Anonimato e racismo

Em certas circunstâncias, o anonimato é aceitável e mesmo aconselhável. Por exemplo, sob o regime político ditatorial ou situações de opressão nas quais o assumir-se põe em risco a própria vida e a sobrevivência econômica individual e da família. O sindicalista não precisa de anonimato se tem a estabilidade no emprego e sabe que se for demitido o sindicado o protegerá. Mas o trabalhador comum, que luta no interior da fábrica por melhores salários e condições de trabalho, sabe que não pode se expor. Assim, ele aprende táticas como abaixo-assinados em forma circular e outros procedimentos. De certa forma, vive na clandestinidade. Sabe que deve se precaver quanto à chefia e os alcagüetes. Ele não se ilude. Ainda que o país seja formalmente uma democracia, o local de trabalho tem suas próprias leis definidas por governantes autocráticos. É o poder econômico que se impõe. Para o trabalhador, a necessidade econômica é imperativa; o emprego é o meio que garante a sobrevivência. Portanto, é aceitável que recorra ao anonimato. Porém, mesmo assim, ele assume riscos e, cedo ou tarde, terá que se expor.

Em outras circunstâncias, o anonimato revela comportamentos irresponsáveis. É fácil criticar ou destilar racismo e preconceitos protegido pelo anonimato. Em Maringá, por exemplo, um anônimo postou um comentário considerado racista sobre o ministro Joaquim Barbosa.* O caso está sob investigação.

Espaços como blogs, orkut etc., são propícios a este tipo de procedimento. Ainda que determinados comentários não caracterizem racismo, muitas vezes se pautam por uma agressividade injustificável. A agressão também assume ares de “educada”, isto é, sem o recurso à grosseria verbal. Em qualquer caso, fica explícito que tais indivíduos se escondem atrás do mecanismo (o meio da mensagem) e do anonimato. Mesmo certas críticas aparentemente inofensivas são postadas porque seus autores sentem-se protegidos. O anonimato oferece a sensação do poder absoluto, acompanhada da certeza da impunidade.

Neste caso, o anonimato produz uma inversão de valores. A liberdade de expressão é confundida com licenciosidade; a crítica, necessária para a reflexão e aprimoramento das ideias, dá lugar à ofensa gratuita de desocupados e desequilibrados que pululam pelo espaço internáutico à cata de blogs para lançar torpedos raivosos e testar a paciência dos leitores. Alguns até se consideram críticos e imaginam que através da guerra de palavras fazem a luta de classes – não necessariamente o antagonismo capital versus trabalho, mas a oposição alunos/professores.

Este tipo de anônimo se revela pusilânime. No português claro, é um ato covarde. Ele se caracteriza pela incapacidade intelectual e moral de assumir responsavelmente suas atitudes. No fundo, se esconde de si mesmo, incapaz de enfrentar a própria insegurança. Às vezes, é um sádico. Será que, nestes casos, a internet funciona como espécie de terapia? Talvez precisem de ajuda psicológica. Mas isso não justifica o comportamento licencioso e, menos ainda, o racismo. O anonimato é inaceitável, nocivo e perigoso. Muito perigoso!

Mas não tenhamos ilusões. A internet é apenas mais um meio que reproduz os diversos comportamentos sociais e individuais. O racista não existe porque seu comentário aparece no blog, é um ser humano de carne e osso. O mesmo pode-se afirmar em relação ao crítico irresponsável cujo esporte preferido é falar mal dos outros; se o faz anonimamente através de blogs, provavelmente também o faça em situações que se sente seguro, nos corredores e bares da vida. A tecnologia apenas reproduz estas formas de ser e agir. E, em certos casos, potencializa.
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* Acesse http://www.cbnmaringa.com.br/audio/racismo040907.wma e escute a matéria veiculada pela CBN Maringá em 04 de setembro de 2007.

6 comentários sobre “Anonimato e racismo

  1. Professor Ozaí:Creio que o anonimato pode ser um expediente aceitável quando feito sob a ética e a crítica coerente. Assim, mesmo que pesado, os comentários pertinentes enriquecem o processo democrático, uma vez que, a franqueza é um dos passos importantes para se desvelar contradições escamoteadas pela etiqueta formal ou ainda pelas pessoas “politicamente corretas”.No entanto, quando as críticas dirigidas de forma asquerosa e infundada a alguma pessoa enquanto pessoa jurídica ou ainda relacionada a qualquer individualidade de forma anônima, a mesma crítica torna-se leviana, mesmo que coerente, haja vista que todas as pessoas, indistintamente, deveriam ter direito a réplicas ou tréplicas. Da mesma forma, a possibilidade concreta em defender suas dignidades em qualquer esfera.Portanto, quando o professor afirma que o anonimato onde os indivíduos não assumem suas responsabilidades pode ser declarado de covardia, mais uma vez, o senhor vai ao fundo da questão da falta de capacidade intelectual e moral.Parabéns pelo texto.James Simões de Brito

  2. Pois é caro Professor… os Blogs e o Orkut são mesmo propícios para este tipo de coisa… aliás… tive que moderar os comentários de meu Blog… pq a coisa estava ficando fora de controle!!!

  3. Acho também problemático o fato de não haver liberdade de expressão, ou melhor, garantia de expressão. O anonimato é uma opção quando não há garantias e foi muito usado por muitos autores clássicos. Mas os racistas não devem ter direito à liberdade de expressão? É justo impedir pensamentos racistas, elitistas, fascistas… de serem difundidos?

  4. Na verdade,o racismo no Brasil é um fenômeno de longa duração. O processo de invisibilização e desvalorização do outro faz parte de uma cultura de origem européia e cristã(obviamente nem todos os cristãos pensam assim), pautada pelo ideal da conquista e submissão dos outros povos.O cara que fez o comentário sobre o Joaquim Barbosa deve ser um tremendo invejoso, pois não tem capacidade de ocupar o cargo que o ministro ora ocupa.

  5. “Aonde vc guarda seu racismo?”…devemos refletir…O anonimato neste caso sempre favoreceu o abuso, a desresponsabilização e a falta de comprometimento para conosco mesmo e para com a vida.A desumanização do próximo através desta espécie de preconceito é a forma mais concreta da “pseudo superioridade” que invoca certos individuos,irresponsavelmente e covardemente, através de seus íntimos decaídos e mal resolvidos.O racismo é o ranço do passado escravocrata do nosso país.É hora de abolirmos os ranços do passado e realmente acreditarmos que todos nós estamos interligados no cosmos sem hierarquia, para ser e somente ser “humano” demasiadamente humano…Parabens pelo texto. Ozaí, chegando na terrinha, de um alô. Charlene de Ávila.

  6. Caro,Excelente artigo, apenas um reparo se me permitir.Os direigentes sindicais não estão protegidos por estabilidade. Podem ser demitidos sim, e situação neste caso é muito pior que a de um trabalhador sem invetidura sindical.As empresas suspendem o contrato,e ingressam com ação judicial pleitenado a demissão por justa causa. Com o contrato suspenso o dirigente sindical não recebe nem as verbas do mês trabalhado. Não recebe nada enquanto a ação estiver percorrendo os tribunais.É mais fácil ” um camelo passar por um buraco de agulha”, do que um juiz de primeira instância conceder uma medida liminar de reintegração.Por fim, os patrões usam o discurso ” que o dirigente sindical está protegido pela estabilidade”, para sob ameaça não permitir a sindicalização.Sou dirigente sindical, fiquei com o contrato supenso por 09 anos,e só fui reintegrado com a anistia de Itamar Franco.Hoje temos mais sete diretores demitidos em Bauru SP que trabalham na Ferrovia Novoeste/ALL, e existem muitos pelo Brasil.Um abraço,Roque José Ferreira

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