A intolerância religiosa

21 de janeiro de 2000, Mãe Gilda de Ogum, sacerdotisa do Terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, no bairro de Itapuã, em Salvador, morre de um enfarte fulminante. Mãe Gilda de Ogum foi uma das vítimas da intolerância religiosa. Em setembro de 1999, o jornal da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), de circulação nacional, estampou a manchete “Macumbeiros e charlatões lesam bolso e vida de cliente”, com a foto do rosto da religiosa coberta por uma tarja preta. O Terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum foi invadido por indivíduos que se consideram cristãos, com o pretenso objetivo de “exorcizá-la. Processada, a Igreja Universal foi condenada, em segunda instância, a pagar indenização por danos morais e uso indevido da imagem de Mãe Gilda de Ogum. Mas pode recorrer no superior Tribunal de Justiça.

21 de janeiro foi declarado o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa”. A lei 11.635 do Congresso Nacional, que institui oficialmente a data, foi sancionada pelo presidente da República no dia 27 de dezembro de 2007. O texto é conciso: “Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º – Fica instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, a ser comemorado anualmente em todo o território nacional no dia 21 de janeiro. Art. 2º – A data fica incluída no Calendário Cívico da União para efeitos de comemoração oficial. Art. 3º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação”.

A aprovação da lei é positiva, pois fortalece o combate à intolerância religiosa. Porém, a simples necessidade de instituir legislação desse tipo indica a persistência do fanatismo religioso e revela as dificuldades de convivência diante da diversidade religiosa brasileira. O caso da Mãe Gilda de Ogum expressa a face medonha do fanatismo que age em nome do combate ao demônio, ou seja, pela auto-afirmação do próprio culto como o único legítimo e que merece existir. E, infelizmente, esse tipo de intolerância não é algo que se restrinja à Universal do Reino de Deus.

Os cultos de origem africana são os alvos da campanha de demonização.* O preconceito contra o Outro, a não compreensão do diferente e o autoritarismo dos que imaginam agir “Em nome de Deus” mesclam-se com o racismo disfarçado e não assumido da sociedade brasileira. O mito da democracia racial encontra paralelo no mito de que não há intolerância religiosa em nosso país, que os adeptos das diversas religiões convivem pacificamente e se respeitam mutuamente – os casos, como o de Mãe Gilda de Ogum, seriam exceções. Na verdade, a intolerância se manifesta no cotidiano das famílias, é reforçado pela pregação de religiosos na mídia e nos cultos e se expande para outras esferas da sociedade. A lei que instituiu o “Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa” tem o mérito de tirar a máscara e nos fazer lembrar dos nossos preconceitos.

Na verdade, a intolerância religiosa é uma constante na história da humanidade. Fico a pensar se não é da natureza das religiões, na medida em que os deuses de uns precisam se afirmar e, para tanto, precisam negar os deuses dos outros. Como quem incorpora os deuses são homens e mulheres de carne e osso, é preciso destruí-los, e as sociedades que vivem, para que o deus vitorioso possa reinar. Ou não é esta a história do monoteísmo e da pretensa evangelização dos povos não-cristãos da América, África e outras partes do mundo? E como esquecer as cruzadas, a “santa inquisição”, as guerras religiosas e os fundamentalismos cristão, judeu e mulçumano?** A intolerância beligerante não é intrínseca às religiões? A intolerância religiosa é antiga, mas assume novas feições. Será preciso muitos dias para combatê-la, quem sabe anos, décadas…

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* Ver: Intolerância religiosa e estigmatização, publicado em 13 de julho de 2007.
** Sugiro a leitura de “Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo”, de Karen Armstrong (São Paulo: Companhia das Letras, 2001).
*** Imagem: adeptos do Candomblé assistem o julgamento contra a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no Tribunal de Justiça da Bahia. Fonte: http://www.koinonia.org.br/detalhes_noticias.asp?id_noticia=131

18 comentários sobre “A intolerância religiosa

  1. Permito-me entrar na discussão. Sou judeu não praticante e me casei duas vezes com mulheres cristãs, portanto não me enquadro na crítica do Pedro Gustavo. Critico todos os fundamentalismos – judaico, muçulmano e cristão (desconheço outros). Mas não vejo preconceito na orientação dos judeus de somente se casarem entre si. Pré-conceito= um conceito previamente estabelecido sobre alguém. Por exemplo: “negros são preguiçosos, ou sujos, ou burros”. Este é um conceito anterior a uma vivência real com pessoas negras, entre as quais há todo tipo de característica, como entre os demais grupos humanos. Não há esse tipo de conceito prévio entre os judeus, não é ele que justifica o casamento intra-judaico. Não existe a visão do outro como inferior ou portador de algum mal intrínseco, previamente à avaliação de cada indivíduo.O casamento exclusivo deve-se à recomendação bíblica de que o povo judeu deve “crescer e multiplicar-se”. Portador de uma mensagem divina e de uma perspectiva messiânica, ele deve manter sua identidade judaica, construir famílias unidas no culto da Bíblia judaica e seus ensinamentos. Como não sou praticante, não segui esse caminho. Mas não condeno os que o seguem, trata-se de preservar uma religião que não procura crescer pelo proselitismo (converter outros) e sim apenas pela expansão do povo ao qual pertence.Essa, aliás, é uma das diferenças com as Testemunhas de Jeová: seu proselitismo é intenso, chega a ser incômodo (já fui acordado mais de uma vez num domingo por pessoas que pretendiam me convencer; fui abordado na rua muitas vezes também). Mesmo assim, não condeno a preferência por alguém da mesma crença para se casar. Isto existe também entre católicos (conheço casos de famílias que não aceitavam namoros dos filhos com evangélicos) e evangélicos (idem, ao contrário). Incomodar, incomoda. Mas não equivale a pré-conceito (o outro é mau ou algo do gênero).Neste momento, a Igreja Católica está regredindo a uma forma de intolerância contra os judeus. Há 40 anos iniciou-se uma aproximação muito benigna, antecedida pelo pedido de perdão do Papa João XXIII pelas perseguições aos judeus e omissões da Igreja. Nesse processo, foi eliminada uma prece católica pela conversão dos judeus: pedia a Deus que retirasse o véu que os cegava e os fizesse reconhecer Jesus. Pois bem: o Papa atual, que iniciou seu pontificado agredindo moralmente os muçulmanos, acaba de reintroduzir essa prece (em latim). Um retrocesso que faz temer pelas ações futuras da Igreja.A maioria de meus amigos é católica (alguns, evangélicos e um xintoísta). Tenho certeza de que se sentiriam agredidos se eu lhes contasse que rezamos na sinagoga para que Deus retire o véu que os cega e os prepare para aguardar o verdadeiro Messias. Ou se os imãs e aiatolás passassem a orar nas mesquitas para que Deus (Alá) retirasse o véu que os cega e os afastasse da Cruz, trazendo-os para as verdades do Profeta. Ou, se os pastores evangélicos orassem nos templos para que o Senhor Jesus os iluminasse para o verdadeiro Evangelho em lugar da falsidade papista. E assim por diante…Aqui estamos falando de intolerância, não necessariamente de preconceito. A intolerância é o que atiçou as guerras sangrentas e perseguições criminosas desde a Idade Média. O outro não é respeitado com suas crenças: é um cego e pede-se a Deus que o ilumine trazendo-o para a fé “verdadeira”. Ou seja, não se tolera que ele prossiga crendo como prefere, não se respeita a pessoa com suas crenças. Pede-se a interveniência divina para afastá-lo das falsas crenças.Em todas as perseguições e guerras religiosas, começou-se pedindo a Deus que convertesse ou punisse os infiéis. Depois, não faltou quem achasse que Ele poderia estar esperando alguma ajudinha humana. Talvez fosse até um teste para ver até onde vão os verdadeiros crentes: formam com o Exército Divino ou ficam omissos e deixam tudo para a Divindade (“covardia!”).Decisivamente, não é um século muito promissor o que está começando…

  2. Bem, Pedro Augusto,em que pesem algumas divergências, creio que as opiniões de ambos já ficaram bem claras. Nada mais tenho a acrescentar, sob pena de repetir-me, e creio que desenvolvemos a discussão suficientemente.Despeço-me desta, pois. Lembro, contudo, que ainda ficou faltando você explicitar qual é a “certa linha intelectual pretensamente libertária”(sic) a que você se refere, em seguida explicar por quê ela é “pretensamente”(sic) libertária, e justificar por quê o Ozaí representa essa linha: tais opiniões ficaram muito “jogadas” e, para serem responsáveis e levadas a sério, precisam ser fundamentadas.Um abraço a você, aos que tiveram paciência em nos acompanhar e ao Ozaí, que cedeu este espaço para nossa interessante discusão.

  3. Caro Eduardo, so peço que vc retorne ao meu primeiro comentário. Não há como ter debate. Digo que o país é bem tolerante quanto a questão religiosa e que, portanto, o texto do Ozai é um equívoco. Se ele não apresentar os dados estatísticos, reais, não tem como provar a veracidade de tal. Lei, por lei, há milhares que são puramente demagógicas e/ou publicitárias – na velha arte política de ludibriar os tolos. Aliás, poderia reverter o rumo do debate, uma vez que não vejo como uma tal intolerância religiosa ser combatida a partir de uma simples lei. O que sei, com absoluta certeza, é que sofre muito mais perigo um palmeirense que um adepto de qualquer religião.Enfim, ao meu ver, trata-se de mais um tradicional caso de se afirmar problemas inexistentes, ao passo que se deixa os problemas centrais ludibriados. Tal postura por parte do Ozaí não faz mal. O problema é a linha demagógica do governo, dado a misticismos para enganar o povo. Obs: cometí um erro de digitação. No texto anterior, eu censurava a sua postura de comparar fenômenos sociais com outros de ordem BIOLÓGICA.

  4. Caro Pedro Augusto,Numa discussão teórica é importante estabelecer a significação conceitual dos termos que estão sendo empregados. Também acho importante considerar as diferenças existentes, as nuances, os matizes. Constatar que uma coisa é diferente de outra não significa apoiar uma delas: pode-se discordar ou combater ambas, mas ter o olho para ver as diferenças entre elas. Vejo que nossa discordância acontece mais em relação de entendimento de conceitos que diferença de posições. Assim sendo:1. Não se deve confundir rivalidade (palmeirense x corintiano) com preconceito (branco x negro ou evangélico x umbandista); nem confundir preservação de identidade étnica-cultural (judeus, celtas) com exclusivismo ideológico-religioso (testemunhas de jeová);nem confundir preconceito com preferência;2. De fato, não existe no Brasil o ódio racial que vemos em alguns países; o preconceito racial (como também os demais preconceitos existentes) é velado, mas nem por isso deixa de ser preconceito, e também deve ser denunciado e combatido;3. É saudável intelectualmente “rebater” os textos com que nos deparamos; mas não “rebater” gratuitamente, só por “rebater”: há que fundamentar o comentário crítico que se faz, seja quando se elogia, seja quando se discorda, seja quando se questiona;4. Consequentemente, você deveria explicitar qual é a “certa linha intelectual pretensamente libertária” a que você se refere, e fundamentar por que ela é “pretensamente” libertária. E ainda justificar por quê você acha que o Ozaí é adepto dela;5. Não vou entrar nas diferenças existentes entre o exclusivismo dos judeus e o exclusivismo das testemunhas de jeová: seria muito longo;6. Creio que não estou comparando fenômenos sociais de ordem diferente, inclusive porque estou tratando de fenômenos sociais, ou seja, da mesma ordem; e nisso as leituras que fiz e venho fazendo me ajudam muito. Mas você tem todo o direito de não concordar comigo, evidentemente;7. Quando digo que cadáver é cadáver e grávida é grávida, sem “mais ou menos”, e “melhor ou pior”, é para enfatizar que preconceito é preconceito. As diferenças de manifestação ficam por conta dos desdobramentos oriundos do preconceito: intolerância, segregação, ódio, perseguição. E, repito, preconceito não é rivalidade nem preferência: é preconceito.No mais,estou achando interessante esta nossa discussão, e agradeço ao Ozaí por dispor deste espaçõ para nós podermos empreendê-la. Um abraço.

  5. Caro Eduardo, uma das coisas legais dos blogs é que eles tiram os autores da confortável situação de não terem os seus escritos rebatidos. Da minha parte, não sou adepto do constante otimisto de um Dimenstein, por exemplo. Mas também não compactuo com os que criticam muitas coisas calcados no próprio idealismo ou numa concecpção meramente livresca da vida social. O ideal, nessa discussão, seria alinhar os dados estatísticos sobre o preconceito religioso com outras formas de violência e hierarquizações existentes. Continuo convicto de que sofre mais perigo um palmeirense que um adepto de qualquer doutrina. Acho o Brasil muito tolerante quanto à questão religiosa. Não vejo como entrar em acordo contigo. Essa distinção entre preconceito e perseguição é a distinção que eu faço entre preconceito e ódio racial, dai eu considerar o Brasil um país com um preconceito light, em comparação com os E.U.A, por exemplo. Usando a sua terminologia, eu diria que o Brasil é um país onde há preconceito, mas não há perseguição.Sinceramente, duvido sempre de que seja possível eliminar de vez o racismo, ou as variadas formas de hierarquização existentes. Não tenho outra palavra para classificar judeus ou,para diversificar, testemunhas de jeová, que não aceitam o casamento com entes de outra linhagem. Há muitos grupos que tem essa postura e considero todos eles preconceituosos. É sempre para a preservação que o preconceito opera, seja da cor, da cultura, da renda. Não vejo como aceitar como mais louvável um e mais condenável outro.O fato de vc ter feito leituras só me faz tornar menos aceitável sua linha de comparação entre fenômenos sociais com outros de ordem social. Digamos assim: um morto é um morto em qualquer canto do mundo; um negro ou um crente o é de acordo com a sociedade em que vive e, ainda, de acordo com a posição que ocupa dentro dessa sociedade. Mentira, rs, há mortos que ressuscitam e grávidas que o ficam sem cópula. Bobagem, talvez eu seja somente um pessimista. Saudações,Obs: não sou libertário não. Aliás, essa palavra hoje em dia serve pra tudo.

  6. Desculpem, mas vou me intrometer na discussão. Realmente, concordando com o Eduardo, ou há preconceito ou não há. Se existe, ou não, a necessidade de discussão é uma questão de ponto de vista. Geralmente quem “comete um crime” não quer discutir, e, tende a diminuir a importância da discussão. Isso é um problema. Tudo possui importância, pois a sociedade, a civilização, o mundo,o que quiserem, é composto por uma relação de fatores. Tudo está conectado. Logo, ao discutir esse problema religioso, como se dispõe o Ozaí, a discussão pode se estender a outros campos do conhecimento. Por outro lado, acho que há uma generalização, quando discutimos este problema. Sempre vemos o dominante, o mais forte, como sendo o intolerante, mas as minorias, os mais fracos, também são. Usando os exemplos que citaram alguns colegas, devemos lembrar que os negros também possuem preconceito em relação aos brancos(vide a atuação dos panteras negras). Logicamente alguém vai dizer: “Mas eles tinham que se defender, afinal os brancos os escravizaram”. Concordo. Mas não podemos nos esquecer que eram os próprios negros que vendiam seus irmãos de cor nas costas da África.E os árabes, são discriminados, mas também não discriminam? Em suma, o que pretendo dizer é que não há mocinhos e bandidos, mas sim, quem é dominante e quem é dominado. Se os papéis se inverterem talvez as relações de dominação permaneçam. Quem sabe. Discordo do Eduardo, penso que os judeus também são preconceituosos. Tanto que atualmente podem ser chamados de fundamentalistas, principalmente, sua ala religiosa mais ortodoxa (basta ler algo do escritor Amós Oz, que é judeu, para perceber isto). O Ozaí cita um livro da Karen Armstrong (“Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo”) ao qual ainda acrescento a leitura de outro livro da mesma autora, “Uma história de Deus: quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo” (Tradução: Marcos Santarrita. São Paulo: Cia das Letras, 1994.) no qual podemos perceber que em certo sentido a fundação de uma religião perpassa por uma espécie de intolerância, pois ela prega ser a “verdadeira”, a única correta. O importante é discutir!!Abraço a todos.

  7. Caro Pedro, 1. É tudo uma questão de conceitos. O preconceito visa sublinhar a diferença entre um “eu” e um “outro”, sendo o “outro” visto como inferior ou negativo em algum(ns) – ou muitos – aspecto(s). É o caso de não querer o tal casamento, ou discordar que ocupe tal cargo ou posição social, ou não estimular tal amizade, etc. No preconceito ainda há lugar para a tolerância, pois ele opera mais na esfera individual, sendo na esfera social apenas um senso comum, sem atitudes concretas. E no Brasil há os mais variados tipos de preconceitos.Há preconceito de classe social ou de formação intelectual entre sócios de um mesmo clube ou funcionários de uma mesma empresa, há preconceito entre alunos brancos de uma mesma escola, há preconceito em clubes de futebol contra jogadores estrangeiros, há o preconceito contra moradores de bairros de uma mesma cidade, etc – e há o preconceito racial e de classe em toda a sociedade (nordestino tem que ser peão de obra, a negra só pode ser empregada doméstica, etc) Já sair surrando e matando negros por aí (ou pobres, ou judeus, ou gays, ou prostitutas, ou macumbeiros) é perseguição, a forma mais vil, extrema, retrógrada e violenta que surge do preconceito, enquanto que proibir a ocupação de certos espaços no ônibus ou de prestar vestibular é segregação – na segregação e perseguição já não há mais lugar para a tolerância.O caso do apartheid na África do Sul é exemplo de segregação, Timor Leste é perseguição, e nos EUA tem perseguição, segregação e preconceito, conforme o lugar, o ambiente, as circunstâncias (Dallas jamais teria ou terá um prefeito negro, como New York).Como vê, as leituras eu fiz já me ajudaram. 2. Quanto aos judeus, eles não praticam a intolerância, pois não cometem segregação nem perseguição, e não têm preconceito. Se você observar a história do judaísmo (não falo do sionismo !!! aí já e outra coisa bem diferente e extrema), e conhecer a cultura judaica, verá que o que eles praticam são preceitos étnico-religiosos visando a manutenção da identidade racial e singularidade cultural. Você pode achar isso válido ou não, aí é outra história, mas não pode dizer que eles têm preconceito. E como os judeus há muitas nações africanas,segmentos muçulmanos e povos centro europeus que seguem a mesma linha: não segregam os “diferentes” nem os perseguem nem excluem-nos da vida social; apenas não abrem mão da própria identidade e de sua história e cultura particular, evitando a miscigenação.3. Quanto ao aspecto religioso na sociedade brasileira, fica difícil generalizar; mas tenho percebido aqui no Brasil preconceito de evangélicos contra umbandistas, de católicos contra evangélicos e espíritas; de uma seita evangélica contra outra, e há casos isolados que aparecem de quando em quando que chegam à intolerância. E não é correto nós pormos panos quentes sobre isso: que há, há.4. Quanto ao Ozaí, embora não tenha procuração para defendê-lo e ele nem precise da minha defesa, acho incorreto você dizer que ele “está vendo problema onde não há”(sic). Ele está apenas trazendo uma questão para discussão, da qual inclusive nós estamos participando, e ele não foge de dar sua sincera opinião Este tem sido o papel dele neste blog, pelo menos é assim que eu vejo. E você, sim, caro Pedro, agora deveria descer do muro e explicar qual é essa “certa linha intelectual pretensamente libertária”(sic) que atribui a ele, e ao mesmo tempo explicar para nós, Pedro Augusto, qual é, então, a SUA própria linha intelectual, a qual deve ser, presumo, libertária. E fundamentar!!! Se não quiser fundamentar este tópico do seu comentário publicamente no blog, pode mandar pro meu e-mail, já que nós é que estamos debatendo isso, e por essa via seguiremos a discussão: emeksenas@uol.com.br . Ou , se preferir, continuaremos debatendo aqui mesmo, seria até sinal de respeito aos demais comentadores que aqui escreveram. Fique à vontade.5. Não creio que seja alucinação esperar que numa sociedade de mais de 180 milhões de habitantes haja um padrão mínimo de vida decente para todos (educação/saúde/moradia/alimentação/trabalho), haja respeito e tolerância pelo outro independente de raça, religião, preferência sexual ou condição econômica e, principalmente, não exista intolerância para com os “diferentes” – não é o tamanho de um país ou sua densidade populacional que justificam preconceitos, perseguições ou segregações de qualquer espécie.Preconceito é igual a morte: não existe morto “light” nem alguém que esteja mais ou menos morto. Ou é ou não é. Ou tem ou não tem. É igual gravidez rsrsrsrsrsrsrsrsrsNão me queira mal,caro Pedro Augusto. E pense no que eu disse.Ah, em tempo: não sou negro, nem judeu, nem pobre, nem gay, nem macumbeiro, nem travesti, nem nordestino, nem analfabeto…Um abraço.

  8. Eduardo, vc está completamente equivocado. O preconceito pode ser light sim pq ha diferença enorme entre não querer a filha casar com um negro e sair matando e surrando negros por ai, ou os proibir de ocupar dados espaços nos ônibus, prestar vestibular, concursos etc. Um pouco de leitura sobre o Apartheid e sobre os E.U.A vai lhe ajudar, assim como, sobre Timor Leste e etc. Meu caro, se não querer que um negro case com a sua filha, irmã etc – condição de muitos que se dizem contra o preconceito – é discriminação, também o é o fato de os judeus negarem os de fora de sua linhagem.Quanto ao aspecto religioso ele é tão inexistente que há muito mais distúrbios por conta de futebol e bairrismos. Para um país – coisa que muitos ignoram – onde catolicos e protestantes ja chegaram a por fogo uns nas igrejas dos outros e onde o protestantismo era perseguido sob a mão do Estado, o país é uma maravilha. O Ozai está vendo problema onde não há. Típico, aliás, de certa linha intelectual pretensamente libertária. Completa alucinação é imaginar que possa haver uma sociedade com mais de 180 milhões de habitantes que esteja despojada de conflitos e violência interna, estranhamentos etc. Os que, nos textos, se posicionam assim, geralmente mal conhecem os habitantes do próprio bairro e vivem harmoniosamente com a própria cidade. Agora, essa sua comparação com a gravidez me fez rir e não é pra outra coisa. Abraço,

  9. Tive um professor na década de 60 (na época só existia a Lei Afonso Arinos que regulava o assunto) que dizia “se existe uma lei punindo o racismo é sinal que ele existe”. Mais na é preciso dizer…

  10. Caro Pedro Gustavo:ou existe preconceito,ou não existe.Não tem essa história de preconceito “light” ou mais “civilizado”. Toda e qualquer forma de discriminação é regressão civilizatória por si só.Não existe preconceito “mais ou menos”, assim como não existe gravidez “mais ou menos”. Ou tem ou não tem.E o preconceito racial no Brasil existe sim, ainda que velado em determinados momentos e sublimado em diversas formas (p. ex. grande número de negros nos programas da Globo, grande número de casais formados por branco e negro nas novelas e filmes, cota para negros nas vagas de universidades públicas, etc, etc )- preconceito contra negros, índios, árabes, orientais – apesar da nossa miscigenação. Especialmente contra os negros, que aqui aportaram como escravos, seres de 2ª ou 3ª classe no entendimento do branco colonizador – e o estigma da escravidão ainda está arraigado no insconciente dos “brancos puros, de 1ª classe”, até hoje !!!E existe outro preconceito que atinge os negros, além do racial, que é o econômico: o preconceito de classe é tão forte ou maior que o preconceito racial. Se o pobre, o favelado, o bóia-fria já são alvo de preconceito, o negro, que em grande maioria é pobre, é discrimnado 2 vezes. E você aindavem dizer que o preconceito aqui é “light” ? Não era bem isso que o Sergio Buarque entendia como “homem cordial”.E não se deve confundir preconceito com identidade: o judaísmo não é uma “filiação” religiosa – o judeu é uma raça distinta portadora de cultura singular, sendo a religião decorrente da etnia e práticas culturais próprias e singulares.Podemos ver equívoco ou não na necessidade de grupos étnicos quererem preservar sua identidade racial e cultural de qualquer miscigenação, mas não devemos confundir isso com preconceito.Um abraço.

  11. Ozaí, creio que vc está bem equivocado em sua análise. O Brasil é um país bastante tolerante e respeitoso quanto às opções religiosas. Eu diria até que o país é mais tolerante no campo religioso que a universidade o é no campo das ideologias. Mesmo o preconceito racial generalizado é muito mais light, dado o alto nível de miscigenação do país e a pequena proporção de negros. Preconceitos sofrem os ciganos, por exemplo. Ou cometem os judeus, que não aceitam se casar com outros de outra filiação. O país é um exemplo para o mundo de tolerância religiosa e ostenta um preconceito – não ódio racial – contra os negros bem controlado e civilizado, o que poderia ser drasticamente diminuído se se aumentasse o poder aquisitivo dos mesmos.

  12. Prezado Ozaí, como sempre é uma grande alegria receber o seu texto, sobretudo quando ele chega num domingo de manha. Uma conversa plenamente humana, em que a gente procura alargar os horizontes, aumentar a capacidade de tolerância, para mim entra um pouco no lugar da missa, que não freqüento há muito tempo, mas que me deixa uma certa nostalgia. Não da missa a que eu assistia sem fé, graça que não me foi dada, nem emoção, pois entre os fiéis desses domingos da infância, numa igreja de gente quase que exclusivamente branca e corretamente vestida, o que circulava era uma corrente bastante fria e intolerante. A saudade é de reuniões da JUC, da descoberta de um certo ideal de comunhão dos santos, de caridade partilhada, de amor e luta pelo próximo. Talvez isso seja privilégio de igrejas nascentes, de primórdios religiosos em todas as crenças. Sobretudo, da certeza de se estar lutando juntos, de partilhar perigos, de ser marginal num mundo dominado por ditaduras militares e forças ocultas. Todos ímpios e demoníacos, graças a Deus.Na historia das religiões, todavia, esse ideal logo se transforma em desejo ardente de se estender a todos os homens a felicidade de rezar juntos e de transformar pecados em preces. Ah, a beleza dos coros e cantatas inspirados por vozes humanas buscando algo perfeito e consolador bem acima do penoso cotidiano!Já ouvi também uma gravação da chamada à prece, do alto de um minarete em algum ponto longínquo da Arábia e também era belíssimo. Mas talvez só seja possível reconhecer a beleza de cada uma dessas manifestações se não estamos alinhados com nenhuma delas.Como nunca fui dotada da graça da fé, o sagrado sempre me deixou perplexa, comovida, sim, mas com a emoção dos outros, sempre fora de alguma coisa, portanto. O que me parece evidente é que o excedente de energia criado pela comunidade da prece e do canto tem que se dilatar, ocupar o espaço, fazer proselitismo, não aceitar resistências – estariam aí reunidas as condições para a intolerância?Talvez as únicas religiões que tenham condições inerentes de tolerância sejam as religiões catárticas, em que há possessão, baixada de santo, perda de consciência, etc. Assim, depois dessa conversa de café da manhã, agradeço a transcrição das notícias sobre essa data, que para mim se tornou inteligível e justificável graças ao seu blog. Estou longe do país e essas mudanças – Universidade de umbanda, acho extraordinário e de bom augúrio – parece que vão no bom sentido. Um abraço e bom domingo para você. Que Deus nos proteja, amém.Regina

  13. Ozaí, concordo contigo que termos uma lei para coibir a intolerância religiosa é, por si só, a demonstração de que é um problema que realmente ocorre no nosso país. Porém, como cristão católico, não posso concordar que a intolerância é algo que faz parte da minha religião.Realmente, a história da Igreja Católica é marcada, como vc mesmo lembra, por diversas ocasiões que são demonstrações claras de intolerância, de não aceitãção do outro e de sua religião.Porém, são erros admitidos e que em algumas oportunidades houve o pedido público de perdão por eles.Aceitar o diferente faz parte sim de nossa religião, “amando até os nosso inimigos”. Isso não quer dizer que deixamos de afirmar as nossas convicções e de assumí-las como verdade para as nossas vidas.Mas temos obrigação de aceitar e de conviver muito bem com outros que não professam a mesma fé que a nossa. Se não for assim, que testemunho podemos dar para os demais, não é mesmo? Se há por parte de alguns irmãos meus este tipo de preconceito ou não aceitação, esse não entendeu nada de sua religião e precisa amadurecer um pouco mais, como cristão e como ser humano.Até mais! Obrigado!

  14. Quem tem intolerância religiosa, velada ou expressa, ativa ou inerte, é indigno da própria religião à qual diz professar.A intolerância religiosa é segmento de um horizonte maior de segregação e exclusão: junto dela estão a intolerância política, a intolerância intelectual, a intolerância de classe social, a intolerância de opinião, a intolerância racial…A intolerância, religosa e as demais, é reflexo também do Estado privatizado e da sociedade exclusivista que não tolera o Outro.Preconceito, intolerância e privilégios andam juntos.

  15. A notícia abaixo circulou no Jornal da Cidade de Bauru e região, cidade que foi palco de eventos diversos sobre intolerância religiosa promovidos por entidades RELIGIOSAS. Isso para mim não faz o menor sentido,pois a própria palavra intolerância é carregada de sentido religioso. Intolerantes discutindo intolerância?18/05/2007 Umbandistas se reúnem amanhã para defender liberdade religiosa O combate à intolerância religiosa e a defesa da liberdade de religião são os temas de discussão do 1º Fórum Umbandista sobre Liberdade Religiosa que será realizado em Bauru. O encontro, inédito na região, deve reunir cerca de 23 entidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, entre outros. A iniciativa, organizada pelo grupo Umbanda Fest, visa quebrar preconceitos em relação à religião umbandista.O evento, marcado para amanhã, é aberto à toda comunidade e faz parte do projeto “Umbanda mostra a sua cara”. “É uma forma de quebrar estigmas também por parte dos umbandistas, que se recolhem por medo de sofrer preconceitos”, esclarece o presidente da Umbanda Fest e ativista da umbanda há 11 anos, Ricardo Barreira.Para Barreira, esse fórum será a chance para fortalecer a religião umbanda, aumentar a segurança dos praticantes e conquistar o respeito de toda comunidade. Só em Bauru, segundo estimativa da comunidade umbandista, existem cerca de 1 mil templos, 700 deles legalizados. “A comunidade umbandista é grande na cidade, mas muitos templos são casas e não têm identificação, uma espécie de herança dos tempos de perseguição policial contra a religião”, conta Barreira.O fórum vai oferecer palestras rápidas sobre liberdade religiosa realizadas por entidades de São Paulo. A Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), o Conselho Nacional da Umbanda no Brasil (Conub) e o Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (Souesp) vão debater sobre políticas contra o preconceito religioso em diferentes esferas, como a social e a jurídica.Também participará do fórum a cantora Rita Ribeiro, do Maranhão, para falar sobre manifestos de liberdade religiosa. Ela gravou recentemente o CD “Tecno Macumba”, que traz releituras de músicas sacras umbandistas em versões eletrônicas. Além do fórum, a Umbanda Fest convida a comunidade a participar de uma caminhada em prol da liberdade religiosa, também amanhã, a partir do meio-dia. A caminhada parte da quadra 1 da rua Batista de Carvalho e vai até a Praça Rui Barbosa. A religiãoA umbanda é a única religião genuinamente brasileira. Foi criada em 1908, no distrito de Neves, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, por Zélio Fernandino de Moraes. A religião é sincrética, reunindo elementos espíritas, indígenas, africanos e católicos, entre outros. A umbanda e o candomblé são religiões diferentes, sendo a segunda de origem africana. Porém, ambas cultuam os orixás, entidades consideradas universais. (Daiana Dalfito)Serviço1o Fórum Umbandista sobre Liberdade Religiosa será no Automóvel Clube de Bauru, amanhã, das 19h às 22h30. A entrada é um quilo de alimento não perecível, exceto sal. Todo alimento arrecadado será doado ao Centro Espírita Cosme e Damião.

  16. Caro Ozaí,a questão da intolerãncia religiosa (e assemelhadas) parece-me tão paradoxal e tão antitéticas à própria natureza das riligiões que, confesso, tenho muita dificuldade de compreender suas ocorrências. Acho que repete-se, nesse caso, a idéia de que se a inteligência pode ter limites, ilimitada é a “nossa” estupidez.A leitura de seu belo texto, como sempre o é, só reforçou em mim a indagação que alimento quando deparo com questões de intolerância no âmbito religioso: POR QUÊ?Até mais, sucesso sempre!

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