Ser comunista

Houve um tempo em que eu temia os comunistas. Os adultos, meio em tom de surdina, se referiam a eles como se fossem bichos-papões, seres atemorizantes e mancomunados com o demo (não o povo, mas aquele cujas características são indescritíveis e os nomes são vários e impronunciáveis; seja como for, o demo era vermelho). As referências aos comunistas produziam um imaginário assustador. Diziam até que eles comiam criancinhas. Literalmente! Quando eu levava o almoço do meu pai e tinha que passar por uma área florestal, o fazia praticamente correndo (vai que algum estivesse à espreita?!). Hoje, dizem por aí que, na verdade, quem come as crianças são uns seres disfarçados sob uns trajes longos, os quais, pelo falar e agir, parecem enviados dos céus.

O mais assustador em tudo isso é que as pessoas, especialmente os adultos, acreditavam piamente no imaginário difundido sobre os comunistas. E não se trata do anticomunismo esclarecido, mas daquele que prevalece entre os homens e mulheres comuns, profundamente religiosos e ignorantes quanto às teorias e ideologias. Não obstante, o anticomunista esclarecido também faz uso dessas crendices e de tanto repeti-las termina por acreditar.

Minha mãe, ao mudar-se para São Paulo, “salvou-me” dos comunistas que provavelmente habitavam o local onde meu pai trabalhava (Paulo Afonso, Bahia, na Companhia Hidroelétrica do São Francisco – CHESF). Logo, porém, descobri que também ali havia comunistas – embora ainda não os tivesse visto. Diziam até que eles freqüentavam o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema e me aconselhavam a manter distância deles. Depois, passaram a apontá-los. Quanto mais falavam mal, mais atiçavam a minha curiosidade (o que me motivou a pesquisar e escrever o História das Tendências no Brasil). Não me parecia que eram pessoas de má índole ou que tivessem interesses escusos. Observava, inclusive, que estavam entre os mais dedicados à causa operária. Assim, apesar de tudo, admirava-os.

Resistia à tentação. O imaginário do tempo de criança foi superado, mas o ateísmo representava um fosso intransponível. Quando estava no colegial, um colega trotskista tentou me convencer. Ele falava de Trotsky como se fosse um deus, mas o meu Deus era maior e não admitia rivais. O discurso materialista me assustava e no meu inconsciente sobreviviam as imagens que vinculavam o comunismo ao demo. Eu era um jovem a descobrir o mundo e pronto a abraçar utopias que respondessem às minhas indagações sobre as injustiças. O azar dele é que, além da minha formação religiosa, havia a influência de uma amiga cujas convicções eram mais próximas às minhas. Ela me forneceu o alimento para o espírito, textos como o poema O Operário em construção (Vinícius de Morais), o ensaio O Socialismo e as Igrejas (Rosa Luxemburgo). Essa literatura política estava mais consoante com as minhas crenças. A participação na Pastoral Operária e a adesão à Teologia da Libertação foi, portanto, um caminho natural. Mais uma vez fui “salvo” dos comunistas!

Porém, mais do que o discurso ideológico é a práxis política que educa. Com o tempo, aprendi que havia várias maneira de “ser comunista”: leninista, trotskista, stalinista, maoísta, guevarista, luxemburguista, etc. Descobri que ser cristão também era uma forma de “ser comunista”. Um jeito de ser, como os demais, limitado. Com o tempo, conclui que a prática é mais importante do que os rótulos. O que faz a diferença não é que digo ou dizem de mim, mas o que faço ou deixo de fazer.

Ps.: Essa reflexão foi inspirada pela leitura da obra Tempos Interessantes: uma vida no século XX (São Paulo: Companhia das Letras, 2002), especialmente o Capítulo 9, de Eric Hobsbawm.

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* Imagem: localização da cidade de Paulo Afonso (BA).

15 comentários sobre “Ser comunista

  1. O problema entre revolucionários é que muitos buscam messias e não a revolução.
    Teu amigo trotskista se parece com muitos que vi em minha militância. E é assim mesmo.
    A melhor forma de não entender as coisas é cultuar formas e não compreender conteúdos.
    No fundo, meu caro amigo e sempre professor, o problema está no esforço político em responder aos problemas práticos da luta pela transformação radical das coisas. Por exemplo, a Rosa Luxemburgo fazia essa disputa: chegou a escrever artigos diários, quando isolada da direção do SPD, e ela mesma rodava o mimeografo e mandava para mais de 200 jornais por carta… A cada dia.
    A busca pela originalidade revolucionária, não é fácil.
    Um forte abraço,

  2. Sabe… tbém fui criado no seio de uma família cristã-católica… aprendi o que é solidariedade e amor ao próximo… mas tbém que os comunistas eram maus…Com o tempo… fui percebendo que as práticas que aprendi como sendo cristãs têm muito a ver com o que eu entendo de comunismo… costumo dizer que minha avó era comunista sem saber!!!Afinal… existem várias formas de ser comunista!!!

  3. Caro Ozai. Gostaria de tornar pública uma espécie de desagravo aos que do alto de sua iluminação procuram desqualificar pessoas e suas história, sonhos e ideais. Neste sentido, ainda sobre os comunistas, o que se espera de quem sobre eles discorre é, no mínimo, respeito. É preciso compreendê-los em seu tempo, seus propósitos, suas possibilidades, suas frustrações, sem nenhuma conotação hagiográfica ou alienada. Por exemplo, convivi com comunistas do PCB e do PCdoB, tanto quanto com os do coletivo Luiz Carlos Prestes e, talvez por ser um deles, um comunista, jamais os vi como santos lutando contra o demônio, combateram, isto sim, bravamente contra a ditadura civil-burocrático-militar que sabiam ser ela a folha de rosto do capitalismo de feição imperialista (cf. Operação Brother Sam). Ninguém combatia “moinhos de ventos”. Os comunistas que conheci e conheço, meus amigos e camaradas, eram marcadamente disciplinados, mas jamais serviçais do Partido, eram ousados, talvez pouco criativos quando se trata de revolucionar uma sociedade, até porque não existe criatividade a priori, é processo. Sem querer adentrar o mérito do comunismo de Hobsbawn, eu diria que o tratamento dado aos comunistas por um anônimo, é próprio de quem não conheceu os comunistas, seus ideais, sua generosidade, seu despreendimento, que jamais se propuseram tomar pela força o poder (isto é coisa do blaquismo), vez que para eles era a classe operária o ele,mento impulsionador da tomada do poder. Saber governa ou não saber, é na hora da luta que se descobre quem conseguirá ou não governar. Não é inteligente admitir que apenas a burguesia (e os que imitam a sua vida devassa) é que sabiam e sabem(???) fazer sexo gostoso com suas mulheres. Ser ou não ser um pai presente, é uma questão de escolha: a causa ou o filho, sendo que a causa deve atender ao desenvolvimento pleno dos filhos mais adiante. Por outro lado, os comunistas que conheço e que leram Reich, não aprenderam sexo com ele, mas com suas companheiras. Os comunistas não copulavam, não copulam, mas se entregam aos braços de suas companheiras numa relação prazerosa a ambos. Muito me intriga que ainda hoje as pessoas procuram estigmatizar os comunistas, corroborando com os discursos que os capitalistas e sua intelectualidade proferiram contra nós ao longo dos anos desde a Comuna de Paris. Intriga-me que invectivem contra os comunistas afirmando que nós comunistas não gostamos do que o povo gosta. Mas o que o povo, senão uma categoria abstrata e sem lastro concreto. Mas definido o povo, do que é que ele gosta: cachaça ou champagne? Ora, ora, o que é o senso popular ou será que estamos aqui a resgatar a “proletkult”? O preconceito colonizado, por desconhecer os movimentos autóctones, procura fora de suas fronteiras os festeiros, os que gostam de música, de cultura em geral e blá, blá, blá, blá… Posto isto, o livro em questão é muito interessante, mas não pela suposta crítica (sem auto-crítica) aos comunistas.Máuri de Carvalho

  4. Caro Ozaí, Concordo plenamente com você. Embora não tenha vivido na mesma época meus estudos sobre os intelectuais católicos na década de 1930 e 1940 me ensinaram muito sobre a demonização do comunismo e sobre o anticomunismo. Como você, penso que as generalizações, os rótulos não nos ajudam em nada no entendimento desta questão. Toda forma de extremismo, seja à direita ou a esquerda é negativa. Quanto a relação entre católicos e comunistas na década de 1930 e 1940 já havia alguns intelectuais católicos de peso, como Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção (que mais tarde daria uma quinada à direita)e Sobral Pinto que, mesmo sendo totalmente contrários ao comunismo, se aproximavam dele ao propor uma regime social mais justo. Baseando-se na doutrina social da Igreja, cujo marco inicial foi a encíclica Rerum Novarum (Leão XIII)propunham uma espécie regime distributista. Não podemos nos esquecer que Sobral Pinto aceitou ser advogado de Prestes. Da mesma maneira que, Tristão de Athayde diz textualmente em algumas de suas obras que condenava apenas o lado filosófico da doutrina marxista,admitindo que suas reivindicações por um regime social mais equitativo eram justam.Em suma, acredito que as generalizações e os rótulos implicam num grau de conhecimento bastante raso. Pois, quando nos aprofundamos em algo na maioria dos casos encontramos peculiariadades que nos afastam desta prática.LeandroP.S. – Peço desculpas pelo tempo que me afastei do blog, mas estava enfiado nos meus trabalhos.

  5. Oi Ozaí!O comunismo, hoje, perdeu muito espaço devido às atrocidades que cometeu, por não ter conseguido superar uma lógica da exclusão em sua prática de poder.Tanto que atualmente esse anticomunismo nem mais precise ser atualizado. O que precisa sim ser atualizado é a luta em favor da felicidade social. Nela, sim, devem ser bem vindos os cristãos. Pena que estes se mostrem por vezes tão conservadores, principalmente os evangélicos.O cristianismo tão afastado da prática acadêmica e partidária teria por ensinar um valor por demais necessário aos nossos tempos, talvez o único mandamento do novo testamento: o amor.Abraço.Rodrigo.

  6. Starik, Seu texto “Ser Comunista” acabou sendo um rótulo textual, e isso é justamente o que deve ser evitado, os rótulos, pois a maioria das pessoas acabam confundindo rótulo com identidade – e não só as desinformadas, mas também no meio universitário, inclusive docentes, como temos visto frequentemente..Tais pessoas, ao dissertar sobre o rótulo, pensam que estão analisando a identidade – daí a retórica vazia e descentrada de tais “analistas”, cujo objeto de sua “análise” está a léguas de distância, o que torna suas apreciações extemporâneas e vazias de sentido.Suas considerações sobre “Ser Comunista” são as da III Internacional, o que, hoje, torna-se um contra-senso. O que foi válido à época de sua elaboração e, portanto, uma resposta/reação àquele momento histórico, hoje soa livresco, e o discurso acaba limitando-se à sua forma – o discurso. Sem chance de tornar-se movimento, ação congregadora e transformadora.Os partidos políticos hoje atuam de forma diferente, os próprios PC´S são diferentes (a maioria fossilizou-se no rótulo), o engajamento é diferente, e a militância assume formas e lugares antes não imaginados: no capitalismo globalizado, com sua produção “just-in-time” e descentralizada mundialmente, com seus fluxos financeiros “on-line” que podem erguer ou destruir economias em segundos, com o primado da especulação sobre a produção, nesta sociedade do espetáculo (Debord) onde constatamos a existência do trabalho imaterial e do trabalho simbólico (Negri), das empresas virtuais e onde o trabalho/trabalhador industrial perdeu sua importância e liderança no questionamento ao capitalismo, precisamos buscar formas diferentes de agir, em sintonia com a época de HOJE – caso contrário, estaremos perdendo tempo tentando arrombar uma porta que já está destrancada, e acabaremos fazendo o jogo e fortalecendo justamente a quem procuramos combater.Nosso momento histórico de hoje é completamente diferente de 100 ou mesmo 50 anos atrás, e o que era válido então hoje torna-se contraproducente e, às vezes, até um obstáculo. Daí a necessidade de evitarmos os rótulos, desmontar as “análises” rotuladoras, e fazer sobressair a identidade.Acredito que o marxismo mantém seu vigor teórico e seu frescor revolucionário (Anderson), o que torna “ser comunista” nos padrões leninistas um rótulo que esgota-se em seu próprio discurso. Teve sua importância e adequação históricas, evidente, mas isso não significa que ainda as tenha hoje.Como criticar aqueles que repudiam o marxismo através dos estereótipos se nós mesmos o estereotiparmos?Um abraço.

  7. kkkkkOzaí, eu não vivi esse tempo conturbado qe vocÊ viveu, mas vi os reflexos disso tudo nas palavras de meus avós e minha mãe, que viveram em São Paulo… rs!!!Realmente os “comunistas” são pessoas que nos assustam, por serem algo novo, algo que a humanidade ainda não se interessou (pelo menos por vontade própria) para viver.Gostei das críticas ironzadas dentro do texto!! A crítica aos sacerdotes pedófilos foi perfeita.Grande literatura.Um abraço!

  8. Ozai. Ao contrário de voce, desde criança convivi com comunistas do PCB, a maioria vivendo na clandestinidade. Eu era simpático a eles, achava-os santos lutando contra o demônio da ditadura militar. Depois, por observação do meu próprio pai, reconheci que eram pessoas disciplinadas, serviçais as ordens do Partido, pouco ou nada criativos, nada ousados, sem “chutzpah” (eu diria hoje). O próprio Hobsbawn, nesse texto que voce se inspira analisa o que era “Ser comunista” naqueles tempos. No fundo, os comunistas que convivi eram uns coitados que jamais teriam força suficiente para chegar ao poder, e se chegassem não saberiam como governar o povo. Nem passava pela minha cabeça imaginar os comunistas da minha infância comendo criancinhas. Nem eles fazendo sexo gostoso com suas mulheres ou sendo “pais presentes” porque eram distantes fisica e afetivamente deles. W. Reich contribuiu muito para eu saber como era a vida sexual dos comunistas. Intrigava-me que os “meus comunistas” não gostavam do que o povo gostava, isto é, não sabiam como reconhecer onde estava o senso popular. Talvez os comunistas da Itália fossem mais festeiros, gostassem de música, de cultura em geral e fossem menos problemáticos que os comunistas que conheci. Talvez…Esse livro do E. Hobsbawn é “imprescindível”. Um abraço. do Raymundo.

  9. Caro Ozaí,Em tempos de muita correria, o fim de mais um domingo se aproxima e tive a oportunidade de ler outro belo texto de sua autoria. Estou com você: há várias maneiras de ser comunista. Belíssima a maneira como aborda o lado demonizado da idéia comunista… Parabéns! Abraços e boa semana!Roberto.

  10. Ser comunistaVou colocar um pouco de pimenta nesta questão. O que é ser comunista hoje, ou com outras palavras, que tipo de homem e de mulher deve ser o(a) comunista, à que deve aspirar e que como atuar?Se por um lado, para Nadejda Krúpskaia, o(a) comunista é, antes de tudo, um homem social, com instinto social desenvolvido, desejoso(a) de que todos os homens e mulheres vivam bem e sejam felizes. Por outro lado, para Vladímir Uliánov, o(a) comunista tem algumas tarefas: 1) compreender o que ocorre ao seu redor e conhecer o mecanismo político econômico do modo de produção capitalista; 2) estudar com acuidade e rigor as leis do desenvolvimento da sociedade capitalista; 3) conceber o comunismo não apenas como uma formação social e econômica desejável, onde a felicidade de uma minoria não será edificada sobre a desgraça da maioria; 4) entender que o comunismo é precisamente uma formação social e econômica e a única compatível com o pleno desenvolvimento de todos os homens e de todas as mulheres; 5) esposar a tese segundo a qual os comunistas devem abrir caminho para esta formação e contribuir para sua implantação. Em sua vida profissional / pessoal o(a) comunista deve guiar-se, sempre!, pelos interesses do comunismo. Esta condição significa que o êxito da causa comunista requer, grosso modo, que o(a) comunista abandone as comodidades da vidinha pequeno-burguesa que, por vezes, é instado(a) a viver.O(a) comunista sempre coloca os interesses coletivos dos comunistas (e não dos reformistas e revisionistas trânsfugas) acima dos interesses pessoais. O(a) comunista luta ativamente contra tudo o que prejudica a causa comunista, os interesses dos trabalhadores e, por outro lado, defende ativamente estes interesses, considerando-os como seus.O movimento comunista já não mais comporta os apologistas de alianças espúrias, com (I) colaboracionistas, ou seja, aqueles que põem seus interesses pessoais ou da facção à qual pertence sobre os interesses da causa e da luta do proletariado; (II) os que vêm com indiferença o comunismo e não movem um dedo para contribuir à sua implantação; (III) os intelectuais a cometidos de uma mórbida soberba.E mais ainda, o(a) comunista deve saber o que não presta no modo de produção capitalista, para onde se encaminha desenvolvimento social e econômico e contribuir o mais que possa para o processo revolucionário, a ante-sala da sociedade comunista.Mas o que vem a ser um comunista?Pensando com Lenin, eu diria que a tarefa histórica do comunista é educar as novas gerações na necessidade de combater sem tréguas e sem quartel à exploração do homem pelo homem, combater os exploradores e oportunistas de todos os matizes e ocultos nos mais diversos discursos.Deve o comunista demonstrar com a força do exemplo, aos mais jovens, a necessidade da grande união pela erradicação do capitalismo, para tanto deverá incorporar a certeza nesta causa comum, para que no futuro a exploração não mais seja que uma tênue cicatriz na epiderme da história.A linha política leninista considera como papel histórico e político do comunista ombreado ao proletariado e camponeses pobres, desenvolver e impulsionar a emancipação intelectual do proletariado necessária à formação da consciência socialista e enaltecendo seu caráter democrático revolucionário. Sobre a correlação de forças no atual estágio do capitalismo brasileiro, encontrei no texto de Lenin “No Caminho” elementos que me fizeram parar para repensar a ação política dos(as) comunistas contra os progressistas e socialistas democráticos que se mantém encastelados na deliqüescente burocracia política e no parlamento burguês agasalhando esperanças na transformação social pelo cretinismo parlamentar.Sobre esta estapafúrdia quimera, Lenin deixou a seguinte lavra: As novas condições do momento reclamam novas formas de luta; a utilização da tribuna da Duma é uma necessidade absoluta; o trabalho prolongado de educação e organização das massas do proletariado passa para o primeiro plano; a combinação da organização legal com a organização ilegal coloca ao partido, tarefas especiais: a popularização e o esclarecimento da experiência da revolução desacreditada pelos liberais e pelos intelectuais liquidacionistas, são necessários tanto para os objetivos teóricos como práticos. Hoje mais que dantes é necessário a depuração do movimento comunista e o dos trabalhadores do elemento vacilante pequeno-burguês que aderiu à luta do operariado em virtude de uma extremada esperança no triunfo eminente de um governo de suposta matiz socialista. Historicamente, tem sido o elemento pequeno-burguês aquele que vocifera cheio de razão aos trabalhadores e camponeses pobres a seguinte e reacionária palavra de ordem: não vos dirijais para a ilusão socialista ou comunista onde já fostes derrotados mais de uma vez, não tomeis novamente este caminho fatal. Vamos pelo meio!Frente a esse elemento, o papel basilar do(a) comunista é o seguinte: os derrotados aprendem bem. Por isto, devemos realizar um trabalho prolongado de preparação de “massas” mais amplas, de preparação mais séria, tendo em conta tarefas mais elevadas e concretas, e quanto maior for a eficácia com que a realizemos, tanto mais segura será a vitória da nova luta. O proletariado brasileiro pode orgulhar-se de que o aprendizado longo dos anos de duras batalhas, o habilitou para realizar de forma conseqüente, firme e paciente um trabalho de educação e de preparação de quadros de uma força revolucionária mais poderosa.Nas “tarefas urgentes do nosso movimento”, Lenin dedicou sua atenção ao dever a que estava chamado a cumprir os(as) comunistas, esse dever estava restrito ao levar as idéias socialistas e comunistas como forte coadjuvante da formação da consciência política ou consciência de classe ou consciência socialista na massa do proletariado e com ela organizar um partido revolucionário indissoluvelmente ligado aos movimentos operário e camponês.Na concepção leninista, essa consciência é necessária, indispensável, por isto, tocava aos comunistas como obrigação moral principal e fundamental, coadjuvar o desenvolvimento político e a organização política da classe operária. Para ele quem ignorasse ou relegasse essa incumbência à segundo plano e não subordinasse a ela todas as tarefas parciais e os distintos procedimentos de luta, se situava no caminho falso e inferia um grave dano ao movimento. Assim, o papel dos(as) comunistas consistia em ilustrar, educar, atrair para uma vida nova as ‘camadas’ mais atrasadas da classe operária e do campesinato pobre. A base da ética comunista radica na luta pela destruição do capitalismo e a realização do socialismo – fase primeira da sociedade comunista. Assim, a ação dos comunistas não consiste em ofertar à juventude em geral um rosário de discursos adocicados de toda a espécie, teoria sem prática, prática sem teoria, mas fazê-la compreender que as regras ‘éticas’ vigentes nesta sociedade ratificam a exploração do homem pelo homem, a extorsão da força de trabalho do proletariado pela burguesia industrial, fundiária e financeira. A dimensão política da ação dos(as) comunistas deve radicar na análise, compreensão e interpretação da realidade objetiva para a consecução da sua transformação. Não se trata de reformar a sociedade burguesa mas de desmontá-la para edificar uma outra. De modo que os(as) comunistas devem oferecer à juventude as bases do conhecimento científico e filosófico, despertar e desenvolver a sua capacidade de forjar por si mesmo concepções comunistas, fazendo com que essa juventude se transforme num conjunto de homens e mulheres cultos e partícipes na luta pela libertação do trabalho do jugo do capital.

  11. Caro Ozai, acho que o anti-comunismo primario que o rodeou na infância ja é uma reaçao moderna, pois pelos menos referia-se ao que se passava no século XX. Suas lembranças me remeteram ao medo que tinha minha mae dos maçons. Houve uma época em que meu pai aventou a hipose de entrar para a maçonaria e foi um Deus nos acuda em casa. Ora, a origem desse medo remonta pelo menos ao século XVIII, à Revoluçao Francesa e, quanto a nos, ao século XIX, à independência, ao império, ao abolicionismo. Se estiver enganada, me corrija (mas nao as minhas proclises, que sao perfeitamente legitimadas por José de Alencar e outros bons escritores, e também pelo conhecimento de nossa prosodia, bem diferente da portuguesa – nosso pronome objeto simplesmente nao é atono, logo, pode vir antes do verbo, sim senhor – pergunte ao escritor seu conterrâneo, Domingos Pellegrini).Ou seja, meus medos eram bem mais arcaicos do que os seus e, sobretudo, absurdos nessa época. Lembro-me de quando passava na frente da igreja protestante de Jacarezinho, com medo até de olhar para dentro, quase correndo mas fascinada justamente pela condenaçao que do pulpito ainda se usava lançar sobre esses “hereges”.So para lhe dizer que neste nosso Norte pioneiro paranaense atuavam, nao ha muito tempo, razoes que a propria razao desconhece – e nao eram as do amor ao proximo. Para terminar, você tem razao, as figuras simbolicas do mal se renovam indefinidamente: o impio maçon, o comunista cruel, o terrorista ameaçador da nossa modernidade inocentemente bushiana e clean.Um abraço,Regina

  12. Grande Antonio,Pois é. Você, tantos de nós e a maioria do povo tiveram nalguma fase da vida (e tantos ainda têm!) essa imagem demonizada do comunismo e do comunista. A pergunta é: por quê? Por quê a imagem sempre foi unanimemente negativa, e não positiva? Por quê todos demonizamos o comunista, ao invés de angelizarmos? Por quê “comunista” sempre foi pejorativo, e nunca elogioso? Por quê a imagem sempre foi esta, e nunca, por exemplo, o contrário? E “comunista’ é palavrão, xingamento de morte entre a gente mais simples e humilde, de pouca escolaridade ou educação formal deficiente, vivendo nos rincões e grotões desse Brasil adentro. Nós tivemos oportunidades para nos libertamos desses estereótipos, saímos da “inocência” intelectual, amadurecemos culturalmente: inclusive você deliciosamente lembrou as etapas pelas quais passou o seu processo de conscientização; entretanto, quantos ainda – em idade adulta e morando em grandes centros – estão escravizados a essa “demonização”, inclusive no meio universitário e nos círculos sociais ditos “cultos”? O “porque” dessa imagem, e não de outra qualquer ou de uma imagem neutra, ou indiferente, é a questão. E qual seria o motivo de esta questão despertar tantas paixões? Pendengas acirradas? Discussões acaloradas? Preconceitos? Implicâncias? Exclusões e perseguições?Contudo, no final das contas, o que vale mesmo é o que fazemos ou deixamos de fazer, não os rótulos. Concordo contigo, pois quem rotula os outros é quem geralmente pouco ou nada faz. Apenas rotula ao léu. Mas, por que justamente este rótulo de “comunista” sempre foi execrado justamente por quem nem sabe o que seria marxismo, nunca ouviu falar de Marx nem da URSS, e não tem a menor idéia do que seria comunismo?Um abraço a você a aos amigos do blog.

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