Primeiro dia de aula

O primeiro dia a gente nunca esquece! Quem, porém, se recorda do primeiro dia de aula? Na minha época, começávamos a estudar na 1ª série do primeiro grau. Era o tempo do primário, ginasial, colegial. Desde então, mesmo quando terminamos a graduação e fazemos o mestrado e doutorado, o primeiro dia de aula repete-se. Na pós-graduação já temos alguma experiência e maturidade. Isso, no entanto, não anula o fato de que permanecemos como educandos perante professores experientes e com o domínio do saber que não temos. É uma experiência muito interessante e não deveríamos esquecê-la quando retornamos à sala de aula como docentes.

Se não sabíamos, deveríamos ter aprendido que os papéis desempenhados podem ser diferentes – ora sou educando, ora sou educador –, mas que não existe uma barreira instransponível. O tempo todo estamos educando e sendo educados, ensinando e aprendendo. Como afirmava o saudoso Maurício Tragtenberg: “O fato é que, na relação professor/aluno, enfrentam-se dois tipos de saber, o saber do professor inacabado e a ignorância do aluno relativa. Não há saber absoluto nem ignorância absoluta”.*

Nem todos educadores, contudo, têm consciência dessa singela verdade. Como o pai esquecido de que um dia foi criança e adolescente, muitos professores esquecem-se de que foram alunos (ou que ainda o são). Talvez o mais comum seja a concepção de que o processo educativo restringe-se à transmissão de conteúdo e a postura arrogante diante da ignorância relativa do educando. Essa, muitas vezes, se fundamenta no argumento da diferença de idade e na titulação acadêmica.**

A vaidade e inerente ao ser humano, mas torna-se um problema quando afeta a relação educador-educando. O arrogante contribui para anular o potencial do educando ou, o que não é menos pior, para gerar aprendizes de ditadores que seguem o exemplo. São desprovidos da consciência de que o aprender e educar-se são algo permanente. Talvez isso explique porque o educando estranha, e até considere demagogice, quando o educador assume humildemente que seu saber não é absoluto e declara-se disposto a aprender.

A arrogância é desrespeitosa com os educandos e com os próprios colegas docentes. Ela pode ser titulada ou não-titulada. Já presenciei cenas explícitas em salas de aula, em eventos acadêmicos e mesmo em concursos públicos para contratação de colegas. A soberba é como uma doença, e não estamos imunes. Quando titulada, porém, ela é altamente perigosa, pois o título acadêmico é legitimador da autoridade instituída e a fortalece.

Esse foi um dos temas que tratei em minha primeira aula do ano letivo. Os educandos escutaram em atitude respeitosa, mas não sei qual foi o efeito das minhas palavras. Eu mesmo duvido da sua eficácia, porém insisto. A primeira aula é fundamental. A primeira impressão, para o bem ou para o mal, deixa marcas. Por outro lado, e este é um dilema da docência, não temos como saber se e como nossas palavras foram assimiladas e interpretadas por cada educando.

Às vezes me parece infrutífero insistir no discurso conscientizador. Havia prometido a mim mesmo que faria diferente, que me ateria à discussão do conteúdo programático e às questões formais. A relação educador-educando é, porém, uma relação humana e, enquanto tal, complexa e rica. Deixar-se conhecer, expor o que pensa sobre os assuntos pertinentes à docência e ao nosso papel na sociedade, enquanto educadores e educandos de uma universidade pública e gratuita, parece-me um bom começo. O tempo dirá! De qualquer forma, fiquei contente em retomar o contato com a sala de aula, minha energias se renovaram. Afinal, o primeiro dia de aula é importante, muito importante!

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* TRAGTENBERG, M. Relações de poder na escola. In: Educação & Sociedade – Revista Quadrimestral de Ciências da Educação – Ano VII – Nº 20 – Jan/Abril de 1985. Campinas: CEDES/Unicamp; São Paulo: Cortez Editora, p.43.
** A arrogância no campo acadêmico é um tema sobre o qual escrevi algumas reflexões. Ver: “Óleo de Lorenzo e Patch Adams: A arrogância titulada”, REA, nº 28, setembro de 2003; e “Aqui jaz fulano de tal… e a sua superioridade!”, REA, nº 30, novembro de 2003.
*** Arte (imagem): Valéria Nogueira Eik

2 comentários sobre “Primeiro dia de aula

  1. Olá mestre Antônio Ozaí, li seu artigo “A Arrogância Titulada” sobre os filmes: Patch Adams e o Óleo de Lorenzo e quero deixar meus cumprimentos: parabéns. O artigo desenvolve uma analogia entre os dois fimes, numa perfeita semiótica.Vannda

  2. olá Ozaí,eu diria que esse texto obvio, mas digo também que o obvio precisa ser dito e as vezes muito bem dito (ou bendito). só assim aqueles que pensam que os outros não veem o obvio podem se tocar. a academia é isso mesmo, poderia ser diferente, mas vem cada vez mais se tornando o espaço da arrogancia. hoje é mesmo dificil se postar de forma humilde, pois mesmo que seja verdade haverá sempre desconfiança devido as práticas consolidadas de alguns. mas acho também que humildade dissimulada não se sustenta por muito tempo e isso independe de titulação.zacarias

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