Sobre a militância do intelectual*

Há uma certa concepção política, presente no campus e na sociedade, que reduz a práxis política à militância partidária e/ou em grupos que se organizam para fazer a “política universitária”, isto é, disputar os cargos e recursos disponíveis. Numa sociedade cujos fundamentos são a desigualdade, o individualismo e os interesses corporativos e particulares, torna-se necessário organizar-se para defender-se e aos “nossos”. É legítimo, portanto, organizar-se em partidos, sindicatos, associações e em grupos específicos de caráter acadêmico.

É um equivoco, porém, reduzir a política ao partidarismo e grupismo corporativista e/ou sob a capa da retórica universalizante. Isso não seria um problema se não houvesse quem se imagina o redentor da humanidade e mantém a atitude arrogante para com os que não trilham os mesmos caminhos. Se ser militante do partido “x” ou “y” é aceitável, não deveria causar estranheza o fato de que determinados indivíduos manterem uma postura independente e distanciada em relação à organização partidária e também dos grupos e “panelinhas”. É razoável esperar que o militante que se engaja nesse tipo de política reconheça a legitimidade de outras formas de ação política, ainda que individual e que, a seus olhos, pareça ineficaz e criticável.

Isso, contudo, nem sempre acontece. O intelectual independente corre o risco de ser desconsiderado e mesmo desrespeitado. Os críticos mais benevolentes cobram-lhe engajamento – não aceitam que a política tem outros meios e que o indivíduo pode manifestar-se e contribuir politicamente sem que, necessariamente, se engaje em estruturas e espaços de poder. Os críticos mais exigentes vêem-no como uma espécie de franco atirador, alguém em quem não se pode confiar e, no limite, descomprometido com as causas dos oprimidos e os rumos da sociedade e da universidade. O equívoco da crítica está em restringir a política ao âmbito institucional do aparato estatal.

A recusa do intelectual em se vincular a partidos e/ou grupos políticos acarreta ônus. Diminuem as chances de compartilhar dos meios e recursos públicos; verá dificultado o acesso aos meios materiais e simbólicos que propiciam as condições necessárias à visibilidade e à melhoria financeira. Se é coerente, não terá a ilusão de constituir o séqüito de seguidores e nem formará discípulos. Alijado das estruturas e espaços de poder, nada terá a oferecer como recompensa aos epígonos. Não inspirará confiança nos que pautam a práxis política pelo espírito gregário – o partido e/ou grupo político exige fidelidade praticamente religiosa. Seu espírito independente o põe em choque com as verdades formuladas pelos “ismos”. A recusa em fazer o sacrifício do intelecto e da liberdade de crítica o torna uma espécie de “metamorfose ambulante” e dificilmente se se sentirá à vontade diante do grupo e do partido. Ele ficará só e deverá se acostumar à condição de exilado. [1]

Não obstante, a militância política não-partidária é uma opção ao intelectual comprometido. A consciência inquieta e crítica levam-no a se responsabilizar diante do dos dilemas da sociedade. Sua militância política é, sobretudo, a atitude comprometida socialmente e que se manifesta cotidianamente nos espaços em que atua.

O intelectual independente vive intensamente dilemas que se traduzem numa certa sensação de impotência, incompreensão e mesmo de auto-culpabilização, na medida em que as pressões o fazem refletir sobre a qualidade e intensidade da sua contribuição.[2] Ele, porém, não está só e seus atos cotidianos, por mais simples que sejam, têm significados políticos.

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* Versão reduzida e adaptada de “Edward W. Said: sobre a militância do intelectual”, publicado na Revista Espaço Acadêmico, nº 82, março de 2008.

[1] “O exílio significa que vamos estar sempre à margem, e o que fazemos intelectuais tem de ser inventado porque não seguimos um caminho prescrito. Se pudermos tentar esse destino não como uma privação ou algo a ser lastimado, mas como uma forma de liberdade, um processo de descoberta no qual fazemos coisas de acordo com nosso próprio exemplo, à medida que vários interesses despertarem nossa atenção e segundo o objetivo particular que nós mesmos ditamos, então será um prazer único”, afirma Edward W. Said (Ver a obra Representações do Intelectual: as Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p.69).
[2] Escrevi algumas reflexões sobre isto no blog. Ver: Sonhei que eu era de direita! e Dilemas de um cético. Ver também “CENTENÁRIO DE GEORGE ORWELL – Os dilemas do intelectual militante de esquerda” (REA, nº 26, julho de 2003) e “Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade” (REA, nº 29, outubro de 2003).

7 comentários sobre “Sobre a militância do intelectual*

  1. Excelente texto, Ozaí. Lembro que o Maurício Tragtenberg também era isolado no meio acadêmico, justamente por não aceitar cargos administrativos ou fazer parte de partido político. Penso que todo docente é um intelectual orgânico. Ele trabalha cotidianamente com sua fala, sua escrita e seus atos. Portanto, ele interfere nas relações de poder de maneira a conservar ou transformar. Nada garante que um intelectual ou não, estando num partido político, esteja mais à frente na condição de agente de transformação. Pode até mesmo ser o contrário. Se a vida é dialética, feita de momentos contraditórios, como afirmar que determinada participação colocaria “maior consciência” no participante? A negação de determinada forma de fazer política pode ser uma forma política mais eficaz. Ou a história nos ensina o contrário? Penso que tem nos ensinado que se repete primeiro enquanto tragédia e depois enquanto farsa. E com certeza, o apego as relações de poder dentro dos quadros institucionais tem sido uma das fortes razões dessa triste repetição histórica.

  2. Caro Ozaí, se a descrição está correta, acho um equívoco o exclusivismo que norteia o texto. Primeiro, professor universitário não milita, trabalha e para isso ganha seus 4 ou cinco mil reais mensais, bem acima da renda per capta do país – 1.400 mensais- e bem acima do que percebe o grosso da população. Vc confunde trabalhar e fazer carreira com militância. Quem milita nesse país são os sem terra, os sem teto, os atingidos por barragens, os que realizam trabalho voluntário nos cursinhos populares etc. Da mesma forma, membros de partido e de sindicatos fazem carreiras promissoras e disputam cargos – com cada vez menores exceções. Se eu aceitar o seu trabalho como militância, terei que afirmar que o carteiro também milita. Vc confunde militância com bom senso e ética. Em todas as instituições há disputa por poder e hegemonia. O problema é que se substitui a disputa clara e baseada em regras comuns pela canalhice reinante em todo canto deste país. Se posso admirar o seu posicionamento contra tal, não vejo razões para lamúria. Um jovem policial, inserido em dado grupo, que se recusa a torturar, a matar, a extorquir, passa por muito mais maus lencóis que os vividos pelos professores hoje. O mesmo o jovem que se recusa a aderir à criminalidade em determinados cantos desse mundo, o político honesto etc. São todos, em dados contextos, portadores minoritários de uma conduta positiva quanto ao ser humano. No entanto, tal conduta encontra horizontes muito mais inóspitos em muitas instituições fora da universidade que dentro dela.

  3. Meu caro Antonio OzaíAo longo dos últimos dois anos aprendi a admirá-lo pela coerência, sabedoria e, sobretudo pelas críticas acerbas que você sem nenhum constrangimento faz. A rigor, essas críticas são necessárias ao desenvolvimento contínuo do pensamento, quer seja ele filosófico, quer seja ele científico.Entretanto, “Sobre a militância do intelectual”, gostaria de ponderar que a práxis política de um intelectual universitária não se resume necessariamente à militância partidária e nem a organização em torno de uma política séria para a Universidade pública, pode ser confundida com a disputa fratricida por cargos comissionados ou assessorias (que a rigor deve ser escrito com “c”, “acessorias”), funções gratificadas e recursos para estéreis laboratórios. Na Universidade federal há mais de vinte anos, não trabalho sob os estreitos limites do individualismo e dos interesses corporativos e muito menos pessoais ou particulares, e não faço parte de organização que propugna defender o que você chama de “nossos”. Não estou organizado partidos, sindicatos ou grupos específicos de caráter acadêmico. A rigor, me reúno com pessoas que acima de tudo acreditam na possibilidade de um dia ver a Universidade pública, realmente pública, e livre das mazelas que você tão bem aponta nas suas críticas.Concordo com você ser uma ignorância crassa tentar reduzir a política ao partidarismo tosco e ao corporativista pífio, ambos enroupado com uma retórica paralisante. São muitos os que ainda se consideram, como é o caso do presidente da República do Brasil, o redentor da humanidade, arrogantes e soberbos procuram desqualificar os “que não trilham os mesmos caminhos”. Quando você fala em intelectual independente, gostaria de dizer que apesar de não pertencer a nenhum partido político não me considero independente, veja: em filosofia, sou materialista, comunista em política e marxista-leninista quando se trata de ideologia. Portanto, jamais poderia advogar minha independência diante da realidade e do desmonte da res publica. Neste sentido, sou adversário ferrenho, especialmente dos grupelhos e das tais “panelinhas”. É razoável e têm legitimidade outras formas de ação política individual, ainda que aos meus olhos, pareçam ineficazes e criticáveis (aliás, tudo pode e deve ser criticado). Todavia, considero que uma vox clamantis in deserto tem pouca valia nesta selva selvaggia em que vivemos. Ou nos unimos, ou morreremos todos!Por ser como sou, não me curvar ao chefe de plantão, e por não militar em determinado partido político, tenho sido atacado e desconsiderado, até mesmo desrespeitado, mas sempre entre dentes nunca em público, os canalhas preferem os corredores do submundo acadêmico. Contra o que possam pensar, me considero um “franco atirador”, alguém em quem me conhece sabe que pode confiar, preocupado com os rumos da sociedade e da universidade. No resto concordo com você, pois enquanto intelectual “independente” vivo dilemas horrorosos que se apresentam, pelo menos para este escriba, como sensação de impotência, embora também saiba que não estou só e meus atos cotidianos, por mais simples que sejam, têm significados políticos.AtenciosamenteMáuri de Carvalho

  4. O texto está perfeito, só faço uma pequena ressalva: a alternativa de atividade política não se resume à participação em organizações de tipo “partido” ou atividade intelectual independente. Existem organizações políticas que não são “partidos” e que não disputam espaços de poder no Estado (ou nos sindicatos, na academia, etc.). A política pode (aliás deve) ser praticada como anti-política, ou seja, anti-poder, negação do poder estatal (ou institucional de qualquer tipo) baseado na separação de classes e na lógica hierárquico-conflitiva do capital; e como educação dos indivíduos para a construção de outros tipos de relação humana.

  5. Grande Antonio,oportuno este texto do blog, aliás, como a bela resenha do belíssimo pensador que você publicou na REA. Suscitou em mim velhas ponderações, e peço licença a você a aos amigos do blog para compartilhá-lasDesde que Aristóteles descobriu que o ser humano é um animal político, sabemos que tudo o que o homem faz é político: desde as esferas biológicas, afetivo-familiares, espirituais, até as culturais, sociais e especificamente políticas, todas as suas ações e atividades projetam e inserem-se no horizonte maior da política. Só que isso não parece tão evidente devido ao trabalho ideológico encetado pelos mecanismos institucionais das classes que detêm a propriedade dos meios de produção/distribuição /circulação de bens e das classes que detêm o poder político: não interessa às elites propriamente políticas “democratizar” a ação política nem que o povo perceba que faz política a todo o instante. Pretender separar atos políticos de “apolíticos” já é uma pretensão altamente política !!!É mistificação burguesa, diríamos no tempo em que era mais fácil discernir as classes constituintes de uma sociedade.Se apenas viver e “tocar a vida” já é ato político, fazê-lo conscientemente torna-se prática política. Pois todos somos políticos passivos ou políticos conscientes.Para viver e “tocar a vida” precisamos trabalhar e envolver-nos numa teia de relações sociais e econômicas: se “homem nenhum é uma ilha” e precisamos da vida dos outros para tocar a nossa, está aí a matriz da atividade política.Muitos pensam que militância política dá-se apenas nas instâncias partidárias ou nas instituições especificamente políticas. Viver e deixar viver com consciência social é militar politicamente. Exercer a profissão com dignidade e denodo é militar politicamente. Ajudar o vizinho numa precisão é militância política.Alguns são políticos passivos e inertes, dando força, com isso, aos políticos ativos que buscam apenas aos benefícios individuais ou de sua classe.Outros, somos políticos ativos (militantes), dando força, assim, para começar a tecer uma sociedade mais justa e igualitária.É neste sentido que vejo a pertinência de expressões como “militância intelectual”, “militância religiosa”, “militância sindical”, “militância popular”, “militância de bairro”, “militância de condomínio”, – até a militância partidária e a prática política em tempo integral nas instituições políticas que governam a sociedade.Todos somos políticos e tudo o que fazemos é política, resumindo-se a questão em sabermos disso ou não. E nossa ignorância e/ou omissão não é neutra (não existe neutralidade em política) – ela encorpa a ação política dos que detêm formalmente o poder político, e buscam evitar a tessitura dos novos tempos, tempos de justiça e fraternidade.E, como todos temos uma ideologia (conforme o lugar social em que nos colocamos), essa ideologia perpassa todos nossos atos diários, manifesta-se no trato família, profissional, sindical, partidário. Por isso a continuidade entre ideologia e militância política. O ato político é a ideologia encarnada. A prática ideológica é a militância política. A prática política consciente vinculada a um partido ideológico só engrandece aquele que a faz, embora não desmereça ninguém a opção de atuar politicamente fora de partidos. A seara política tem muitas plantações, e cada um planta onde melhor se realiza e se expande. O que importa é dar testemunho das próprias convicções, e lutar por elas – lutar com ética e tolerância. Militância política não é guerra política.Já as brigas pelo poder nas várias instâncias sociais (em casa, no trabalho, na escola, na igreja, no partido, nas Câmaras e Governos) podem ser confrontos ou politicagem: buscam reduzir o amplo horizonte político ao horizonte de um só (ou um só grupo, ou uma só classe social) na politicagem. Buscam sobrepor-se através do choque de força, nos confontos. Tais brigas políticas, com seus jogos e sutilezas, suas venalidades e ameaças, seus casuísmos e aliancismos ocasionais e espúrios, reduzem a nobreza e amplitude da vida política, e tornam o animal político que as pratica apenas animal.Assim como a intolerância e o repúdio gratuito pelos que não pensam de forma semelhante tornam quem as pratica menos que animal. Um nada.

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