Aids e Política

Os números são frios e estarrecedores! Ao mesmo tempo, passam a sensação de que não nos dizem respeito, pois estão distantes do nosso cotidiano. Não é comum acreditarmos que as desgraças só acontecem com os outros? Aparentam ser apenas notícias sobre fatos que estão além das nossas forças. Resta-nos contemplar e, assustados, torcer para que tais desgraças não ocorram conosco e entre os nossos. Então naturalizamos o que nossos sentidos recusam incorporar. Se isto falha e nos chocamos, é passageiro. Os números, tristes números, têm o risco da banalização do real que, ainda assim, teima em ferir nossos sentimentos.

Como não se inquietar quando descobrimos que o que nos parece um problema de uma minoria da população é também nosso problema? Como não se perturbar quando sabemos o quanto a Aids incide sobre as mulheres e as crianças? Há muito não se trata mais de limitar a Aids a grupos de riscos ou aos que têm comportamentos de riscos. Há muito que o preconceito contra os homossexuais deixou de ser argumento para os moralistas.

A Aids se expandiu para todos os setores, atingindo as mulheres pobres, com parceiros fixos ou não, e em idade reprodutiva. Vítimas da cultura machista e até mesmo sem condições de comprar preservativos, as mulheres, casadas ou não, são infectadas por seus parceiros, que teimam em desafiar a sorte mesmo quando sabem dos riscos que correm.

Nos países desenvolvidos, ou mesmo no Brasil, o acesso ao coquetel antiviral atenua o sofrer e, paulatinamente, transforma a trágica descoberta da contaminação em resignação e esperança de poder conviver com o vírus e estender o tempo de vida. Esta certeza produziu o paradoxo da condescendência: baixa-se a guarda, descuida-se do sexo seguro e dos métodos preventivos. Ampliam-se os riscos de contaminação, inclusive através de acidentes de trabalho entre os profissionais da área da saúde.

Na África, a Aids assume ares de tragédia, comparável à epidemia da peste que atingiu a Europa medieval. Que esperança pode ter o soropositivo de países como Zimbábue, Botsuana e África do Sul? No continente africano, as vítimas são, em sua maioria, pobres. Isto significa que a maioria dos contaminados está condenada a morrer de forma rápida, pela simples e sinistra combinação entre a Aids e outra doença social: a miséria.

Números, números e mais números… Qual a relação com a política? Esta parece uma daquelas questões cuja obviedade anula a necessidade da resposta. Não é bem assim. A Aids é uma questão de saúde pública. Os progressos no tocante ao comprometimento do poder público em relação à Aids é fruto da pressão dos diversos grupos que levantaram-se indignados contra a forma preconceituosa como a doença era tratada na mídia, na sociedade e mesmo no campo da medicina. Passava-se a ideia de que era coisa de homossexual. E foram os militantes deste movimento que resistiram. Esta foi uma fase sobretudo defensiva, diante do preconceito e do terror gerado pela contaminação.

Quando os governos desenvolvem políticas que aprofundam a pobreza e a miséria, deteriorando cada vez mais as condições de vida da maioria da população, a saúde pública torna-se uma questão essencialmente política. Isto num contexto de crescente número de contaminados pelo HIV entre a população de baixa renda agrava o problema e aumenta a nossa responsabilidade. Há muito que a Aids não é mais algo restrito à minoria da sociedade. Mais do que nunca é uma questão política.

10 comentários sobre “Aids e Política

  1. O pior aspecto da atualidade do texto é que, no ritmo que ações com efeito afirmativo contra problemas dessa magnitude são conclúidas, o artigo continuará atualizado ano que vem, e o próximo, e o próximo…

  2. O Texto permanece atualíssimo! Parece que muita coisa não mudou, as pessoas continuam as mesmas e por conta disso, o vírus da aids cresce e sofre mutações. A Africa é terrítorio do inimigo, justo por causa da pobreza aliada à conceitos religiosos. Muitos pensam ser castigo divino e que para conseguirem a cura, precisam estuprar uma virgem. Assim como cresce a doença, cresce o número de estupros e contaminação de mulheres.Os governos precisam se unir, numa campanha global de informação, principalmente.Anexei seu texto à blogagem coletiva, espero ser do seu aceite.Beijus,

  3. Oi, Antônio, passei aqui para ler o texto sobre a Aids e achei muito bom o seu post. Aproveitei também para conhecer o restante do blog e está excelente. Parabéns pela qualidade, ganhou mais um visitante frequente. Também participei da blogagem, se tiver um tempinho dê uma passadinha lá. Abraços e até logo!Nando.

  4. [Duval Guimaraes] [duvalguimaraes@gmail.com] [Washington, D.C., US] Sem duvidas! Acredito que a AIDS esta’ diretamente ligada a conscientizacao da populacao sobre seus riscos. Neste sentido, o governo se torna responsavel pela doenca ao ser diretamente responsavel pela educacao publica. Por outro lado, as estisticas mundiais mostram que os paises desenvolvidos, como os Estados Unidos, tambem apresentam numeros consideraveis de portadores do HIV (http://www.avert.org/aids-countries.htm) . Vale lembrar tambem que o numero de incidentes atraves do uso de drogas tambem e’ crescente. No caso do Brasil, pesquisas e estudos recentes a nivel comparativo (http://www.avert.org/aids-brazil.htm) mostra que a epidemia esta’ se desenvolvendo mais lentamente entre homosexuais e usuarios de drogas, mas esta’ aumentando consideravelmente entre os heretrosexuais -imagino que este aspecto e’ mais afetado nas classes baixas da populacao. O estudo diz ainda que a epidemia tem tido efeito crescente entre os membros da sociedade brasileira com niveis de educacao inferiores.09/12/2006 11:53

  5. [Leonardo Silvino] [leosilvino@bol.com.br] Mais um texto sensível e bem escrito. Sobre o assunto existem algumas boas notícias como o prolongamento da vida através dos coquetéis, sobre a diferença do tratamento entre os continentes. Atualmente parece que a doença é controlável com medicamentos (o que é ainda pouco divulgado), mas nos países pobres é uma catástrofe. A falta de informação e o começo da falta de necessidade de mão-de-obra barata vai ampliar este quadro infelizmente. 09/12/2006 10:36

  6. [Vinícius] [filosofiadodireito@gmail.com] [http://marxismoedireito.blogspot.com/] [Santo André, SP, Brasil] Curioso perceber como a política, no mais vasto significado que possa ter, assemelha-se ao rei o qual, em tudo que tocava, se tornava ouro. A AIDS, como toda doença, é, sim, um problema público e sua solução depende de contudente decisão política para tanto. Abraços a todos. VMP05/12/2006 08:55

  7. [Karim Roberta de Almeida] [karimralmeida@yahoo.com.br] [São Paulo] Em recente visita a um centro de idosos, localizado an zona leste de SP, deparei-me com a seguinte realidade, um ambulatório, um instituto de beleza e o famoso espaço para dançar forró.”Como se isso fosse resolver a questão da previdência neste país”. Em nenhum desses ambientes havia um cartaz sobre a Aids, uma palestra ou até mesmo distribuição de preservativo. Infelizmente as notícias nos jornais são alarmantes o números de idosos que adquiriram Aids é assutador,a maioria refere-se as mulheres na terceira idade. Mas a lógica do capital é essa enquanto a Aids era tida como uma doença da elite estava na mídia e os próprios laboratórios procuravam sua cura. Hoje eles preferem enterrar seus pobres mortos e dizer: infelizmente a Aids naõ tem cura. 05/12/2006 03:22

  8. Diva Ferlin] [d.ferlin@uol.com.br] [Salvador] O texto tem o mérito de retomar a questão da AIDS (que anda um tanto esquecida), versus política de saúde pública e comportamentos individuais de risco, que na verdade constituem uma interface das questões do acesso à educação de qualidade e à informação clara e precisa. Grandes problemas, cuja resolução passa, necessariamente, por diversos outros – como a distribuição de renda, só para ficar em um – e por uma vontade política, que até aqui, a meu ver, se existiu, não tem sido suficiente. Dá a impressão de que mesmo as campanhas pela prevenção da Aids, por época do Carnaval, só acontecem, para evitar que o país não perca as divisas geradas pelo turismo estrangeiro. Enquanto isso, divulgamos uma queda na mortalidade infantil – o que é muito bom, claro -, sem mencionar, que mesmo assim é vergonhosa. Precisa dizer que, também nesse caso, atinge preferencialmente as famílias mais pobres, sem acesso à educação, saúde e alimentação adequados?05/12/2006 00:30

  9. [Daniel Antonio] [sociologo05@hotmail.com] [Uberlandia Mg] Politicas públicas deficintes atingem de maneira muito profunda a populacao mais carente,no setor de saúde o problema é grave, pois o Estado nao consegue atender minimamente a saude básica, imagina doenças que exigem tratamento caro e atencao especial?04/12/2006 12:11

  10. [DANIELA SILVA] [daniela.silva_1@hotmail.com] [Salvador-Bahia] A AIDS por muito tempo, não sei exatamente ainda é, vista como uma doença que só atingia a classe mais priveligiada, mas conheço casos em que o portador do HIV é pobre, vive em periferia, é analfabeto. Pior que isso só o descaso e a falta de tratamento.04/12/2006 09:04

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