Escritores da Liberdade

Foi a segunda vez que assisti ao filme Escritores da Liberdade.* Quando o vi pela primeira vez, com o incentivo da minha filha Juliana que o escolheu entre dezenas de filmes da locadora, pensei: “Mais um daqueles filmes em que o professor tem uma turma de alunos violentos, no qual há muito sofrimento, mas com dedicação e persistência ele vence os obstáculos, cumpre a missão e salva-os!” De certa forma, é isso que vemos no transcorrer das cenas. A professora Erin Gruwell (Hilary Swank), branca e bem-nascida, enfrenta uma turma da pesada: jovens organizados em gangues, com famílias desestruturadas e estigmatizados pela instituição que deveria ajudá-los. A violência é o elemento principal na vida desses jovens, no âmbito familiar e nos territórios demarcados no bairro que moram e na escola. São jovens derrotados a priori. A professora enfrenta as adversidades, incluindo a incompreensão do marido, além da resistência da direção da escola e dos colegas.

O filme tem o mérito de fazer pensar sobre os dilemas individuais e sociais presentes no espaço da sala de aula; dilemas que dizem respeito às nossas opções de vida, à forma como percebemos a sociedade e como nos vemos nela. O modelo do professor que abraça a educação como uma missão e a transforma numa espécie de militância, representado pela personagem do filme, o qual se fundamenta em fatos reais, é personificado por muitos dos que exercem a docência como algo que dá sentido às suas vidas. São exemplos de indivíduos devotados que, a despeito dos baixos salários, da falta de apoio, da incompreensão dos burocratas e dos próprios pares, desenvolvem um trabalho criativo e envolvente. São professores que amam o que fazem, disseminam a pedagogia da esperança, transformam vidas e fazem a diferença; são heróis e heroínas, com a professora de Escritores da Liberdade.

O filme valoriza a ação educativa, mostra a importância de compreender o mundo dos educandos, de respeitar as suas histórias de vida e adotar estratégias pedagógicas criativas capazes de estimular a reflexão. A razão técnica-instrumental, a transmissão insensível de conteúdos, mostra-se não apenas ineficaz, mas estranha aos educandos. É preciso educar os sentimentos, valorizá-los e compreendê-los. Educador e educando revelam-se em toda a humanidade e, nesse processo, simultaneamente aprendem e ensinam. A professora Erin Gruwell contribui para transformar a vida dos seus educandos, mas também se transforma.

Ainda que a professora e os seus alunos tenham superado os obstáculos e possam ser considerados vitoriosos, a verdade é que o mundo real do qual fazem parte, para além da sala de aula, reproduz a mesma realidade injusta, racista, intolerante, violenta e desigual que os envolveu. Não é por acaso que eles se sentem bem na sala de aula: ali romperam as fronteiras reais e simbólicas que os separavam; ali se conheceram melhor, reconheceram suas potencialidades e reforçaram a auto-estima; ali se viam como uma família. Eles e elas, porém, tinham necessariamente que interagir com o ambiente extraclasse.

Não é pouco o que conquistaram, mas é discutível a influência dessa experiência em relação às necessidades impostas pela realidade social. O tom psicologizante e individualista que vemos no filme parece indicar que as soluções para os problemas sociais são individuais – quando muito, envolvem um grupo restrito à sala de aula. É uma ideologia que mascara os fatores e causas econômicas e políticas que produzem a realidade social que os gerou. O problema é que eles não podem esperar pela realização da utopia redentora. Vivemos o hoje e o futuro depende das nossas ações e opções cotidianas. Eis o dilema!

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* Freedom Writers, EUA, 2007. Direção: Richard LaGravenese. Com Hilary Swank no papel principal.

3 comentários sobre “Escritores da Liberdade

  1. A grata surpresa da reação dos alunos quando receberam livros novinhos, o cheiro, a forma como tocaram nos livros, o olhar de espanto deles, muito bom de se ver.Quanto a discussão, concordo, exigem tudo de um professor e ele pode contar apenas com sua boa vontade. Há um vídeo, cuja proposta é inversa, propõe que as pessoas sejam colocadas por um dia no lugar dos discriminados. Está em 12 partes. Deixo o link de O olho da tempestade http://www.youtube.com/my_playlists?p=19C92688717CD43E

  2. Que um ou outro transmissor de conhecimentos (a palavra educador é muito arrogante e falsa, pois uma pessoa sozinha não educa nem a sí mesmo)assuma o idealismo que vem contido nesses filmes é um fato que não se deve combater. No entanto, acho completamente absurda essa tradição que pretende jogar nas costas do professor inúmeras responsabilidades que não competem à sua profissão e para a qual ele não está preparado. Por outro lado, a adoção de um discurso humanista tem sido, muitas vezes, o outro lado da vontade autoritária e/ou da incompetência técnica. O Brasil está cheio de professores bacaninhas incompetentes e profissionalmente pouco empenhados.O problema central nessa mística é a de reforçar a idéia de que o professor tem que ser aquilo que não lhe compete: carcereiro, psicólogo, animador de auditório. Por outro lado, inúmeras pessoas podem descansar na sombra sem ter as suas responsabilidades cobradas: empresas, poder público, família e, jamais nos esqueçamos, o próprio aluno.

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