Professor(a) seminarista

Não se trata da formação eclesiástica, mas do recurso usado pelos docentes, em especial no ensino superior, de dividir as turmas em grupos, os quais ficam responsáveis por apresentar determinados temas. Enquanto expediente didático alternativo à aula expositiva centrada no professor, é uma idéia louvável e apresenta aspectos positivos. Os acadêmicos são estimulados a pesquisar, se organizar enquanto coletivo e planejar a apresentação.

O professor Antonio Joaquim Severino, em seu livro sobre a Metodologia do Trabalho Científico, indica as condições necessárias para que o seminário atinja o objetivo de “levar todos os participantes a uma reflexão aprofundada de determinado problema, a partir de textos e em equipe”. É preciso que todos tenham “um contato íntimo com o texto básico, criando condições para uma análise rigorosa e radical do mesmo”; que o estudo leve “à compreensão da mensagem central do texto, de seu conteúdo temático”; “à interpretação desse conteúdo, ou seja, a uma compreensão da mensagem de uma perspectiva de situação de julgamento e de crítica da mensagem”; e que propicie a “discussão da problemática presente explícita ou implicitamente no texto”. “Essas etapas”, salienta o professor, “devem ser preparadas e realizadas de acordo com as diretrizes da leitura analítica, sendo que a análise textual, pelo menos em cursos avançados, deve ser realizada previamente por todos os participantes”.* Portanto, realizar o seminário não é tarefa fácil!

O problema é que a prática dos seminários nem sempre corresponde ao ideal. Embora tenha o objetivo de estimular a participação do acadêmico, e neste sentido favorecer a sua autonomia intelectual, esta prática tende a incorrer em vícios que comprometem o processo de ensino-aprendizagem. A responsabilidade de preparar o seminário também pressupõe o convencimento dos acadêmicos para que efetivem as condições necessárias ao bom desempenho e sucesso da atividade. Não é fácil! Estes, em geral, foram treinados a passivamente ouvir o professor, anotar e fazer a prova. Para eles, a aula só é aula se centrada no discurso professoral; tendem a medir a qualidade da aula pelo total de anotações no caderno.

Por outro lado, o excesso de tarefas a que são submetidos leva-os a adotar estratégias de sobrevivência. Neste caso, é comum a divisão taylorista do trabalho intelectual: cada um faz parte da atividade, o que na maioria das vezes indica que lerá apenas o trecho sobre o qual falará. Há os que se fazem fisicamente presente, sem qualquer participação efetiva – isso, sem contar os que descaradamente constam do grupo apenas para “tirar a nota”, sem que efetivamente dêem qualquer contribuição. Em suma, não há trabalho coletivo e o aprendizado individual fica comprometido na medida em que a apreensão, se ocorre, se dá de forma parcelada.

Os equívocos são amplificados em relação à turma. Nas condições descritas, cada grupo preocupa-se apenas com o seu tema e em se livrar da tarefa. Torna-se difícil manter todos concentrados e envolvidos, de forma que se produza a discussão e aprofundamento do tema. E se as apresentações se estenderem, há o risco de que as aulas seguintes sejam esvaziadas. Quem já apresentou, simplesmente não comparece. Os professores, é claro, podem cobrar a presença e estabelecer critérios que obrigue os acadêmicos a participar, mas isso se revela ineficaz. Ainda que presentes, ficam alheios à dinâmica e chegam até a adormecer. Em suma, nestas condições o seminário tende a fracassar e apenas preenche o tempo da aula. Qual a responsabilidade dos professores nisso?

__________
* Sobre as orientações para a realização de seminários, ver: SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Cortez Editora , 2007, pp. 89-98 (23ª edição revista e atualizada).

16 comentários sobre “Professor(a) seminarista

  1. Olá Ozaí e demais colegas. Bom, assim como o Paulo Meskenas e alguns outros colegas, penso que seja fundamental se pensar as práticas docentes e os próprios docentes. Antes mesmo de atribuir uma responsabilidade “única” aos estudantes, é interessante buscar compreender os motivos que levam alguns professores a realizarem sistematicamente e, às vezes, indiscriminadamente os seminários. Será que toda disciplina é passível de seminário? Até que ponto isso parcela também o conhecimento discente e fortalece as atividades em sala e para com a turma por parte do professor? É claro que a responsabilidade em sala de aula deve ser compartilhada entre estudantes e professores mas, é importante considerar quantos professores se prepararam de fato para serem professores? A este “preparo” me refiro no sentido amplo da palavra, ou seja, do ponto de vista didático, metodológico, de interação social e de conhecimento, claro, além de tantas outras habilidades e situações que precisam ser consideradas. Muitos professores “se utilizam” dos seminários literalmente para deixar de aprofundar conteúdos; muitos não se prepararam e/ou não tem disposição para “enfrentar” os desafios cotidianos das práticas pedagógicas. Porém, mais uma vez lembro que a responsabilidade é compartilhada, não estou aqui, com isso, afirmando que os professores são os culpados pelos fracassos dos seminários e de outras práticas… Longe disso! Apenas, estou tentando fazer um contraponto do texto proposto e da maioria das reflexões aqui expostas. Por fim, assim como o Wilson F. tem feito, desenvolvo seminários com meus alunos adotando uma prática muito próxima daquela descrita por ele. Infelizmente, não consegui achar uma metodologia mais eficiente para trabalhos realizados fora do horário e da sala de aula (quando o assunto é seminário). Muitas vezes o perfil dos discentes não favorece essas práticas, embora esse não seja um argumento suficiente para não fazê-lo. Trago esses argumentos, sobretudo que envolve o perfil dos docentes e muito dos seus (des)preparos didáticos, pois é uma das reflexões resultantes de minha tese de doutorado na qual investiguei sobre como os docentes e o trabalho docente na perspectiva da interiorização do ensino superior público no estado do Ceará. Enfim, acho que esse debate é denso demais e, por isso mesmo, necessário. Parabéns e obrigado por estimular essas reflexões. Um abraço e até a próxima.
    P.S. Como sugestão de leitura, acho bastante interessante o livro “O ensino universitário” de Miguel Zabalza. Abs

  2. Olá Ozaí! Concordo com o Paulo Meksenas. O que ocorre hoje é que qualquer didática utilizada se esvazia frente aos desafios impostos institucionalmente. Como graduanda e mestranda, participei de seminários e os conteúdos dos mesmos foram profundamente apreendidos. Talvez porque o fato de falar ao público, vindo de uma educação do período ditatorial, fosse considerada uma tarefa difícil e que exigia conhecimento, comprometimento e responsabilidade. Atualmente, como docente e acompanhando os demais docentes, tenho o mesmo sentimento do Meksenas, de que precisamos, antes de investir na sala de aula, investir, incessantemente, na carreira, não restando, assim, tempo algum para repensar as práticas docentes. Abraço.

  3. Caro Ozaí,Algo que me intriga nesses momentos de seminário em grupo é que os membros (ao menos a maioria deles) se comportam como boa parte dos brasileiros agem perante o bem público. Ou seja, empenham-se pela metade, já que é sempre fácil atribuir a culpa por um possível fracasso ao desempenho dos companheiros…Um abraço

  4. O grande problema particular que tenho em relação ao seminario e o FALAR EM PUBLICO. Não porque sou inibida ou muito timida, mas por que sei que todos estão detestando o que estou falando e não veem a hora de acabar com aquilo tudo…Ano passado o professor de Ciencia politica o grande professor Nilson, deu um tema para apresentar um seminario: Direito Alternativo… Foi muito interessante pois entrei em contato com essa corrente que po sinal é muito interessante e inovadora, possui muito julgados totalmente diferentes do que eu já tinha lido… Sempre que posso busco ler novos julgados do des. Amilton Bueno Carvalho que é um jurista do Rio Grande do Sul um dos responsaveis por introduzir o Dir. Alternativo no Brasil… Enfim graças a esse professor tive a possibilidade de entrar em contato que uam corrente diferente e que se aproxima muito do que é justiça, mais do que a corrente tradicional …Ate mais professor

  5. Que fazer? a teoria é mesmo excelente mas a prática de seminários em sala de aula é outra!!! o texto é dividido… cada um le só a sua parte… existem os que nda fazem e estão apenas pela nota… os alunos dos outros grupos ñ participam com perguntas pois tem medo de vingança… e por aí vai… Que fazer? ñ sei… talvez os constantes seminários possam ir amadurecendo a teoria na mente dos alunos… enquanto isso… os professores seminaristas vão enrrolando aula!!!

  6. Ozaí, oportuno o seu texto. Veio-me a tentação de escrever algo sobre o “aluno seminarista” rsrsrrs. Bem, brincadeira à parte, conheço o texto de Severino. Conheço, também, os “alunos seminaristas”, os quais ocuparam boa parte de seu texto. Assino embaixo de todas as }”contra-indicações” que você aponta. Para minorar os estragos que elas provocam e considerando que professor e acadêmicos andam sobrecarregados, ultimamente tenho feito a opção de estruturar o seminário durante o período de aula, sob algumas providências:1. contextualização prévia do texto feita por mim;2. solicitação de que entreguem, previamente, resenha do texto adotado, do texto inteiro;3. composição dos grupos baseado em escolha ou sorteio aleatório para quebrar panelinhas;4. dividir com cada grupo o tempo da apresentação, por exemplo: se tem 20min para apresentar, 10 são meus, para minha exposição;5. volta à resenha inicial e crítica avaliativa pelo próprio acadêmico;6. avaliações minhas, do desempenho na apresentação e da resenha final (a primeira eu só mantenho comigo).Claro, isso não resolve os problemas. Também a quantidade cai. Cresce, porém, a qualidade, que penso ser o que interessa. Não sei, mas nessa de “fazer e sofrer” a educação, cada um de nós vai encontrando seus caminhos. Eu sei que os problemas continuam, mas isso não impede a vontade de acertar.Boa contribuição a sua. Parabéns!Abraços…

  7. Oi Antonio, tudo bem? Seu texto reavivou em mim uma controvérsia pessoal. Sou professora e mestranda.Como professora incentivo os seminários e o debate. Mas também me mantenho na posição daquela que transmite conhecimento e proporciona o entendimento, pois não posso eximir-me de minha condição professora na sala de aula.Digo isso, pois encontro como aluna professores que preferem deixar os alunos estudarem sozinhos e apresentarem seminários em sala de aula. O mestre, ou “maestro” dessa “sinfonia” em nada contribui para a aquisição do conhecimento.Me pergunto então, qual seria seu papel? Adquirir conhecimento é fácil, basta ter acesso à internet e vontade de aprender. Mas adquirir compreensão crítica dos fatos depende da eficaz transmissão do conhecimento.Um abraçoEliane Numair

  8. Pretendo falar primeiro como aluna, não como professora:Sempre era líder desses grupos de apresentação e estudava sozinha todo o texto para poder “costurar” as apresentações de boa parte de meus colegas que só liam suas partes (raras eram as exceções). Mas o que considerava pior era perceber que os professores, às vezes, sequer tinham lido o texto, para poderem ratificar alguma coisa dita.Hoje, como professora, promovo esse tipo de debate, mas percebo que, como no meu tempo, alguns alunos realmente leram o texto, outros, pelo contrário, sequer têm o trabalho de tirar a cópia do capítulo discutido.Olho para esses alunos e quase que prevejo o futuro:Dali sairão profissionais preocupados com suas práticas (não digo que se darão bem ou mal na vida profissional, porque, como disse, tive professores “universitários” que não se mostravam responsáveis com o processo de ensino-aprendizagem) e outros que, infelizmente, passarão a vida:”lendo/fazendo, no máximo, a parte que teoricamente lhes cabem”O que fazer? Não sei.

  9. Antonio, li o seu texto com satisfação. É fundamental pensarmos a questão da metodologia do ensino nos cursos superiores, daí o que você escreveu ser fundamental. Apenas me parece que a questão da metodologia de ensino não se esgota em si mesma, isto é, não basta refletirmos sobre a qualidade da dinâmica de seminários. Devemos ver condicionantes econômicos e políticos que condicionam a ação docente. Mais, quem é o professor do ensino superior? Qual a sua relação com ser ou não intelectual e mais, ser ou não um intelectual de classe? Vivemos um momento histórico em que os seminários, assim como outros modos didáticos aparecem esvaziados pelo fato do qual o investimento na carreira docente aparece como mais importante do que lecionar. A luta por publicação de artigos em ritmo frenético; o “produtivismo” acadêmico; o culto ao Currículo Lattes, em disputas para se ver quem publica mais, tudo isso tem afastado o professor/intelectual do compromisso em sala de aula. Isso, em minha opinião, é o que produz aquele tipo de seminário esvaziado da contribuição do docente e que você Antonio, bem o destacou. Paulo Meksenas

  10. Caro Ozaí,tenho uma postura, relativa ao seminário, muito próxima a sua,ou seja, que há prós e contras.Porém acredito que isto é algo inerente a atividade humana. Sempre vão existir pessoas que querem realmente, no caso da educação, aprender e aquelas que estão preocupadas em adquirir o certificado, daí o diferencial entre a educação pública e a privada. Isto que a colega, Lucimar Antunes, citou anteriormente, ocorria literalmente na minha época de discente,e não se restringia a graduação, mesmo na pós-graduação e nos créditos do mestrado isto ocorria com frequencia. Sou professor do Ensino Fundamental, PR, e tenho usado uma tática, com alunos de 8ªsérie, que tem dado certo. Avalio tanto quem apresenta como quem “assiste” (no sentido de ajuda)a apresentação do colega. Porém, isso exige muito do professor, que tem que conhecer seus alunos e estar muito atento. Além disto, há grandes diferenças entre a aplicação do uso deste recurso didático-metodológico no Ensino Fundamental e no Superior. Abs!

  11. Muito interessante! Essa questão dos seminários é mesmo muito séria.No meu caso (aluna trabalhadora, mãe, esposa, etc.) é ainda mais complicado. O tempo é curtíssimo. Geralmente, num grupo de 6 pessoas, só 2 contribuem, os demais, só recebem as notas e, decoram fragmentos de textos pra expor ao professor e à sala. Ficam torcendo pra nenhum aluno perguntar nada, porque não dominando a matéria, a “farsa” poderia ser revelada. Isso parece “comum” nas universidades privadas, onde o interesse mercadológico sobrepõe à questão da qualidade do ensino. Existem alunos, que mal sabem ler e, ou escrever. Eu adoro estudar, pesquisar! Se tivesse mais tempo, sería praticamente como o Eisten… rsrsrs… abraços, Lucimar.

  12. Eu sou professor seminarista na Universidade Central da Venezuela.Na especialização de Direitos Humanos da Escola de Direito, com uma turma pequena, aplico a metodologia do seminário. A valorização é melhor que os exames. Os estudantes fazem exposições verbais e submetem trabalhos.Com o método, o professor aprende dos estudantes.Carlos A. Figueredo

  13. Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2007Olá novamente amigo Ozaí!Muito bom seu texto, você consegue esmiuçar os pontos positivos e negativos do trabalho em grupo. Com certeza, tais trabalhos acabam sendo preferidos dos alunos para obterem nota e dos professores para se livrarem de preparar uma aula. No meu entendimento, como professor, não funciona apesar de todas as boas intenções da proposta e neste “não funcionar” devemos ver incluso os vários vícios a que o processo educacional está atualmente sujeito. O que predomina hoje é a burocracia presente em um conjunto formal de regras a serem por todos seguidas, não a efetiva educação.AbraçosProf. Dr. Silvério da Costa Oliveira.E-mail e MSN: drsilverio@sexodrogas.psc.brHome page: http://www.sexodrogas.psc.brBlog “Ser Escritor”: http://www.doutorsilverio.blogspot.com

  14. Caro Ozaí,Como prof. de Direito sinto muita falta de discussões sobre metodologia do ensino superior hoje, nesta realidade marcada pelo produtivismo, imediatismo, individualismo. Costumo reservar algumas aulas para a seguinte dinâmica: os grupos elaboram em sala respostas a questões críticas, diferentes para cada um deles. Em seguida, apresentam oralmente para o restante da turma, enquanto a redação serve de base mais objetiva de avaliação. Tem tido muito sucesso. Abraços, Elídio

  15. Caro Ozaí, na hora que li o título do seu texto, pensei logo em um professor seminarista, literalmente.No entanto, logo percebi a metáfora e me interessei pelo texto. Na faculdade sempre fazemos seminários, que na maioria das vezes ocorrência isso: os grupos já são pré-definidos pelos próprios alunos, ou seja, a única interação que ocorre é entre os membros da pesquisa sem que se tenha contato com os demais temas e alunos da sala e do seminário. Ocorre também que um ou outro pesquisa e a maioria apenas aceita o que está sendo proposto sem se posicionar criticamente.Essa parte do texto ilustra bem essa situação: “Estes (os alunos), em geral, foram treinados a passivamente ouvir o professor, anotar e fazer a prova. Para eles, a aula só é aula se centrada no discurso professoral; tendem a medir a qualidade da aula pelo total de anotações no caderno”, ou seja, essa idéia de seminário é tão complexa quanto atraente, pois na medida em que possibilita o espírito crítico, ainda possibilita o espírito preguiçoso da maioria dos integrantes da equipe.Abraço!

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