Meninas e meninos mimados

Vejo crianças e jovens aborrecentes mimados, arrogantes e autoritários. Pais endividados e perdulários tudo fazem para atender os desejos dos pequenos reizinhos e princesinhas despóticos. Sentem-se culpados se não conseguem saciá-los. Acostumam os filhos a um padrão de consumo muitas vezes acima das possibilidades. Não conseguem voltar atrás, cortar gastos e os pequenos prazeres. Então, recorrem ao cheque especial, ao cartão de crédito, empréstimos etc. Sacrificam-se ao deus mercado em nome do amor aos filhos. Confundem-no com os bens materiais que dão aos pimpolhos. São pais ausentes que se fazem presentes através dos presentes. Os filhos são educados a esperar prêmios. Se o filho tem más notas, estimulam-nos com a promessa de um presente; se passa no vestibular, é premiado.

Pais superprotetores almejam formar filhos vencedores. Vêem como necessário prepará-los para a guerra de todos contra todos. E quando os filhos mimados não correspondem ao esperado, por exemplo quando o desempenho escolar, apesar de tudo, não vai bem, eles têm dificuldades em superar a situação pelos próprios meios. Creditam a culpa à escola, aos professores. Logo concluem que é preciso levar o filho ao psicólogo, ao psicopedagogo etc. Transferem suas funções à profissionais e declaram-se incapazes. Preocupam-se com notas escolares, mas nem sempre sabem, ou não dão importância, à forma desrespeitosa e arrogante como os filhos tratam os colegas e professores. Eles apenas reproduzem a vida doméstica: não há autoridade que imponha limites e agem como se tudo pudessem no ambiente escolar.

Os pais o fazem por amor, querem o melhor para os filhos. Ainda que de forma involuntária, protegem em excesso e tolhem a possibilidade da autonomia. Os filhos tornam-se apêndices dos seus desejos e frustrações. Mas sob o preço de mantê-los sob tutela e gerar adultos sem condições emocionais para enfrentar as adversidades da vida. Filhos que se acostumam a tudo possuir sem ter noção sobre o valor exato das coisas, e me refiro não apenas ao valor monetário, tendem a ver a vida como uma coleção de bens adquiridos sem grandes esforços. São fortes candidatos a pequenos ditadores que vêem os demais como objetos a serem manipulados.

Os pais os poupam de preocupações. Sem que desejem, educam para um modelo de vida no qual o essencial é a posse e acúmulo de bens. Os filhos tendem a se tornarem consumidores insaciáveis e a medirem a felicidade pela posse. Estarão predispostos a buscar os caminhos mais fáceis e a adotar qualquer meio para terem o que desejam.

Como culpar os genitores pelo amor que dedicam aos filhos? Não é sua função protegê-los? Como questioná-los se a proteção é excessiva e prejudicial à formação dos filhos, se para eles trata-se apenas de cumprir a função de pais? Talvez mereçam o perdão, pois não sabem o que fazem. Não percebem que a superproteção prejudica o desenvolvimento deles e podem gerar adultos psicologicamente problemáticos. Perdoe-mo-lhes!

O amor desmedido cega-os e leva-os a confundir a necessária recusa do autoritarismo com a ausência de autoridade. A liberdade é confundida com licenciosidade. Imaginam-se amantes da liberdade, mas não educam os filhos para a autonomia e criam-nos sem limites.

Filhos mimados alheios à realidade social. A miséria, as injustiças sociais pertencem a um mundo que não lhes diz respeito, um mundo restrito ao noticiário ou aos livros. Eles não aprendem a enfrentar as contradições da vida, a reagir ao inesperado. Tendem a agir com intolerância, preconceitos e arrogância. Pobres pais que formam estes seres humanos! Tristes filhos! Infeliz a sociedade que forma pais e filhos como estes!

13 comentários sobre “Meninas e meninos mimados

  1. Olá ozaí. :)eu quero dizer que as vezes a culpa não é dos filhos e sim dos pais que não sabem educar eles direito. é sempre assim, não adianta. quem faz os filhos são os pais, e tem que ensinar desde criança que ninguem vai conseguir SEMPRE o que quer na vida. e achei teu texto muito mas muito interessante, e é isso mesmo que acontece.sucesso, beijos!

  2. Professor Ozaí:Acredito que a verdadeira superproteção é aquela que contribui para o fortalecimento e crescimento dos filhos. Muitas vezes destinado aos meus filhos, quando fazem algo que considero errado, dou uma bronca pesado e coloco algumas vezes de castigo. Desta forma, represento meu repúdio pela ação perpetrada, e ao mesmo tempo, minha responsabilidade paterna diante das ocorrências. O interessante é que meus filhos, após alguns minutos das exortações, quase sempre dizem: papai eu te amo muito, desculpa pelo o que eu fiz…É necessário frisar: os mesmos ainda não são adolescentes, ou seja, não passaram pela prova de fogo…Contudo, percebo que não basta dar limites… O mais importante é dar amor, valores éticos. James Simões de Brito.

  3. Caro Ozai. É isso mesmo. Já escrevi sobre esse assunto e fico contente que muita gente “boa” que só escrevia e palestrava sobre “grandes” temas (“grandes narrativas” a la Hegel-Marx)hoje parecem se voltar para a banalidade do cotidiano. Á vida concreta, sim, em vez do abstracionismo pedagógico. A nova geração é “sem compromisso”, mimada, arrogante, e econômica de palavras com os que não são de sua tribo. Chamar a SuperNany pode ser melhor do que chamar um pedagogo ou psicólogo educacional de hoje, que não foram formados para estudar a dialética da relação pais e filhos. O formado dessa área de conhecimento se auto engana ser especialista em educação; quando muito entende algo sobre “ensino escolar”, mesmo assim de modo vago e pelo olhar político-ideológico. Como escreve um colega do Rio: as doutrinas pedagógicas, no Brasil, vivem um gozo de litígio. Goza em criticar destrutivamente o outro sistema, mas nada apresenta de concreto sobre “o que fazer”. Enquanto caminhamos para a barbárie em casa e na escola, um grupo “x” tenta fundar um monopólio do discurso sobre a educação. Antes quem era “chapa branca” era o construtivismo, hoje, pelas bandas do Paraná é o “histórico-cultural”. Trocam seis por meia duzia e a educação continua ruim. Bom senso para todos. Raymundo,

  4. Olá Antônio, estou totalmente de acordo com os dizeres de seu texto. Já tive a oportunidade de conviver com familias que o modo de tratar seus filhos era a superproteção,(portanto, filhos mimados) tanto quando saiam de casa para viagens a trabalho ou a estudo. E realmente se os pais nao perceberem essas atitudes que estao tomando com seus filhos, esses continuarão sendo pessoas mimadas sem iniciativas, sem segurança, tornando discípulos de seus pais em todas as resoluções de problemas que por ventura vierem a acontecer durante a vida.

  5. enviei, mas não ví o comentário no blog. anteriormente já havia me registrado com o pseudônimo see you.de qq forma, aí vai :O amor desmedido* o amor não é mais desmedido, lamento discordar. há uma nova forma de amor, o mundo tal como o conhecíamos não existe mais. o amor dos pais, hoje, como de resto tantas outras coisas, foi alterado para uma espécie de “globalização” do ser humano. difícil encontrar as palavras para o que desejo dizer, mas é como se o amor dos pais estivesse incluído numa “categoria” das atitudes obrigatórias , não sei se é possível entender, realmente as palavras não surgem. mas vem à memória uma cena marcante, para mim, a final do filme evangelho segundo são mateus : a mãe-madona , aos pés da cruz onde seu filho está, crucificado. já naquele tempo em que ví o filme, sabia que era a última imagem de um mundo que já não existiria mais. o amor visceral pelos filhos. pode-se até dizer que houve uma evolução, terminando alí a imagem do amor instintivo. páro por aqui por não conseguir me expressar melhor.cega-os * não vejo muito dessa forma. a cegueira também faz parte do momento. não há tempo. há uma doença relativamente recente no mundo, quem já não ouviu e também disse : não tenho tempo? até crianças foram atingidas por essa “doença”…então, e é verdade, os pais não têm tempo. nem para si mesmos, nem para oferecer seu tempo um ao outro nem para os filhos. não parece haver mais saída. é cada um por si.e leva-os a confundir a necessária recusa do autoritarismo com a ausência de autoridade. * os pais estão por sua vez cansados de autoritarismo em suas próprias vidas : cumprir horários, agendas, reuniões, metas, dinheiro que pague as contas e sobre para entretenimento, planos de saúde, etc., etc.talvez por isso , além de confusos, os pais estejam querendo menos pressão sobre os filhos. não sabemos.Eles não aprendem a enfrentar as contradições da vida, a reagir ao inesperado. * na vida de qualquer pessoa o inesperado, as contradições sempre se farão presentes.as crianças aprenderão isso no cotidiano, porque justamente mais expostas ao mundo.Tendem a agir com intolerância, preconceitos e arrogância. * nada melhor do que o momento presente, mundialmente falando, para que os jovens aprendam tudo isso. por mais e melhor que os pais orientem seus filhos, estes estão no mundo, a internet está aí, os líderes mundiais são os piores exemplos que a juventude pode ter, a impunidade é prêmio para adultos poderosos “mal comportados”…Pobres pais que formam estes seres humanos! Tristes filhos! Infeliz a sociedade que forma pais e filhos como estes!* pobres nós todos ! amém.* o que mais me impressiona em nosso país é o grau de educação da população: o ensino está ruim, o nível geral da população é ruim, as escolas não parecem dar conta, e nem se pode criticar, pois os jovens professores de hoje são produto de décadas de crise no ensino, cujo nível foi descendo a níveis impressionantes. nem o próprio idioma é respeitado. somos um país que não lê. gravíssimo. ler ensina a pensar. nosso povo não pensa. porque não sabe. assim, estamos vivendo um momento geral no mundo em que tudo parece estar “descendo a ladeira”. talvez seja um momento importante, esse, da destruição generalizada de tudo, conceitos, valores, etc. mas… será mesmo realmente necessário destruir para construir? esperemos que não. será menos doloroso.* meus comentários acima, afinal, indicam apenas perplexidade e tristeza para o estado de coisas atual do planeta. vejo meus netinhos, ainda tão inocentes, e sinto muita pena da infância não somente em nosso país, mas no mundo.

  6. Prezado Ozaí, O texto é bem apropriado ao modo do que se pensar “educar” filhos hoje, adequando desde sempre as novas gerações aos limites de cidadão-consumidor. Tenho ouvido de mães de crianças com poucos meses de idade a seguinte frase com freqüência: ” tenho sempre que comprar novos brinquedos porque logo que eles ganham e brincam ficam entediados com o que têm e querem novidades”. Isto a meu ver expressa muito mais a visão de mães consumidoras compulsivas do que o desejo das crianças, desde pequeninas sendo direcionadas para o consumo exacerbado.Saudações. Cristina Leal

  7. “pequenos reizinhos e princesinhas despóticos”… acho que resume bem!!! e como as crianças ñ nascem sabendo… a culpa ñ é delas… mas sim dos pais… da TV… da escola… dos tios e etc… as crianças são pobres vítimas!!!

  8. Caro Ozaí,Parabens pelo escrito. Demonstras habilidade no assunto e capacidade na interpretação. Felicidades e continue assim…Abraços,Meireles – São Luís-MA

  9. Ozaí, o que choca não é sabermos que muitos pais não conseguem lidar com os filhos no dias de hoje (consumo exacerbado, ausência de limites e disciplina), mas de sabermos de tudo isso e não refletirmos uma forma saudável de educar os filhos. O caos está instaurado, e aí? Ficamos por isso mesmo? A responsabilidade de pais e mães, que precisam conciliar trabalho e família segue muitas vezes o caminho mais fácil, na hora de lidar com o filho, a negociação de troca. Que jogue a primeira pedra quem nunca usou deste artifício. Pais e filhos precisam de ajuda, o caminho seria repensar sobre o que entendemos por educação e que o queremos ( esperamos) que nossos filhos sejam no futuro. Nào é um processo fácil, mas extremamente necessário. É isso.

  10. Caro Ozaí,muito bom seu texto, comecei a dar aulas para o ensino médio e não consegui…desisiti, é coisa de chocar o nível e a falta de educação e respeito…algo que não vem de casa, definitivamente…Uma estrutura errada de cima em baixo, dá tristeza em pensar no futuro desse país!abraçoGabriel Setti

  11. Olá Ozaí,é raro encontrarmos opiniões que desculpabilizam a escola e os professores pelo insucesso dos meninos e meninas, pois o comum é estes sujeitos serem culpados. não nego uma parcela de culpa, pois a escola e os professores devem estar preparados para a realidade e a realidade de grande parte dos adolescentes é esta que voce retrata tão bem. há uma urgente necessidade dos pais e mães tomarem as rédeas da educação dos filhos, quando isto não é feito não dá para a escola e os professores evitarem incendiários de indios ou mendigos e espancamentos de empregadas ou prostitutas em vias públicas.zacarias

  12. Nossa Antônio! Esse texto veio de encontro com tudd o que penso.Também irei repassá-lo.Educação é tudo e, a familiar então é a base de toda essa estrutura que forma o ser.Abraço!Ely SenaManaus – AM

  13. Olá Antonio,Te peço licença, pois vou encaminhar essa sua interessante e apropriada mensagem a diretores de escolas e pais para enriquecer nosso trabalho como educadores.Um abraçoEliane Numair

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