O culto ao líder

“Duvide. Nenhuma fé até hoje foi tolerante. A dúvida é a tolerância. A fé levantou fogueiras, a dúvida não as levantará jamais. Toda fé é uma tirania e todo crente é um escravo. Não acredite”
Vargas Vila
*

O culto à personalidade é uma espécie de patologia que acomete as diversas gerações que se fanatizam em torno dos “ismos” que gravitam da extrema-esquerda à extrema-direita. A esquerda tem os seus heróis; a direita também. Os seguidores dos profetas, armados ou desarmados, veneram seus ícones à maneira religiosa e maniqueísta. E, assim, os “pequenos profetas”, discípulos e apóstolos da razão, digladiam-se em nome do “bem” e do “mal”, da “linha justa”, valores que dependem da ideologia de cada um.

Os grandes dilemas históricos da humanidade parecem se encarnarem no papel desempenhado por determinados indivíduos. É interessante que a crítica à concepção da história fundamentada na ação de indivíduos heróicos, seja acrítica quando se trata daqueles que venera. Mudam os nomes e os que eles representam, mas parece que todos, à direita e à esquerda, precisam de heróis.

As ações, opções e idéias dos indivíduos, especialmente quando ocupam posições influentes no aparato do Estado e/ou na sociedade, tem importância e devem ser consideradas. Mas eles agem e reagem sob condições históricas específicas. Não é possível compreendê-los plenamente sem levar em conta este fator. Restringir-se ao âmbito individual é desconsiderar a interação dialética entre estes e os contextos históricos das sociedades nas quais atuam; é desconsiderar as contradições e interesses dos grupos e classes sociais na relação com o líder.

Porém, os líderes falham e perecem – embora alguns se tornem imortais nos corações e mentes das gerações vindouras. Todo líder que se preza, mesmo o que expressa o “mal”, sempre a depender da identificação ideológica, tem o seu séqüito. Mesmo os “pequenos líderes”, aqueles cujo raio de ação se restringe a espaços exíguos como a sala de aula, geram os seus seguidores.

De onde vem essa necessidade de seguir o líder? Uma explicação plausível reside no fato dos líderes sintetizarem as ideologias e de, geralmente, terem o controle dos meios econômicos, políticos e simbólicos para que os “ismos” se materializem. Mas há líderes que nada tem a oferecer, a não ser a vaga promessa da utopia e, mesmo assim, arrebanham discípulos. Será que isto se explica apenas pelo carisma? O líder carismático produz “milagres profanos” como convencer os incautos a segui-lo, mesmo que em direção ao abismo, e a compactuar com meios que negam os fins redencionistas.

Os discípulos tendem a reverenciar o líder, de forma acítica e submissa. O que explica a a necessidade de obedecer? Talvez a obediência seja uma maneira de eliminar a angústia da dúvida e se sentir seguro. Quem obedece cegamente perde o senso crítico, não ousa pensar com a própria cabeça e desafiar a verdade transformada em dogma.

Compreendo a necessidade humana de agir como ovelhas e passar a vida a obedecer o “pastor” e a repetir suas verdades. Talvez a “servidão voluntária” proteja do desespero. Quem sabe, o culto ao líder conforte! Sempre há a esperança da recompensa, de alcançar o “paraíso”. No fundo, quem se submete é tão inseguro quanto a personalidade autoritária que cultua. Em seu âmago, teme a liberdade e execra a dúvida. Por isso, se recusa a pensar criticamente, basta-lhe repetir os slogans do líder e segui-lo.

O culto ao líder cega em todos os sentidos. Mesmo assim, se revigora. Contraditoriamente, alimenta-se na fonte da tradição e manifesta-se na adesão a novos líderes. Há sempre indivíduos ávidos de seguirem os novos profetas com suas promessas de redenção da humanidade.
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* In: BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005. Sobre este livro sugiro a leitura do texto “Assim falou Vargas Vila” – Anátemas sobre livros, amizade, política, religião etc.”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 61, junho de 2006.

13 comentários sobre “O culto ao líder

  1. ótimo texto Ozaí, pena não tê-lo lido logo que foi postado. Concordo plenamente e penso que este texto deveria ser lido por todos os acadêmicos que acreditam serem “pensantes”, para talvez diminuir o contingente de “papagaios” que se vê entre nós. Não suporto mais ouvir gente citando Marx, seja para falar quem veio primeiro: ovo ou galinha?, seja para explicar porque os pacotes de salsichas vem com 12 unidades. Assim como acontece com tantos outros. Odeio gente que inicia as frases com: “porque para Fulano, …”Talvez coubesse até uma crítica sobre os próprios professores que irracionalmente tentam impregnar na cabeça do aluno sua posição política, muito diferente do que você faz nas suas aulas Ozaí.Parabéns.

  2. A Faixa de Moebius serve para ilustrar que os extremos da direita e da esquerda se encontram formando dois sintomas: crimes em nome da “causa” e a formação do rebanho guiado por um grande ou pequeno líder. Penso que o artigo do Ozai nos alerta sobre a possibilidade de o sujeito, grupo ou massa, de direita ou de esquerda, escolherem a servidão voluntária à um líder. Sobretudo, um líder com vocação totalitária, que fascina e impede os discípulos saírem da caverna de que falava Platão e emanciparem de sua infância rumo aos riscos e a responsabilidade de adulto. Quando criança precisamos de um Pai (um Grande Pai), na fase adulta continuamos precisando de um Grande Pai (vivido na transcendência ou na miragem de um líder). A humanidade avançou em tecnologia, deu alguns passos rumo à tolerância e o respeito ao diferente; até criou uma carta dos direitos humanos, uma ONU, etc, mas ainda vive uma na infância, sobretudo aqueles que precisam de um Paizinho que prometem a felicidade. Um grupo social que passa um cheque em branco para um líder pequeno ou grande não pode estar sendo razoável. Precisamos avançar nas pesquisas sobre esse fenômeno psicossociológico que hipnotiza as massas, já estudado por Le Bon, Freud, Bion, K. Lewin, Zimbardo, entre outros. Afinal, quais são as causas, as regras, e contingências que levam um povo esclarecido ou não se render a retórica de um sujeito medíocre. Hitler tinha um pensamento medíocre. Stalin, também. Mussolini tinha uma retórica que beirava ao ridículo, hoje. No tempo e contexto que viviam eles encarnavam a verdade. Mas, não podemos esquecer de um Gandhi, no fundo um “anti-líder”, que inspirava respeito, sabedoria, sacrifício ético. Não importa se grande ou pequeno líder, na nossa infância arquetípica ainda precisamos deles para formar nossa identidade ou segurança imaginária. Precisamos de bons lideres, bons exemplos, assim como uma criança precisa de um bom pai, boa mãe, bom professor para vir-a-ser ela mesma. “Um ego se forma a partir de outro ego”, dizia-nos um psicanalista. Acho que o problema não é seguir um líder, mas seguir cegamente e eternamente um líder, e pior ainda, seguir um líder narcísico-autoritário ou louco, como Dom Quixote, Jin Jones ou Bin Laden. O termômetro ainda é o nosso “juízo crítico” e a “tomada de consciência” sobre as intenções não confessadas do líder e que ele quer de nós. Depois de passarmos pelo período de transe grupal que alguns líderes causam resgatamos nossa integralidade e podemos perceber o seu lado ridículo. Hoje pensamos como eram ridículos os que foram líderes um dia. Enfim, entendo que o artigo do Ozai se funda na crítica múltipla: ao nascisismo onipontencial da liderança, à aqueles que suspendem o juízo crítico tornando-se Maria-vai-com-as-outras, que se rendem a alienação e o fascínio diante de uma pessoa que se apresenta como especial, mas que não passa de ser humano como nós, que come, bebe, caga, mija, pensa e fala bobagens e comete erros, enfim. Como dizia Nietzsche “Humano, demasiadamente humano”. Parabéns a todos pelo debate. Boas Festas. Do Raymundo de Lima.

  3. Paulo Meksenas, concordo contigo que o blog do Ozaí seja um espaço democrático. Aliás, às vezes, quando envio algum comentário, penso comigo se o Ozaí não irá vetar. Pois meus comentários, reconheço, não se enquadram numa discussão política conforme a proposta do blog. Mas, o Ozaí sempre os publicou, demonstrando sua paciência e tolerância democrática. Não é em todos os espaços que consigo defender minhas concepções. E a democracia em essência é isso mesmo: podermos nos expressar, defender nossas idéias. É claro, sem querer impor nada a ninguém. É a “fecundidade do antagonismo” de que Stuart Mills, salvo engano, defendia. Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode menosprezar alguém porque segue e defende uma fé. Da mesma forma que ninguém é obrigado a compartilhar de quaisquer crenças. Na democracia dos antigos, sobretudo a dos gregos, se denfendiam sim os valores ditos “universais” que assumiam caráter de dogma e ciência. Lembramos que Socrátes foi julgado e condenado por não reverenciar os deuses gregos, e assim “corromper” a juventude. Mas hoje sabemos que também eram valores parciais, que muitos atos de intolerância foram justificados por eles, inclusive a desintegração da cultura de Israel, durante o levante helenista. Séculos depois, foi a vez dos valores pretensos universais franceses, que Napoleão quis disseminar pelo mundo. Hoje, o caráter de nossa democracia é o pluralismo, ou seja, a busca pela coexistência de diversos grupos com posições diferentes ou parciais. Realmente, é algo quase automático e inevitável, ao defendermos nossos valores não negarmos outros. Daí o esforço contínuo em contermos a nós mesmos, estabelecermos nossos limites, para sermos tolerantes e justos com nossos concidadãos. E esse blog tem nos propiciado esse espaço, que também não deixa de tocar o cerne da política. Agradeço ao Ozaí, e a ti, Paulo, como aos demais. Tenho acompanhando as discussões, de alto nível, diga-se de passagem, e aprendido muito também. Ainda que minhas convicções sejam pouco flexíveis, não deixo de aprender a tolerância conhecendo outras concepções, buscando entendê-las e respeitá-las. Abraço sincero.

  4. Eu discordo completamente. O Culto ao líder é uma forma de identificação, de opção, de encantamento. O problema não está no excesso de líderes; ao contrário, a grande angústia hoje é a enorme falta de pessoas acima da média e com compromissos e sonhos coletivos. Os postos de comando tem sido ocupados por uma pletora de incompetentes, sem projetos mais amplos que o próprio umbigo. Chega ser risível ver um mediocre maior que o outro, que não possuem coragem de atravessar a rua sozinhos, julgando, do conforto de seus lares, pessoas do estatuto de Hitler, Vargas, Lênin, Arafat etc. Triste tempo em que não há mais lideres e em que reina a mediocridade e o egoísmo.

  5. Caro Leandro, o teu último comentário é esclarecedor da tua posição e, neste caso, concordo com ela. A questão não é mais se os líderes são ou não necessários, mas de qual tipo de liderança estamos falando (autoritária ou democrátioca), já que vivemos em uma sociedade de classes. Pensamos igual Leandro, apenas nos expressamos de modo diferente. Esta é a vantagem de participarmos do blog do Ozaí e que é democrático, aberto a idéias e ao debate e não a defesa de dogmas, mesmo que alguns comentaristas sejam dogmáticos e defendam posições parciais ou campo da religião – mas este não é o teu caso Leandro, que sempre participa apliando o debate e o tornando mais rico, um forte abraço Paulo Meksenas

  6. Caro Paulo, fico feliz que meus comentários tenham gerado a motivação da resposta, o que se deve essencialmente a figura do Ozaí. Contudo, mantenho minha posição, acho que o líder que o Ozaí questiona é outro. Concordo com as observações que fez, mas penso que Gramsci não concordava com um movimento de vanguarda, que monopolizasse o poder, tornando os operários apenas “massa”. Segundo Gramsci, cabe ao intelectual homogeneizar a classe e eleva-la à consciência de sua própria função histórica. “Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham a função de intelectuais” (GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. 1968, p. 7). O “X” da questão é que para Gramsci o intelectual orgânico é aquele que sai da massa, mas que quando atinge um nível mais elevado de cultura permanece em contato com a mesma. Claro que os intelectuais orgânicos exercem liderança, mas não é deste líder que estamos falando. Visto que, para o líder abordado por Ozaí a distância mantida em relação á massa é essencial para manter o mito. Obrigado pelo espaço de discussão Ozaí. Leandro

  7. “… Com Deus existindo, tudo dá esperança:Sempre o milagre é possível, o mundo se resolve.Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem,e a vida é burra”. (Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas, p.48. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986)”… o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa”. (S. Tiago 1:6)

  8. Vargas Vilas reflete um mundo desacreditado, onde os homens não encontram quaisquer “valores” a que se apegarem e orientarem suas vidas. Um mundo “desvalorizado” tomado de medo, onde os homens não têm em que se apegar. Um mundo de miséria humana, no qual a “dúvida” que engendra a prudência e a tolerância é a maior virtude que eles podem se valer por um mundo menos pior. E a fé sincera do crente sofre injustamente a mácula de todos atos cruéis praticados por professos hipócritas de alguma religiosidade, sendo assim alvo de repúdio imponderado onde não se é capaz de discernir o “joio” do “trigo”. Em um mundo de pseudo-valores, os homens perderam sua capacidade de discernimento, daí a “dúvida” ocupar um lugar privilegiado.Ainda que me tenham por escravo, intolerante, “medroso” e “cego” – erroneamente, diga-se de passagem – não tenho nenhum receio em professar minha fé, não tenho nenhum medo sobre o fim do destino que tenho escolhido para mim. Aliás, o medo e a escravidão é algo que o crente lança fora. Pois, como está escrito sobre Jesus: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão. Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão” (HEB. 2:14-16) Ou seja, Jesus tomando a natureza humana, venceu a morte, libertando aqueles que se sujeitava à escravidão por medo da morte. Por isso Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (S. João 14:12) e outra vez: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (S. João 8:31) Qual é, pois, a verdade que liberta o homem, senão a que lança fora o medo da morte: QUE AQUELES QUE SEGUIREM JESUS EM SEU CAMINHO, E MORREREM COMO ELE MORREU, TAMBÉM RESSUCITARÃO, COMO ELE RESSUCITOU; VENCERÃO A MORTE. O crente é genuinamente livre, e não só no céu, pois aqui ele aprende a se auto-governar, a temperança, a prudência, “disciplina é liberdade”; aprende a se abster dos vícios, da vaidade, e, sobretudo, de seu próprio ego. Pois são os vícios, as vaidades, as concupiscências, a soberba, a arrogância, o orgulho, que escravizam os homens. O crente verdadeiro é livre disso, se não totalmente, mas em essência. Por isso o crente é livre, e não escravo. E não é “cego”, antes é capaz de ampliar sua visão e entendimento e atuação social além dos próprios interesses mesquinhos. Mas para tanto precisa adquirir sabedoria do céu, de Deus, e a humildade e a fé são as condições para se obter algo de Deus. “O temor de Deus é o principio da sabedoria”. Está escrito que “melhor é o longânimo do que o valente, e o que governa a si mesmo, do que o que toma uma cidade” (PROV. 13:32) Deus ensina os homens a governarem a si próprios. Submissão a Deus não é escravidão nem cegueira. Antes é liberdade. Por isso cultuo um “líder forte” na pessoa do Senhor Jesus Cristo, pela sua vida e “obra”, pelo seu testemunho na terra, seu evangelho e seus ensinamentos. Ele deu o exemplo em tudo, sendo “modelo santo e perfeito”, e a “expressa imagem de Deus”, e sendo “manso e humilde” até a morte. Não há Nele intolerância, mas perdão e misericórdia. Não tenho receio em ser seu discípulo, e mesmo ser-Lhe submisso como uma ovelha ao Pastor, pois Ele está nos céus, e eu na terra. “Tudo está nu e patente perante Seus olhos”, enquanto eu não posso enxergar muito longe. Ele é desde a fundação do mundo, eu tenho poucos anos de experiência. Mas, como Ele disse a Pilatos “meu reino não é daqui, meu reino é dos céus” (S. João 21). O mundo está concedido ao domínio dos homens, como condição de liberdade e livre-arbítrio. Por isso temos de atentar também para autoridades constituídas (ou não). Não cultuo nenhum líder político, mas procuro neles qualidades que devem ser valorizadas. É um erro pensarmos a política ignorando a figura daqueles que ocupam os cargos. São eles que, com alguma ou nenhuma resistência ou apoio popular, tomam as decisões. Não foi o povo que aprovou a CPMF; nem foi o povo que votou contra sua prorrogação. Não é o povo que rouba os cofres públicos, nem que executa as políticas de reforma social. É claro que o povo tem sua representatividade, sua força, mas quando a força e a mobilização popular se fadigam, aqueles que estão nos cargos continuam decidindo. Por ocasião da absolvição do Senado a Renam Calheiros, todos os cientistas políticos que li ou vi na mídia, alertaram para a preservação das insituições republicanas, alegando que o problema estava nas figuras que ocupavam as posições. Então porque não discutir a personalidade ou o comportamento do político. Por que não procurar por lideranças políticas valorosas. Ouço sempre dizer que, conforme a racionalização de nosso Estado, o raio de atuação de um sujeito político é estreito, está delimitado pelo próprio cargo e regras da instituição. Pode ser verdade. Mas e a corrupção, está no raio de ação dos cargos instituídos (pergunta). Qual é o problema então senão a da personalidade desse sujeito. Para fazer reformas o limite é mínimo, mas para furtar não há limites. Mesmo assim, muitos se recusam a discutir política senão pela ilusão democrática de que todo o poder reside no povo. Então vamos discutir o povo que é o responsável por todas as mazelas de nosso país, senão de todos os países. Concordo com o caro Paulo, que diz que as lideranças emergem, e de que estão à frente das mudanças ao longo da história. É evidente que não são “ilhas” de poder e que não conseguiriam nada sozinhas, mas são figuras capazes de canalizar os anseios de um grupo, por vezes muito grande, e mesmo de manipular esses anseios. Os líderes são estrategistas, que aproveitam da força que dispõem e que conquistam. Por isso, penso, pelo perigo que podem representar, e pela importância que podem ter nas mudanças, é que devemos discuti-los com seriedade, em vez escondê-los por trás de uma coletividade anônima. Longe de buscar em um político, o líder forte, no sentido que atribuímos a Jesus. Jesus está no céu, qualquer liderança política está na terra, no mesmo patamar que nós. O líder político que almejamos é um que seja forte no sentido de responsabilidade e representatividade, que seja fortemente ético e capacitado para articular estratégias no interesse do povo, e conforme as regras democráticas conquistadas e constituídas. Esse é o líder que não receio procurar.

  9. Caro Leandro, quem lhe escreve é Paulo Meksenas e oportuna a sua colaboração, apenas me vejo na obrigação de fazer uma correção: Quando Gramsci diz que todos os homens e mulheres são filósofos, diz também que é preciso definir “os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’ peculiar a “todo mundo'” (Concepção Dialética da História, p.11). Porém,Leandro, o mais importante é dito por Gramsci, neste mesmo livro um pouco mais adiante, na página 21, peço a tua paciência para ler e refletir com calma a citação que se segue e perceba se tem ou não relação com uma noção de liderança. Diz Gramsci:(…) “Autoconsciência crítica significa, histórica e politicamente, criação de uma elite de intelectuais: uma massa humana não se “distingue” e não se torna independente “por si”, sem organizar-se (em sentido lato); e não existe organização sem intelectuais, isto é, sem organizadores e dirigentes, sem que o aspecto teórico da ligação teoria-prática se distinga concretamente em um estrato de pessoas “especializadas” na elaboração conceitual e filosófica” (GRAMSCI, Concepção Dialética da História,Civilização Brasileira, 2ª ed, 1978, p.21).

  10. Parabens Ozaí, pois sempre trás à tona assuntos cuja discussão e reflexão é bastante necessária. Como alguém já mencionou anteriormente, todo culto que se excede, caminhando para alienação e fanatismo é um problema, embora todos nós tenhamos nossa ilusão, nossa alienação, seja o time de futebol (corinthians, como citou em artigo anterior),a ideologia política, a cultura, o lazer, etc. Contudo, toda vez que isso se excede penso que caminhamos pelo caminho errado. No que concerne ao culto ao lider isto torna-se ainda mais complicado, pois geralmente os líderes que consiguiram ser “totais” (totalitários), usaram isto em benefício próprio ou de um grupo. E aí o erro! Visto que, aquilo que é bom para você, pode não ser bom para mim. A ditadura, o autoritarismo, pode ser imposto por uma maioria, ou por uma minoria. Discordo do colega anterior que associou o lider ao intelectual orgânico de Gramsci, pois este levava em consideração os saberes populares e dizia que “todo homem é um filósofo”, os líderes que penso que você aborda em seu texto não tiveram essa atitude. Ao contrário disto, impunham seu posicionamento a qualquer custo, em nome da classe, da raça, ou da nação. No entanto, na URSS a burocracia, a vanguarda do partido, não vivia como o povo, e na Alemanha a elite nazista também não vivia como o povo, mesmo os considerados arianos. Em suma, os líderes conseguem apoio, alienam porque fazem aquilo que uma parcela da população pretendia fazer, mas não tem disposição ou condição de fazê-lo. Infelizmente, na História, esses líderes totalitários ou carismáticos usaram uma causa “social, geral,ou nacional” em benefício próprio, ou de um pequeno grupo. Não podemos nos esquecer disto, pois “a História se repete com o farsa”.Um abraço Ozaí, caso não escreva mais este ano, boas festas!!!

  11. Excelente texto, demonstrando, ademais do conhecimento dos casos historicamente reconhecidos, mas nao identificados no texto, uma reflexao profunda sobre o sentido da lideranca positiva e os efeitos deleterios do seguimento cego e irracional de pretensos lideres de massas.Acredito que estamos em face, perto de nos, de dois exemplos tipicos dess fenomeno: Lula, no proprio Brasil, que quer deixar de ser apenas um lider carismatico para alçar-se à condição de mito, talvez maior do que Vargas e Kubitschek; Chávez, na infeliz Venezuela, que está tendo suas estruturas politicas e econômicas arrasadas pela ação de um “líder” absolutamente negativo do ponto de vista das liberdades humanas e de uma organização racional da economia e da própria sociedade.Meus parabéns pelo texto.

  12. Grande Antonio,Tudo depende do lugar social que nós ocupamos, e da consciência que temos disso. E do nosso compromisso (se é que o temos) por uma sociedade mais ética e mais justa.As diferenças de ideologia não são tão simples como uns gostarem do amarelo e outros do vermelho e cada um defender a sua cor: as diferenças ideológicas revelam nosso lugar social e nosso compromisso com a justiça social. Assim, Lênin não pode ser nivelado a Hitler, sob pena de falseamento da história.Portanto, direita e esquerda não são meras diferenças de opinião.Uma coisa é ser líder da classe dominante (direita) – aquela que luta por ampliar e conservar seus privilégios em detrimento de toda a sociedade, outra é ser líder da classe que luta por sua emancipação e a transformação social (esquerda).Creio que as verdadeiras lideranças da esquerda devam ser reverenciadas, sempre lúcida e criticamente, mas não cultuadas. Culto é coisa de autoritarismo e alienação.E creio que uma das funções do professor é suscitar o surgimento de verdadeiras lideranças comprometidas com a busca por um mundo melhor, por um pais mais ético e mais justo, por uma sociedade mais humanizada.

  13. Antonio você não parece distinguir no seu artigo a idéia de culto a um líder do conceito de líder. As duas coisas aparecem misturadas e isso pode ser muito perigoso. É claro que o culto ao líder tem uma aura de religiosidade no sentido de seguidores obedientes e sem consciência frente a determinações de um líder. Entertanto e deixando de lado a perigosa noção de culto (não só a líder mas a aqulaquer coisa) podemos ficar com o conceito de líder em si, o que é muito importante. Por exemplo, a idéia de líder para mim se aproxima da idéia de intelectual orgânico em Gramsci. A burguesia tem os seus e as classes populares também. A luta de classes ocorre na história e o papel da liderança emerge, gostemos ou não, pois não é possível mudar o mundo sem liderança. Cristo foi líder; Marx foi líder; Che foi líder. Todos eles erraram, sim! Mas todos eles também acertaram em muitas de suas proposições e exemplos. Será que não vale a pena lembrar dos nossos líderes?

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