros de políticos.

Quanta mediocridade! A pedagogia política destes pseudo-representantes desmascara a retórica democrática utilizada em períodos eleitorais. Na verdade, tudo que esperam dos seus eleitores, ditos cidadãos, é que apenas os elejam e reelejam. Toda sua atividade tem o sentido de convencer que eles, como peritos, sabem o que fazem. Pedem-nos que confiemos neles, que os deixemos trabalhar, que entreguemos nossos destinos em suas mãos!

Embora tenham o poder de tomar decisões que afetam toda a sociedade, agem como burocratas em defesa dos meios que lhes garantem os interesses particularistas e não dos fins e dos interesses universais. Decidem em causa própria. Praticam a deseducação política. Desestimulam a participação política e despolitizam. Praticam conscientemente a contra-educação política. Felizmente, há reações… E, por sentimento de sobrevivência ou mesmo consciência do absurdo, há, entre os próprios políticos, os que divergem.

11 comentários sobre “Deputados e eleitores

  1. E por falar em piada…A professora chega na sala de aula dizendo que a matéria seria sobre profissões e logo faz a primeira pergunta: -Pedrinho qual a profissão do seu pai?- meu pai é pedreiro.-muito bem, diz a professora. E do seu pai, mariazinha?-profi, meu pai é contador.-Joãozinho e seu pai?-meu pai é dançarino em boate gay.-o que!! exclama a professora.-É profi, dançarino, e as pessoas ainda colocam dinheiro na cueca dele.A professora chocada pede para todos os outros alunos sairem, e a sós com Joâzinho pergunta novamente: – que estoria é essa menino?Ele responde: – Profi, desculpa eu ter mentindo é que eu tenho vergonha da profissão do meu pai, por isso inventei uma mais digna. mas já que estamos a sós eu vou dizer como meu pai ganha a vida: Ele é deputado.Ozaí desculpa a brincadeira, más o que eles fazem com o povo é uma verdadeira piada.

  2. [Jadilson] [jadeccvilasboas@yahoo.com.br] [Vitória da Conquista – BA] Isso nos leva a concluir que é isso que leva os “nossos” parlamentares a colocarem a Educação em 3º, 4º,… plano e legislarem em causa próprias. É preciso acordarmos, nós e nosso povo.02/01/2007 12:40

  3. [Marcos Alexandre] [malexandre@sinpro-rio.org.br] [Rio de Janeiro, RJ, Brasil] Ótima reflexão. Elegante e afiada. Destacö: “Quanta mediocridade! A pedagogia política destes pseudo-representantes desmascara a retórica democrática utilizada em períodos eleitorais.”24/12/2006 11:04

  4. [Rose Palmeira] [rosepalmeira@hotmail.com] [Fortaleza] É meu caro… Político… dizem que somos seres políticos…mas, esses sujeitos sejam homens ou mulheres eleitos por nós mais parecem “monstros”, algo não reconhecível ao chegarem ao Planalto ou mesmo às suas casas citadinas estaduais ou municipais que os abrigam… Seria uma poção mágica maldita que os transforma?! Acho qeu temos a solução…mas carece de uma revolução… um plebiscito para extinguir todas as mordomias municipais, estsduais e federais… acabar de vez com essa barbaridade que nos devora: bancar políticos indignos de serem chamados de brasileiros.Chega! Falas-se tanto em novos modelos de gestão, novos paradigmas… Tenhamos então, um novo modelo político sem salário bancado pelos trabalhadores. Que tal: salário conforme produção comprovada de projetos comunitários?23/12/2006 11:34

  5. [Jairo da Matta] [jlmatta@click21.com.br] [Rio de Janeiro – RJ] Não tenhamos ilusões. A cidadania se afirma no seio da discussão de como controlar o arbítrio e os privilégios dos poderosos. Desde os clássicos, o tema consta, obrigatoriamente, da agenda política. O s “neo-institucionalistas” elegeram por lema a expressão “as instituições importam” (institutions matter). É nas instituições que se movem as decisões dos atores políticos; é através delas que pode se dar o controle do arbítrio e dos privilégios. É hora de mudar o foco da reflexão: não basta mudar as pessoas. Há que se transformar as instituições onde elas atuam. É preciso construir instituições mais sólidas, responsáveis e confiáveis. É necessário re-construir o Congresso com base em regras estáveis, que limitem o arbítrio dos indivíduos que lá estão e instituam mecanismos de transparência e controle, garantindo a melhor participação dos cidadãos que lá se fazem representar. É urgente uma ampla e profunda reforma política das instituições parlamentares no Brasil.21/12/2006 12:37

  6. [Neli Klix Freitas] [neliklix@terra.com.br] [Florianópolis/SC/Brasil] Voar e “estar nas nuvens”.Simbolicamente,próximo de Deus, ou tentar ser o próprio Deus.Acho que os políticos podem até nos conduzir a algumas reflexões interessantes.Em todas as áreas há os que recebem os louros da vitória (humana) e os esquecidos,ignorados.No mundo “fashion” da moda, a costureira apenas espia os modelos que confeccionou.Nos famosos bailes de debutantes era comum ver costureiras nas entradas dos clubes, anônimas,ignoradas,admirando suas obras (os vestidos)>sequer eram convidadas.Os políticos levam todas as honras, esquecem o lado humano da vida,deslumbrados que estão com a fama.É como o espelho físico:reflete apenas a imagem.Mas,afinal,que sujeito é esse que está atrás do espelho?Nos aeroportos, tantos anônimos trabalham também,por nossa segurança,pelas bagagens,escondidos nos uniformes.E nós,professores,de que lado do espelho estamos?Em uma época em que tantos se preocupam com o supérfluo e tantos não tem o que comer,textos como o seu devem ser mais divulgados.Neli20/12/2006 12:52

  7. [Ubirajara Oliveira] [ubirajara@correios.com.br] [Mesquita – RJ – Brasil] É Ozaí, esta é a verdade. Os mundos são completamente distintos. Agora pergunto: Até quando essa gente vai continuar enganando, roubando e nos fazendo de palhaço? Rindo (literalmente) da nossa cara de pastel? será que não o momento de reagirmos? quem sabe esse é o momento? Minha gente, não é possível continuar tendo que engolir todas as falcatruas. É revoltante saber que vivemos num país tão rico, mas tão miserável a ponto de crianças não terem direito de chegar a adolescencia. Quando leio textos como este, me sinto impotente, co-responsável, algo do tipo expectador. Chega, vamos meter a boca no trombone e escancarar em cima desses crápulas! lute! o Brasil é nosso!20/12/2006 11:31

  8. [Celma Tavares] [cftav@hotmail.com] Uma análise lúcida e que deixa duas constataçoes muito tristes. Por um lado que a luta pela sobrevivência diária nao deixa espaço para outros âmbitos importantes na vida de qualquer pessoa. E, por outro, que a descrença na política brasileira, incluindo partidos e congresso, gera um ciclo de anomia que empurra grande parte da populaçao a se acomodar e aceitar este tipo de situaçao. 20/12/2006 10:29

  9. [Flávio dos santos silva.] [fbbf@pop.com.br] [Ap. de goiania GO] Em nosso país Existe uma grande distancia entre governantes e governados. Sobretudo entre o enteresse comum e interesses pessoais. Nossos parlamentares deram uma interessante demonstração de que não estão preocupados em resolver os problemas da população. Eu recebi a noticia do aumento como uma grande bofetada no rosto de cada brasileiro. Meu rosto ficou vermelho… Seria instrutivo ver como um deputado sobreviveria com R$375,00 ao invés de R$24,5 por mes…20/12/2006 10:26

  10. [Leonardo Silvino] [leosilvino@bol.com.br] [http://www.duplipensar.net] É preciso diminuir a distância entre o eleitor e o eleito. O recente aumento dos deputados é um sinal claro de desprezo pela opinião pública, desprezo pelo desejo popular. Enquanto se discute um aumento de oito reais eles simplesmente dobram seus próprios salários. O eleitor por sua vez não se lembra em quem votou. E é realmente difícil. São várias eleições simultâneas com o intuito claro de confundir o eleitorado. Mudanças urgentes precisam ser feitas no processo eleitoral para melhorar a qualidade. Golpe? Exército? Tivemos isto muitas vezes na América Latina e o resultado é sempre nefasto. 20/12/2006 07:21

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s