Loucura, paixão e razão

para a Juliana

Sou palmeirense! Deveria ter ficado contente com a queda do arqui-rival. Deveria ter torcido para que a tragédia anunciada se consumasse. Estranhamente, isso não ocorreu. E, mais estranho ainda, terminei por me ver solidário e até sofri com o sofrimento da torcida do não mais “todo poderoso timão”. O que explica tamanha metamorfose? É simples: o amor de pai é maior, imensamente maior, do que o amor ao Palmeiras. E não se trata apenas do sentimento paterno, mas deste se referir a alguém muito especial; capaz de me fazer sentir emoções contraditórias, de me fazer admirar e respeitar o oponente e, assim, aprender a tolerar o intolerável. Que seja bem entendido: não torci pelo Corinthians. A minha heresia não chegou a tanto. Apenas torci para que o “inimigo” não caísse.

A saga do Corinthians assumiu a feição de uma tragédia. O paradoxo da quase certeza de que o time não tinha qualidade para se manter na divisão superior e a esperança, renovada a cada jogo, se traduziu no sofrimento contínuo e renovado, até o apito final do último embate. A angústia chegara ao fim, o mundo caía. Quem acompanha futebol, provavelmente não se manteve insensível diante do que viu.

Chamou a atenção a demonstração de amor e fidelidade ao time. Nos jogos, a torcida, em uníssono, cantou:

“Aqui tem um bando de louco

Louco por ti CORINTHIANS!
Aqueles que acham que é pouco
Eu vivo por ti CORINTHIANS!”

Foi uma catarse coletiva que beirou a irracionalidade. Afirma-se a loucura, algo incompreensível a quem não partilha as emoções de se identificar apaixonadamente pelo time que escolheu por toda a vida. Para os que não se apaixonam, a loucura da paixão é apenas irracionalidade. E, de certa forma, têm razão. O louco é capaz de tudo pelo amor declarado. Quem não cometeu enormes bobagens e caiu no ridículo, diante de um grande amor? Lembro-me e rio do que fiz por amor! E nestas circunstâncias, não nos parece irracional declarar e viver esse grande amor. É ele que nos sustenta, que dá razão ao viver. O “louco por ti” indica simplesmente uma necessidade humana, demasiadamente humana. E isto não deveria estranhar.

Concordo que não é fácil compreender um amor tão intenso, especialmente quando este se refere a um time de futebol. “Coisa de alienados!”, dizem alguns! “Loucos!”, afirmam outros. “Um bando de irracionais e fanáticos!”. Sim, a loucura do amor é irracional, perdemos o controle sobre o que pensamos, falamos e fazemos. O amor incondicional é capaz de tudo, sem medo do risível. E, no caso do time, há o perigo do grupo, coletividade, manifestar tamanho amor de maneira fanática. E o fanatismo cega, é intolerante e perigoso, sempre. Paradoxalmente, apesar de tudo, também é humano, demasiadamente humano. O desafio é compreender.

No último ato da tragédia corintiana, o amor incondicional explodiu em choro incontido de homens e mulheres de todas as idades; a emoção exposta em toda a sua intensidade. Aos que nunca choraram de alegria ou de tristeza, que nunca se apaixonaram perdidamente, tal visão é estranha, incompreensível e irracional. Se pensarmos bem o que é o futebol na sociedade atual e a dificuldade de compreender a identificação dos indivíduos com um símbolo, parece que somos mesmo irracionais.

Mas esta é uma “loucura” sob controle. O mundo volta a girar e nos encontramos na realidade deste. É uma paixão. E a capacidade de se apaixonar é o que nos diferencia dos outros animais. Só assim é possível entender as razões deste “bando de loucos”; só assim é possível compreender as razões de um pai palmeirense, mas solidário à filha corintiana. Como palmeirense, nunca imaginei que compartilharia deste sofrimento. Como pai, compreendo!

10 comentários sobre “Loucura, paixão e razão

  1. Pai EU TE AMO MUITO.eu não consigo entender por que tantos corinthianos e palmeirenses não se entende como a gente se entende ,a ponto de compartilha o sofrimento.eu também não entendo por que gosto tanto do corinthians.Eu poderia “torce” pro são paulo e comemorar o penta ,mais eu não sou burguesa.rsrsrsrsrsrs,e eu assistdo futebol pra torce e não pra ganhar.Talvez esse seja o problema do futebol “tanta sede de ganhar que se esquece de torce.(aliás esse é o problema do mundo)acho eu.podia ser palmeirense e me diverti com meu pai,(vou ser sincera faltou um pouco para eu ser palmeirense).Eu virei corinthiana por causa que era mais legal,a familia da minha mãe é corinthiana e a bagunça era geral(pra uma criança uma diversão)mais fui crescendo e me mudei pra maringá,deixei os corinthiano tudo em São Paulo.Tive que aguenta três palmeirense me enchendo o saco todo domingo,alegando que era time de favelado que o time era tão pobre que não tinha e não tem estádio.Isso fortaleceu mais minha decisão,pois como diz meu pai “eu só a favor do proletariado” e o “ódio que muitos sentiam e sente pelo meu timão do coração isso fez aumentar mais e mais meu amor”.e tambem eu torço para o corinthians pois me encantei pela paixão que essa torcida, ou melhor “nação corinthiana” sente pelo seu time, isso que é fidelidade,não é modinha ,torce só por que ganha.Pra ter noção foram vinte anos de jejum e a torcida só aumentou.Todo mundo falava,pelo menos eu ouvi, que quando o corinthians fosse rebaixado a torcida iria quebrar o pau.O que eu vi foi uma demostração de afeto pelo time.Eu me emocionei e não tenho vergonha de dizer que eu também chorei( metade do brasil chorou até o companheiro lula deve ter chorado,e a outra metade teve ter comemorado como se tivesse que seu time tivesse ganho um título).A final…”Com a queda do Timão, a Segunda Divisão virou a primeira página esportiva dos jornais paulistas e a Primeira ficou com a segunda.”por isso corinthians…EU NUNCA VOU TE ABANDONAR.obs: isso serve pra você também pai. Juliana Ozaí da Silva filha to homem mais importante do mundoAntônio Ozaí da Silva.

  2. Sou corintiano e confesso ter sentido uma certa solidariedade por parte dos torcedores adversos. Por quê? Confesso não saber, mas tenho a certeza de que se fosse outro time que tivesse caído, a grande maioria dos auvinegros ficariam felizes, sei lá, isso faz parte de ser corintiano.Bom, pensando bem, posso até tentar compreender essa “pena”. Não teria o Corinthians os traços da personalidade de todo brasileiro, e com isso todos se identificassem ao menos um pouco com o Timão?

  3. Como gremista sei o que é a segunda divisão. Para mim foram momentos de sofrimento, loucura e paixão que estão sob controle. Gosto de futebol como diversão, lazer, nada mais além disso.

  4. É Juliana, acho melhor mudar de TIME..Veja só o Porque!!!!Leia com Calma, tá! E não fique brava!!!!Beijos RaniFILHO: Pai, por que o senhor sempre fala que eu tenho que ser Corintiano?PAI: Porque o Corinthians é o melhor time do mundo filho. É o Timão!FILHO: Mas o Corinthians não foi rebaixado para a segunda divisão?PAI: Bem, é verdade. Mas nós só fomos rebaixados por causa de uma parceria com um fundo de investimentos chamado MSI que desgraçou o Corinthians.FILHO: Mas não foi essa MSI que comprou o Tevez, o STJD e o Márcio Rezende de Freitas para garantir o título nacional de 2005 que na verdade foi conquistado pelo Internacional?PAI: Foi, mas depois….AH, isso não importa filho. Nós somos a maior torcida de São Paulo e a segunda maior do Brasil.FILHO: Isso é legal né pai!? Mas a Italia que é um país pequeno e com menos torcida, já tem quatro mundiais não é!?PAI: É filho, tá certo porra!!!FILHO: Calma pai, o senhor está bravo só porque o Corinthians não é nada disso que o senhor pensava?PAI: Pára com isso filho! Nós já fomos campeões mundiais!!! Contra Manchester, Real Madrid, etc …FILHO: Sério Pai!? Quando?PAI: Em 2000.FILHO: Que legal, então nós também ganhamos a Libertadores em 99?PAI: Não, na verdade quem ganhou a Libertadores em 99 foi o Palmeiras. Você não sabe que nós NUNCA ganhamos uma Libertadores em mais de 90 anos de história!?FILHO: Ué, então porque o Corinthians jogou esse mundial em 2000?PAI: Ah! É que fomos convidados para jogar porque ganhamos o apoio de um grupo de investidores estrangeiros que precisava colocar o Corinthians láFILHO: Então por que não chamaram o Palmeiras? Por que o campeão Sul-americano de 99 não foi e o Corinthians, que nunca passou de uma semi-final de Libertadores, foi?PAI: Não sei filho, mas que merda!!!!FILHO: Então esse torneio não foi sério. Não teve critério para as escolhas dos clubes! Mas o Corinthians ganhou do Manchester e do Real Madrid né pai?PAI: Não. Na verdade ganhamos do perigoso Raja Casablanca com um gol roubado em que a bola não entrou, empatamos com o Real Madrid, no Morumbi, graças ao Anelka que perdeu um pênalti e depois “goleamos” o poderoso Al Nasser por dois a zero.FILHO: E na final ganhamos de quem?PAI: Na verdade não ganhamos. Empatamos com o Vasco no Maracanã e o “título” veio nos pênaltis.FILHO: Quem foi o herói Corintiano que fez o gol do título?PAI: Ninguém. Na verdade o Edmundo chutou pra fora e nós ganhamos.FILHO: Mas esse ano comemoramos 30 anos do título de 77. Que campeonato foi esse tão importante?PAI: Foi o Campeonato Paulista. Saímos de uma fila de 22 anos sem título com gol de Basílio contra a “fantástica Ponte Preta”.FILHO: Ah, sei. Mas não foi nesse jogo que o Rui Rei, artilheiro da Ponte, se vendeu e foi expulso logo no começo do jogo só pra não fazer gols e assim ajudar o Corinthians?PAI: Foi seu filho da puta, mas e daí!?FILHO: Mas pai. Esse ano o São Paulo completou 30 anos do primeiro título Brasileiro que conquistou e ao invés de festa e camiseta comemorativa, ganhou mais um e agora eles são Penta.PAI: Foda-se filho! Eles são Bambis!!!!FILHO: É verdade também que se não fosse um tal de Grafite, atacante do São Paulo, nós teríamos sido rebaixados também no Paulistão?PAI: Você não quer falar de Fórmula 1!?FILHO: Tá bom pai. Mas o Rubinho não é Corintiano?PAI: Puta que pariu moleque! É, caralho! Mas calma lá!!! O Senna era corintiano filhão!!FILHO: Eu sei pai. Já me falaram isso. E me contaram que como corintiano ele não agüentou. Em 93 viu o São Paulo conquistar o Bi Mundial e o Palmeiras sair da fila em cima do Corinthians, aí percebeu que não adiantava torcer pra esse time e enfiou o carro no muro.PAI: (APENAS SUSPIRA)FILHO: Calma paizinho. Vamos passear, me leva no estádio do Corinthians.PAI: (chorando) Não temos estádio porra! Temos uma chácara que apelidamos de fazendinha e que é menor do que qualquer ginásio da NBA.FILHO: (puto da vida) Chega pai! Assim não dá. Não temos estádio, não temos time, nosso título mais comemorado é um paulistão roubado, o nosso quarto título brasileiro foi mais roubado ainda, somos o único clube grande( GRANDE???? ) da capital paulista que não tem Libertadores, a nossa torcida é a segunda do país e de nada adiantou, nosso título mundial é uma fraude, o maior ídolo da nossa torcida no século XXI é argentino e nós estamos na segunda divisão, e você ainda quer que eu seja Corintiano. Você é um fanfarrão pai!!!!!PAI: ( um minuto de silêncio)FILHO: Posso fazer só mais uma pergunta pai?PAI: Pode filho!!! (enquanto seca as lágrimas)FILHO: Pra que time torce o nosso querido presidente Lula? RSSSSS

  5. Ozaí, meu caro,Ainda não havia lido um texto tão belo sobre a bancarrota do Timão. Parabéns! Sou corintiano e confesso que, quando o Palmeiras também caiu, não fiquei feliz. Entristeci por perceber que o nível do nosso futebol estava mesmo em franca decadência. Quem perdia com aquilo éramos nós, torcedores. Hoje, a história parece se repetir. Paciência! Já dizia o velho Machado que a “verdadeira grandeza é chã”.Parabéns por sua sensibilidade! Quanto à sua filha, ora… a menina, percebe-se, tem bom gosto. Já sou fã dela. De você também!AbraçosRoberto.

  6. A unica coisa que eu entendi foi o humor do Cyro. O resto passa acima, muito acima da minha compreensao. Mas se eu for olhar o mundo de um modo puramente objetivo, também nao vou entender rituais bem menos complicados de certas tribos européias, asiaticas, africanas, tais como desfiles militares, casamentos reais, execuçoes em massa e tutti quanti.Logo, por que nao ser torcedor de futebol?Um abraço,Regina

  7. vc poderia ter entendido o sofrimento corintiano, entretanto isto não foi suficiente.vc “precisou” sofrer. mas não acredito que tenha precisado ….vc sofreu porque o sofrimento dos torcedores,tão inocentemente exposto a todos, deve ser algo que está dentro de todos nós, como que um arquétipo.olhei as mesmas cenas, impressionantes, e penso que muito puras, infantís se quiserem, mas genuínas, até podendo ser símbolo da eterna derrota que sente o povo diante do inevitável, das ragédias sociais diárias, seculares, por que passa nosso país, muito bem simbolizadas, as tragédias, com a elevação de renan a “santo” canonizado como um exemplo apenas, do que rola em terras tapuias.impotência diante do trágico, do destino, do fado, do carma…morte do sonho, do ideal, da futura alegria que nunca vem, da vitória.vitória da terra, do país, da correção, da honestidade. como se o povo se sentisse infeliz porque estas qualidades estãodistantes no dia a dia brasileiro.mas tem um pouquinho também do “deus é brasileiro”, do jeitinho, da reza, da macumba, do rito que, se feito, conserta as coisas.de certa forma, felizes os corintianos que ainda sabem chorar.chorar como reação à fatalidade, à tragédia da derrota.é até uma forma de resistência. de discordância.é lavar a alma, fortalecendo-a para novas batalhas. a primeira sendo a de acordar no dia seguinte e enfrentar omundo dos vitoriosos.

  8. Ozai: como pessoa geneticamente incapaz de entender este negocio de torcer por times, estas loucuras e paixoes por esportes passam desapercebidas. Mas entendo muito bem sua solidariedade a sua filha. E’ isto mesmo: a gente tem que ter prioridades, e os filhos saem na frente de tudo mais. Quanto ao Corinthias, ano que vem sempre tem mais!!!!! Diz pra sua filha se acalmar e se preparar pra torcer de novo.

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