A insustentável leveza de ser editor

Que faz o editor de uma revista? Qual é a sua responsabilidade diante da publicação (ou não) dos artigos? No âmbito da atividade editorial estabelecem-se relações de poder? Em que consiste este?

São perguntas cujas respostas não são únicas nem unânimes, pois dependem do tipo de revista, caráter e método de trabalho de cada editor. Elas estão vinculadas às experiências singulares que vivenciamos. Assim, minhas respostas expressam a prática vivencial em seus aspectos positivos, negativos e dilemas, à frente da Revista Espaço Acadêmico (a qual completou sete anos de publicação), da Revista Urutágua (um projeto que coordeno desde 2001) e, mais recentemente, enquanto editor da Acta Scientiarum. Human and Social Sciences. Escrevo, portanto, a partir dessa experiência. Não obstante, há pontos comuns no desempenho da atividade editorial. Afinal, qualquer que seja o periódico e a instituição, nos relacionamos com a mesma matéria-prima, profundamente complexa e dilemática: o ser humano.

Eis um aspecto essencial do trabalho do editor. Como o professor que concebe o seu “aluno” para além da generalidade abstrata que a palavra encerra e tenta compreendê-lo em sua singularidade individual, o editor deve ter a consciência de que não se relaciona com emails e textos virtuais e/ou impressos. Ainda que o uso da tecnologia virtual incorra no risco da abstração do real encoberto pela virtualidade, técnicas e meios, o relacionamento é sempre entre humanos. A mensagem formal que recebo tem autoria; o autor de um texto não se reduz a um nome inscrito no alto da página, mas um ser humano com as qualidades e defeitos próprios da natureza humana.

Isso deveria ser óbvio, mas não é. O aperfeiçoamento tecnológico favorece a automatização dos processos e procedimentos e traz o risco de esquecermos a verdade elementar de que máquinas e sistemas eletrônicos não se comunicam entre si, mas apenas são meios para a comunicação humana. Não nos relacionamos com máquinas, mas com indivíduos reais de carne e osso.* A relação do editor não é com os textos e emails que recebe, mas com os seus autores.

Isto indica a necessidade de reconhecer a complexidade que a atividade editorial envolve. O ser humano concreto e singular é muito diferente da humanidade abstrata. As relações humanas exigem muita paciência, tolerância, prudência e sensibilidade. Todos temos qualidades, mas também muitas imperfeições. É um desafio permanente manter o equilíbrio nessa relação. Não é fácil encontrar a justa medida e harmonizar minimamente egos prenhes de vaidades, melindres, frustrações, carências, sonhos e esperanças. Afinal, publicar ou não também implica em projetos de vida, realizações e insucessos.

Se somos compreensivos, também podemos ser susceptíveis. E nem sempre temos a humildade que o aprendizado intelectual exige. Muitas vezes prevalece a arrogância de quem se acha a encarnação do Rei Salomão e se revela incapaz de aceitar a crítica. Para este tipo de ser que habita a terra, é inconcebível um parecer desfavorável ao seu trabalho – aos olhos da coruja os filhos sempre são os mais belos e perfeitos.

Por outro lado, muitas vezes a soberba de quem avalia o cega e o leva a desconsiderar o objetivo de contribuir com o desenvolvimento intelectual do outro. O arrogante esquece que também é ignorante, que aprender e ensinar é um processo permanente. Ele termina por adotar uma atitude destrutiva que humilha o outro e esquece a condição humana característica de ambos.

Claro, tudo isso é muito humano, demasiadamente humano. Por isso, a tarefa do editor não é simples nem fácil, nem muito menos leve. Esta muitas vezes revela-se insustentável!

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* Ver o post Homens e máquinas, publicado em 25 de agosto de 2007.

4 comentários sobre “A insustentável leveza de ser editor

  1. Olá.Meu nome é Maikon K.Acabei de ler seu artigo no livro: “mauricio tragtenberg: uma vida para as ciências sociais”mto inspirador.resolvi pesquisar na net e encontrei seu blog e sua pagina com artigos e resenhas no espaço academico.Vou devorar esses textos.Um amigo comentou de seu trabalho sobre a história da esquerda brasileira. Vc poderia informar se foi publicado em livro ?abraço.maikon k.meu blog: http://www.vivonacidade.blogspot.commeu email: maikon_duarte@yahoo.com.br

  2. Infelizmente, as revistas, sem exceção, são feitas para as panelas. Embora no início tenha sido mais aberta, a Espaço Acadêmico não fugiu à regra. Nada de novo. O único que se pode reprovar seria a hipótese de ela ser realizada a partir de financiamento público estando para a panela. Se for privado, cada qual com sua linha. A republicação de textos de blog e textos que foram publicados em jornal como O Estado de São Paulo é ridícula e documenta a voracidade de quem não quer dar espaço a outros, mesmo que tenha que recorrer, para isso, à reciclagem. O Brasil melhora um dia.

  3. Concordo plenamente Ozaí,Como você mesmo indica, os períodicos, assim como a imprensa em geral,são instrumentos de poder. Na perspectiva intelectual isto se torna um problema, pois criam-se nichos políticos e ideológicos, nos quais os pares até discutem, mais não exterioram seus debates, da mesma maneira que não admitem em seu meio uma perspectiva de análise diferente. Por outro lado, é bastante cômodo para o autor publicar artigos em meio aos seus pares. Mas esta prática já é antiga…Tudo isto culmina numa perda intelectual muito grande, afinal nada nos enriquece mais do que a crítica construtiva,o choque de pensamento. Até a próxima, Leandro

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