O que prova a prova?

Os tempos de aprendizagem são diferenciados; a capacidade de aprender, diferente de memorizar, não é igual para todos. Em vez de estimular a solidariedade, o sistema instiga a concorrência e desestimula os que não conseguem as boas e ótimas notas. Eis um dos fatores de evasão escolar. Ao confundir memorização com aprendizado, o aluno nota DEZ vive a ilusão de ser o melhor, o mais inteligente. Dê-lhe uma questão que exija análise e reflexão, ou seja, simplesmente pensar, e ver-se-á as dificuldades. Já o aluno que tira nota baixa, tende a se ver como pouco inteligente. O sistema se fundamenta no pressuposto de que há uma inteligência padrão e que é possível medi-la. A nota é sobrevalorizada e os meios se transformam em fins.

Como medir capacidades diferenciadas quando se homogeneíza os processos pedagógicos? Como explicar diferenças quantitativas ínfimas? O que justifica que um aluno seja reprovado porque não atingiu a nota 6.0, mas apenas 5.7 ou 5.8? Será culpa do aluno ou capricho do professor? Quem garante que a subjetividade do professor não influencia? Se ele avaliasse o aluno em outras circunstâncias a nota seria a mesma?

O pressuposto em que se fundamenta o sistema de provas é um engodo. Quantos de nós, professores, passaríamos novamente num exame vestibular? É simples: o que memorizamos, com o tempo esquecemos. Os pais que acompanham a vida escolar dos filhos sabem-no. Quantas vezes não conseguimos responder suas perguntas sobre conteúdos que há muito foram excluídos da nossa memória? Façamos um teste simples: quantos de nós não se atrapalharia se tivesse que responder às questões colocadas aos nossos alunos por professores de outras disciplinas? Quantos não nos tornamos dependentes do livro didático ou dos textos adotados no ensino superior? Sabemos tudo da nossa área de conhecimento?

O sistema da prova também estimula a fraude: da simples cola à encomenda do trabalho a um colega da própria turma, geralmente considerado c.d.f. ou mais inteligente, que aproveita para ganhar uns trocados. O aluno que tem mais recursos pode comprar o trabalho em sites que oferecem esse tipo de serviços ou, por seu próprio “esforço”, pesquisar na Internet, salvar, selecionar o conteúdo, copiar, colar, editar, fazer uma bela capa. Eis um trabalho nota DEZ! Ainda há o recurso de comprar o CD na banca de jornal (os quais oferecem trabalhos praticamente prontos). Os alunos sem recursos financeiros podem simplesmente ir à biblioteca e copiar do livro ou da enciclopédia. São estratégias de sobrevivência! Contudo, talvez a conseqüência mais nefasta desse sistema seja o assassinato da curiosidade intelectual da criança e do jovem: estuda-se apenas pela nota.

Alguns até tentam ser criativos e adotam mecanismos que disfarçam a tortura – tanto para o aluno quanto para o professor – de ter que dar a prova e a nota. Inventam-se coisas como simulacros de educação continuada que se resume à mera transformação da nota bimestral em semestral. A tortura passa a ser aplicada em doses homeopáticas: tudo passa a valer pontos e a prova bimestral é substituída por várias provinhas e atividades que somadas valem DEZ. E isso é apresentado aos pais e alunos como avanço. Estes, em geral, nem são consultados, mas apenas informados.

O que prova a prova afinal? Nada. Ela é um instrumento burocrático de controle que legitima o poder da instituição e, em decorrência, dos professores. Afinal, como controlar a turma sem a “prova”? E o pior é que parece não ter como romper com o esquema. Mesmo quem discorda, tem que “dar a nota”. Não obstante, é preciso avaliar. Como fazê-lo de uma maneira justa e que estimule a solidariedade e o aprendizado?

17 comentários sobre “O que prova a prova?

  1. Não se pode generalizar. Avaliação é algo necessário, como diz Pedro demo. Entretanto é óbvio que memorização não prova nada. Em ciências humanas/sociais não tem mesmo sentido a memorização. Mas a avaliação continua necessária, pois seria simples dizer que não é preciso avaliar e colocar todos “dentro do mesmo saco”, até mais fácil aos professores.

  2. Entao outro mundo não é possível, caro Itamar?dizer isso que é de uma delinquência sem tamanho.ou a História pro senhor é estático e imutável?

  3. Olá meu caro Ozai, seu artigo é bastante interessante! É capaz de seduzir multidões de desavisados, mas,na verdade,ele expressão um visão de mundo e contém objetivos bem definidos. O texto tem, a primeira vista, aparência de moderninho, solidário e cooperacionista… hum… mas ele vai naquela linha do “Um outro mundo é possível”. Mas… como já estou quase chegando aos 50 não me iludo muito facilmente. Na verdade seu texto não tem nada de ingênuo nem de moderno. Tem nele um igualitarismo primitivo que se aplicado na nossa realidade produziria consequências desastrosas. Perdoe minha ousadia, mas digo que sua formulação é academicamente delinquente.

  4. sueli nascimentodiz:oi professor Osaí , a tempo se discute a avaliação porem sem resultado efcaz,penso que o professor que trabalha bem sua aula nao prescisa se preocupar tanto com avaliaçaopois essa na verdade reflete muito mais a qualidade da aula do professor do que a propria aprendizagem do aluno ,ja tive professores que conseguem trabalhar a auto avaliaçao de seus alunos o que disperta nos mesmos um grande espirito de responsabilidade.Avaliaçao de um conteudo começa no planejamento do mesmo,o professorsouber discutir a importancia do que vai se trabalhado e isto for verdadeiro tera condições de trabalhar ”com a turma” e não ”para a turma”.Não se pode pensar a avliação como fragmento do proscesso ela é o proprio proscesso,para isso o prfessor prescisa compreender que neste proscesso ele condus mas tanbem ”respeita”quando o aluno lhe ensina.enquanto o professor não se livrarde seu autoritarismo pedagogico não conseguirá trabalhar a avliaçãocomo proscesso mas apenas como ferramenta de punição (ver educação bancaria ,Freire Paulo:Pedagogia do Oprimido)

  5. O método de avaliação através de provas não é o ideal, mas acredito que o sistema de progressão continuada que é a alternativa, não funciona nem um pouco. Talvez o sistema competitivo educacional tenha lá suas vantagens, haja visto que o mercado de trabalho também é altamente competitivo. O interesse e a curiosidade intelectual do aluno é importante, mas um pouco de esforço é saudável também.Amigos professores me dizem que está muito difícil estimular o aluno a estudar com o sistema de progressão continuada, pois ele somente está preocupado com a presença, pois é atraveś desta que ele vai ser aprovado.Idealmente e filosoficamente, concordo com o texto, mas na prática infelizmente não dá, vivemos em um Sistema Capitalista que é competitivo, com fracassados e bem sucedidos.

  6. A escola, como um dos dispositivos para homogeneizar os alunos, estabelece a noção de normalidade.É normal aplicar provas e medir conhecimentos Paralelamente, ao definir o que é normal, determina também o que é anormal.( problemas de aprendizagem,etc) O discurso pedagógico e de uma pedagogia da prova, consiste em um novo e velho ordenamento a partir de inúmeros saberes que se perpetuaram como relevantes mecanismos ao longo dos tempos e que permanecem vivos até os dias de hoje. É como diz Foucault em seu livro Vigiar e Punir: “O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ou uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame” (Foucault,p143). Ainda nas salas de aula, organiza-se um espaço analítico: distribui-se cada indivíduo em um lugar e em cada lugar um indivíduo, mesmo que seja em grupos O professor exerce o papel de regulador, controlando as comunicações, estabelecendo-as ou sancionando-as, contabilizando as presenças e ausências, classificando os alunos segundo seus “méritos”, vigiando o comportamento de cada indivíduo, podendo isolá-lo ou puni-lo caso o ache prejudicial ao processo de “aprendizado” e ainda aplicando provas.

  7. Acho que todos os comentários mencionam algo que deve ser levado em consideração, todos possuem sua verdade. No entanto, apenas o prof. Raimundo atenta enfaticamente para o fato de que “é avaliando que se avalia”. Sei que há avaliações que são praticamente punitivas, feitas por professores que não aceitam descer do seu pedestal para analisar, levar em consideração um ponto de vista diferente do seu. Mas existem profissionais que primam por uma prova reflexiva, sem decoreba. Também acho um “saco” tanto fazer, quanto corrigir provas, porém sem elas o que fazer? Aprovar todos, como mencionou o prof. Raimundo. Neste caso a qualidade educacional tende à piorar ainda mais, porque poucos alunos estão (ou podem estar)mais preocupados com sua formação que com seu certificado.Penso que nosso sistema de avaliação é reflexo de nossa sociedade, e sem mudá-la não vejo possibilidade de uma mudança relevante na forma de avaliação.

  8. Bom dia, Ozai. Segue meu comentário para ser publicado, por favor. Meu caro professor-doutor Ozai, se eu entendi, devemos abolir as provas, pq elas não avaliam nada. Parece-me ingenuo ou falacioso esse argumento, primeiro, porque praticamente já não temos coragem de cobrar provas pq os alunos universitários resistem ou seduzem o professor substituir a prova por um “trabalho”. A suposição deles é que um trabalho, feito em casa, é mais fácil. Segundo, a prova não pretende avaliar a “inteligência”, que é avaliado por testes da psicologia, mas sim, ela pretende avaliar se o aluno “leu e compreendeu”minimamente os textos e se “acompanhou” as aulas. Terceiro, se a prova não avalia nada, e resolvemos abolir a famigerada de vez, que fazer então? Simplesmente não avaliar, deixar passar “automáticamente” todos os alunos e no final presenteá-lo com um “diploma”? Estaremos, assim procedendo, sendo justos com os que ralam, estudam, e vão bem nas provas e demais escritos? E se o aluno entrar no PROCON e processar o professor e a escola que “passaram” ele sem avaliar seu aprendizado? (o filme “A escola da desordem” já discute isso). Entendo que o libertarismo e o romantismo na educacional são interessante em alunos responsáveis, comprometidos com sua formação, mas não funciona com alunos, sobretudo, dessa geração atual resistente à leitura, resistente até a acompanhar as aulas, sem paixão pelo conhecimento. Meu caros “contra prova” que tal, além de abolir as provas, abolir todas as avaliações, desobrigar o aluno frequentar aulas, desobrigálos estudar os textos do currículo? Basta o sujeito se matricular…e está garantido “passar de ano” e no final receber o diploma. Viva o libertarismo. Também, essas provas (ENEM, ISEB, PROVA BRASIL,) deveriam ser abolidos para vivermo de auto-engano que não estamos no 37 lugar em “comprensão de texto”, enfim, que o Brasil é um piores do mundo em educação. Colegas e amigos, cuidado: o professor que não sabe avaliar os alunos é, rigorosamente, (mal)avaliado por eles. Abraços. do Raymundo.

  9. Professor, será que a prova não esta intimamente ligada com a questão do ensino voltado para o mercado de trabalho, e não para o desenvolvimento intelectual?O mercado cobra resultado, e as instituições de ensino nos “preparam” para isso, então a prova faz algum sentido , que pena!!

  10. Caro prof. Ozaí e caros demais amigos,Particularmente, vivo uma experiência difícil. Sou professor de filosofia geral numa faculdade de direito de São Paulo e nossos estudantes são condicioanados, desde o primeiro semestre, a provas. Sim, pois muitos sairão da faculdade e prestarão uma série de concursos públicos (a começar pelo próprio exame da OAB). Assim, acabamos recebendo a orientação de aplicarmos duas provas semestrais, afora outros trabakhos. De fato, ficamos onge de uma perspectiva libertária do ensino, o que é falta numa faculdade de direito… em especial, pois a classe dos juristas, em regra, tende a uma orientação conservadora.

  11. Olá, Ozaí… é para atribuir uma nota a este seu texto? rsrssrs. Vou fazer isso não. Só vou dizer que concordo em gênero, número e grau. Abraços e boa tarde!

  12. Concordo com você Ozaí, e com os comentaristas, eis que está em cheque, não por todos os professores, infelizmente, “a própria idéia de avaliação”.Na esteira dessa prática burocrática e retrógrada, mecanismo de exclusão / desqualificação, o MEC / CAPES “avaliam” programas de pós e universidades e com qual intuito, ora, o de “ranquear” as universidades e seus programas de pós, enaltecendo uns e desacreditando outros, estes serão consumidores do conhecimento produzido naqueles. Concordo ainda com o Meksenas quando diz: “criou-se a ilusão de que avaliando podemos melhorar”.Enfim, meus caros, o objetivo da avaliação é passar por cima do ritmo próprio de cada educando e ignorar as diferentes capacidades, tudo isso para homogeneizar / robotizar. Agora se é a sociedade na qual vivemos que produz e necessita da hedionda avaliação, então, abaixo a sociedade das provas, da competição e da competência (subserviência)!

  13. A problemática da avaliação é antiga e, como você disse, já que “não podemos fugir dela”, creio que existem formas distintas de se avaliar, ou “atribuir valores numéricos”, a depender da área de conhecimento. Há, por exemplo, questões que são mais “decorativas” e outras que são mais reflexivas. Mas o problema continua…

  14. Bem, professor, gostaria de dar a minha contribuição sobre o assunto. Sinto apenas que o espaço de comentário não seja um fórum o que limita um pouco as possibilidades de se encaminhar uma discussão. Fica aí então a proposta de criar um fórum, ou até uma comunidade do Orkut, o que é mais fácil, para transportar a discussão dos temas que são propostos no seu blogParticularmente eu acredito que o sistema de avaliação nada mais faz do que refletir a estrutura do poder da universidade. Estrutura de poder essa que nada mais faz do que depositar quase que exclusivamente nas costas do aluno uma responsabilidade que também deveria ser do professor.Gostaria de chamar atenção para uma questão que elenquei no post que discutia plágio: Acho que o problema do ensino é que ele está estruturado de maneira completamente alheia à realidade do indivíduo. A educação, que deveria significar o desenvolvimento das faculdades do indivíduo, o seu preparo para exercício da cidadania, e a qualificação para o trabalho, acaba se tornando mais uma conformação a estruturas de poder e controle.É dentro desse contexto também que eu percebo o mecanismo da avaliação. Primeiro por que a avaliação deveria ser considerada, pelo menos na minha opinião, um instrumento do processo de aprendizagem, e não um instrumento de punição, como é utilizado. E segundo por que, ela pouco faz de avaliar se aquele conjunto de elementos simbólicos passou a constituir a personalidade do indivíduoComo eu imagino que o professor tenha leitura a respeito da pedagogia libertária, talvez ele já tenha refletido sobre uma forma de ensino que considere a realidade concreta dos alunos como condição se articule com essa realidade como meio. Por isso, como parte de um processo que leve a refletir sobre a realidade que o cerca, eu acredito que é dessa forma que um instrumento desses deveria ser pensado.Por outro lado, como um instrumento de punição, o que a prova pratica, na minha opinião, é uma violência simbólica. E isso por que, no fim das contas, simplesmente obriga o indivíduo a ser o mero reprodutor de idéias para ele não ser marginalizado

  15. Concordo com você Ozaí, provas indicam pouco de contextos do aprendizado e mais, não só provas como a própria idéia de avaliação. Está em voga essa prática: avaliam-se programas de pós e universidades; secretarias da educação e as suas avaliações institucionais; o Enem, por sua vez, avalia estudantes. Criou-se a ilusão de que avaliando podemos melhorar, mas aqui entra a bela pergunta que você, Antonio, formulou: “como medir capacidades diferentciadas quando se homogeneíza os processos pedagógicos?” Esta pergunta já contém uma resposta crítica e reflexiva acerca da sociedade que vivemos. Abaixo a sociedade das provas! Abaixo as competições e competências! Abaixo a hierarquias que fazem nascer establishment e outsiders!

  16. Nosso sistema de avaliação tradicional me parece ser uma tentativa de objetivar algo subjetivo.Com toda complexidade ligada a essa tarefa.Mas vejo que tornou-se muitas outras coisas também.Moeda de troca, proteção, poder de barganha…Da mesma forma que alunos formam estratégias de sobrevivência considerando as pressões de fatores externos, muitos professores muitos professores também o fazem, uma vez que também sofrem pressões.Em épocas de mercantilização da educação isso parece mais evidente.Nesse sentido, vejo que há diferenças quando se fala em ensino pago e ensino público.Pelo nas faculdades pagas, penso que há um sem número de professores que gostaria de avaliar o aluno em vez de aplicar provas. Mas nem todos conseguem. Seja por si mesmos, seja pelo sistema.

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