Esquerda(s) no plural

Estive na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Campus de Marechal Cândido Rondon, a convite do Centro Acadêmico Zumbi dos Palmares e do Colegiado do Curso de História, promotores da V Semana de História “Mundo Contemporâneo: Desafios, Dilemas e Reflexões”, para falar sobre o tema “História da(s) Esquerda(s) no Brasil (séc. XX e XXI)”.

A temática e o tempo histórico são extensos e, considerando-se o tipo de evento, foi necessário ater-se a determinados aspectos. Optei por focalizar no debate sobre a pluralidade da esquerda, expor sinteticamente as origens e trajetória do marxismo no Brasil, até o surgimento do PT, concluindo com questões representativas dos dilemas contemporâneos. Apesar do planejamento, ainda ficou extenso e a minha fala se estendeu por mais de uma hora. Agradeço ao público por permanecer até o final.

Concebo a esquerda, incluindo o marxismo, no plural e não no singular. “Esquerdas” e “marxismos” devem ser analisados em sua historicidade e expressam diversidades próprias da práxis política humana em diferentes contextos. É possível, portanto, identificar uma esquerda autoritária, outra liberal e democrática. A pluralidade também é uma característica das ideologias presentes na esquerda. É um equívoco tratá-las como se fossem homogêneas: não há “o marxismo”, mas “os marxismos”; como também não corresponde à realidade histórica se referir ao anarquismo no singular, pois existem vários anarquismos.

A divisão da esquerda em diversas correntes políticas, próximas e concorrentes, como uma grande família com irmãos gêmeos que se vêem como adversários e, muitas vezes, enquanto inimigos de fato, é um fato desde as suas origens. A hegemonia do marxismo-leninismo, isto é, da tradição stalinista, negou e até mesmo tentou aniquilar essa diversidade – e não apenas no combate às idéias, mas também pela eliminação física dos que ousavam divergir. Essa prática política autoritária se ampara no mito da representação monolítica da vanguarda revolucionária. Ou seja, se há um único proletariado, só pode haver apenas um partido do proletariado. Isso pressupõe que os revolucionários devem estar no partido reconhecido por Moscou, mas precisamente pelo aparato do movimento comunista internacional controlado pelo stalinismo. Os não incluídos eram vistos como “traidores”, “agentes do imperialismo” e, em sua forma mais branda, de “inocentes úteis que serviam objetivamente à contra-revolução”. Nesse contexto era muito difícil manter uma postura política independente que rompesse com o maniqueísmo.

Esse mito foi questionado pelas correntes minoritárias marxistas excluídas dos Partidos Comunistas oficiais e foi seriamente abalado a partir do XX Congresso do PCUS, em 1956. A fragmentação da esquerda nos anos 1960-70 terminou por derrotá-lo, mas persiste a concepção vanguardista de partido e a disputa sobre quem representa a “tradição revolucionária”, o “marxismo autêntico”. É a persistência dos traços autoritários de um certo “marxismo” que, semelhante ao discípulo ao qual a verdade é revelada pelo profeta, alimenta a intolerância fundada nos delírios dogmáticos dos que se arrogam detentores da verdade e os eleitos para redimirem a humanidade. Negam, portanto, a pluralidade da esquerda e do marxismo e reduzem o mundo à fórmula teórica cinzenta e maniqueísta do “nós” contra “eles”, o bem versus o mal.

Reafirmo meu sincero agradecimento aos promotores do evento, especialmente ao professor Paulo José Kolling, e aos presentes que fizeram perguntas instigantes. Aliás, o fundamental nestes momentos é o aprendizado propiciado pela interação. Obrigado a todos!
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Ver CENTENÁRIO DE GEORGE ORWELL – Os dilemas do intelectual militante de esquerda, REA, nº 26, julho de 2003.

6 comentários sobre “Esquerda(s) no plural

  1. Danilo George academico História do 4 ano unioeste.Eu me considero um previligiado de ter assisitdo essa conferência, uma discussão instigante sobre as esquerdas e sobre os desafios das novas esquerdas no Brasil.Achei de extrema importância a reflexão feita sobre o marxismo dogmático algo muito presente na universidade e no movimento estudantil e a reflexão feita sobre alçguns “mitos” das esquerdas.Muito grato com a sua partipação na v semana academica de historia.Em breve havera disponivel um dvd sobre o evento e sua conferência foi gravado ficarei encarregado de lhe mandar o material, desde já muito feliz com a sua contribuição para a minha formação academica.

  2. Concordo com a sua analise e gostaria de ter acesso a sua fala nesse evento, se possivel. Agradeço antecipadamente.Abraços.ízide

  3. Grande Antonio,Oportuno o seu artigo. Tenho reparado que as restrições e/ou repúdios que são feitos à esquerda, especialmente por gente ligada ou pertencente ao mundo universitário – onde, presume-se, deva existir o rigor analítico, a opinião fundamentada e a informação atualizada – , são calcados em estereótipos e lugares comuns.Grosso modo, a “crítica” que é feita à esquerda ou 1) lastreia-se em TODOS os fatos/formulações de outros tempos como se fossem aceites e praticados hoje, ou 2) faz uma caricatura tornando a esquerda um monobloco de partidos/regimes/revoluções/correntes de pensamento.Para você ter uma idéia, já li em blogs e/ou revistas virtuais coisas do tipo “trotskistas e stalinistas no fundo se entendem, pois são farinhas do mesmo saco”, e “quem é marxista deveria ter morado um ano na URSS, e deixaria de sê-lo”. Há quem pense, inclusive, que TODA a esquerda de hoje resume-se às promulgações da III Internacional; que o simples fato de ser esquerdista implica em ter abonado, na totalidade, o regime soviético, ou o castrista, ou o romeno; que o fato de simpatizar com o marxismo significa simpatizar com ditaduras e posturas autoritárias. E por aí vai. E coisas assim emitidas inclusive por gente com formação unviersitária !!!Além de oportuno, seu artigo é bastante necessário, e precisamos divulgá-lo intensamente, seja para ilustrar as pessoas sobre o assunto, seja para contraditar as “doutas” posições que pretendem dar a palavra definitiva sobre o assunto com suas formulações engraçadinhas e eruditamente asininas. Agora, quanto àqueles cuja rejeição ao marxismo é de cunho freudiano, para esses infelizmente seu artigo não terá maior valia.Um abraço.

  4. Concordo plenamente com esta idéia sobre as “esquerdas”, assim como também sabemos que não existe homogeneidade na chamada direita. Pelo fato de nenhum grupo conseguir determinar sozinho os rumos da história, penso que precisamos sempre discutir as possibilidades de se exercitar a autonomia. Através dela pode haver espaço para o novo.Jonas Jorge

  5. Infelizmente não pude permanecer no evento até o período da noite e assistir a palestra sobre a esquerda brasileira. Mas, participei da oficina sobre a Rosa, onde alguns dos temas pertinentes já foram tratados. Gostaria de parabenizar o Ozaí por sua disposição e simpatia característica…Grande abraço!

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