Por que assistir a um filme?

Lazer? Falta de ter o que o fazer? Busca do prazer estético? Pelo aprendizado histórico e político? Para a reflexão e conscientização sobre a realidade social?

As respostas não se excluem mutuamente e cada um tem o direito de dedicar o tempo da sua vida como supor mais apropriado. O indivíduo pode assistir a um filme sem ter objetivo algum e nem mesmo atentar para os diálogos entre as personagens. Há os capazes de “desligar-se”; para uns o filme é uma espécie de analgésico, relaxante e sonífero. Aliás, tem filme tão chato e parado que o melhor mesmo é ficar em “off”.

Há gosto para tudo e vários formas de expressá-lo. Há quem se emocione diante de um filme, mas é incapaz de se sensibilizar com o sofrimento do ser humano de carne e osso; quem se revolte com o que vê na tela, mas não se indigna ante as injustiças que desfilam em imagens reais e profundamente humanas no dia-a-dia de uma sociedade cujo fundamento é a desigualdade social e sua lógica consiste em reproduzi-la. Há quem considere natural o mundo real e passa a vida no mundo fictício. Há quem se revele profundamente sensível diante do enredo de um livro ou filme, mas alienado perante a realidade. Eleva-se para além do mundo real e a representação ficcional torna-se sua referência de vida, mesmo quando se refere e fala sobre o mundo realmente existente.

Se o convidam a ir além da aparência, a emergir da cegueira e ver o mundo em toda a sua miséria, violência, injustiças e desigualdade reais, ele se recusa e acusa o interlocutor de atentar contra o seu direito ao prazer e ao gozo diante da estética que a obra escrita ou cinematográfica proporciona. Talvez tenha razão: o mundo real é muito duro e estressante e, sobretudo, a consciência impõe compromisso. É melhor ater-se à discussão da ficção, a qual tem o efeito de atenuar a realidade injusta e apresentá-la suavemente ou mesmo como comédia, quando na verdade trata-se de um drama social e uma tragédia humana. E mesmo quando esta expõe os sofrimentos e injustiças humanas, o drama termina ao aparecer os créditos na tela. Em alguns espaços até se discute sobre o filme, mas findo o debate, que o alça aparentemente para o mundo real, quando, na verdade, a referência é a ficção, retorna ao aconchego, à vidinha imersa numa cotidianidade mesquinha.

O filme pode nos alegrar, entristecer, e até mesmo nos levar a pensar sobre a realidade social, para além da sua representação. Podemos discuti-lo de um ponto de vista estético, simbólico e da poesia presente nas imagens, diálogos e trilha sonora. É legítimo, um direito do cinéfilo e a obra se presta a isso. Porém, também podemos analisá-lo numa perspectiva que contribua para a compreensão do mundo real e dos seres humanos reais que o compartilham conosco. O filme provoca a sensibilidade estética, mas também pode nos desafiar a fazer a crítica da realidade representada sob a ótica do roteirista, diretor e das empresas financiadoras. Se restringir à discussão esteticista é permanecer na caverna, no mundo das aparências, imergir nas sombras que a ficção projeta. É permanecer na cegueira!

Isso não constitui um problema para quem não se compromete com a transformação do mundo real e que optou por contemplá-lo e passar a vida a ler livros, ver filmes e a interpretá-los e sensibilizar-se com o mundo representado neles. Isso desenvolve a sensibilidade estética, mas também pode expressar a fuga diante do real e o descompromisso social. Claro, pode-se apaziguar a consciência com a caridade, o moralismo religioso e a retórica.

Há várias formas de ver um filme, depende da platéia, dos objetivos e da nossa percepção sobre o significado da obra de ficção. E também do nosso grau de cegueira diante do real! *
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* Sugiro a leitura de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Escrevi sobre esta obra no blog Literatura Política & Sociedade. Acesse: http://antoniozai.blogspot.com/2007/08/ensaio-sobre-cegueira-de-jos-saramago.html

3 comentários sobre “Por que assistir a um filme?

  1. Tem quem tenha prazer na dor, tem quem tem gosto pelo fedor… esse papo de real é perigoso, muito do que se enxerga é no fundo aquilo que se quer ver.Triste é saber que tem quem passe a vida contemplando nuvens como algodão sem jamais ter podido tocá-las, se é que a gente toca algum dia alguma coisa. De tantas quedas das realidades construídas quantas virão?

  2. Tem quem tenha prazer na dor, tem quem tem gosto pelo fedor… esse papo de real é perigoso, muito do que se enxerga é no fundo aquilo que se quer ver.Triste é saber que tem quem passe a vida contemplando nuvens como algodão sem jamais ter podido tocá-las, se é que a gente toca algum dia alguma coisa. De tantas quedas das realidades construídas quantas virão?Por enquanto vou vendo que alguns roubam enquanto outros constroem.

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