A morte de um ditador!

Afirma o dito popular que os ruins demoram a morrer. A morte do general Pinochet parece confirmar o ditado. Foram 91 anos, muitos dos quais marcados com as lágrimas e o sangue dos inocentes. Porém, ainda que a sua longevidade pareça reafirmar o dito, todos morrem. Até mesmo os que detêm o poder de vida e morte sobre os semelhantes. E a vida não é só o passar dos anos, mas o que fazemos dela.

Muito se escreveu, e mais ainda se falou sobre as maldades do morto ilustre. E se não o fosse, o mundo não se importaria. Que aquele cujo nome é melhor não pronunciar o tenha! Não obstante, o olhar arguto se dirigirá para além do bem e do mal. O maniqueísmo tende à miopia política. Os que vêem os tiranos pelos óculos da moral maniqueísta não compreendem os fundamentos do seu domínio. A tirania não se impõe apenas pela natureza má do tirano. Os ditadores se sustentam pela força, mas eles precisam se legitimar, isto é, conquistar o apoio ativo e passivo da sociedade. Há os que são silenciados através do assassinato, e toda tirania deixa um rastro de sangue e sofrimento. Mas há também os que silenciam por tacitamente aceitarem a ordem ditatorial em nome da segurança dos seus interesses privados. Sem a legitimação de amplas parcelas da sociedade nenhuma ditadura subsistiria. Em outras palavras, nenhum governo se sustenta apenas pela violência.

A resistência, em maior ou menor grau, se faz presente. Mas isto não impede que a maioria, ativa ou passivamente, termine por aceitar a nova ordem política. É claro que o medo tem um papel fundamental, mas é insuficiente para explicar este processo. O novo regime também conquista adeptos pelas oportunidades que oferece.

Portanto, é preciso que analisemos porque a sociedade termina por legitimar as ditaduras. Do contrário, corre-se o risco de resumir a complexidade política à biografia dos ditadores. Não é suficiente conhecer a trajetória de indivíduos como Hitler, Franco e Mussolini, é necessário apreender como o povo alemão, espanhol e italiano os legitimaram naquele contexto histórico. O mesmo em relação ao general morto. É preciso se perguntar porque, a despeito de todas os fatos históricos, ainda resiste o apoio ao ditador. As raízes do autoritarismo são mais profundas do que as frágeis árvores da democracia.

Mortes como esta me fazem pensar sobre a complexidade do ser humano. Não me é menos impactante as imagens dos que rezam, choram e tratam o morto como uma espécie de herói nacional do que as que mostram os festejos por sua morte. Tento compreender. A morte do ditador não trará de volta os milhares de mortos dos que resistiram ao seu despotismo. Por que choram? Por que festejam? O ser humano é muito mais complexo do que as nossas análises políticas. Ainda que tomemos posição, e não há como ser neutro, permanece o desafio de compreender o outro e a nós mesmos.

Que os mortos sigam os seus caminhos. O importante é aprender com a história, com o que fizeram em vida. Que seus fantasmas não nos assombrem, pois sempre há, entre os vivos, aqueles dispostos a ressuscitar as idéias. Estas, infelizmente, sobrevivem ao enterro do morto.

Por fim, parece-me não ser de boa medida retomar a contabilidade fúnebre dos que passam a comparar os números de mortos nas ditaduras de direita e de esquerda. Esgrimir tal contabilidade tende a nivelar os “pecados” de uns e outros e, no limite, a justificar o injustificável. Tal raciocínio contábil tende a banalizar a história e, no limite, a produzir uma espécie de soma zero. Afinal, se a violência é o fundamento da política, nem mesmo a democracia está imune. Ela também produz os seus mortos.

Ps.: O ditador morreu em 10 de dezembro de 2006. Este texto foi publicado no dia seguinte, em http://antoniozai.blog.uol.com.br/arch2006-12-10_2006-12-16.html. Penso que não devemos esquecer, pois os ditadores, mesmo mortos, assombram os vivos e estimulam seguidores.

11 comentários sobre “A morte de um ditador!

  1. [Gerhard Erich Boehme] [gerhard@boehme.com.br] [Curitiba/PR] Caro Sr. Ozaí da Silva, gostei muito das mensagens postadas: “Deputados e eleitores” e “A morte de um ditador!”. O primeiro toca num ponto fundamental, próprio do modo como se faz a política no Brasil, afastado do Princípio da Subsidiariedade. Um princípio pouco debatido na nossa política, quando muito debatemos sempre o contrário, exigindo uma maior centralização para corrigir erros locais, como se a administração Federal fosse imune aos erros e desmandos, o que sabemos é justamente o contrário, pois quanto mais próxima a política for realizada do cidadão, melhores serão as soluções, pois é lá que vive o cidadão a sua realidade e seus problemas, e também a maioria de suas soluções, não em uma entidade virtual que denominamos Estado, Província, União, Governo Federal etc.. Onde o clientelismo é um dos seus principais efeitos. Favor me solicitar a definição.20/12/2006 12:29

  2. [Neli Klix Freitas] [neliklix@udesc.br] [neliklix@udesc.br] [Florianópolis/Brasil] Prezado professor Antonio Ozaí:que texto pertinente!Tenho presenciado cenas inusitadas na “telinha”, desde o pranto convulsivo, até a tristeza silenciosa e, em muitos casos,aplausos que beiram a histeria.Analisando sob a ótica mítica, o herói é um mito, e está no incsciente coletivo da humanidade (JUNG,Obras Completas,1987).O herói tanto acalanta sonhos,quanto faz a descargas hostis em nome do bem-estar dos humanos.Faz parte da História da Humanidade.O anti-herói não escapa a esse padrão.O herói carrega as projeções humanas de amor e ódio que, ao projetás-las e identificar-se com elas,sofre,sorri,chora.Mas,o ciclo sempre se repete.Morre um herói hoje,já existe outro, ou outros.O mal estar da civilização,que é a guerra e seus equivalentes,como a pressão psicológica,a negligência, a miséria absoluta, o poder da carteira (o careteiraço)quase sempre burocrático e autoritário são da ordem do herói.Prantear o herói equivale a manter-se vivo,pois o herói deu a vida pela causa dos humanos.Neli19/12/2006 06:24

  3. [Francisco Giovanni Vieira] [fgdvieira@uem.br] [http://www.dad.uem.br/marketing] [Maringá – PR, Brasil] Prezado Ozaí, parabéns pelo texto. Excelente reflexão. Não há dúvidas que a pior das democracias é melhor do que qualquer regime autoritário. Um abraço, Giovanni15/12/2006 15:17

  4. [Celma] [cftav@hotmail.com] Esperemos que a morte de Pinochet não implique o final da investigação dos seus crimes e do resgate histórico desse período. Regaste histórico fundamental não só para o Chile mas também para todos os demais países latinoamericanos que padeceram décadas de ditaduras.12/12/2006 17:45

  5. [Eva Bueno] [tristetigre2005@yahoo.com] De acordo, Ozai’. Assim como uma andorinha so’ nao faz verao, um ditador so’ nao faz ditadura. E’ a questao do poder: ele nao e’ estanque, e, no caso de uma ditadura nacional, cria uma leva de pequenos ditadores, de gente que utiliza a situacao de um pais/estado/cidade/casa para angariar vantagens. Como ja disse Foucault, tudo isto e’ parte do proprio sistema do poder e de como ele se reproduz infinitamente, como um espelho diante de outro. Assim como no Brasil nossa ditadura gerou um sem numero de pelegos, dedos duros, gente “levando vantagens” e multiplicando os olhos da opressao, o mesmo se deu no Chile, na Argentina, Peru, etc. E agora, tambem nos Estados Unidos — what goes around comes around –a situacao esta’ se estabelecendo de maneira assustadora. Todos nos que moramos aqui suspeitamos, por exemplo, que nossos telefones estao grampeados, e falamos baixo, e olhamos dos lados. A democracia e’, realmente, uma coisa fragil. Mas sempre vale a pena seguir protegendo.12/12/2006 17:44

  6. [Cristina Maria] [crimasbr@yahoo.com.br] [Campinas-SP/Brasil] Estimado colega, Importante reflexão a que você faz, de que temos que pensar como são complexos os contextos sociais e históricos… E com isso, os despotismos, autoritarismos e violências não somente como algo encarnado numa figura individual e particular, mas algo intrínseco às experiências coletivas também… lembro-me do Discurso sobre a Servidão Voluntária de Etiénne La Boétie…onde ele questiona: como “tantos homens, tantas vilas,cidades e nações suportam um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhe pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrária-lo…”… os regimes sociais produzem vítimas e algozes, mas não é certo de que esteja claro onde os mesmos estão… (talvez por isso alguns chorem e outros festejem…no caso Pinochet…) seria melhor dizer que são inerentes aos contextos que os produzem…cabe-nos compreendê-los… Abraço, Cristina.12/12/2006 17:35

  7. [Ezio Flavio Bazzo] [eziob@yawl.com.br] [Brasília DF/Brasil] É importante lembrar também que, além das epopéias policialescas e dos crimes hediondos, o velho Pinochet conseguiu outra grande façanha: fazer a imprensa e os economistas de turno do continente propagandearem que o Chile é economicamente quase um milagre no meio desta América Latina subdesenvolvida, caótica e moribunda. Balela que os próprios chilenos ficam assombrados ao ouvi-la sendo repetida pelos chefetes da mídia e do mercado financeiro. Quem vai àquele país descobrirá, à sombra das ficções esotéricas do “PIB”, do “crescimento econômico”, da “renda per capita” etc, a mesmíssima miséria daqui, da Argentina,do Panamá etc, instalada como um cancro não só nas entranhas sociais, mas também no coração do povo. E mais, não são apenas os signos da antiga ditadura que ainda estão por todos os lados, principalmente na polícia e nas elites, mas também os de um catolicismo semifeudal que contaminou até os alicerces das Universidades. O concubinato -diria F.N – foi corrompido pelo matrimônio.12/12/2006 16:33

  8. [DANIELA SILVA] [daniela.silva_1@hotmail.com] [SALVADOR-BAHIA] Holisticamente falando, ele já carregava em si um misto de energia negativas. Mas politicamente falando, PINOCHET morreu e não “pagou” pelos crimes que cometeu. 12/12/2006 14:59

  9. [Márcio] [marciueu@gmail.com] [Brasil] É bem verdade tudo isso. O fato, como eu o entendo (ou pelo menos acho entendê-lo), é que o ser humano sempre age ou se motiva em razão de um interesse e que este, por melhor que seja, é muito pessoal ou privado, como queira. E quando tais motivações deixam de ter um objetivo pacífico então a coisa desanda mesmo. Tomemos um excelente exemplo: Gandhi. Sua ação deefeitos positivos e coletivos encontravam sustentação numa motivação estritamente pessoal: seu desejo de estar alcançar e manter a paz de espírito. Isso não é egoísmo, pelo contrário. E cada vez mais os indivíduos são bombardeados, pela pressão do sistema vigente, em seus ideais coletivos e conduzidos a um pensamentos de auto-defesa de tudo e de todos. Assim o que vale é sempre os meus interesses porque se confiar nos interesses do outro posso ser enganado. Isso só é válido quando os meus interesses, mesmo egoístas, são também beneficiados. Sejam eles de qualquer ordem, embora os mais reais são os de ordem econômica e psíquica.12/12/2006 12:30

  10. [Bruno Franco] [brunofrancorj@gmail.com] [Rio de Janeiro] Como afirmou o JB em sensata manchete: “Já vai tarde”.12/12/2006 11:26

  11. [cesar espinozac] [claudioaugusto54@yahoo.com] [Lima Perú] Estimado amigo: Estoy muy de acuerdo con vuestro mensaje e ideas sobre los tiranos que gobernaron y gobiernan América Latina. Pinochet es un ejemplo de la intolerancia y la maldad de aquellos que se llaman humanos y asesinan sin compasión a quienes no comparten sus ideales y sueños. El sàbado tuvimos por San Marcos a Willian Stein, un hombre sabio que condenò a esta clase de tiranuelos y otros que son capaces de enviar hombres y mujeres a otros continentes para matarlos impunemente. Cordialmente Cesar Espinoza Claudio UNMSM, Lima, Perú.12/12/2006 01:32

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