Professor trabalha?

A pergunta é paradoxal. Há quem acredite que professor não trabalha ou que tem “vida boa”. Há a discussão sociológica sobre o caráter produtivo ou improdutivo do trabalho docente, atividade humana que não produz uma mercadoria objetivada. Não obstante, a força de trabalho intelectual é valor de uso e valor de troca, e, portanto, mercadoria. O patrão pode ser privado ou estatal, mas o professor precisa vendê-la.

Isso é mais antigo do que parece. Os primeiros a vender essa espécie de “mercadoria” foram os sofistas, sábios que viajavam pela Grécia antiga ensinando retórica e outros conhecimentos úteis aos envolvidos nos negócios privados e públicos. Ofereciam uma “mercadoria” que tinha um mercado disponível. Nossos ancestrais precisavam considerar os interesses dos alunos (“clientes”), do contrário não teriam público disposto a pagá-los.

A atividade dos sophistés não era vista com bons olhos. Platão, por exemplo, considerava-os interesseiros e comerciantes do saber à caça dos jovens ricos. O termo sofista terminou por significar impostor (derivado do latim sophista). Atualmente, o comércio do conhecimento é institucionalizado, virou profissão. E, como naquela época, criticável e submetida às leis do mercado.

Sócrates, cujo estilo de vida se assemelhava aos sofistas, não vendia ensinamentos filosóficos. Isso é impossível nas condições atuais. O saber tornou-se mercadoria, mesmo no setor público. Na faculdade privada o aluno paga o professor, intermediado pelo administrador, ou seja, o/s proprietário/s do estabelecimento; no setor público, a sociedade nos mantém através dos impostos. A situação é pior do que na época dos sofistas, pois estes negociavam diretamente, não precisavam de intermediários. Hoje, o profissional do ensino recebe apenas parte do que se arrecada a partir do desempenho da sua função. São assalariados cuja venda da força de trabalho gera lucro, embolsado por uma minoria da sociedade que vive da exploração do trabalho. No setor público, pelo menos há a ilusão de que não somos explorados, já que servimos à sociedade e o governos aparece apenas como intermediário entre esta e os docentes.

Não geramos lucro direto, apenas gastos. Mas produzimos profissionais em todas as áreas necessárias à sociedade. Porém, isso não é suficiente, até porque o retorno do nosso trabalho à sociedade é questionado e questionável. Terminam por nos lançar a pecha de “impostores”, gente de boa vida que ganha bem e nada faz. Uns inúteis! A relação é de amor e ódio. Precisam de professores para formar os seus filhos e prepará-los para ganhar dinheiro e correr atrás dos interesses privados e, por isso, até nos respeitam. Mas acham que nossos salários são altos e que grassa a vagabundagem em nosso meio.

Como em todas as profissões, infelizmente há entre nós os que vêem o setor público como “coisa de ninguém” ou do governo, algo a ser consumido descaradamente. Quando não se tem a devida responsabilidade com os alunos, a comunidade acadêmica e a sociedade, fortalece-se a má impressão e alimenta-se o estereótipo que se têm sobre o servidor público. Vêem-nos como uma elite que ganha bem e cujo trabalho não justifica a paga. Consideram-nos improdutivos, displicentes e irresponsáveis.

A generalização é equivocada. Ainda que nosso trabalho não seja devidamente reconhecido pela sociedade e até mesmo considerado inútil, muitos são os que desempenham a função docente de forma responsável, que se indagam sobre o papel que cumprem enquanto intelectuais e a relação com a sociedade. Há os apaixonados pelo que fazem, que concebem o trabalho docente como uma missão. Apesar de tudo, nosso trabalho é imprescindível.

9 comentários sobre “Professor trabalha?

  1. Penso que a questão “professor trabalha” só faz sentido, por um lado, para aqueles que acham que trabalho genuíno é trabalho FÍSICO, BRAÇAL. Ou seja, para quem só valoriza o trabalho físico, a atividade INTELECTUAL não seria um trabalho, pq não existe desgaste mensurável, a mais-valia não seria absoluta…
    Por outro lado, ainda existem aqueles que entendem o trabalho docente um “sacerdócio”, um “missão”, trabalho da “tia” da escola, portanto, o sujeito faz o mesmo “por amor”, “por Deus”, “pelos irmãozinhos”, etc, portanto, é uma atividade que NÃO PRECISA REMUNERAÇÃO. Porque trata-se de uma ação do tipo “bom samaritano”, cujo retorno não deve sustentar expectaviva….

    Junto com este grupo “religioso”, também há os “laicos” que pensam em termos de não remuneração. Ambos são moralistas-conservadores, pq criticam, insultam de “sofistas”, “vendidos”, os que querem [merecem] ser remunerados.

    PENSO QUE O TRABALHO DO PROFESSOR, QUE ENSINA, PESQUISA, REALIZA EXTENSÃO, É MAIS-QUE-TRABALHO, PORQUE FICA LIGADO 24 HORAS NO SEU ESTUDO. Refiro-me aos professores cujo comprometimento o faz leitor contumaz, estudante, pesquisador, atuante, o dia todo ele pensa na sua práxis docente. Portanto, o trabalho docente é mais-que-trabalho normal, braçal, intelectual, È um TRABALHO EXISTENCIAL.
    Por outro lado, existe aqueles que faz de conta que trabalham, por exemplo, quando vão apresentar um “trabalho” em outra cidade ou país. E sabemos que foi mesmo é passear com erário público [no caso das universidades públicas-estatais]. Existem aqueles professores que aprendem a fazer marketing do seu trabalho, mas no dia a dia sabemos sobre sua baixa produção.

  2. há quantos anos essas concepções díspares se mantém!!!!!!!!! será que veremos algum dia todos na universidade e na sociedade preocupados com a educação? com uma formação humanista contra os particularismos… leia-se no nosso estado: favoritismo!

  3. Olá, Ozaí… só hoje tenho tempo de vir à sua página e o texto, como sempre, provocando o debate. Muito bom! De minha parte, o cerne de seu artigo é o conceito de trabalho: é trabalho apenas as atividades por meio das quais produzimos coisas objetivas? Ou coisas aperceptíveis também resultam de ações que podem ser encaradas como trabalho?Creio que essa é uma discussão que poderia ser foca numa outra perspectiva: o que demanda ocupação com o objetivo preponderante de manter a vida é trabalho.Não apenas o professor trabalha, mas, também, o estudante. Paralela à indagação sobre o professor, se ele só “dá aula”, também há a pergunta para o discente: “Você só estuda? Não trabalha?”.Que horror! Se pensarmos que a sociedade investe grande parte de sua riqueza na formação de seres humanos os quais, por sua vez, alimentarão esse processo produtivo, toda essa questão passa a não fazer sentido.Olha, professor trabalha, viu! E muito! E ninguém escapa do professor. Cristo os consultou e até o Papa só vira Papa por conta dos professores.É absurda a cegueira ideológica que não reconhece a importância do trabalho do professor.Sucesso, meu caro!

  4. Prof. Ozaí…mto bom o texto..e é bem verdade, todos acham que professor não trabalham, e que estudante tb não faz nada…mas…como é que não conseguem ver que se não fossem nossos professores, uma leva imensa de profissionais não estaria por ai??? ganhando seu rico dinheirinho???o prof. so tem um breve reconhecimento qdo entrega de mãos beijadas o conhecimento, e da 10 em qq prova aplicada…aí sim se ouve nos corredores “nossa esse prof. é demais”. E eis que um dia, na sua vida profissional o sujeito se depara com aquele texto, que ele não leu, mas que fez a prova e tirou 10 e então ele pensa “cretino, me deu nota e não me ensinou nada”. Dura essa profissão. Qse cruel. Mas, como o sr mesmo disse, ha aqueles que estão cumprindo a missão que lhes foi destinada e o fazem com graça e amor. Esse, ao meu ver, é o verdadeiro professor. E ao longo da minha graduação encontrei algumas dessas pérolas perdidas pelos corredores. passavam as poucas horas vagas preparando aulas, buscando “no além” tudo o que pudesse nos auxiliar mas sem nos entregar “de bandeija” tudo aquilo. Nos faziam pensar, nos faziam ler e copmpreender o que estávamos lendo…parabéns a estes profesores, que se esforçaram pra tornar sua missão uma realidade e para ajudar a mudar a NOSSA realidade…não fossem vcs, ca não estaria eu, e mtos milhares de outros profissionais de diversos ramos….

  5. Professor trabalha sim, mas há enormes diferenças de estatuto e utilidade. Os de universidades públicas, concursados, ganham muito pelo pouco que trabalham. Na verdade, há uma imensidão que é contratada a peso de intelectual, mas uma minoria que corresponde a tal. Não é a toa que, passa ano, o que importa são os clássicos. Será que os auto proclamados intelectuais são realmente tão imprescindíveis? Há muitos pelo Brasil, em Estados e cidades várias, que ganham uma miséria, 400, 500 reais. Não sei do que pode se queixar o autor ao postular que não há reconhecimento. Talvez um 6 meses como cortador de cana ou motorista lhe fará mudar de idéia. O problema é que os professores querem todo um retorno, todo um glamour, em troca do muito pouco que a maioria deles oferece. Principalmente os de historia, ciências sociais e etc das universidades estatais. Mesmo os mal preparados que labutam no campão do ensino popular possuem mentalidade de classe média. No final, comparado com a realidade do trabalhador brasileiro, os professores não tem do que se queixar, nem de salários, nem de reconhecimento. Já os das universidades estatais são parte de uma afrontao ao erário e mais documento de privilégios, desigualdade e injustiça social. Bom seria estabelecer um maior controle sobre a universidade e introduzir uma gestão que valorize o trabalho, a qualidade e a produtividade.

  6. Texto interessante o seu, Ozaí. Vc discute algo que me incomoda muito. Em nossa greve de 6 meses, eu era uma das diretoras do Sinteemar. Trabalhei bastante, acompanhei reuniões com a ACIM em Maringá, Codem, deputados, governaDOR ETC. nUNCA ME SENTI TÃO ODIADA COMO PROFESSORA. aLIÁS, AÍ EU ME SENTI MUITO ODIADA TAMBÉM PELA elite da cidade, pelos pais dos alunos etc. Entre a elite senti uma tremenda raiva e inveja. A pergunta deles era: Como vcs ousam? Como vcs que só estudam, ousam nos desafiar? Como vcs querem aumento de salário só para estudar?E trabalhamos demais. Não há descanso, mesmo quando não estamos em aulas, a cabeça fica ligada no tema da aula, nas atividades, ….É claro que temos imensos problemas no setor público, mas nada que não possamos resolver.Ademais, eu penso que uma sociedade sem educação, sem ciência serve ao atraso, à enganação, …AbçMarta

  7. Ozaí, meu caro,Como sempre, seu texto está muito bom. A leitura, além de bastante instrutiva, é fluida e saborosa. Apesar do tom jocoso, a pequena observação que segue é útil para refletirmos sobre o tema. Geralmente, no início do semestre ou do ano, algum aluno me pergunta: “Professor, o senhor trabalha ou só dá aulas?”. Eu respondo: “Eu só dou aulas. Sou vagabundo mesmo”. Lamentavelmente, muitos de nossos alunos entendem que o professor não trabalha. Paciência!AbraçosRoberto.

  8. Claro que o professor trabalha. Um grupo considerável de nossa “classe” (entre aspas por que muitas vezes nos falta consciência de classe)trabalha mais que qualquer operário. E isto é interessante porque, se por um lado o trabalho manual foi históricamente desvalorizado, dentre outras coisas devido ao esteriótipo criado pela escravidão, por outro lado, é muito comum nos deparmos com comentários que associam o trabalho ao esforço físico, a produção de mercadoria. Emboram saibam que teoricamente quanto maior o esforço físico menor a remuneração. Não tenho leitura sobre os sofistas e as críticas que Platão fazia a eles, mas penso que pode-se criticar os professores atuais pela faltam de ideologia (conjunto articulado de idéias, valores, opiniões, crenças, etc.). E veja que não estou nem pensando em militância, seja, trotskista, maoísta, stalinista, neoliberal, social-democrata, ou coisa do gênero. Me remeto a um conjunto de valores que acredito que devem nortear o trabalho de qualquer profissional. As vezes, cansados de “dar murro em ponta de faca” nos “vendemos”. Claro que alguém logo vai dizer: “Tenho família e preciso sustentá-la, não posso me dar ao luxo de perder meu emprego por questõe ideológicas”. Concordo, entendo bem desta situação. Mas isto não implica diretamente na reducão de nossa atividade intelectual, não quer dizer que tenha que adotar aquele ponto de vista unívoco, ou que se acomode com a situação e comece achar aquilo normal. Como abordou o Ozaí há aqueles que trabalham em instituições privadas e que se veêm presos às estruturas, todavia, muitos deles esquecem-se que há espaços para sua ação, sem que precisem se marginalizar. Quanto aos funcionários públicos, muitos deles realmente encaram o setor público como uma “terra de ninguém”, tornando-se profissionais mediocres. Como fez o Ozái, enfatizo que não se pode generalizar, mas nos dois casos a falta de um projeto de vida, de uma ideologia, também tem seu peso. E o fim é o stress, a depressão, e outras das doenças modernas, fruto da correria para não se chegar a lugar nenhum. Desculpem as bobagens e o tamanho do texto.

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