Livros, leitura e punição

Tempos atrás fui à escola que a minha filha estudava e visitei a biblioteca. Ao adentrar fiquei entre curioso e contente ao observar a quantidade de jovens presentes. Arrisquei um elogio pelo interesse da juventude em freqüentar a biblioteca. Não fosse isso, no mínimo o(a) professor(a) merecia a referência elogiosa por estimular o amor aos livros. Ledo engano, doce ilusão! Na verdade, logo me esclareceu o responsável, os alunos estavam ali de castigo. Isso mesmo! Os indisciplinados, após serem “convidados” a se retirarem da sala de aula e terem o merecido “puxão de orelhas” por parte dos responsáveis pela direção, eram encaminhados à biblioteca. Ou seja, ficar na biblioteca, até serem liberados para assistir à aula seguinte ou irem embora, era parte da punição. Fiquei pasmo ao ouvir a explicação.

Fiquei a pensar nas repercussões deste tipo de “castigo”. Como estimular a leitura quando a própria biblioteca se torna um espaço punitivo? Será que a vinculação entre esta e a punição poderia produzir efeitos positivos? Afinal os jovens, ainda que obrigados, ficam próximos aos livros. Quem sabe isso não desperta o gosto pela leitura em pelo menos um deles? Pareceu-me que esse era um pensamento ingênuo. Conclui, então, que ainda que essa hipótese pudesse se comprovar, a atitude de transformar a biblioteca numa espécie de purgatório era ineficaz e contraditória com o objetivo de educar e formar leitores.

Isso aconteceu há muito tempo! É interessante que tenha ficado em minha memória, em algum lugar do meu “HD”. Quando eu já considerava tal acontecimento “deletado”, eis que o funcionamento da “máquina”, reativada pela leitura de uma notícia, traz à tona a lembrança, como um “arquivo” perdido no computador que reencontramos meio por acaso. “Juiz solta hackers, mas exige que leiam obras clássicas”, eis a notícia que provocou essa redescoberta. O meritíssimo concedeu liberdade provisória aos infratores da lei com a condição de que, entre outras exigências, leiam e resumam, a cada três meses, dois clássicos da literatura. O “calvário” dos réus começará pela leitura do conto A hora de a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, e a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O juiz destacou o caráter educativo das obras. “Nada como ler um “Vidas Secas” para perceber o que é vida dura, o que é necessidade de dinheiro.” *

A exigência do magistrado é sui generis. É de se imaginar se os libertos cumprirão o dever com a justiça. Considerando-se que são peritos em computadores, o juiz se precaveu e impôs que os resumos sobre os livros sejam apresentados por escrito. Isso me fez pensar sobre a prática de pedir “trabalhos” aos acadêmicos, mas não aceitar que sejam digitados. Isso não impede que o acadêmico plagie e escreva de próprio punho a partir do computador. O professor não tem como vigiar e evitar que se seu aluno adote tal artifício.

Será que o juiz determinou vigilância permanente para garantir que os libertos realmente leiam as obras e não sucumbam à tentação de copiar resumos disponíveis na internet ou em apostilas destinadas aos vestibulandos? E ainda que leiam na íntegra, terá mesmo o efeito educativo positivo imaginado pelo autor da sentença? Pergunto-me se atitudes como a que presenciei na biblioteca da escola e a do senhor juiz. podem desenvolver o gosto pela leitura. Será possível despertar o prazer pela leitura pela imposição desta? Talvez o objetivo do meritíssimo tenha sido apenas “humanizá-los”? Mas será que o ato de ler, nessas circunstâncias, pode gerar resultados positivos para a formação humanista do leitor? Não sei, mas lembro que muitos nazistas também liam os clássicos e eram cultos.
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* Ver Folha de S. Paulo (Caderno Cotidiano), 23 de abril de 2008.

14 comentários sobre “Livros, leitura e punição

  1. Ainda na década de setenta, não me lembro por qual das muitas artes em sala de aula, eu fui mandado para a biblioteca do colégio até que o diretor estivesse disponível para falar comigo e aplicar a punição esperada. Enquanto aguardava, peguei um livro na estante e comecei a folheá-lo. O primeiro capítulo narrava uma luta de boxe e prendeu a minha atenção enquanto tinha que permanecer naquele local. Li alguns capítulos e depois tive que deixar o livro para ouvir o sermão do diretor. Depois voltei à biblioteca para terminar a leitura daquele livro tão fascinante. Por conta do castigo, tomei contato com a obra de Jorge Amado. Jubiabá foi o primeiro de vários outros livros lidos na adolescência.

  2. Um excelente texto! Parabéns! A leitura não é uma hábito brasieliro, infelizmente. Será uma questão árdua a mudança desse condição de “não-leitores”. Muitos profissionais da área de Educação recorrem a esse tipo de atitude por desespero. Deixei minha profissão de Professora de História, vi que não teria condições estruturais para realizar um bom trabalho, mas isso não me impede de enxergar os bons profissionais que atuam e conseguem fazer das más condiçoes no ensino brasileiro uma vitória diária a recuperação e melhoria da Educação.

  3. Esse é o típico texto de quem não conhece e/ou não convive com a realidade da escola pública. Se há algo que realmente falte às escolas públicas é a criação de um sistema disciplinar para conter as barbaridades que ai se pratica e a sabotagem do ensino por parte dos estudantes.

  4. Paz e bem!Pior que professores mandarem pra biblioteca de castgo é o bibliotecário ser conivente com isto – se é que tem bibliotecário.Como sabes sou bibliotecário e quando cursava a faculdade tive uma professora que também trabalhava em biblioteca escolar; na escola em que ela trabalhava também tinham este costume perverso, ela começou a sabotar isto dando balas pros alunos que eram mandados pra ficarem lá de castigo, ela subvertia o castigo em prêmio!

  5. Ozaí, pelo amor de Deus, será que não dá pra sair do velho clichê que é ficar citando os nazistas? O nazismo não foi a maior barbárie cometida pelo homem não. A descoberta da América e a colonização efetuada pelas democracias foram estupendamente mais horrendas que o nazismo. Acaba-se criando um mito!

  6. Ozaí, pelo amor de Deus, será que não dá pra sair do velho clichê que é ficar citando os nazistas? O nazismo não foi a maior barbárie cometida pelo homem não. A descoberta da América e a colonização efetuada pelas democracias foram estupendamente mais horrendas que o nazismo. Acaba-se criando um mito!

  7. OI, PARABENIZO PELO EXCELENTE BLOG, ACREDITO QUE NÓS TEMOS SIM, QUE INCENTIVAR A LEITURA PARA TODOS, E NÃO PARA UMA MINORIA QUE TEM CONDIÇÕES.POR ISTO FAÇO AMINHA PARATE PERANTE A SOCIEDADE, ESTOU AJUDANDO A ORGANIZAR UMA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA EM M BAIRRO PERIFÉRICO DE SALVADOR.

  8. OI, TUDO BEM?ESTOU AQUI PARA PARABENIZA- LO, PELO BLOG, GOSTO MUITO DE SABER AS NOVIDADES.TEMOS SIM, QUE INCENTIVAR A LEITURA PARA OS JOVENS, ADULTOS E PRINCIPALMENTE AS CRIANÇAS.ESTOU AJUDANDO AMONTAR UMA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA EM UM BAIRRO PERIFÉRICO DE SALVADOR, CREIO QUE COM ESTE ESTÍMULO PODEMOS ACRESSENTAR O CONHECIMENTO PARA TODOS SEM EXCLUSÃO.MANUELA ROSA.

  9. Ozaí, Sem querer, pelo que indica no texto, você promoveu uma espécie de continuação do texto anterior. Pois, a concepção de educação e os objetivos que o Estado (me refiro a escola pública, uma vez que, não conheço o dia a dia das instituições privadas)espera da mesma estão diretamente relacionados com as práticas pedagógicas. Dessa forma, a leitura passa ter um objetivo meramente instrumental, visando o mercado de trabalho e necessidades básicas do cotidiano. É muito comum em reuniões com a direção e a equipe pedagógica da escola, e até do Núcleo Regional de Educação, escutarmos a seguinte frase: “A escola tem que se adequar a realidade da comunidade em que está inserida”. Isto ía ser legal, se chegássemos a lugares comuns (aprendizado) por caminhos diferentes. Mas infelizmente não é isto que acontece, havendo um nivelamento por baixo. Dessa forma, em vez da escola ser um vetor de equidade ela reproduz a desigualdade. E os alunos percebem isto, um dos motivos pelo qual deixam de se preocupar com o aprendizado, com a leitura. Isto acontece até mesmo com alguns profissinais da educação, os quais não veêm o estudo como algo prazeroso, enriquecedor, já que financeiramente… Quanto a questão da biblioteca, essa é uma prática corriqueira. Porém, deve-se ressaltar que tornar a leitura algo obrigatório também pode promover o gosto pela mesma. Como sempre digo, as coisas que nos parecem bastante “simples” na verdade trazem à tona um emaranhado de questões. Ou será a minha vocação para complicar tudo?Um abraço e boa semana a todosLeandro

  10. É muito melhor exigir de alguém a leitura de um clássico do que punir nos moldes tradicionais. Muitas vezes quando não temos grandes saídas, ao menos devemos fazer o possível nos limites cirscunstanciais.Jonas Jorge da Silva

  11. É muito melhor exigir de alguém a leitura de um clássico do que punir nos moldes tradicionais. Muitas vezes quando não temos grandes saídas, ao menos devemos fazer o possível nos limites cirscunstanciais.Jonas Jorge da Silva

  12. Bela reflexão Ozaí,além de outros aspectos, seu texto mostra como a questão da norma está enraizada em nossa sociedade; têm se a idéia de punir para se conseguir a regeneração; é como se o ser humano atuasse independente de suas condiçoes sociais de vida históricamente formadas.

  13. A leitura por si só não qualifica humanisticamente aquele que lê e sua referência aos nazistas foi perfeita. No entanto, à medida que se busca penas alternativas à privação da liberdade, o incentivo à leitura, hábito tão desprestigiado pelos jovens de nosso país, ainda que não seja eficaz, é alvissareira.

    • A leitura não é um hábito desprestigiado pelos jovens. Só faz essa afirmação pessoas que ou não conhecem o mundo dos jovens ou querem parecer que leem muito.

      Quanto ao texto, professor Ozaí, se sua reflexão for expandida para todas as áreas, todo sistema de normas ficaria relativizado, o que não me parece uma boa coisa.

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