A insustentável leveza de ser editor (2)

As agruras de ser editor são muitas. Certa feita, por exemplo, o autor irritou-se ao ler o parecer sobre a sua “obra prima” e escreveu uma longa resposta ao parecerista. O editor, talvez por ingenuidade quanto aos melindres que envolvem determinados egos em tais circunstâncias, talvez por acreditar em demasia na maturidade intelectual, cometeu a temeridade de enviá-la ao avaliador. Este ficou duplamente enfurecido, com o autor do texto e com o editor. Perplexo, este tentou explicar, apelou para o bom senso, justificou-se e até desculpou-se. Inútil! O autor e o parecerista romperam com a REA.

De outra feita, o editor teve a imprudência de escrever a certo autor sugerindo a correção de detalhes ortográficos no texto. O trabalho em questão era uma crítica à uma conceituada jornalista de um periódico de circulação nacional. Alguém, portanto, acostumada a lidar com as palavras. O objetivo era resguardar o ator do risco do ridículo. Talvez a jornalista criticada o aconselhasse a, primeiro, aprender a escrever. Vai saber! O crítico se sentiu criticado e, irritado, argumentou que ninguém o havia corrigido até então, que seu trabalho fora reconhecido ali e acolá, etc. Ora, fora apenas uma sugestão e expressada de maneira educada. O editor imaginou que estava contribuindo, o autor entendeu como interferência; aborreceu-se e desistiu de publicar. E também cortou relações para todo o sempre e sempre, amém! Passado a “tempestade”, o editor refletiu calmamente e concluiu que foi melhor assim. Certos indivíduos têm a capacidade de estragar nossos dias e é melhor nem conhecê-los; e se os conhecemos melhor que fiquem bem distante, muito longe.

Por que determinados indivíduos ficam tão irritados em situações como essas? Narcisismo? Intolerância e incapacidade de dialogar? Afinal, a crítica ao escrito não arranca pedaços de ninguém. Mas as pessoas magoam-se e dilaceram-se por dentro. Mostram-se tão aferradas às idéias escritas que simplesmente não admitem críticas. Ególatras, ofendem-se!

Claro, as críticas podem ser realmente ofensivas e extrapolar o bom senso. Por outro lado, há os “profissionais” da crítica, indivíduos incapazes de criar algo, mas sempre à espreita e prontos a destruir o outro. Em certas circunstâncias, e a depender do estilo e objetivo da crítica, o melhor mesmo é “premiar” o crítico com a indiferença. Também não precisamos nos rebaixar ao nível do crítico. Porém, nem sempre sabemos reagir de forma equilibrada e racional. Mas é necessário ser comedido e não sucumbir à crítica. É preciso, no mínimo, tentar.

Não cansarei os leitores com mais relatos sobre os dissabores da atividade editorial. Até porque, pensando bem, são casos específicos que representam uma parte ínfima nas relações humanas. Em geral, as reações são equilibradas, civilizadas e revelam capacidade de digerir a crítica e dialogar. Muitos reconhecem e até se mostram agradecidos ao leitor crítico, afinal este toma parte do tempo da sua vida e, voluntariamente, se dedica a analisar o escrito. O autor que não sofre de egolatria é sinceramente grato ao avaliador que se mostra atencioso e intelectualmente íntegro, com o qual sempre há algo a aprender.

Felizmente, as agruras do ser editor são exceções e devem ser compreendidas como próprias da complexidade do ser humano. Quem trabalha diretamente com indivíduos concretos, com suas qualidades e defeitos, sabe o quanto é difícil. Não obstante, admito que são marcantes, inesquecíveis e profundamente estressantes. Mas assim é o ser humano e devemos aprender a lidar com o primor e a miserabilidade manifesta ou latente em cada um de nós. Até pode se tornar divertido!

6 comentários sobre “A insustentável leveza de ser editor (2)

  1. Ozaí, como editora de uma revista também acadêmica, identifiquei-me profundamente com seus comentários. Por vezes é bem difícil lidar com autores “ególatras”. Ainda bem que nem todos são assim, e que o resultado final na maioria das vezes compensa o esforço despendido. Gostaria de parabenizá-lo pela REA, um periódico com artigos de alta qualidade, o que tem sido cada vez mais raro no cenário nacional.Um abraço,Cecília Almeida.

  2. Ozaí, esses problemas todos vieram, é bom afirmar, do amadorismo do editor. Se vc seguisse as regras que são estipuladas e não buscasse, personalisticamente, fazer as coisas improvisadamente, não haveria esses atritos. Os autores escrevem apra inúmeras revistas e somente recebem um sim ou não. Não tem conselho clerical de editor nem os avaliadores recebem textos só por que o editor achou bem fazê-lo. É preciso ser mais profissional. O editor, ao que parece, comete muitos erros.

  3. Para mim, toda a crítica deveria ser refletida e respondida, sem ser reagida com furor, mas com discussões. Isto porque, penso que uma discussão deve ser acrescentar e, nunca, ser tida como ruim ou inferiorizante.Cabe a cada um de nós buscarmos discutir e refletir sempre!! Mas, infelizmente, o sol não brilha para todos! rsUm abraço, caríssimo Ozaí!

  4. Amigo Ozaí,Eu não tenho esse problema, me critiquem toda vez que quiserem, me corrijam, faça sugestões, me ajudem a qualificar minhas futuras incursões literárias. Acredito muito nessa troca porque ela é fundamental para quem entra no terreno pantanoso do escrever. Já cometi e ainda cometo muitas barbaridades, seja na expressão desorganizada do pensamento, quanto na escrita. Mas se ficar com as idéias represadas, para que servirão? Vou interargir com quem? Gosto de escrever e me frustro quando uma crônica não é publicada ou bem recebida, quando uma poesia é publicada e depois acho que escrevi um lixo…E assim seguimos companheiro, nessa longa jornada chamada vida. A crítica sempre é bem-vinda, é uma oportunidade de crescimento pessoal e intelectutal. Grande abraço amigo.Gerson Vieirawww.diariodogerson.blogspot.com

  5. Os seus dois posts sobre as agruras de ser editor, ou sobre o incomodo charme (pouco discreto) de avaliar (ainda que informalmente e superficialmente) os escritos de terceiras partes, e decidir publicá-los ou não, constituem uma das atividades mais angustiantes que possa haver no mundo acadêmico, e por extensão na vida intelectual. Os dois posts tocam nesses problemas complexos de relacionamento humano através dos textos submetidos e revelam toda a experiência que você adquiriu ao longo de uma carreira de editor que, somadas experiências anteriores na vida acadêmica, deve contar mais de uma década de militância ativa na palavra escrita (e visual).Só posso ter admiração pelo enorme trabalho e esforços dispendidos ao longo desse tempo todo, sempre atento com amigos, colegas, desconhecidos, pessoas agradáveis, nasty people (isto é, os chatos), os arrogantes, os pretenciosos, os “geniais” e os simplesmente desejosos de colaborar para a elevação intelectual do meio que frequentam. Você está de parabens, sobretudo, pelo equilibrio demonstrado nessas tarefas múltiplas, acomodando egos e desinflando high expectations, administrando vaidades e coibindo práticas pouco recomendáveis, quando não deletérias do ponto de vista da honestidade intelectual.Você deveria coletar essas crônias behind the scenes, isto é, o testemunho de quem está do outro lado da tela, para compor uma espécie de “manual do editor”, para uso dos aprendizes, neófitos ou candidatos a administradores de blogs e revistas eletrônicas. Você tem muito a ensinar aos mais jovens, sobretudo como conciliar enorme carga de trabalho acadêmico e atividades voluntárias como editor não pago…O abraco doPaulo Roberto de Almeida

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