Turistas e patriotas

Desde final do ano passado recebo mensagens para boicotar o filme Turistas. É uma ordem: “Não assista!”. Elas apelam para o nacionalismo e afirmam que “a produção vai denegrir a nossa própria imagem”. A expressão “denegrir” já é em si condenável pelo politicamente correto. Sem contar o tom imperativo e a patriotada. É um horror!

O filme foi um fracasso nos EUA. “O O The New York Times chamou a produção de “burra” e “estúpida”, enquanto o Los Angeles Times chegou a chamar Stockwell de xenófobo”, informa o site Terra em sua seção de Cinema e DVD.

Prometo não ir ao cinema assistir ao tal filme. Quando sair em DVD, decidirei se vale a pena gastar tempo e dinheiro. Mas confesso que a boicotagem me deixou curioso. Até porque sempre que há a tentativa de censurar algo, acende a luz de alerta em minha mente. Também tenho curiosidade em saber quem são os líderes do boicote. Não que eu seja informante de alguma agência secreta tipo Comitê de Proteção à Imagem do Brasil, mas apenas para compreender como se difunde e frutifica essas coisas pela internet.

Os internautas simplesmente repassam o que recebem. A causa é boa, passe adiante! E todos repassam para todos, num círculo vicioso que parece não ter fim. Quem age assim, não se pergunta sobre a origem de tais campanhas, sobre o quem e seus objetivos. Faça um teste. Tenha uma boa idéia, escreva algo impessoal, mas que sensibilize os corações enternecidos e preocupados com o Brasil e a humanidade, e envie à sua lista de endereços. Se iniciará uma dinâmica auto-reprodutiva, até que surja outra idéia ou se enfraqueça com o tempo. Não por acaso temos surtos de mensagens desse tipo. Quando menos esperamos, retornam à moda.

O interessante é que os indivíduos perdem o senso crítico, acreditam que estão cumprindo um imperativo patriótico, religioso ou mesmo revolucionário e nem se perguntam se tais estratégias têm eficácia, supondo-se que seus objetos e objetivos sejam reais. E ai de quem não se somar à onda. Se você quer assistir o filme Turistas, problema seu. Quem tem o direito de impedi-lo? A Embratur? Os polichinelos? É ilegal? Não. Mas os que se consideram do bem e pelo bem, se sentem no direito de encher a sua caixa postal e ordenar: “Não assistam!”

Eis o senso crítico fora de ação. Primeiro, o que é censurado tende a ganhar a pecha de vítima e o efeito pode ser o oposto. Segundo, ainda que não percebam, tendem a considerar o receptor de maneira infantilizada, como se este não tivesse discernimento para decidir e avaliar por si. Terceiro, o efeito pode ser o oposto do desejado. A antipropaganda pode atiçar a curiosidade. E se todo o marketing contrário ao filme, inclusive a sugestão de boicote, for uma estratégia para colocar o mesmo em evidência? Alguém sabe a fonte de todos estes tipos de mensagens? Pode ser que alguém esteja é se divertindo e ganhando com a santa inocência dos novos cruzados.

Não é mais prudente refletir bastante antes de surfar na onda do que parece ser do bem e contra os inimigos de sempre? Respeito os que boicotam o filme e até me comove ver tanta gente preocupada com o bem do Brasil. Mas, sinceramente, estou cansado de me dizerem como devo agir e o que me é permitido assistir, ler, ouvir etc. E, afinal, devemos aprender a usar o email para evitarmos os abusos.**

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* Publicado em http://antoniozai.blog.uol.com.br/, 31.01.2007.
** Ver “Usos e Abusos do Correio Eletrônico”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 08, janeiro de 2002.

10 comentários sobre “Turistas e patriotas

  1. Este mundo louco da informação rápida causa isso mesmo… lembro de um fato ano passado… um e-mail encaminhado diz que a tal hora de não sei que dia se poderia ver Marte ao lado da lua… com tamanha nitidez que seria quase do tamanho da lua… e ñ é que tive amigos encarando frio para ver este fenômeno que ñ aconteceu???O ditado mudou… não é mais: “uma mentira dita mil vezes torna-se um verdade”… mas sim: “uma mentira encaminhada mil vezes se torna uma verdade”!!!

  2. Olá Ozaí.É constrangedor quando alguém impõe seu julgamento sem possibilitar abertura para a crítica e discussão. Sempre que alguém age assim desconfio, e, até como você mesmo colocou, aguça a curiosidade. Aliás, esse filme antes de suscitar o patriotismo tardio, serviria para instigar nosso senso crítico, em relação à imagem enganosa que possuímos de nós mesmos, enquanto país e cidadãos brasileiros. Ainda estamos engatinhando no tocante a construção de uma identidade nacional. Aceitamos sem questionar todo o lixo da produção norte americana, desde música, filmes, modelos de comportamento, enfim, um legado de influências que “moldam” nossa subjetividade. A crítica no vazio morre na superficialidade. Angela

  3. [cris] [ccaiado@terra.com.br] [curitiba-pr] Ozaí, sua abordagem me fez lembrar da obra “A imagem do brasil no turismo”, de Rosa Maria Bignami. Nela, a autora reafirma a influência dos meios de comunicação de massa na disseminação de uma imagem negativa do Brasil, mas também recorda que essa imagem não nasceu “do nada”: fazemos parte de um país com graves problemas sociais e ficar bancando o patriota exacerbado às vezes pode ser mais patético que assistir a um filme desse gênero. Abraços e uma ótima semana! Cris04/02/2007 11:15

  4. [isaac newton pessoa] [inpessoa@vivax.com.br] [Manaus-AM-Brasil] O aviso ou pedido de boicote deveria ao menos, para merecer atenção, oferecer comentários, justificar e fundamentar o porquê do pedido. Simplesmente incitar ao boicote, sem adiantar nada sobre o mérito, é inadmssível, burro e acintoso, grave ofensa à inteligência do destinatario. Como o articulista argumenta, poderia tatar-se de tática propagandista, eis que, desde o Paraíso, o ser humano gosta de experimentar o proibido, de cantar a mulher do próximo, e por aí. Os pastos distantes parecem mais verdes, porque inalcançáveis. Mas sempre se pensa num jeito de chegar até la. Proibição é uma cortina de mistério. Nossa tendência é levantá-la, bisbilhotar o que oculta.03/02/2007 16:21

  5. [Francisco Giovanni Vieira] [fgdvieira@wnet.com.br] [http://www.dad.uem.br/marketing] [Maringá – PR] Certamente receber e repassar e-mails de modo indiscriminado é um equívoco. Especialistas em marketing chamam de “marketing viral” esse processo de encaminhamento de mensagens recebidas. Funciona como um vírus que vai se espalhando. Outro dia, por exemplo, recebi uma mensagem que falava sobre o website do Banco Real, onde se pode fazer o cálculo de viagens rodoviárias para qualquer lugar do país, incluindo gastos com combustível e pedágios, os quais aparecem em um mapa virtual. Puro “marketing viral”. O que há de ruim nesse processo é a invasão, o encaminhamento de mensagens que não são solicitadas e que podem não apresentar a mínima relevância. Quanto ao caso do boicote, já o considero diferente. Sou a favor, desde que me identifique com a causa! É um bom instrumento de pressão e funciona. Os mesmos americanos que inventaram o “marketing viral” sabem usar o boicote muito bem. Talvez não funcione no Brasil em função das características da formação histórica/social/econômica do país.01/02/2007 21:06

  6. [Eduardo Ribeiro] [duduribeiro@uol.com.br] [Rio de Janeiro] Ozaí, penso como vc também. Acho uma tolice e até um abuso estes repasses de e-mails sem um cuidado, uma avaliação mais criteriosa da real importância de transmitir mensagens. Patriotismo será sempre bom para nós brasileiros. “Patriotada” não, basta de demagogia, não é mesmo? Quanto aos “pais da criança”, imagino que seja um desses patriotas que preferem Key West a Canoa Quebrada. Abraços.01/02/2007 14:12

  7. [Madalena Rodrigues Nova] [marnova@gmail.com] [São paulo – SP – Brasil] Assim como outros que foram feitos a respeito de equívocos sobre o Brasil, este filme já está nos cinemas, boicotá-lo, não vai resolver problema algum, mesmo porque brasileiros fazem parte da produção, nota-se que não existe patriotismo nenhum nisto,quanto á campanha via e-mail, concordo com vc, tenho recebido vários também e deleto automáticamente. Vamos usar o correio eletrônico sabiamente.31/01/2007 16:41

  8. [Wander] [formamkt@uai.com.br] [Divinópolis – MG] Ozaí, suas considerações são pertinentes e oportunas. Me recodei de um e-mail propondo boicote aos postos de combustíveis da Petrobrás (é dos reincidentes!). As Cias estrangeiras, no mínimo adoram – se é que não o promovem. Curioso, acabei de repassar um propondo mobilização para “Apagar as Luzes no dia 1º de Fev no horário entre 19:55 e 20:00 Hs”. Proposta de chamar a atenção da mídia para o Aquecimento global e participação do povo na questão (entendi assim). Evito ao máximo fazer esse tipo de coisa. No entanto distribuí às pessoas de minha lista destacando o potencial que a internet encerra para mobilizações globais. Mobilizações são de Fato, necessárias. Só precisamos aprender a separar o Joio do Trigo. Fonte: http://www.amisdelaterre.org/31/01/2007 13:10

  9. [Silvio José bondezan] [silvio_nihon@hotmail.com] [Maringá-Pr] Ozaí, como você sabe, no ambiente em que eu trabalho, constantemente, temos que trabalhar com a “contra informação”. Quando a gente quer que uma notícia ou um boato se propague é só dizer que é segredo e pronto!! em poucos minutos se tem o efeito contrário. Portanto, considero suas críticas pertinentes.31/01/2007 12:41

  10. [eduardo] [dudu.oliva@uol.com.br] [http://dudu.oliva.blog.uol.com.br ] Votar certo e exigir ética dos políticos é muito mais eficaz. Envio e-mail divulgando o meu blog, mas não fico a envias cinco por dia. Apenas um e se alguém fala que não quer receber, não mando mais.31/01/2007 10:27

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