Vestibular na UEM

para Juliana Ozaí da Silva

Foram 22.410 candidatos concorrendo a 1.502 vagas oferecidas pela Universidade Estadual de Maringá. [1] Foi o vestibular mais concorrido da história da UEM, um recorde. A disputa concentrou-se nos chamados “cursos de elite”:


Dos cursos mais concorridos, quatro são em período integral. Quem tem condição econômica para fazê-los, ainda que consiga passar no funil? Estes cursos são proibitivos à maioria dos jovens e suas famílias. Mesmo admitindo-se que alguém mais esforçado, iluminado ou super inteligente passe no vestibular, como se manterá no curso? Terá como se dedicar integralmente?[2] A situação não é muito diferente em relação ao curso de Direito: ainda que desconsideremos a concorrência por vaga e que exista a possibilidade de o acadêmico trabalhar para se manter, não é fácil arcar com os custos do material (essa área é um filão para as editoras; se no Brasil os livros são caros, no campo jurídico chega a ser abusivo).[3]

Há quem imagine que tamanha concorrência seja salutar para a universidade, pois ingressam os melhores. O equívoco desse raciocínio consiste em equiparar inteligência com capacidade de memorização e autocontrole, além de desconsiderar que a igualdade de condições não é igual para todos. Adotemos como hipótese que o vestibular é justo, na medida em que, indistintamente, qualquer indivíduo, de qualquer grupo ou classe social, tem o direito de disputá-lo. É a coisa pública ao “acesso de todos”. É um engodo, mas aceitemos-lhe como um argumento válido.[4] Mesmo assim, os resultados não expressam que os vencedores, necessariamente, os “eleitos”, os que vencem a disputa, são realmente os mais inteligentes. Aliás, será possível medir inteligência num teste como este?

O educador Rubem Alves se referiu aos idiot savants, ou seja, “idiotas incapazes de pensar racionalmente que, entretanto, têm memórias prodigiosas que guardam tudo, completamente divorciadas da sua inteligência”.[5] Não é um julgamento moral, mas apenas a constatação de que inteligência não é igual a capacidade de memorização. Alunos de cursos “de elite” não são necessariamente mais inteligentes do que os dos cursos menos concorridos. São bem preparados, mas também mostram dificuldades quando se trata de pensar e elaborar uma reflexão crítica. Isso fica patente quando o professor foge do modelo decoreba, por exemplo de memorizar leis, códigos, etc. [6] Muitas vezes a arrogância, compartilhada no ambiente do curso, os levam a se considerarem mais inteligentes. Claro, há exceções.

Autocontrole é essencial, mas nem todos têm a mesma capacidade de equilíbrio emocional diante de situações tensas como esta. Assim, ainda que o vestibulando esteja bem preparado, no sentido do adestramento e memorização de conteúdo, ele poderá ser prejudicado pelo nervosismo: a leitura enviesada do enunciado da questão, o erro na somatória, a marcação errada no gabarito oficial, ou mesmo outro errinhos simples como identificar-se na redação, etc., podem ser fatais. É injusto criticá-lo! Quem de nós, mesmo experimentados e já com os anos corridos não comete erros “bobos” diante de situações tensas? Muitas vezes, a tensão é alimentada, consciente ou inconscientemente, pela família. E ainda que os pais sejam compreensivos, não podem impedir que seus filhos se exijam mais do que o necessário e sofram por isso. Esse ritual de sofrimento e tortura é legitimado todo ano e o vestibular nunca é seriamente questionado. Por quê?

__________
[1] A relação completa dos cursos e vagas ofertadas está disponível em: http://www.cvu.uem.br/cursos.html
[2] Eis uma das principais dificuldades para a implantação do sistema de cotas raciais e/ou sociais. Na verdade, a universidade é um espaço reservado à minoria da sociedade brasileira, uma parcela que, diante da realidade sócio-econômica do país, tem o privilégio de concorrer em melhores condições e de concluir os cursos oferecidos. Essa camada social, em geral, termina por conceber universidade como uma espécie de direito adquirido, justificado pela ideologia meritocrática. Ver: Por que a Universidade resiste às cotas raciais?, REA nº 65, outubro de 2006.
[3] Pode-se objetar que o estudante tem acesso à biblioteca, mas devemos levar em consideração as dificuldades e limitações do acervo. Além do mais, no caso da UEM, há uma situação sui generis: muitos dos livros necessários à formação acadêmica estão na Biblioteca do Mestrado de Direito, curiosamente inacessível aos graduandos. Ver: O exemplo dos acadêmicos, de 18.08.2007. O detalhe é que a universidade é pública (ou não é?!).
[4] Ver O engodo do vestibular e os dilemas da classe média empobrecida, REA nº 23, abril de 2003.
[5] Rubem Alves. Melhorando as câmaras de tortura. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u429.shtml, acesso em 12.07.08.
[6] Ver Método decoreba, de 10.10.07.

4 comentários sobre “Vestibular na UEM

  1. Professor,
    Um professor de colegial um dia disse que a universidade não era para todos , que a academia era destinada apenas para alguns, no momento eu pensei ser muita pretensão e discordei. Mas se o que ele disse estiver certo, se realmente não for para todos, então é para quem ? Porque dizer que é para o aluno que mais tem vontade de freqüentá-la e para o que mais estuda é uma mentira absurda, realmente não é assim, as vagas não são destinadas para os alunos ‘mais inteligentes’ muito menos para os mais esforçados, porque os esforços de anos de estudo e dedicação muitas vezes perde completamente o valor diante da prova muitas vezes desumana que é o processo seletivo, não só da UEM, a prova disso são os muitos jovens que possuem uma pontuação para passar em 1° lugar em 90% dos cursos da UEM, mas não passam em medicina, mesmo aqueles que tentam outros cursos, mas com uma concorrência também tão desleal que não possuem as mínimas chances. Esses jovens que tentam anos encontrar um espacinho nas Universidades Estudais, são bons, na sua grande maioria e quantos desistem dos seus sonhos porque não encontram mais forças para lutar por um espaço que como o senhor disse acaba se destinando apenas as elites econômicas. Um teste assim não mede a inteligência de ninguém, muito pelo contrário ele apenas elimina pessoas, pessoas essas que poderiam se tornar ótimos acadêmicos e posteriormente ótimos profissionais. Se o meu professor estivesse certo, então a universidade não deveria ser destinada a aqueles que possuem vontade de cursá-la? Pois, muitos jovens advindos das ‘melhores’ famílias, da ‘nata da sociedade maringaense’ estudam nas melhores escolas particulares a vida toda, adquirem uma carga de conhecimento muito grande devido também ao acesso aos melhores materiais, aos melhores professores e principalmente as melhores estruturas e condições de ensino e aprendizagem, ingressam na universidade e dizem estar lá para realizar uma vontade dos pais, pois os filhos devem ser um investimento e ao final do curso devem começar a geral lucros. Essa é apenas minha opinião professor.
    Obrigado pelo espaço (:

  2. Professor, achei muito interessante a sua perspectiva sobre o problema do acesso à rede de ensino superior, concordo contigo em muitos pontos, este problema é, assim como o do acesso a justiça, um problema de nossa sociedade, uma vez que, para mim, a declaração dos direitos da constituição (educação, saúde, justiça, liberdade…) é para o pobre como entrar no shopping Jardins em São Paulo! Tudo é lindo, encanta, dá segurança e o pobre pode comprar o que quiser! Só tem que pagar caro por isso. Então, basta que o individuo demonstre um sinal de agressividade e revolta e, de certo, já haverão no mínimo 10 seguranças para prendê-lo, ou seja, continuamos dizendo às minorias sociais e aos menos favorecidos a mesma coisa que Maria Antonieta (supostamente) dizia: “Comam Brioches!”.
    Falo isto pois onde trabalho tal situação é corriqueira, as pessoas agredidas por seus companheiros nos pedem ajuda, o que dizemos: se seu marido lhe agride? a Lei Maria da Penha está aí para isso! – Mas eu não posso deixá-lo porque não tenho como sustentar os filhos sozinha, como funciona a pensão? – Ah sim, você precisa de pensão para sustentar seus 5 filhos menores, aham, a assistência jurídica das universisdades pode lhe ajudar, mas já vou informando, pode demorar algum tempo! – Algum tempo? Mas quanto tempo? – Ah, uns 2 anos no máximo! – Mas eu não posso esperar dois anos, tenho que trabalhar, não tenho como deixar meus filhos sozinhos, não tem vagas nas creches! – Bem querida, então contrate um advogado!
    Com as universisdades não é diferente, cotidianamente dizemos: ei você, faça vestibular, você consegue! E então confrontamos este candidato com uma concorrência desistimulante e com um processo de avaliação deficitário, que não chega a avaliar, nem de perto, o potencial de um aluno.
    Isto porque o sistema adotado realmente favorece àqueles que tem maiores condições financeiras, ou que pelo menos tem maior facilidade em reproduzir o conteúdo do ensino fundamental e médio, uma vez que sem um cursinho pré-vestibular raros são os que conseguem ingressar nos cursos mais concorridos. Também é deficitário pois as questões elaboradas e o método de avaliação entram em contato somente com o conhecimento teórico do aluno, menosprezando toda a intelectividade, personalidade e capacidade de raciocínio que alguém, talvez não tão preparado para uma prova formal, possa demonstrar.
    Acho que desta forma a universidade tem excluido muitos grandes pensadores e, ao contrário do colega de curso, não acredito que este filtro tem permitido a entrada dos melhores, mesmo deixando de lado a minha opinião pessoal de que não existe melhor ou pior, penso que se perdeu de vista o objetivo do concurso vestibular e a finalidade da educação de nível superior, que, ao meu ver, seria formar grandes pensadores sociais nas diversas áreas do conhecimento, uma vez que o conhecimento dissociado de sua finalidade social também é inútil.
    Neste sentido, tenho percebido em muitos colegas de curso não a dificuldade de atrelar as matérias apreendidas ao contexto social e aos pensamentos filosoficos norteadores do direito, mas sim a falta de oportunidade para faze-lo, uma vez que as disciplinas ministradas raramente possuem espaço para a reflexão crítica e isto nos leva a um problema ainda maior; O que se vê hoje no Brasil é uma aplicação de um conhecimento massificado em uma universidade de massa, pois as políticas públicas não tem demonstrado grande importância com a função econômica e social da universidade, ao contrário, tem voltado seus esforços para produzir cada vez mais graduados, mais diplomas e, assim, aumentar estatísticas sociais. A principal consequência deste conceito de universidade é a enorme concorrência, o senso comum de que todos devem ingressar em um curso universitário e a queda na qualidade de pensamento dos que se formam em cursos mais concorridos, como se pode dizer do Direito, da Odontologia, da Medicina, da Arquitetura, onde os alunos estão tão acostumados a reproduzir o padrão de conhecimentos e que, muitas vezes, passam pela faculdade sem nunca ter questionado os grandes problemas do sistema em que se inserem.
    Concluindo, acho que o método de avaliação escolhido para o ingresso em nossas universidades é um tanto injusto, mas, por hora, considerando o nosso contexto político e econômico, é viável, até porque ainda não houve interesse da grande maioria dos interessados em questioná-lo, pois se dentro da universidade a formação de pensamento crítico já é problemática, quem dirá fora dela…

  3. Grande Professor! Gostei do texto, mas discordo em alguns pontos. O fato de a concorrencia ser grande serve sim, inevitavelmente, como filtro, entram os melhores com certeza, isso dá pra ver no convívio academico. É óbvio, porem, que cursos menos concorridos tem tambem cabeças incríveis, tão iguais como nos outros mais concorridos, ou até melhores! Quanto às cotas, realmente é dificil, um tema controverso, mas a ação deve se concentrar no preparo pre-vestibular, cotas são algo paliativo, nao soluciona o problema, e o possivel despreparo de candidatos provenientes de cotas seria prejudicial ao grupo e à propria instituição. Isso nao é preconceito, pode nao acontecer, mas deve ser analisado hipoteticamente. Outra coisa, a questão da arrogancia, ela seria a exceção, e nao a regra, conforme depreendi do texto. Não porque faço Direito, mas dá pra perceber que temos – e devemos ter – a consciência que nosso curso e outros cursos de humanas devem ter, independente de ser curso de “elite” ou mais concorridos. Por derradeiro, o vestibular pode ser pra muitos uma tortura, foi pra mim, eu sofri bastante, mas hoje vejo que é perfeitamente possivel entrar, e que cometemos muitos erros durante a preparação, enfim, erros que podem tornar a experiencia traumática. Um bom vestibular é útil à Uniersidade, com certeza. Abraço Ozaí!

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