Da liberdade religiosa

A propósito da polêmica sobre o último post “Deus na Escola?!”, reproduzo abaixo texto de Thomas Paine (1737-1809) sobre a liberdade religiosa. O autor, filósofo político e republicano, foi um dos signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos. E, a seguir, o poema O Deus de cada homem, de Carlos Drummond de Andrade. O objetivo é contribuir para a reflexão sobre o tema.
________________________________________________________________________

Da liberdade religiosa
Thomas Paine

A constituição francesa pôs termo ou renunciou à tolerância e também à intolerância, e estabeleceu o direito universal de consciência.

A tolerância não é o oposto da intolerância; é a sua contrafação. São ambas despotismos. Uma se arroga o direito de impedir a liberdade de consciência, a outra se arroga o direito de concedê-la. Uma é o papa armado de fogo e de vara, a outra é o papa a vender ou a conceder indulgências. A primeira é igreja e estado, a segunda é igreja e comércio.

A tolerância pode ser estudada sob luz mais intensa. O homem não adora a si, adora ao Criador; e a liberdade de consciência que ele exige não é para seu uso e sim para uso de Deus. Nesse caso, portanto, precisamos ter necessariamente a idéia associada de dois seres: o mortal que adora, e o imortal que é adorado.

Logo, a tolerância não se coloca entre homem e homem, nem entre igreja e igreja, nem tampouco entre uma religião e outra, senão entre Deus e o homem, entre o ser que adora e o ser que é adorado; e pelo mesmo ato de autoridade usurpada pelo qual tolera que o homem preste a sua adoração, usurpadora e blasfema, arroga-se o direito de tolerar que o Onipotente a receba.

Se ao Parlamento fosse apresentado um projeto intitulado “Lei para tolerar ou dar liberdade ao Todo-Poderoso de receber a adoração de um judeu ou de um turco”, ou “para proibir que o Todo-Poderoso a receba”, todos estremeceriam e diriam tratar-se de blasfêmia. Haveria tumulto. Apresentar-se-ia, então, sem máscara, a presunção da tolerância em questões religiosas; mas não é menor a presunção pelo fato de, em tais leis, aparecer o nome do homem, uma vez que não se podem separar a idéia do adorador e a idéia do adorado.

Quem és, pois, inútil pó e cinza! Quem és tu, chames-te como te chamarei, rei, bispo, estado, parlamento, ou outra coisa qualquer, que interpõe a tua insignificância entre a alma do homem e o seu Criador? Cuida do que é teu. Se alguém não acredita como tu acreditas, em compensação tu não acreditas como ele, e não há força terrena capaz de determinar entre vós.

Com respeito ao que se chama de classes de religião, se cada um se limita a julgar a sua própria religião, não existe religião errada; mas se um julga a religião do outro, não há religião que seja certa, e, portanto, todos estão certos, ou todos estão errados.

Todavia, com respeito à própria religião, sem consideração aos nomes e como coisa que vai da família universal da humanidade ao divino objeto de toda adoração, é o homem a levar ao Criador os frutos do seu coração; e se bem que tais frutos difiram um do outro como os frutos da terra, é aceito o tributo de gratidão de todos.
________________________________________________________________________________________

O DEUS DE CADA HOMEM

Carlos Drummond de Andrade

Quando digo “meu Deus”,
afirmo propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.

Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.

Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.

Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.

__________
Fontes:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2003, p. 742.
PAINE, Thomas. Senso Comum e outros escritos políticos. São Paulo: IBRASA, 1964 (Clássicos da Democracia).

6 comentários sobre “Da liberdade religiosa

  1. Ozaí, mais uma vez parabéns pelo tema! É incrivel como a religiosidade, a muito tempo, promove debates eloquentes. E é incrível, também, como a ideologia transmitida nas escolas, nos pulpitos e nas relações humanas, escamoteia a realidade social. Em cada período histórico tivemos um Deus, e se esse Deus, em épocas foi mais castigador ou mais um Deus de amor, isso dependeu ou depende dos homens que faz a história, “mas não a faz como quer”. Um grande abraço, Feliz dia que o comércio inventou para os Pais.Silvio.

  2. Ozai,Você escreve:A constituição francesa pôs termo ou renunciou à tolerância e também à intolerância, e estabeleceu o direito universal de consciência.Será que uma constituição tem o dom de outorgar tantos poderes assim? E para toda a humanidade?Pelas concepções criacionistas, nas quais a maioria de nós foi doutrinada, o ser humano criado à imagem e semelhança do criador, deste é que teria adquirido esse poder de consciência.Quanto ao ensino religioso nas escolas, dado o caráter laico que as devem nortear, sou contra. Sou favorável a que se dê ensinamentos bíblicos, pois a bíblia, ao se manter viva por todos esses séculos, nem mesmo os céticos ou ateus a podem ignorar ou julgá-la de pouca ou nenhuma importância. Ensinamentos sobre a constituição brasileira também não seriam demais e deveriam ser objeto de exames vestibulares e de concursos.Ivan Luiz Colossi de Arruda

  3. Sou um dos tantos leitores que gostam tanto do Ozai e tal vez isso me exclua pelo handicap que involuntariamente possa se valer este aprecio por sua escrita e seus pontos de vista.Não obstante essa posição, parabéns pelo resgate dessa defrontação filosófica, máxime quando a igreja católica conservadora (segundo o Jornal Nacional de hoje) está inventando mais dois “santos” desde a cartola dos seus dogmas avessos a quaisquer análises sérios, como seriam as novas futuras adorações que se preparam para cultuar esses “santos” à brasileira.A propósito, quão oportuno e bom é lembrar ao Nazareno: “Não adorarás outro Deus mais que a mim”.Marco Ferraripremionacionaldeliteratura@ig.com.br

  4. Ozaí, obrigado por repassar esse texto, já o salvei e estou divulgando. Eu faço parte do movimento ecumênico e do Grupo de Diálogo inter-religioso de Maringá ha algum tempo e esse texto junto com a minha caminhada tem me feito ver um detalhe que passa inclusive pela hermenêutica do termo “liberdade”.Ora que precisa de liberdade é os que não a têm.Os que a teêm não tentam aprisionar o outro. Assim os que tentam aprisionar sãos os prisioneiros.E esse necessitam de compaixão.Abraços e muito obrigado,Maria Newnum

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s