“O vestibular escolhe os escolhidos”

A frase é de Maurício Tragtenberg. “Quem é escolhido econômica e socialmente tem potencialidades em termos de habilidade intelectual de verbalização, de raciocínio abstrato, de passar pelo chamado filtro aparentemente educacional ou cultural, que é o vestibular”, escreveu. Sancionado, mesmo pela maioria “derrotada” a cada anúncio dos resultados, o vestibular “mascara uma seleção sócio-econômica preexistente”.[1]

Se o vestibular unge os “eleitos” que passam pelo filtro, legitimando-se pela ideologia meritocrática, também contribui para legitimar o estigma dos pobres como fracassados. Afinal, se este não passa é por sua única e exclusiva “culpa”. É verdade que a explicação do fracasso educacional, “apenas pelas “deficiências pessoais” ou “naturais” destes, passou por transformações. A “culpa” passou a ser, genericamente, da escola e, cada vez mais, jogada sobre as costas dos professores.[2]

Ainda que mude o discurso, permanece a exclusão. E esta extrapola o vestibular. Na verdade, o processo seletivo diz respeito à parcela da sociedade que participa. Em geral, desconsideramos que muitos dos jovens das escolas públicas simplesmente não disputam, pois são realistas suficientemente para perceberem as chance exíguas de ingressar na USP, Unicamp e/ou Unesp. Outros fatores, como a necessidade de trabalhar e a noção dos custos inacessíveis para se manterem, na remota hipótese que passem, também influenciam. Observei isto diretamente quando trabalhei em escolas públicas, em Diadema e Guacuri, na periferia de São Paulo. Não via em meus alunos o desejo de fazer o vestibular; talvez um ou outro, mas para a maioria tratava-se apenas de concluir o ensino médio. Restava a alternativa de ingressar numa faculdade particular. Algo difícil devido às condições econômicas precárias, mas o sonho dos filhos terem curso superior pode produzir o “milagre da multiplicação”, traduzido em dívidas e sacrifícios.[3]

A sociedade mudou muito, mas o vestibular permanece intocável, praticamente visto como “natural” e legitimado por todos, especialmente pelas escolas particulares do ensino fundamental, médio e cursinhos. E mesmo os “excluídos” o legitimam. Certa vez, num debate sobre cotas raciais, causei certo mal-estar ao perguntar sobre o vestibular. Por que não o questionam? Ora, temos os cursinhos populares para, à maneira do setor privado, preparar os pobres, negros, etc., para disputar o vestibular. Certo, mas mantém-se o pilar principal do sistema.

“Quando você faz um pedido a uma estrela / Não faz diferença quem você é”, afirma um poema. Peter Mclaren nota que a função reprodutora da escola pode ser sintetizada numa simples mudança: “Quando você fizer um pedido a uma estrela / Quem você é faz a diferença”. Em termos bem simples: “cada criança parece ter tantas chances de sucesso na escola quanto forem os dólares e o status social que sua família tenha”. Mclaren compara a escolarização a uma corrida na qual “os estudantes em desvantagem alinham-se e preparem-se na linha de largada, enquanto os estudantes mais ricos esperam pelo apito no fim da pista, a poucos metros da linha de chegada”. O vestibular é a legitimação dessa corrida. Ele nota que “o sistema educacional está mais afinado com os interesses, habilidades e atitudes da criança de classe média”. Parece claro, então, que esta corrida é injusta.[4]

O vestibular é um “filtro” teoricamente democrático e republicano: todos podem disputar a chance de ficar entre os melhores. É uma espécie de funil, no qual os mais eficientes passam. O problema é o pressuposto de que todos disputam em condições de igualdade.

__________
[1] TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Corte; Autores Associados, 1990, p.130.
[2] Como notou Pierre Bourdieu: “A lógica da responsabilidade coletiva tende, assim, pouco a pouco, a suplantar, nas mentes, a lógica da responsabilidade individual que leva a “repreender a vítima”; as causas de aparência, como o dom ou gosto, cedem o lugar a fatores sociais mal definidos, como a insuficiência dos meios utilizados pela Escola, ou a incapacidade e incompetência dos professores (cada vez mais freqüentemente tidos como responsáveis, pelo pais, dos maus resultados dos filhos) ou mesmo, mais confusamente ainda, a lógica de um sistema globalmente deficiente que é preciso reformar” (In: NOGUEIRA, Maria Alice & CATANI, Afrânio. (orgs.) Pierre Bourdieu: Escritos de Educação. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998, p. 220.
[3] O que me faz lembrar a música “O pequeno burguês”, de Martinho da Vila: “Felicidade, passei no vestibular / Mas a faculdade é particular”. E, mais adiante: “Livros tão caros / Tanta taxa prá pagar / Meu dinheiro muito raro / Alguém teve que emprestar”.
[4] MCLAREN, P. A vida nas escolas: uma introdução à pedagogia crítica nos fundamentos da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987, p.181-183.

11 comentários sobre ““O vestibular escolhe os escolhidos”

  1. …ô mundo cruel… kkk … teria alguma serventia a teoria se não servisse para os teóricos teorizarem? kkk… A coisa é simples e concreta: nasceu pobre, seja socialista, nasceu rico, seja capitalista… se não der pra progredir assim, ganhar uns trocos pra casar, comprar um apê pra encostar o esqueleto e um Passat (da década de 70) pra chegar no trampo, vire evangélico neopentecostalista… se de todo modo você não conseguir nada na vida, vire professor e escreva sobre sobre as injustiças do mundo… você vai continuar sendo a mesma merda, mas vai receber apoio de meia duzia de outros iguais a você e vai se sentir a alavanca de Atlas movendo o mundo, servindo pra alguma coisa, mas apenas se estiver nas mãos de alguém que sabe o que fazer com você… kkk… grande abraço pra quem gosta de trabalhar, estou indo… e que 2012 aere a terra que cobrirá os cadaveres dos incompetentes, assim ela lhe será mais leve… kua kkk k kk k…

  2. Meu amigo, professor Ozaí! Brilhante sua avaliação. O vestibular é uma indústria que favorece aqueles que vieram de uma escola particular, tendo cursado em horários diferentes, matérias isoladas, línguas estrangeiras e nunca precisaram trabalhar. Nossos alunos da escola pública, apesar das cotas que a meu ver são também formas veladas de dizer a eles que não seriam capazes de passar sem essa ajuda, raramente conseguem a classificação para as faculdades públicas. Acabam aceitando as vagas oferecidas pelas particulares, com bolsas ligadas ao esporte, ou com o Prouni e assim vão perdendo a consciência de sua exclusão. O funil vai continuar existindo e só aqueles escolhidos ultrapassarão a passagem tão estreita.

  3. Excelente texto.Suscita a reflexão,os debates internos de cada indivíduo,sobre esse mundo infeliz que insistimos em não contestar,e,ao contrário,muitas vezes,pecamos por reproduzi-lo.Apreender,compreender,debater,transformar:dialética pura.

  4. O vestibular é um dos fatores que traduz a precariedade de ensino do nosso país e como a estrutura político-educacional brasileira é arcaica… =/Imagine quando, de fato, eu estiver na sala de aula, aiaiai..

  5. Prezado Ozaí,Além de tudo isto, um outro “segmento empresarial” como as escolas de Ensino Médio focadas exclusivamente no Vestibular, vem investindo fortemente na mídia, precisamente na publicação de anúncios que geram sentimentos, produzem reações e formam idéias sobre estas mesmas escolas. Nesta nova era, estas instituições escolares que souberem propagar seus serviços poderão numa espécie de “balconismo” despontar com grande sucesso empresarial.Observo que grande parte dos pais retiram seus filhos das escolas regulares, para matriculá-los nas preparatórias, acreditando que a competição se tornará mais fácil e a concorrência mais garantida Ao andar pelas ruas, encontram-se outdoors que dizem: “Conteúdo é tudo”. Outros mostram a imagem de um jovem, seu nome, sua idade e o seguinte discurso: “Eu passei na Medicina”, e o nome da escola em seguida. Liga-se a TV e aparece um texto dizendo: “Crescer, todo mundo cresce, o difícil é evoluir”. Nas revistas, determinados sistemas de ensino, são apresentados de modo que estes põem a escola e o aluno “à frente de seu tempo”. Da mesma forma, nos jornais encontram-se anúncios que dizem: “Educar é ensinar a viver” ou “Alguns ensinamentos não se explicam”, e assim por diante. Entendo que tais imagens simbólicas na propaganda tentam criar uma associação entre os produtos oferecidos e características socialmente desejáveis e significativas, a fim de produzir a impressão de que é possível vir a ser um tipo de pessoa (médico, advogado) garantindo com isto seu futuro acadêmico. O que é mais interessante, é perceber que tais escolas focadas no vestibular, são geradoras de modelos institucionais de determinada clientela (uma classe social mais favorecida) que se dizem as mais adequados em termos de segurança, conforto, ambientes especiais e especializados, criando modelos, definindo grupos e marcando territórios, e que por sua vez, oferecem qualidade de bons programas educacionais e excelentes profissionais formados, que garantem suas inúmeras vantagens competindo entre si pelo maior número de jovens vestibulandos, efeitos de jogos de poder e de saber.

  6. Sem duvida, Mauricio Tragtenberg tem razao quando questiona a elaboraçao do filtro do vestibular, certamente afinado com as receitas educacionais da classe média.Minha pergunta é se é no vestibular que se deve enfocar o questionamento sobre a educaçao.Proponho algumas perguntas de base: – sera que a escola particular é realmente superior à escola publica? em que e por que? (talvez seja, talvez nao em toda parte, etc.)- nao ambicionar fazer um curso universitario sera realmente uma limitaçao? para que servem os diplomas? (favor verificar a charge do Angeli no blog).- qual é a porcentagem dos universitarios brasileiros que seguem a carreira para a qual se diplomaram?- qual é a maior dificuldade – passar no vestibular ou seguir o curso universitario? qual é a porcentagem de desistências no meio do curso?- o que significaria na pratica democratizar o vestibular (e nao o que ha em volta e antes e depois)?a experiência francesa mostrou que, por um lado, os primeiros anos da universidade tiveram que baixar de nivel e, por outro, as multidoes que invadiram as universidades passaram como um vagalhao, deixando um vazio a partir do segundo ano.- talvez o vestibular seja a formulaçao de um exercicio para papagaios bem treinados em testes repetitivos, mas seria melhor ver de onde parte essa exigência.- fico pensando se nao sao os diplomas universitarios que se tornaram o coroamento da educaçao bacharelesca, numa sociedade em que a propria noçao de elite sempre foi falsificada, por ser essa elite auto-proclamada e excludente. Me explico: numa economia de origem e remanescências escravocratas, de desigualdades gritantes, a elite resultante reserva para si um poder e um conhecimentos progressivamente limitados (como ela propria), cuja funçao de justificar e manter essa situaçao, torna-os mediocres e repetitivos. Se isso é verdade, os diplomas universitarios so podem ser, em sua grande maioria, meros adereços decorativos e dispensa-los seria simplesmente prova de bom senso.Como exemplo desse carater artificial do saber universitario, sugiro analisar com espirito critico a chamada linguagem acadêmica atual. Compare-se, por exemplo, com a dos nossos grandes escritores, que raramente foram universitarios.Um abraço,Regina

  7. O sistema é terrível. Todos tem a chance de passar pelo funil do vestibular. porém, fica difícil manter-se após a passagem, principalmente para a classe desfavorecida que vem de uma escola onde o ensino é de péssima qualidade, muitos professores não se interessam em ensinar e quando ensinam acham que não ‘podem oferecer um ensino de qualidade devido ao grau de aprendizagem do aluno’ (não ser capaz de aprender).é Lamentável a falta de interesse dos governantes por uma educação melhor, de qualidade!!!!!!!!!!!!!!! Ainda temos muito que discutir sobre políticas educacionais, políticas sociais etc.

  8. AntonioGostei muito do texto; a educação brasileira, como as demais políticas sociais, carecem de um amplo debate que desoculte as relações sociais postas em nossa sociedade, arraigada ao conservadorismo e elitismo.

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