Como a vida é bela e frágil!

O sol radiante e potente anuncia mais um dia, um belo dia. Abro as janelas para que seus raios iluminem o interior da minha morada. O cachorro acompanha os meus gestos e sabe que, não sei como, que é o momento de fazer as necessidades fisiológicas – palavra erudita para dizer o que sabemos e fazemos. Como demoro, ele, à maneira canina, protesta. Dirijo-me à porta, ele se adianta e espera junto que eu a abra. Saímos! Enquanto ele “se alivia”, observo no meu pequeno jardim uma linda rosa rosa – não é repetição da palavra, a rosa tem a cor do seu nome. “Como não a via antes?”, me pergunto. Prefiro as rosas vermelhas, as quais também me recordam uma das pessoas que aprendi a admirar: a revolucionária Rosa Luxemburgo. Sinto-me bem por viver mais este dia e poder deslumbrar-me com a singela beleza da rosa no meu jardim.

Retornamos ao interior da casa, eu e o pupi, faço o café, me alimento e ligo o computador. É domingo, mas há o que fazer. A máquina permite o “milagre” de tornar todos os dias igualmente destinados ao trabalho; ela anula a divisão entre o lar e o local do trabalho, a universidade. Ocupo a mente, e meus movimentos se restringem a digitar e olhar o monitor; exerço uma atividade que para muitos não é trabalho. As fronteiras entre o lazer e o labor são tênues, especialmente para os intelectuais vinculados a determinadas áreas do conhecimento, como as Ciências Sociais. Enquanto trabalho, sinto coceiras em minha perna, provocadas por um pernilongo. Levanto e vou buscar o veneno que o matará e será a minha defesa – veneno que alguns chamam de “remédio”, o que se torna engraçado já que é aplicado ao inseto, talvez para “curá-lo da compulsão” de se alimentar do meu sangue.

Retomo o trabalho e, como em minha cidade a dengue se alastra nessa época – no ano passado chegou a ser epidêmica – um pensamento me assusta: “E se for o mosquito da dengue?!” Rio dos meus pensamentos calamitosos, mas sei que é uma possibilidade racional – é que nós, humanos, sempre achamos que a desgraça só acontece com o outro, com o nosso vizinho, etc., e por isso muitos não cuidam do próprio quintal.** De repente, o vilão voa diante dos meus olhos e instintivamente o mato. Mancho as minhas mãos com o sangue que ele me roubou. Observo-o com a curiosidade de um estudante das ciências naturais, mas não consigo identificar se é o tal Aedes aegypti. Compreendo-o! Na verdade, ele estava apenas seguindo o ciclo da vida, ele não me queria mal, muito menos me matar, mas apenas se alimentar e se manter vivo. Coitado, não vive mais!

O inseto jaz à minha frente; seu túmulo é uma folha de papel, na qual ele se destaca como um ponto minúsculo. “Como pode um ser desta natureza ter o poder de provocar a morte de um ser humano infinitamente superior em tamanho e inteligência?”, penso. Rio comigo mesmo ao lembrar que humanos em determinadas circunstâncias causam mais mal do que um inserto; e, por outro lado, nem sempre demonstram possuir a inteligência racional que supomos. Alguns tipos humanos são vis e não é por acaso que são equiparados a inseto – o que é uma ofensa a este.

Penso na rosa em meu jardim, na alegria de poder vivenciar mais um lindo dia que a natureza me oferece sem nada cobrar. A imagem do inseto diante de mim, porém, me faz ver o quanto a vida é frágil. Esse ser, em toda a sua insignificância, tem o poder de me fazer sofrer e, no limite, provocar a minha morte. Recordo de Ivan Ilitch, personagem criado por Tolstói, e da forma ridícula como ele se acidentou, provocando um sofrimento tão atroz que só a morte poderia aliviar.*** O fato de um reles inseto ou um acidente banal ser a fonte de tanta dor e aniquilamento mostra o quanto somos frágeis. Paradoxalmente, também expressam o significado da beleza do viver.

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* Escrito na manhã do dia 23 de março de 2008, domingo de páscoa.
** Ver: Dengue e política, publicado em 16 de fevereiro de 2008.
*** TOLSTÓI, Lev. A Morte de Ivan Ilitch. [Tradução de Boris Schnaiderman]. São Paulo: Editora 34, 2006.

3 comentários sobre “Como a vida é bela e frágil!

  1. Olá, Ozaí! Aqui é o Jefferson (do contra-ordem.blogspot.com). Estou preparando um livro de estréia de poesias… vi que vc escreveu sobre o livro do Alípio. Gostaria, se possível, do seu contato e do Alípio para que os envie esse livrinho. Um abraço, jeff

  2. Caro AntonioSeu textos são ótimos para reflexão cotidiana. Obrigado por ser um intelectual que soma e faz a diferença em um Brasil mergulhado no preconceito e na falta de educação de qualidade.Abraços

  3. Gostei demais deste texto. Como outros que voce escreve, este tambem convida o leitor a pensar nas coisas, ponderar as grandes questoes da vida que em geram aparecem disfarcadas em pequenas questoes da vida, tais como a visao de uma rosa, levar o cachorro pra fazer pipi, um inseto azucrinando a gente. Gosto como voce coloca este pernilongo na sua narrativa, e como voce o usa na reflexao. Me fez lembrar dois poemas: o primeiro e’ de William Blake, ingles, seculo XVIII, e o outro e’ um poema da Emily Dickinson, americana, seculo XIX. Vou colocar os poemas aqui abaixo, e uma traducao rapida, ok? E’ interessante como, nos dois casos, assim como no seu texto, os dois poetas fazem estas reflexoes sobre a vida e a morte, usando o mosquito como o “gancho”. Sim, a vida e’ bela, De vez em quando ela doi de tao bela. E e’ fragil e curta! Abracos, e vamos em frente! Eva The Flyby William Blake Little Fly, Thy summer’s play My thoughtless hand Has brush’d away. (mosquitinho/ sua brincadeira de verao/ foi terminada/ pela minha mao descuidada)Am not I A fly like thee? Or art not thou A man like me? (E nao sou eu/ um mosquito como voce?/ou nao e’ voce/ um homem como eu?)For I dance, And drink, & sing; Till some blind hand Shall brush my wing. (Porque eu danco/ eu bebo, e canto/ ate’ que alguma mao cega/ vira’ para derrubar minha asa)If thought is life And strength & breath, And the want Of thought is death; (Se o pensamento e’ a vida/ e forca e respiracao/ e que a falta/ de pensamento e’ a morte;)Then am I A happy fly, If I live Or if I die. (entao eu sou/ um mosquito feliz/ Se eu vivo/ ou se eu morro) ———————————— ‘I heard a Fly buzz-when I died’by Emily Dickinson I heard a Fly buzz – when I died – The Stillness in the Room Was like the Stillness in the Air – Between the Heaves of Storm – (Escutei uma mosca zoar–quando eu morri–A Quietude no QuartoEra igual a quietude no Ar–Entre as camadas da Tempestade–) The Eyes around – had wrung them dry – And Breaths were gathering firm For that last Onset – when the King Be witnessed – in the Room -(Os olhos a minha volta –tinham enxugado-os todos–E as respiracoes estaram ficando firmesPara um ultimo Poente –Quando o ReiSeria presente — no Quarto–) I willed my Keepsakes – Signed away What portion of me be Assignable – and then it was There interposed a Fly – (Eu me forcei a lembrar minhas lembrancas — e renuncieiAquela porcao de mim que eraRenunciavel — e entao ali estavaInterposta, uma mosca –) With Blue – uncertain stumbling Buzz – Between the light – and me – And then the Windows failed – and then I could not see to see -(Com cor Azul — e um Zumbido incerto, descontinuado–Entre a luz — e eu–E entao as Janelas falharam — e entaoEu nao podia ver para ver–)

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