Mario Benedetti: encontros e desencontros

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, disse Vinícius de Moraes. Lembrei do poeta ao ler as palavras de Mario Benedetti em Correio do tempo. * O tempo que passou, os encontros que não se realizaram, as frustrações e os desencontros que nos marcaram para toda a vida. Nuns e noutros, decisões, opções, palavras ditas e silenciadas e, sobretudo, atitudes que selaram o destino, nos prenderam às vidas de uns e romperam os laços com os que passaram pela nossa vida, mas decidiram seguir outros rumos com outras companhias. Um sim ou um não mudam o sentido de toda uma vida. Somos o que fazemos das nossas vidas, as afirmações e negações que pronunciamos ou recebemos como respostas nos ligam ou nos separam de outras vidas. Não somos apenas o fruto das nossas escolhas, mas também reflexos do nosso tempo e das decisões tomadas por outros. Somos o amálgama desses encontros e desencontros.

Correio do tempo reúne histórias tristes e alegres, de amor e desamor, reminiscências e reencontros. São contos e cartas ficcionais que falam das misérias e barbáries do ser humano, mas também dos seus mais belos sentimentos. São palavras, num estilo muitas vezes poético, que retratam as angústias e dilemas humanos, marcados pela passagem do tempo. Um tempo sem retorno que subsiste apenas como uma vaga e meiga lembrança que insistimos em não esquecer, ou uma amarga recordação da qual não conseguimos nos libertar.

Mario Benedetti nos conta sobre o filho que espera o pai na porta da escola, dividido entre os pais divorciados; o homem que tem sonhos temáticos, aprende a nadar sonhando e quase se afoga quando, acordado, nada na piscina; o órfão surdo-mudo Ludwig que exercita a linguagem universal do amor com a sua prima Gretel; os jogadores de futebol que não entoam o hino pátrio e, por isso, são acusados de traidores; a comovente história do “preso que sonhou que estava preso”; o fantasma que visita o seu torturador e conversa com ele e a família; o personagem diante do espelho da memória; a viúva que surpreende o assaltante, entabula uma conversa com o mesmo, o seduz ao ato sexual e, depois, o mata “em legítima defesa”; os destinos selados e apartados entre os náufragos de várias nacionalidades à moda de Robinson Crosué, só que eram cinco; a hipocrisia entre o entrevistado e o entrevistador; Fabián, que amava a desaparecida Juliana, encontra sua irmã Carmela e a ama como se fosse a outra, até que um dia, ao bater à porta, quem atende é Juliana e ao se amarem ele pensa em Carmela; as reflexões de um senhor idoso e o marido ciumento que, enganado pelo detetive, assassina a esposa.

Ao entrar na vida desses e outros personagens, levado pela maestria das palavras de Mario Benedetti, é impossível não se sensibilizar. Em certos momentos, até parece que é o nosso ser que adentra no universo literário, identifica-se, angustia-se, revolta-se e também se diverte com as situações vividas pelos personagens. Fica a sensação de que ele fala não apenas para o leitor, mas deste. Pois, como ficar imune aos relatos dos sentimentos e sofrimentos inerentes ao ser humano? Como permanecer impassível diante da barbárie? Como não perceber que é do tempo que se trata e este também passa para nós?

O autor também conquista pela beleza poética das palavras, mesmo quando se refere a eventos tristes. Ele tem a habilidade de tocar o mais profundo que reside em nossas almas, de desvendar o ser complexo que somos. É um daqueles livros instigantes que nos fazem pensar e nos humaniza. O leitor sensível não saíra ileso da doce aventura de se enredar pelos caminhos que o autor tece. Esse livro é um presente e é uma dádiva poder lê-lo. Só me resta agradecer!
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* BENEDETTI, Mario. Correio do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

6 comentários sobre “Mario Benedetti: encontros e desencontros

  1. sugiro para quem gostou de ler Benedetti e curte espanhol de ver na telinha o concerto que ele, Benedetti, fez com Viglietti. Beleza pura.

  2. Olá Ozaí,No primerio dia que tive acesso ao seu blog, fiquei interessado pelo livro de Benedetti e não tardei em adquirí-lo. Hoje termino a leitura (falta apenas “O acabou-se”) e tenho a agradecer à pessoa que me indicou seu blog e a você pelo que escreveu sobre o livro.Realmente o autor tem um estilo que cativa. Só larguei o livro quando o apelo das obrigações inadiáveis (trabalho, refeições, família) me acordava da viagem da leitura.Continuo de olho no seu blog.Mais uma vez, obrigado.Hélio

  3. Denise do vale…Caro Ozaí,Achei muito interessante o comentário sobre o autor Mário Benetti e confesso fiquei bastante entusiasmada para lê sua obra. Sou leitora assídua do seu blog, acesso-o todos os dias e sempre me delicio com os artigos postados que ao meu ver contribuem bastante, tanto para minha formação acadêmica, quanto para minha vida, acrescentado conhecimentos de forma contundente e nescessária. Vou procurar este livro do Mário, pode ter certeza.

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