Método decoreba

Aprendi tabuada pelo método tradicional. A professora nos fazia exercitar a memorização das operações matemática. Repetia, repetia e, na aula, devia mostrar que sabia sem recorrer ao livrinho. O método se mostrou eficaz. Hoje, na era da internet, das máquinas de calcular potentes, encontramos jovens que não conseguem realizar os cálculos básicos sem recorrer às calculadoras. Na minha infância, nem sabia que elas existiam.

Éramos educados através dos ditados e provas do tipo “marque um X”, “verdadeiro ou falso”, “complete a frase”. Insistia-se que memorizássemos datas e acontecimentos históricos, como se isso fosse mais importante do que compreender os “porquês”, influências sobre o presente etc. Aprender história era muito chato. Claro, havia as exceções.

Até mesmo na graduação, e fiz um curso deveria exigir reflexão e elaboração crítica, tive professores/as que recorreram ao tradicional decoreba. As provas não eram um estímulo ao pensar crítico, mas um exercício no qual devíamos provar que memorizamos conceitos e teorias. Não éramos desafiados a aprender, mas a consumir textos e vomitá-los em forma de escrita na prova. E se nos autorizavam a pensar, como se fosse preciso, era no sentido de “pensar” de acordo com o autor preferido do/a professor/a. O objetivo não era ensinar, mas doutrinar. Sim, havia exceções. E foram as que mais contribuíram com a minha formação e que recordo mais vivamente. Hoje, como professor, procuro não repetir as experiências que me frustraram como aluno. Sempre aprendemos algo com nossos professores, nem que seja, simplesmente, não agir como eles.

Após tantos anos, ainda se recorre ao método decoreba. O aluno chega à universidade treinado para memorizar e a expectativa de muitos/as professores/as não vai além disso. Há quem imagine que a formação acadêmica consiste em memorizar o código penal, os conceitos e teorias sociológicas e políticas. Não forma, deforma. Memorizar é diferente de compreender. Memoriza-se para tirar uma boa nota, passar no exame, mas não necessariamente aprende-se. A memorização tende a se ater ao objetivo imediato. Posso memorizar os eventos históricos, mas isso não indica que compreendo.

A decoreba pressupõe a repetição conteudista e não a reflexão sobre o conteúdo. É como exigir que se memorize quem é o autor de uma obra de arte, local, ano etc. Essas informações estão disponíveis nos livros e na internet. Não é melhor educar a sensibilidade, estimular a reflexão sobre a obra e o contexto histórico? Qualquer estudante de direito tem acesso ao código civil e penal, leis constitucionais, trabalhistas, etc. Por que devem memorizar? Isso é mais importante do que compreender o significado e a realidade que sustenta a lei?

Fico a pensar sobre o que se passa na mente dos docentes que aplicam provas do tipo “V ou F” e são extremamente pacientes, para não usar outra expressão, em elaborar as questões com sutilezas e “pegadinhas”. Testam a “esperteza”, não o conhecimento. Querem provar o que?

Para este tipo de mentalidade, se o estudante memoriza nomes, locais, datas, leis etc., “sabe”. Isso me faz lembrar certos programas da TV que “testam” o saber enciclopédico dos indivíduos. Pelo menos há o entretenimento e o objetivo bem definido de competir para ganhar o prêmio. No caso do estudante, isto significa “tortura mental”, da qual depende o seu diploma, o prêmio merecido por suportar tais métodos de aprendizagem. Mas este é ilusório, pois apenas indica que conseguiu concluir o curso. Com este procedimento, os/as professores/as estimulam estratégias de sobrevivência, incluindo a “cola”, o plágio. Aos professores/as resta reclamar e insistir. É patético!

__________
* Como educador e pai, a persistência do método decoreba me preocupa. Observo o sofrimento dos acadêmicos e das minhas filhas para corresponder às exigências dos seus professores/as. Escrevi algumas reflexões sobre o tema, publicadas na Revista Espaço Acadêmico. Os leitores interessados podem acessá-las nos links:
À mestra e ao mestre com carinho e compreensão!
O engodo do vestibular e os dilemas da classe média empobrecida
“Estudo Errado”: Qual é a capital de Kubanacan?
As dimensões da relação aprender-ensinar
Vale nota, professor?!

13 comentários sobre “Método decoreba

  1. “A decoreba pressupõe a repetição conteudista e não a reflexão sobre o conteúdo”. É verdade. Mas hoje penso ser uma falsa oposição o método decoreba-memorização e o método crítico-reflexivo. O primeiro foi muito bem criticado por Paulo Freire. Mas a começar pela abertura do seu ensaio, minha tendência hoje é pensar que é menor pior decorar do que nada saber. Ou seja, existem conteúdos que sem decoração ou memorização o sujeito nem aprende e nem funda um mínimo de critica e reflexão. Tais conteúdos podem ser a tabuada, os Códigos, as LDB, nomes de autores e obras, etc. Parece que queimar esta etapa, ou demonização da memorização como meio caminho para a aprendizagem crítica, é um fracasso de nosso sistema de ensino. Vários métodos de ensino, inclusive o método Schishida, japonês, estimula a memorização das crianças desde cedo. E o resultado lá é muito bom. E o resultado de hoje, no Brasil, nem conseguimos que o aluno decore-memorize e nem que ele sustente uma atitude crítica. Aliás, atitude crítica é mal aprendida pelos alunos de nossa época. Eles estão achando que fazer crítica é achincalhar, desrespeitar inclusive o mestre…Lamentável.

    • Raymundo,

      boa tarde.
      Obrigado por ler e comentar.
      Aprendi tabuada pela memorização e concordo que memorizar pode ser positivo em alguns aspectos e contextos. Contudo, de que me serve memorizar nomes de autores, códigos, etc? Ainda mais hoje que tudo está ao alcance de um clique. De qualquer forma, seu comentário é instigante e agradeço por estimular a reflexão.

      Abraços e ótima semana

  2. Caro Ozaí:Sou docente há dez anos em IES privadas não seletivas no vestibular. E me choco demais com a destruição efetuada no ensino público brasileiro, cujo resultado vemos nessas instituições – as únicas que o egresso daquele ensino pode acessar, pois jamais passaria num vestibular seletivo. A angústia é enorme. Vez por outra, escuto críticas oriundas de professores da USP, Unicamp ou de alguma federal ao ensino atual e me pergunto: mas de quem eles estão falando? De uma minoria que pode se dar ao luxo de entender suas críticas, que aliás se referem a essa mesma minoria! Alguém está vendo o que ocorre com a maioria? Está muito aquém da problemática abordada nessas críticas elaboradas!Desculpe-me, mas, embora concorde com toda a sua crítica, não vejo nada mais a fazer em escolas como aquelas em que estou a não ser despejar conceitos e “cases” para alunos que não têm tempo, preparo nem disposição para algo mais que isso. As instituições, menos ainda: exigem cumprimento de calendários de provas e notas, pouca ou nenhuma reclamação dos “clientes” (eles sempre têm razão, certo? afinal isto é o mercado) e talvez certa proporção de DPs, que servem, seja para dar ares de seriedade, seja para arrecadar mais – mas sem excesso…O nível dos alunos é desesperadoramente baixo, vêm semi-analfabetos do ensino secundário: português indigente, raciocínio lógico-matemático de primeiro grau incompleto, cultura geral (história, geografia, ciências, filosofia, história das idéias) zero. Seria necessário recomeçar quase do nada. Como fazer isso? Acho urgente uma revolução na educação. Lula perdeu o primeiro mandato para isso (e o cínico ex-ministro da Educação dele saiu candidato à presidência criticando a educação do governo!). No segundo, algo parece avançar – gosto bastante do Haddad – mas a passos de tartaruga. Se levaram 40 anos para destruir o excelente ensino público (elitizado) que tínhamos, levará outro tanto para recuperar o nível necessário na era da universalização do ensino fundamental, da Internet e da economia virtual. E sem isso, não há mudança possível no perfil perverso da sociedade brasileira. Mas a própria educação é parte dessa perversidade, pois segmenta mais a população agora, quando universalizamos o ensino básico, do que antes, quando tínhamos uma elite no ensino público!Diante disso, fico sem saber como fazer da sua crítica – com cujo mérito, insisto, estou de acordo – algo efetivo para a ação.Lamento pelo pessimismo, mas não vejo saída para o Brasil que não passe por uma revolução educacional (aí não dá para ser reformista), uma verdadeira reforma agrária (com apoio creditício, técnico, de armazenagem e de infra-estrutura e equipamentos sociais nos assentamentos) e uma outra política macroeconômica que estimule o investimento e a geração de empregos. Fora disso, é regozijar-se com os 8 milhões de famílias que recebem 0,5% do PIB em transferências de renda – sem dúvida, algo positivo, mas muito longe do necessário – enquanto 20 mil famílias repartem 4 a 5% do mesmo PIB nos juros da dívida pública (Pochman). Ou seja, mais do mesmo, com alguma compaixão pelos pobres (nunca houve, é verdade) e sem perspectivas de reduzir o abismo social em que vivemos. Os indicadores de redução das desigualdades são uma novidade, sem dúvida – mas a esse ritmo, um século será pouco para nos civilizarmos!Um abraço.Roberto Vital AnauEconomista e professor

    • Professor estou fazendo facudade aqui em SÃO PAULO,(FATEC), pura decoreba a matéria dele,como serei um bom profissional se o meu mestre que deveria trazer o saber é adepto da decoreba

  3. Pois é professor… trazendo pra História… sempre tem um “engraçadinho” que nos perguntam: “que ano aconteceu tal coisa?”… putz!!! e eu lá que sei??? o que me interessa é o contexto de tal coisa… o ano é o de menos…Separei uma frase do seu texto que acho boa “Memoriza-se para tirar uma boa nota, passar no exame, mas não necessariamente aprende-se”… e é justamente isso!!!

  4. Também sou contra a memorização com fim nela mesma, ou seja, a ‘decoreba’ dos fatos, datas, fórmulas ou até mesmo ‘respostas corretas. Entretando, não podemos desconsiderar que a memória é uma capacidade indispensável para a aprendizagem de conceitos e de outros fatos… E como ‘exercitar’ ou trabalhar a memória? MEMORIZANDO!!. O que ocorre é que não se vai ALÉM DA MEMORIZAÇÃO. Neste sentido se faz necessário que os professores contribuam com a construção da reflexão e a crítica, possibilite aos alunos o entendimento sobre os fatos e as relaçoes entre eles… Não podemos confundir MEMORIZAR COM DECORAR e me parece que em muitos casos essa confusão se estabelece nas discussões sobre métodos e procedimentos de ensino e de avaliação. Outra coisa que não podemos confundir é que questões objetivas (X) ou de V e F, necessariamente conferem a um procedimento de avaliação denominado de ‘prova’ um ensino MEMORISTA!! Da mesma maneira que questões dissertativas também podem ser “decorrebas”, afinal de contas, o que fazíamos decorando o questionário (com respostas dissertativas) da disciplina de história, ciências ou geografia?

  5. Professor Ozaí:Parabéns pelo texto. O mesmo evidencia a superficialidade do processo educativo em alguns casos, uma vez que alguns cursos, com todo respeito, só apresentam a parte visível dos problemas sociais. As práticas sociais como um todo são resumidas ao ordenamento jurídico vigente que sustenta um sistema fundado em desigualdades. Não estão preocupados em transformar a sociedade, mas em defendê-la, em conservá-la.Com relação às provas objetivas, recentemente, uma professora amiga minha falou: “estou tão cansada, tenho que elaborar uma prova mais fácil de corrigir”. Acredito que esta afirmação revela pelo menos uma realidade. A fim de receber uma remuneração próxima do mínimo necessário à produção da vida em suas necessidades materiais e espirituais, muitos professores dão quarenta aulas semanais. Outros chegam até a darem sessenta horas semanais. Se considerarmos a necessidade de busca de suporte teórico, planejamento das aulas e avaliação durante e após o processo de trabalho didático-pedagógico, podemos deduzir que muitos professores são forçados a realizar um péssimo trabalho educativo em função da sobrecarga. (professor é mau pago, mesmo em instituições iniciativa privada).James Simões de Brito

  6. Prezado Ozai,Seu texto, bem como os comentarios, além de interessantes, trazem uma visao justa do que deve ser o ensino. No entanto, minha experiência, bem anterior à de vocês, me diz coisa um pouco diferente.Tendo feito o primario nos anos 50 e nunca tendo aprendido nem poesia, nem tabuada, nem datas de cor, minha vida inteira senti falta desse tipo de aprendizado. Memoria se educa e se desenvolve e, sem memoria, nao existimos, nao podemos relacionar experiências. “Recordar é viver” nao é apenas verso de samba-cançao. Hoje em dia, a vida se alonga e os seres humanos se degradam antes de morrer – a tipica doença da velhice é Alzheimer (cf. ortografia), que faz de nos plantas, legumes sem humanidade porque desprovidos de memoria. Talvez faça falta uma exigência de qualidade do material a ser estocado na memoria. Eu gostaria de ter aprendido de cor alguns trechos de Camoes, algumas daquelas frases brilhantes de ironia de Machado de Assis, o Navio Negreiro, etc., sem falar da tabuada, claro.Esse comentario nao é provocaçao – é apenas o outro lado da questao. Como você sabe, o “advogado do diabo” sempre foi uma instituiçao necessaria.Um abraço,Regina

  7. A pior coisa que pode existir dentro de uma instituição escolar é a decoreba. Infelizmente em pleno século XXI ainda há professores que não ensinam, mas faz-nos decorar a matéria dada. Pergunto o que aprendo? nada. Pois tudo que decorei ficou junto a professora da série anterior.Lastimável.

  8. Querido amigo e professor:Tenho a impressão que esse método de decorar é ainda resultados da tradição anterior a existência do livro, o pelo menos ao suporte de conhecimento escrito de fácil acessibilidade.O fato é que só imaginando viver num mundo sem papel é que adotamos o método decoreba.Por outro lado há problemas com a flexibilização dos conhecimentos escolares. Hoje, vivemos um nível de desaprendizado ruim, onde a escola cada vez menos aponta caminhos para aprender. Um forte abraço,A.L.

  9. Olá, Ozaí!Seu texto apresenta e bem uma idéia que tenho procurado disseminar junto aos acadêmicos que têm de assistir às minhas aulas. Digo a eles que hoje, no ensino superior, há dois modelos educativos: o que forma e o que certifica. Penso que formação é a educação do pensar, do refletir, do julgar e do agir, como, me parece, seu texto sugere ser o melhor caminho. Já certificação, penso, vai nessa linha do seu argumento sobre a “decoreba”. Lamento que ela exista entre nós e acrescento aos estudantes que esse esquema é o seguinte: estudeba, decoreba, vomiteba, esqueceba, e muita, muita possibilidade de, no “pós-facul”, como eles dizem, irem na direção da fracasseba. Tomara que acordemos a tempo!!! Um ótimo texto…Mas, como nosso dia (do professor) está chegando, e somos nós que nos vemos premidos entre a certificação e a formação, tomo a liberdade de deixar aqui uma pequena mensagem pessoal aos professores que “sobem na mesa”, cuja atitude vejo já impressa em seu texto:”DIA DO PROFESSOR*Wilson CorreiaPorque podemos subir na mesa,Como no filme conhecido,Todo dia deve ser o nosso.E por que subimos na mesa?Porque, de repente, acordamos.Notamos a outra sociedade possível,O outro ser humano educado,O mundo diverso a ser construído,E outra história a ser tecida.E então subimos na mesa.Dela lançamos a nova sementeDa sociedade humana.Advinhamos a pessoa cultivada,O novo mundo surgindo nas mentes,A outra história gestada no coração.Sim, temos de subir na mesa!E o fazemos porque somosOs companheiros do ser,Mesmo que, para isso,O avesso do avesso sejaO que temos a proferir,Transgressivamente,De lá, de cima da mesa,Convocando ao agir.”Não seria um agir contra a decoreba????__________*Publicado no seguinte endereço: http://recantodasletras.uol.com.br/homenagens/299084

  10. Esse texto me fez relembrar meu 2º grau, onde a forma predominante de se aprender (principalmente História), era através da decoreba.Isso é realmente patético!Atualmente sou graduando de História e faço isso não inspirado naquelas aulas do 2º grau, mas por outra motivação: de compreender o que se passa atrás daquelas datas.Parabenizo-te Ozaí por esse texto, pois ilustra bem o que acontece em nossas instituições de ensino e mesmo nas superiores.

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