Universidade e preconceito social e racial

Durante as atividades da “Semana Afro-Brasileira”, a Universidade Estadual de Maringá lançou oficialmente o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB). O núcleo é coordenado pela Professora Cleyde Rodrigues Amorin (DCS) e tem a participação de: Walter Praxedes (vice-coordenador, DCS), Luciano Gonsalves Costa (DFI), Marivânia Conceição Araújo (DCS) e Rosângela Rosa Praxedes (doutoranda em Antropologia pela PUC/SP).

[Cleyde, Walter, Rosêngela, Marivânia e Luciano – Fonte: Informativo UEM, nº 802]

O NEIAB foi criado “para enriquecer a universidade com a promoção do conhecimento sobre os saberes das comunidades negras, para que sejam superados aqueles preconceitos filosóficos, científicos e religiosos que classificam as manifestações culturais e religiosas dos negros em nosso país como primitivas, atrasadas, exóticas, ignorantes, demoníacas e inferiores”. Ele coloca “em foco aquelas formas de discriminação racial, classista e sexista, que surgiram historicamente para a marginalização, dominação e exploração dos negros e índios em nosso país, visando a manutenção dos privilégios dos colonizadores europeus e seus descendentes, para que possamos transformar a nossa universidade em um verdadeiro espaço público de produção de conhecimentos que sejam política e socialmente relevantes e promovam a participação democrática”.*

A universidade é, por excelência, o espaço das elites, expressão da influência desta no âmbito da sociedade – e isso é particularmente visível nos chamados “cursos de elite”. Da mesma forma que o Estado universaliza a cidadania através do reconhecimento dos direitos políticos, igualizando a todos na universalidade da lei e na categoria cidadania e, assim, coloca um véu sobre a realidade social desigual, a universidade pública escamoteia as desigualdades de oportunidades fundamentadas em diferenças sociais e culturais. Se a universidade é para todos e, em tese, qualquer indivíduo, desde que se esforce, pode adentrar aos seus portões, ela o é no discurso, na letra da lei, no mito de que o vestibular é um critério justo para definir quem ingressa na mesma. A universidade é, por sua natureza social, excludente. As exceções dos menos favorecidos social e economicamente que conquistam o direito de freqüentá-la e até de seguirem carreira e se tornarem doutores e professores universitários apenas confirmam a regra. A universidade é intrinsecamente elitista.**

Na universidade prevalece um tipo de saber pretensamente científico e racional, branco, eurocêntrico e excludente da cultura e saber populares. Eis os alicerces da nossa universidade, os quais foram sedimentados pela colonização que, seguindo a modernidade ocidental, impôs um padrão dominante, erigido como novo dogma substituto à teologia. Em outras palavras, na universidade assimilamos acriticamente um modelo racional científico de saber, oficial e pretensamente neutro, legitimado em si mesmo. Eis os fundamentos elitistas do saber e cultura predominantes no campus, reservados aos que, desde a infância, são preparados para incorporá-las. Pois, suas famílias têm condições econômicas e culturais para tanto, isto é, são depositários de um “capital social” e “cultural” que favorece o acesso à universidade e o sucesso na carreira acadêmica.

O NEIAB é uma iniciativa necessária. Oxalá, consiga atingir os seus objetivos, os quais, aliás, deveriam ser compartilhados por todos os setores críticos ao regime de apartheid social e racial e ao preconceito e racismo, manifesto ou velado, presente no campus e na sociedade em geral.

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* Ver “Programa Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-brasileiros”, de autoria dos participantes do núcleo, disponível em http://www.informativo.uem.br/cms/index.php?option=com_content&task=view&id=1210&Itemid=30
** Retomo argumentos presentes em “Por que a universidade resiste às cotas raciais”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 65, outubro de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/065/65ozai.htm

8 comentários sobre “Universidade e preconceito social e racial

  1. O problema do racismo pode ser visto não apenas sobre a discussão a respeito da idéia de raça. Os racistas não são, necessariamente,especialistas em genética ou ciências sociais. O racismo é uma manifestação que diz respeito mais à Estética e seu regime de visibilidade dominante, à impressão sobre o outro como uma produção da cultura. Diz respeito à toda uma produção de mais-valia simbólica, de produção de capital social social desigualmente distribuído.

  2. Olá OzaíSempre surgem idéias conservadoras e até devastadoras na questão das cotas enquanto ação afirmativa.Mas o que não se leva em consideração é que as mesmas apesar de ser até cópia, ela tem dado certo em nosso país mexendo com os pseudos privilégios das pessoas que são preconceituosas e não se dão conta que a sociedade só tem a ganhar.O desacordo expresso pelo SR. Roberto Vital quanto a política das Cotas as quais eu Ana Maria Souza sou a favor me deixa indignada pois é uma conquista da qual não pode ser abortada.O espanto desse Sr.me deixa indignada pois ele mesmo não faz o movimento contrário de chamar tantos outros para que a instituição escolar seja prioridade primordial no nosso país contemplando todos indistintamente num país onde o preconceito, a discriminação juntamente com a falta de oportunidades grassa a classe trabalhadora impedindo-a de realizar seus sonhos que é ter seus filhos numa Universidade gratuíta (quer dizer paga por todos) mas que só alguns têm o privilégio de nela adentrar.Não cabe somente ao movimento negro ir a luta para melhorar a qualidade da Educação brasileira principalmente nas séries iniciais onde os recursos financeiros bem administrados deveriam ser maiores a exemplo dos países chamados atualmente de Tigres asiáticos.O escandalo a que ele atribui ao movimento negro deve ser imputado à toda sociedade brasileira que deve se responsabilizar pelo projeto de nação educadora para todos aqueles que aqui nasceram.Cabe ainda ressaltar que a educação em nosso país está caótica e engloba desde a educação pública até ministrada pelsas particulares. Com relação as instituições particulares as escolas de renome obtiveram média nas avaliações 80 quando deveria ser 100. Sem recursos as médias são insignificantes para as escolas públicas que dependem dos minguados recursos oriundos das prefeituras, dos estados e do governo federal.Finalizando combater as cotas é tapar o Sol com a peneira deixando transparecer apenas o próprio preconceito,sua discriminação pela cor daqueles que foram contemplados em algumas Universidades. Vamos também deixar de falar de raça pois todos somosseres humanos com características diferentes.Ana Maria mSouza

  3. Ozaí, escrevi para criticar o Sr. Roberto Vidal em alguns pontos. Primeiro é sobre o senso comum dos brancos que são contra as cotas sobre copiarmos os EUA. Ora, beber Coca-Cola e consumir lanches do Mc Donald’s não é considerado “copiar americanos”. Esse é um primeiro ponto. O outro é que esse senhor não conhece todas as ações que nós negros desenvolvemos a respeito da educação. Existem apenas na Baixada, que eu conheça, duas iniciativas voltadas à educação básica que funcionam em terreiros de candomblé. Sendo que numa delas há um processo de formação de parcerias com a Universidade Howard e outra do Canadá, além de apoio de outras instâncias internacionais. Além disso, a entrada de negros nas universidades promove uma alteração no regime de visibilidade dominante nos espaços acadêmicos. Fico pensando no atual dilema de alugns brancos que se julgam pensantes em “como ser racistas sem demonstrar racismo”. O grande problema é que o observado também observa o observador e é aí que rola o dilema: como invisibilizar a invisibilização? Chamo tal processo de “semióica da invisibilidade”. A transformação do debate sobre racismo em discussão epistemológica é uma estratégia utilizada por pretensos intelectuais como forma de desvio da questão política e estética,obviamente.

  4. Muito interessante. Ainda mais considerando que leciono na Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.Vou repassar para nossa universidade.Cordial abraço.Vinícius

  5. Ozaí, compartilho de seu ponto ponto de vista de que a universidade é elitista, e não vejo perspectiva de mudar essa realidade! Recentemente estive em um seminário sobre violência em Londrina-Pr e, em uma das palestras, o Dr. Saraiva, juiz de direito no Rio Grande do Sul, defendeu a tese de que o ensino fundamental deveria ser exclusividade do Estado,que a iniciativa privada deveria afastar-se dessa modalidade de ensino. Ele fundamentou dizendo que se a “burguesia” tiver seus filhos na educação pública, a escola passa a ser nossa e não a escola dos outros e, sendo assim, exigiriam investimentos e ensino de qualidade mais igualitário, e as pessoas oriundas de classes populares poderão chegar à universidade com um pouco mais de chances. Claro que existem muitos outros determinantes que, também, impedem que isso ocorra, como por exemplo a necessidade de desde cedo o jovem pobre ter que se candidatar um uma vaga no mercado de trabalho.um grande abraço e sucesso ao pessoal do NEIAB.

  6. Prezado Ozaí: presumo que esta venha a ser nossa primeira discordância de fundo. Não há problema, respeito seu ponto de vista e espero – na verdade – estou certo de poder contar com – sua reciprocidade.Sou a favor de núcleos e grupos de pesquisa e reflexão sobre as questões raciais e seu substrato social. Até aí me solidarizo com você e com o Núcleo de que fala.Meu desacordo é com a política de cotas. E desejo explicitá-lo. Há um problema de fundo: a exclusão social de milhões de brasileiros afrodescendentes, na qual se mesclasm aspectos sociais e raciais. Nõ vejo como superá-la sem atribuir absoluta prioridade a uma educação de qualidade para todos os segmentos sociais, mas dando maior urgência aos grupos de baixa renda situados nas periferias metropolitanas e nas áreas rurais. Enquanto isso não ocorrer, não vejo como será possível emancipar milhões de brasileiros pobres – entre os quais se situa a maioria dos afrodescendentes – da precariedade social, econômica e profissional em que se encontram. Por minhas cartas anteriores, você sabe que por educação de qualidade entendo um conteúdo amplo, que não se limita à transmissão do conhecimento – embora mesmo isso deja muito deficiente no ensino público atual – mas utilize a cultura, o esporte e o turismo como agentes educacionais.Me espanta – na verdade, me escandaliza – o papel secundário dado a este aspecto por parte das organizações negras e dos brancos bem-pensantes que se sentem mais reconfortados ao apoiá-las. Parece que tudo se resume a cotas universitárias – ou, no mínimo, este ponto é o mais importante no discurso e na ação reivindicatória. Mas aqui se está falando de uma minoria! E a maioria de negros, brancos e de quaisquer outras etnias, pobres e excluídos? Não são esses os prioritários?Esta opção parece-me copiar dois paradigmas muito questionáveis. Primeiro, o paradigma dos EUA, de onde vêm as ações afirmativas. Então, vejamos os resultados: de um lado, Mme. Condoleeza Rice e o Gen. Colin Powell, representantes do sucesso; de outro, os milhares de desabrigados de New Orleans após o Katrina, impedidos de voltar para suas casas, representando a maioria para quem a ação afirmativa nada trouxe de bom. Desejamos isso para o Brasil? Uma oligarquia negra universitária e a maioria permanecendo no abandono?O outro paradigma é o da sociedade colonial, expressa na elite branca e deformada na cultura social da classe média remediada: o que vale são os “títulos”. Para os remediados, qualquer diploma universitário, ainda que de 3a. categoria. Assim prosperam as espeluncas do ensino privado que oferecem ilusões e cobram por isso sem selecionar no acesso. Para a burguesia (que não é boba) os de 1a. linha, que custam os olhos da cara – aí inclusa a universidade pública, cujo acesso depende em grande parte de bons colégios e cursinhos, ou seja, de investimento prévio.Não vejo os movimentos negros nem os intelectuais que os apóiam focando sua energia na exigência de um ensino básico de qualidade para a maioria dos pobres. Parece que esta não é a prioridade. O argumento de que isso significa relegar a atual geração em idade universitária à falta de alternativas – que já ouvi mais de uma vez – não responde ao problema: soluções para a maioria ou para a minoria? Estender a segregação para dentro dos afrodescendentes ou começar a enfrentá-la no conjunto?O outro argumento que me parece vazio – de fato, hipócrita – é a desqualificação dos critérios cognitivos para a seleção à universidade. Tenho mil críticas ao vestibular, não me cabe defendê-lo. Mas este argumento é mero pretexto para defender privilégios baseados na cor da pele. Se achamos que há outros saberes que não os da ciência de matriz européia, então vamos incorporá-los à seleção, debatendo como fazer isso (não precisa ser um exame escrito). Mas falar de “outros saberes”, apenas para exigir nota privilegiada num exame em que só se pede o saber criticado, não passa de subterfúgio.De todas as ações alternativas – prefiro esta expressão a afirmativas, pelas razões apontadas – que tenho visto, a única com que concordo é a realização, pelas universidades públicas, de cursinhos preparatórios aos vestibulares para alunos do ensino médio público. Aí não se deforma o resultado de um exame com critérios raciais, mas se oferece igualdade de oportunidades para realizá-lo com sucesso. E isso é o essencial. Os alunos do ensino privado, por suposto, podem pagar cursinhos preparatórios.Deixo os demais argumentos – são vários – para novas cartas. Um grande abraço.Roberto Vital Anau

  7. Concordo com todas suas colocações Ozaí, e também faço votos para que o NEIAB tenha sucesso. Para isso penso que ele não deve cair na armadilha de separar o racial do social, pois acredito que todas as saídas passam pela construção de uma sociedade mais equitativa.Acrescentaria, ainda, que muito se discute sobre a exclusão (de classe ou de raça) na universidade, mas penso que ela começa na educação básica. Acho que esta havendo, nesta fase da educação pública, uma exclusão que se diz inclusão. Digo isto, porque preocupados com o indice de evasão e repetência o governo, por meio de seus orgãos competentes, preciona os professores para que criem condições para que os alunos sejam aprovados. No entanto, isto acontece sem a existência de aparatos que promovam a recuperação deste aluno. Por outro lado, todo um círculo vicioso foi criado e os próprios alunos do Ensino Médio já não se interessam em avançar na sua própria formação intelectual, não almejam o acesso a Universidade Pública, mas sim a particular, via PROUNI. Lendo seu texto, tanto o do blog, quanto o do Espaço Acadêmico, pensei em algo que não havia refletido ainda, a burguesia age nos dois extremos. Numa ponta vicia o povo para que ele almeje o caminho mais fácil e deturpa a escola pública (afinal eles não precisam da mesma), e por outro, por meio do PROUNI vinculam estes alunos em instituições que, muitas vezes, tratam o conhecimento como mercadoria. O trabalho do NEIAB não vai ser fácil, oxalá que tenham sucesso.Abs.

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