O Sermão da Montanha, Ética e Política

Max Weber, em Ciência e Política: duas vocações[1], faz referência ao Sermão da Montanha proferido por Jesus Cristo (Mateus 5, 1-48)[2]. Considero este um dos mais belos textos bíblicos, inspirador da militância política fundamentada numa interpretação teológica libertadora. Jesus declara que o reino pertence aos pobres (está escrito “pobres de espírito”, mas isso não impedia uma leitura favorável aos social e politicamente oprimidos). Ele bem-aventura os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os perseguidos por defenderem a justiça, mas também os mansos, os misericordiosos, os limpos de coração e os pacificadores.

O Sermão da Montanha, como a Bíblia em geral, permite várias interpretações e, claro, aquela que enfatiza e fortalece a luta por um mundo mais justo e igualitário. “Vós sois o sal da terra”, diz Ele. É uma excelente metáfora para os que almejam fecundar um novo mundo. Isso exige uma ação consciente da missão a cumprir, fundada numa ética da convicção. E é um desafio e tanto, pois, “se o sal for insípido com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (Mateus 5, 13).

O Sermão da Montanha, como demonstra Max Weber, problematiza as relações entre ética e política. São esferas da ação humana incompatíveis e irreconciliáveis? Haveria duas éticas, uma válida para o homem político e outra para a ação humana externa à política? O texto bíblico expressa uma ética absoluta, uma ética do “tudo ou nada”, um “mandamento incondicional e unívoco” (Weber, 1993, p.111). A questão central está em como compatibilizar meios e fins. A política sempre recorre a meios violentos, mesmo em períodos pacíficos (o poder político é definido pela legitimidade e exclusividade no uso de meios coativos). A espada do Estado paira sobre as nossas cabeças em cada momento das nossas vidas, mesmo quando estamos reclusos ao lar e nos limites da individualidade, as teias do Estado nos alcançam. Porém, a ética do Sermão da Montanha declara:

“Ouviste o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa. E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mateus 5, 38-41).

São imperativos de uma ação política fundada na paz, na recusa de meios violentos. Deve-se buscar a conciliação e amar o inimigo:

“Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizeis os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem…” (Mateus 5, 43-44).

São belas palavras, mas a história demonstra que as ações humanas na esfera política – e mesmo religiosa – não se pautam por elas. Já o florentino, no século XVI, observou a impossibilidade de agir politicamente segundo esses preceitos. Nem mesmo os papas! Do tempo de Maquiavel aos dias atuais persiste o dilema da ação política confrontada com as exigências da ética. Como escreve Max Weber: “Pode-se realmente acreditar que as exigências éticas permaneçam indiferentes ao fato de que toda política utiliza como instrumento específico a força, por trás da qual se perfilha a violência?” (p.111).

A ética do evangelho é para candidatos a santos e a política é feita por homens e mulheres de carne e osso, capazes de atos grandiosos, mas também de crueldades indescritíveis. Ensina o florentino que o “homem que desejar fazer a profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são perversos”.[3] Os profetas desarmados foram derrotados.
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* Aos meus alunos do curso de Direito (UEM), que me fazem refletir sobre o passado, presente e futuro.
[1] Ver WEBER, M. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1993.
[2] As citações são do Novo Testamento, editado por “Os Gideões Internacionais”, 1995, confrontadas com a Bíblia Sagrada, traduzida e editada pela CNBB, Brasília, 2002.
[3] MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo, Hemus: 1977, p.87.

5 comentários sobre “O Sermão da Montanha, Ética e Política

  1. Excelente texto. Penso que a violência está inserida no ser humano, na sua construção enquanto ser social. Até o momento o que interpreto que a história nos mostrou é que não vivemos sem a violência. O que se tenta, na melhor das hipóteses fazer, é minimizá-la. A aposta para trilhar esse caminho é o socialismo. Socialismo que num primeiro momento atenda as necessidades de sobrevivência da população, amplie constantemente sua participação até que cada representante se confunda com essa própria população. Nesse momento, poderíamos pensar que a violência, exterior e interior, seriam amplamente controladas. Isto é, dada a possibilidade da construção desse novo contexto, os sentimentos do amor, da amizade, da solidariedade estariam sobrepostos ao ódio, a mágoa e ao mêdo.
    Penso que a religião coloca a condição de respeito por meio da intimidação e do mêdo. Potencializa o irracional na condição de fé incondicional. Os profetas e líderes da desobediência civil merecem meu respeito e admiração, porém não concordo em ser intimidado se não estar ao lado dêles. Quero a liberdade de discordar e poder seguir meu próprio caminho. Considero menos violenta optar por essa liberdade do que segui-los e não ter essa opção.

  2. Infelizmente não estou conseguindo mesmo postar comentários nos seus blogs. Tem algum bloqueador aqui… Mas, segue ai esse comentário um pouco tardio sobre o texto “O sermão da montanha, ética e política”: na “Ciência como Vocação”, Weber coloca a “ética do santo”, como sendo incapaz de resistir ou combater o mal, uma vez que, ao invés de revidá-lo, deve “dar a outra face”. Mas como já foi lembrado, há o exemplo de Gandhi, e ele não foi o único que fez uma política de paz, superando querelas profundas do passado, como o próprio Rabin. No Oriente Médio tivemos líderes, militantes violentos do passado, que renunciaram ao caminho da violência a se empenharam em acordos de paz. Pois violência gera violência, e não a paz. Decerto a política é feito com instrumentos de violência, mas seus princípios e fins devem ser, apesar disso, a intermediação e solução de conflitos, e não a sua perpetuação num ciclo vicioso sem fim. O próprio Weber reconhece isso, quando crítica aqueles que, tendo vencido uma guerra, impõe jugo pesado sobre o vencido; ou aqueles que, se dizendo senhores da razão são incapazes de conduzir o futuro com paz e responsabilidade. Ou seja, as guerras não devem ser infindáveis, e esse compromisso do futuro está sobretudo sobre os líderes e sobre os vencedores. Ora, esse trecho está na “política como vocação”! Não se resiste à violência só pela violência. Aliás, nenhuma ética resiste tanto à violência quanto a do santo, pois a DESLEGITIMA. Aquele que combate a violencia com violencia está legitimando a violencia. E desse teor são os maiores erros políticos registrados em nossa história.De fato, a política não pode prescindir de seus instrumentos de violência legítima, mas, deve se abster dela o tanto quanto possível, para que seja tanto mais eficiente na solução pacífica de conflitos. Abraçoaté.

  3. Ola. E sempre bom ler seus textos. No meu caso, e ainda melhor por estar distante e matar as saudades dos meus bons tempos academicos. Fazia tempo que naum dava uma espiada por aqui, e , realmente foi um alento. Um grande abraco. Continue nos brindando com boas reflexoes.

  4. Apesar de sua bondade e tudo o que disse Jesus, agiu certa vez, para expulsar os cambistas e mercadores do templo. Disse também: O meu reino não é desse mundo. Não acho uma boa idéia usar passagens bíblicas e evangelhos para livrar a cara ou justificar o “modus operandis” de governantes, militantes políticos e seus respectivos partidos. Alegar que há uma ética que serve somente aos candidatos a santo, não servindo, portanto, para homens e mulheres constituídos de carne e osso, não é aconselhável. Será que Jesus pregou somente para invertebrados? Se os ensinamentos bíblicos não contemplam os políticos – por estarem eles sujeitos a outra ética – qual a razão para citá-los? Seria só para justificar ou perdoar seus crimes, suas roubalheiras e descasos com os mais necessitados? Ou você está sugerindo que lhes entreguemos o outro bolso também? Sob qual das éticas viria tal proposição? Uma legitima e permite que se bata numa face e a outra, diz que, quando isso acontecer devemos oferecer a outra…Ozaí, não temos compromissos com erros e violências, e não acho conveniente citarmos os do passado – em condições adversas – para justificar os do presente para perpetuá-los. A não ser para aprendermos e não repeti-los.

  5. Prezado Ozai, gostaria muito que você continuasse essa reflexao e estendesse a analise de Max Weber a Gandhi.Um abraço,Regina

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