Professores apaixonados

Fui à escola que minha filha estuda, Colégio Estadual Santa Maria Goretti, cumprir o dever de pai. Enquanto aguardava para receber o Boletim, observei o ambiente. Vi várias imagens coladas na parede da sala da diretoria. Aproximei-me para ler as palavras sobre as fotos. Era uma homenagem aos “professores apaixonados”. Não se tratava de namoro ou casamento, mas da paixão pelo próprio trabalho; professores que amam o que fazem. Felizmente, e apesar das dificuldades, ainda há os assumem apaixonadamente o papel de educadores.

Após a conversa de praxe sobre as notas e o desempenho escolar da minha filha, fui embora. Antes, porém, fiz questão de comentar e elogiar a iniciativa, mesmo sabendo que os “professores apaixonados” representam a minoria. Ser professor é uma profissão como outra qualquer e, como em todas áreas, há os que se identificam com o que fazem, e os que apenas cumprem a jornada. Nas condições da sociedade moderna, o trabalho, já dizia um filósofo alemão, é alienante. Portanto, é muito difícil sentir prazer ou apaixonar-se. Ponto para os que, mesmo nas condições de alienação do trabalho, se “apaixonam”.

Fiquei a pensar sobre o significado das palavras e imagens dos “professores apaixonados”. Dialeticamente, como se diz no bom sociologuês, em minhas reflexões mesclam-se o estudante e o professor; a criança, o adolescente e o adulto. Recordei, com carinho e saudade, da primeira professora. Lembrei que, ao completar 18 anos de idade, na época morava em São Paulo, retornei ao nordeste para rever a cidade da minha infância e conhecer a que nasci. Fui informado que a professora morava na periferia de São Paulo. Peguei o endereço e, ao retornar, fui visitá-la. Não sei se ela compreendeu o gesto, mas demonstrou contentamento. Foi o reconhecimento e gratidão a quem marcou a minha vida.

Recordei também dos que me ensinaram os primeiros conceitos e teorias; dos que me apresentaram os rudimentos das línguas estrangeiras, em especial da minha professora de francês, no ginasial; lembrei do professor de matemática que me estimulou a aprender o jogo de xadrez – embora eu ainda seja péssimo xadrezista; do professor de história que me ensinou o significado didático da polêmica; recordei, ainda, da graduação e dos que, mais do que conteúdos, me ensinaram pelo exemplo. No mestrado, tive excelentes professores, em especial o meu orientador Maurício Tragtenberg. O mesmo no doutorado, em que convivi com professores experientes e tive a alegria de ser orientado pelo Nelson Piletti. Da infância ao doutorado, há os que marcaram a minha vida, os que fizeram a diferença, os que jamais esquecerei e a quem sou grato.

“Professoras apaixonados” são os que fazem a diferença, os que marcam a vida dos seus alunos. Há também os que deixam marcas negativas e traumáticas. Em minha vida de professor, desde a época que trabalhei no ensino público em Diadema(SP) e no Guacuri (zona sul da capital paulistana), conheci estudantes que ficaram traumatizados devido à determinadas atitudes dos seus professores. Tenho dúvidas se, neste caso, gostam da profissão.

Há, ainda, os professores apaixonados pelo conteúdo, pelas disciplinas que trabalham. Eles dão o exemplo do amor ao saber, mas pecam por darem mais importância às abstrações dos conceitos e teorias do que às relações humanas que se estabelecem na atividade docente.

Conclui que sou alguém de sorte. Faço o que gosto. Sou apaixonado pelo que faço. Agradeço aos meus professores e professoras e, também, aos discentes. Obrigado e parabéns aos professores, apaixonados ou não, pelo nosso dia!

__________
* Imagem: Poção (PE), cidade da minha infância. (Fonte: http://www.ferias.tur.br/admin/cidades/5391/g_pocao_index.jpg)

15 comentários sobre “Professores apaixonados

  1. Meu caro colega, que lindo texto…Gabriel Perissé também tem uma linda crônica ilustrada com esse mesmo título, está no you tube.Rose Palmeira, Professora em Fortaleza

  2. Oi, Ozaí…Coincidentemente, tb produzi um texto desse, há pouco tempo. E vc estava nele! Lembrado de modo muitíssimo positivo! Vc sabe que comecei a dar aulas e, depois de decorrido um semestre, parei pra pensar e vi muito de vc em mim dentro da sala de aula. Cheguei a te criticar algumas vezes pedidno mais “objetividade”, como se tal coisa fosse possível algumas vezes… Vi que sou mto parecida contigo… e fiquei satisfeita, afinal, vc estava em minha memória educativa!Sugiro que faça um texto sobre os alunos… acredito que há mto o q falar… estou te dizendo isso pensando em minha própria mini prática… há alunos/pessoas maravilhosas que passam por nossas vidas, não é? e são elas que permitem que continuemos sendo professores apaixonados!grande abraço,Aline

  3. OI ADOREI SEU TESTEMUNHO, SOU ESTUDANTE DE PEDAGOGIA, E TENHO UM BLOG SOCIAL, E SEI Q É MUITO DIFICIL ENCONTRARMOS PROFESSORES APAIXONADOS, MAIS SEI QUE ESTA É UMA LUTA Q AS FACULDADES TEM Q ENFRENTAR PARA Q OS ALUNOS Q IRAO ENSINAR AMEM O Q FACAM.BJOKAS!!!

  4. É, você tem razão, devemos agradecer às pessoas que passam por nossas vidas e deixam uma experiência que nos ajudou de alguma forma. E nem precisa ser professor literalmente, apenas uma voz que abriu alguma janela para um esclarecimento ou a construção de uma dúvida. Professores apaixonados são doadores de experiências, de vida. São aqueles que não têm medo do outro, tenta de alguma maneira acrescentar algo, mudar para melhor o olhar daquele aluno. Quando preparo minhas aulas, sempre penso em algum professor que deixou marcas construtivas na minha vida. Um exemplo que peço licença para citar é Marisa Martins Gama-Khalil, uma mulher maravilhosa que contagia a todos com sua paixão pela pesquisa. Esse texto nos envolve e nos renova para o exercício da sala de aula.

  5. Caro Ozaí, esse texto sobre os “professores apaixnados” me encantou de uma forma que eu não podia deixar de importuná-lo novamente – novamente com as velhas “histórias”.É que a sua abordagem desses “professores apaixonados” é concepção que tenciono configurar no político sob o termo de “por vocação”. Agora sei que, se eu disser, por exemplo, “políticos apaixonados”, o senhor entenderá onde quero chegar (tenho tido muita dificuldade em me explicar; na verdade, não consigo descobrir em que estou falhando tanto nesse intento). “Não se tratava de namoro ou casamento, mas da paixão pelo próprio trabalho; professores que amam o que fazem. Felizmente, e apesar das dificuldades, ainda há os assumem apaixonadamente o papel de educadores”; “Antes, porém, fiz questão de comentar e elogiar a iniciativa, mesmo sabendo que os “professores apaixonados” representam a minoria. Ser professor é uma profissão como outra qualquer e, como em todas áreas, há os que se identificam com o que fazem, e os que apenas cumprem a jornada”; ““Professoras apaixonados” são os que fazem a diferença, os que marcam a vida dos seus alunos. Há também os que deixam marcas negativas e traumáticas. Em minha vida de professor, desde a época que trabalhei no ensino público em Diadema(SP) e no Guacuri (zona sul da capital paulistana), conheci estudantes que ficaram traumatizados devido à determinadas atitudes dos seus professores. Tenho dúvidas se, neste caso, gostam da profissão.” É sob essa perspectiva que quero pensar o político (o homem que ocupa o cargo político). Talvez minhas alternativas tenham apontado outro rumo, mas essa é minha intenção. Por exemplo, eu diria que o senhor, no seu texto, se refere ao “professor por vocação”: o fato de ele amar o que faz, não o fecha em si mesmo, antes, se realiza em relação ao outro. São poucos, são raros, não genuínos, são preciosos…Abraço.

  6. O bom é que o Ozaí é assim mesmo: apaixonado pelo que faz. Gostei do texto. O senhor sabe que esses dias senti quase a mesma coisa, quando recbei homenagem pelo dia dos professores no estágio. Achei aquilo estranho, ainda to pra acostumar com a idéia. Se encontrar o senhor qualquer dia desses no bloco, conversamos

  7. Sou estudante de Pedagogia. Quando comecei a ensinar foi em uma turma de jovens e adultos em uma comunidade no RJ e eu só tinha o ensino fundamental inclopleto. Minha amiga precisava de uma ajudante e lá fui eu. Quando ela me disse: – Nessa profissão, Ou você vai amar ou odiar. Percebendo as necessidades daquelas pessoas e a vontade de aprender dos mesmos, não teve como não me envolver e de cara amar o que estava fazendo. Ser professor é amar o que faz, é amar sua profissão. Quando amamos procuramos fazer bem feito.Feliz dia dos professores.

  8. Oi Ozaí!Para lhe dar os parabéns!E também para agradecer por dedicar um lugar ao reconhecimento da paixão do/a professor/a, que os qui-Lattes não medem, seja porque não interessa, seja porque simplesmente não têm como contar esses “pontos”.Viviane

  9. Boa noite, Ozaí!”A marca registrada da verdadeira paixão é primeiro se apaixonar e só então procurar as razões” (Shana Alexander).Gosto demais dessa frase porque ela coloca as coisas em seus devidos lugares. Penso, também, que o seu texto faz o mesmo ao colocar em debate a questão da paixão docente.Circulei em certos ambientes acadêmicos bem formais e, por lá, falar em sentimento já era um deslize, imagine dizer-se apaixonado pela docência? Mas eu também vi desavisados por lá… pagando caro pela imprudência.Mais tarde, notei que uma certa esquerda substimava os sentimentos e a emoção e pesava no valor do exercício da racionalidade, o tal do dialeticismo. Putzzzz…. nunca entendia isso de que manifestar sentimentos fosse coisa de burguês.Realmente, não sei se é possível ser professor burocrata, frio, sem partido, bandeiras, idéias e ideais.Hoje, quando alguém diz que professor que se diz apaixonado é elienado, eu sempre revido…Não sei, mas entendo que a paixão é esse ingrediente que tira o trabalho docente da via alienante e faz do professor um artista de si, condição na qual partilha-se com os estudantes, querendo que também eles tomem-se a si mesmos como a única obra de arte que importa.Pena, viu, que esse tipo de paixão seja bastante rara.

  10. Linda homenagem ao professor, Ozai. De fato, acho que mesmo aqueles professores que nao se confessam apaixonados, sao apaixonados. Nossa profissao nao traz muito dinheiro, e traz jornadas longas e desgastante. So’ o amor mesmo explica tanta dedicacao da maioria!Obrigada por me ajudar a lembrar meus proprios mestres de toda a caminhada escolar e alem.

  11. OZAÍ,QUE BELEZA DE TEXTOou o professor Luiz Antonio de Oliveira. Nasci na cidade de Ibaiti há muitos anos (22/07/1962). Sou o primeiro filho de uma família de 08 irmãos, 04 homens e 04 mulheres. Tenho um casal de filhos: Luiz Arthur com 08 anos e Ana Lara com 05 anos. Sou casado com Mara Lúcia Chagas Oliveira. Licenciado em Pedaogia pela Faficpo (hoje UENP – Cornélio Procópio), em Filosofia pela UNIOESTE (Toledo, Pr), Especialização em Metodologia do Ensino pela Unopar (Londrina). Atualmente faço Mstrado em Educação na Universidade Estadual de Maringá. Sou professor da rede desde 1995, hoje lotado no querido Colégio Estadua Cristo Rei (Formação Docente), em Cornélio Procópio.Em minha vida de estudante alguns professores me marcaram muito positivamente: Professor Paulo Conde e Avani Conde (3ª série em Figueira, Pr), professor Aparecido Staut (Antigo Ginásio e Colegial, que ensinou francês em Jacarezinho), Professor John Probst (já falecido, que me ensinou Francês, Latim, Grego e História, também lá em Jacarezinho), professor Lourenço Zancanaro (professor de Filosofia e Ética em Londrina), professora Leoni (no Mestrado da UEL), professor Edmilson Lenardão (PDE, Uel Londrina), professora Carmem Prado e Esther Lopes (Pedagogia na Faficop). A eles devo muito do que sou, pelo comprometimento explícito que tiveram com minha formação.Entre os colegas de profissão, dos muitos com os quais trabalhei quero elencar alguns que admiro e com os quais aprendi, aprendo ainda sempre algo que me faz avançar com pessoa e como profisisonal. Em Sertaneja-Pr: Maria Aparecida Rúbio da Silva, Maria Aparecida Garbelini, Livaldo Teixeira da Silva, Marcos Salete Fernandes, e Eliane Foglia. E recentemente a Diretora Roberta, professora de fato apaixonada que em um depoimento recente me dizia que tem lecionado muito mais do que se tivesse em sala de aula para que os alunos de sua escola não fiquem à mercê do descaso de alguns e da necessidade de outros (quantas faltas na escola pública).Nas leituras e discussões das teorias sempre encontro um deles nas especificidade de um item, de uma situação. procuro não fazer deles uma cópia “senso comum”, mas uma influência mais fundamentada. Só consigo fazer isso hoje, na idade de hoje.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s