Inventário de leituras (1)

Quais as dez obras essenciais para a formação intelectual e humanista? As obras essenciais de cada um têm muito a ver com as histórias de vida e subjetividades peculiares. Na pesquisa que fiz, por exemplo, houve referências a livros que eu nem sabia que existia, mas certamente foram importantes na vida de quem os citou. Afinal, o livro essencial é o que marcou a vida do leitor e, de certa forma, transformou-o. E o momento em que este é lido, o estado de espírito e as circunstâncias, têm muita influência. Não há, portanto, a possibilidade de fazer uma lista dos 10 + válida para todos. As listas são tantas quanto as possibilidades e interesses individuais.

Qual seria a minha lista? Quais as dez obras que foram essenciais em minha formação? Fiquei a pensar sobre estas questões e percebi que é muito difícil responder com exatidão. Em meus mais de 45 anos de permanência neste mundo de Deus e dos homens – e das mulheres também, é claro – li muito, talvez até demais, considerando-se a minha história de vida. Fui iniciado, ainda na infância e antes mesmo de começar a vida oficial de estudante, através da literatura de cordel. Juntávamos-nos à noite, crianças e adultos, e eu lia à luz de candeeiro. As histórias e imagens fantásticas que emergiam daquelas rimas era algo fascinante para uma criança. Isso marcou a minha vida. Portanto, a literatura de cordel foi essencial em minha formação intelectual. Ela despertou em mim o gosto de ler e fincou raízes que contribuíram para uma percepção e sensibilidade humanista diante das coisas simples do mundo, o que na academia chamam de “cultura popular”.

Meu interesse pela leitura se ampliou. Logo me tornaria leitor voraz e colecionador de gibis. Adorava as histórias dos super-heróis, especialmente as do Homem-aranha e Batman. Também era fã dos gibis do Tex e dos personagens do Walt Disney (me divertia com as desventuras dos Irmãos Metralhas, Mancha Negra e a Maga Patológica; mas também com o Pateta e com as trapalhadas do Professor Pardal e a paródia do Batman, o Morcego Vermelho). Era pura diversão! No gênero terror, adorava ler as histórias do Príncipe das Trevas, o Drácula.

Ler era um prazer! Mas era custoso e minha mãe não tinha como financiá-lo. Se ela me dava algum trocado, eu guardava para comprar um gibi, em geral usado. Depois trocava por outros e assim ampliava o meu leque de leituras. Logo me tornei um hábil “comerciante” de gibis entre os meninos da minha idade. Quando mudamos para São Paulo, em agosto de 1974, tive que me desfazer dos muitos gibis que havia acumulado – pensando bem, dado as minhas condições econômicas, não deviam ser tantos assim. Em São Paulo, logo descobri os lugares onde eram comercializados gibis usados – às vezes andava quilômetros até o bairro do Ipiranga apenas para comprá-los. Juntei alguns e cheguei a expor nas feiras onde meu avô vendia fumo de corda. Ele com a banqueta de rolos de fumo e eu com os gibis, sobre um plástico, espalhados no chão. A mercadoria gibi, como valor de troca, não se mostrou um bom meio de ganhar a vida. Para mim, eles eram muito mais “valor de uso”; e era assim que se materializavam em minha vida. Minha carreira de vendedor de gibis foi um fiasco, mas ficou o amor pela leitura. Ainda gosto de gibis, embora há muito que não os leio (anos atrás, comprei uma edição especial do gibi Tex, apenas para matar a saudade; foi como voltar no tempo).

Os gibis foram essenciais em minha formação intelectual. Essa afirmação pode parecer estranha, mas é verdadeira. E tive outras leituras também “estranhas” que contribuíram para formar o leitor que sou hoje. Mas isso é assunto para o próximo texto… Afinal, não é fácil fazer um “inventário” como este!

8 comentários sobre “Inventário de leituras (1)

  1. Antônio,Eu li quase todos esses gibis, gostava muito do Tex e do Almanaque Disney e do Zé Carioca. Eu e minha irmã sonhávamos em ir à Disneylandia conhecer os bonecos e o castelo, isso era 1974. Além dos gibis li doze volumes de uma enciclopédia que ganhei da minha prima. Lá tomei contato com a mitologia grega e romana. O livro que me fez viajar foi Ibéria, de James Michener, apesar de suas 700 páginas. Um abração, Gerson

  2. Curioso: os gibis e o Tex contribuiram na sua formação de leitor. Na minha, os gibis e o Tex eram proibidos por meu pai, que era ligado ao Partido Comunista. A militancia de esquerda, naquela época, proibia tudo que era made in ideologia capitalista. Junto com os gibis, também eu não bebia Coca-cola, não fui estimulado para aprenser inglês, e comprei minha primeira calça jeans perto dos 18 anos, desrespeitando meu bom pai e amigo. As leituras que mais me marcaram foram: os livros de aventuras no nosso meio rural, cujo herói era o sertanejo (destaco “Expediçaõ aos Martírios” de Francisco Marins,os livros de Mário Palmério e Monteiro Lobato),também lia Machado de Assis, as crônicas de Stanilaw Ponte Preta, Rubem Braga, enfim.Eu vivia mais na roça do que na cidade. Abraço. Raymundo.

  3. Adalberto Paranhos (UFU/MG)Para mim, que enveredei, anos atrás, pela pesquisa sobre a literatura de cordel produzida nas décadas de 1930/40/50, é particularmente interessante, além de revelador, saber do peso que ela teve na sua iniciação na leitura. Sabe-se que muitos analfabetos também sorviam os folhetos populares em meio a práticas de leitura coletiva, o que alargava consideravelmente o raio de alcance dessas publicações, em especial noNordeste brasileiro.

  4. Olá, professor,fiquei muito satisfeito com seu texto. Entendo que parece estranho incluir gibis numa lista de textos essenciais na formação, mas trata-se mesmo de simples aparência.Eu também amava os gibis. Na falta deles, relia os mesmos dezenas de vezes! Assim, conheci os da Disney, os do Maurício de Souza e do Homem-Aranha.A estranheza perdura enquanto não pensamos seriamente no assunto – no caso, ele não costuma ser levado a sério. Você nos leva a refletir sobre o que nos fez o que somos e a nos sentir menos estranhos.

  5. Agora da para entender melhor porque você escreve de uma maneira eficiente, ou seja, porque o seu texto funciona e atinge o leitor. A prova, essa sua infância que nos chega tao viva, ensolarada e rica de iniciativas, descobertas e desse essencial “prazer do texto” que so inventa quem ja viveu.A respeito de leituras formadoras, envio-lhe abaixo velhas anotaçoes sobre escritores que continuo descobrindo.José de Alencar, que lia em voz alta folhetins e dramalhoes para a familia e arrancava soluços do auditorio, diz que foi a leitura dessas “novelas e romances” que o fizerem descobrir “a forma literaria que é entre todas a de [sua] predileçao”. Mas ele estreou como escritor-menino ouvindo as aventuras de seu amigo revolucionario Joaquim Sombra, que tomara parte nos movimentos separatistas do Exu e sertoes de Pernambuco. (“Como e porque sou romancista”)Coelho Neto também ouviu historias encantadas antes de começar a ler.”Para a minha formaçao literaria, nao contribuiram autores, contribuiram pessoas. Foram as historias, as lendas, os contos ouvidos em criança, historias de negros cheias de pavores, lendas de caboclos palpitando encantamentos, contos de homens brancos, a fantasia do sol, o perfume das florestas, o sonho dos civilizados… Nunca mais essa mistura de ideais e de raças deixou de predominar, e até hoje se faz sentir no meu ecletismo. A minha fantasia é o resultado da alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. E’ do choque permanente entre esse fundo complexo e a cultura literaria que decorre toda a minha obra, … O livro que mais me impressionou foi as Mil e uma noites. […](Joao do Rio, O Momento Literario. Rio de Janeiro, Garnier, s.d., p 53)Mas a base, ainda ai, foram as historias ouvidas, lidas, com a fascinaçao a que so uma criança sabe se entregar.Você vê que esta em boa companhia, prezado Ozai.Um abraço,ReginaPS Ja leu o conto “Ana Cabriuvana”, de Valdomiro Silveira? Pode gostar ou nao, mas acho que um brasileiro do sudeste que nunca leu Valdomiro é um “exilado cultural”, como dizia Mario de Andrade em outras circunstâncias.

  6. Seria interessante que, ao citar o contato com a literatura de cordel, voce dissesse onde foi isso, exatamente, pois o leitor curioso gostaria de saber. Refiro-me a este trecho em particular: “Fui iniciado, ainda na infância e antes mesmo de começar a vida oficial de estudante, através da literatura de cordel. Juntávamos-nos à noite, crianças e adultos, e eu lia à luz de candeeiro.”O contexto regional, o background familiar são todos relevantes na formação de um indivíduo, mormente de uma criança.Situe geograficamente o seu período de formação e o meio social.

  7. Sempre me perguntei sobre o quanto as histórias infantis são capazes de carregar ideologias! Hoje, quando leio um gibi ou assisto a um filme, entre tantos inspirados ou reproduzidos de histórias em quadrinhos, percebo, claramente, a importância de certos princípios.Belo texto, como sempre! Abraço.Daliana

  8. Grande Antonio, eu tinha até esquecido !!! De fato, minhas primeiras leituras também foram os gibis, com toda a moldura de “socialização” e “comercio” que eles trazem: a gente compra,ganha, vai acumulando, depois troca 2 x 1, depois 1 x 2,anda quilômenros para tais “transações”, conhece muita gente, outros bairros, outros aficcionados…Foi não só uma introdução à leitura mas ao próprio mundo que me rodeia: foi um impulso para a vida, para além da minha rua…Os meus favoritos eram os do Disney (Pato Donald e Mickey) e Tazan, Zorro, Fantasma, Cavaleiro Negro, Flexa Ligeira, Superman, Batman…lá pelos 13 anos conheci e incluí no meu estoque as obras do Carlos Zéfiro (lembra? rsrsrs) e as trocas ficaram mais intensas (e mais discretas).Curioso como a academia não valoriza as revistas em quadrinhos. Os quadrinhos (ainda que na simbiose de texto e imagem) acostumam à leitura e mostram que ler deve ser realmente um prazer. Os quadrinhos ensinam : hoje está aí o Angeli, com suas charges e tiras na Folha de S Paulo pra gente se divertir aprendendo e, de quebra, desenvolver a ironia e o senso crítico…Depois fui de Monteiro Lobato, Francisco Marins, Tarzan. Júlio Verne, Conan Doyle, Robert L. Stevenson… e o prazer de ler instalou-se definitivamente.Acompanhou-me pela faculdade (afinal, fiz Letras rsrsr) e pela vida a fora.Até James Joyce e Proust eu li com prazer, coisa que pouca gente acredita rsrsrsrsBoa lemrança, e boa valorização da “literatura” dos gibis.Um abraço.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s