Domésticas, o filme

Domésticas (Brasil, 2001), dirigido por Fernando Meirelles e Nando Olival, é uma adaptação de peça homônima escrita por Renata Melo, co-roteirista do filme. Ela pesquisou e entrevistou as empregadas domésticas, ouviu histórias “alegres, trágicas, cômicas, de amor, de morte, de loucura, de doença, de injustiça, de gratidão”.[1] A peça e o filme reapresentam o universo da vida dessas trabalhadoras.

A alforria de uns significa trabalho e meio de vida para outros, os quais são recompensados com salários nem sempre dignos e direitos inexistentes e/ou desrespeitados. As empregadas domésticas são os sustentáculos que permitem às suas patroas e patrões desempenharem tarefas mais “nobres” do que as do lar. Substituem até mesmo mães e pais que, em seus cotidianos atribulados, se poupam da difícil e trabalhosa relação com os filhos. Apesar de tudo, as domésticas são relegadas à invisibilidade, ao espaço das cozinhas e da arrumação da casa. O filme contribui para a visibilidade dessas mulheres, as quais são fundamentais no cotidiano dos lares das senhoras e senhores que podem se libertar do labor doméstico.

Mas em que consiste essa “visibilidade”? Não esqueçamos que o filme expressa o olhar dos roteiristas e diretores. A qual plateia se destina? Em que medida contribui para mudar as condições de vida e de trabalho delas? Será que as domésticas da vida real assistiram-no? Que opinião elas têm? São perguntas pertinentes num país em que se faz filmes sobre os pobres para consumo dos ricos e da classe média perdulária e (in)feliz em seus delírios de consumo.

Cida, Roxane, Quitéria, Raimunda e Créo, personagens do filme, representam essa multiplicidade de seres humanos que vivem para arrumar a vida dos outros, e muitas vezes não têm tempo, e nem condições financeiras, para cuidar das próprias vidas. Trabalham e trabalham! No entanto, também se angustiam, sofrem e alimentam esperanças e sonhos.

O filme sintetiza a diversidade dos “brasis” que, apesar de antagônicos, coabitam e contribuem para a reprodução mútua do abismo social desigual que marca a nossa sociedade. Muitos naturalizam ou interpretam essa realidade social desigual numa perspectiva conservadora, acomodatícia e determinista. Não raro, sucumbem ao assistencialismo.

Eis o legado do nosso passado escravocrata.[2] As domésticas representam uma categoria social vinculada aos pilares históricos da discriminação social, econômica e política: classe, gênero e raça. Social e economicamente ocupam a base da pirâmide hierárquica e carregam o fardo de uma sociedade machista e racista, ainda que tais fatores sejam atenuados e negados por teorias do tipo “democracia racial”, pela hipocrisia e moralismo dos bons, porém incapazes de transformar essa realidade.

Mais do que respostas, esse filme impõe perguntas que merecem a mais profunda reflexão. Qual a real situação dessa categoria no Brasil? Quem são? De onde vêm? Onde moram? Qual é a sua cultura e linguagem? Como se organizam ou não? Quem as representam e como se representam na política? São cidadãs? Em que consiste a cidadania? Qual “Brasil” expressam? Nestas condições, a democracia brasileira pode ser considerada real? Há igualdade de oportunidades? Em que consiste a liberdade na desigualdade real? Em que medida reproduzimos a herança colonial e escravista sob novas formas e outros nomes? Promover a educação é suficiente para superar essa marca que permanece indelével no corpo social?[3]

São tantas perguntas! E muitas cujas respostas sabemos, mas nem todos assumimos. Enquanto isso, contribuímos para que essa realidade se reproduza! E tudo parece tão natural e normal! Será?!

__________
[1] Do site oficial, disponível em http://www.domesticasofilme.com.br/port/pabertur.html, acessado em 15.06.08.
[2] Sobre este aspecto, vale a assistir o filme “Quanto vale ou é por quilo” (2005), dirigido por Sérgio Bianchi.
[3] O Prof. Joaze Bernardino-Costa, com sua tese de doutorado “Sindicatos das Trabalhadoras Domésticas no Brasil: Teorias da Descolonização e Saberes Subalternos”, apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB, em 2007, nos ajuda a compreender esse universo e a encontrar respostas para muitas das questões colocadas. Vale a pena ler!

4 comentários sobre “Domésticas, o filme

  1. Ozai,O filme é genial, humorado… Amei. Não fui ao debate porque estava dando aula a noite. Fiquei morrendo de vontade de ouvi-lo. Eu que vivi em cidade interiorana em uma cidade sem muitos limites de classe pude reviver minha infância nesse mundo das empregadas domésticas.

  2. So acreditarei num depoimento de patrao, qualquer que seja alias, ou de patroa, se ele ou ela me fizerem um orçamento mostrando como sobreviveriam com o salario que pagam ao operario, à empregada, etc.Um abraço,Regina

  3. So acreditarei num depoimento de patrao, qualquer que seja alias, ou de patroa, se ele ou ela me fizerem um orçamento mostrando como sobreviveriam com o salario que pagam ao operario, à empregada, etc.Um abraço,Regina

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